Resenha
Colaborador: Antonio Cesar Antoniazzi *
* Médico e pós-graduando do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp
O termo “Doença Pulmonar Intersticial (DPI)” refere-se a uma categoria ampla de doenças pulmonares ao invés de uma patologia especÃfica. As anormalidades histopatológicas envolvem o interstÃcio pulmonar em maior extensão do que os espaços alveolares. Muitas dessas doenças são causadas por uma lesão pulmonar que acarreta inflamação crônica, a qual leva à cicatrização progressiva (fibrose).
Temos assim uma variedade de doenças com etiologias, tratamentos e prognósticos diferentes. As doenças podem ser subclassificadas de acordo com certas caracterÃsticas. Num esquema simples de classificação baseado na etiologia, as doenças são agrupadas de acordo com a associação com: (modificado de Schwarz MI: Clinical overview of interstitial lung disease)
1-Exposição ocupacional (Asbestose, Silicose, Pneumoconiose dos trabalhadores de minas de carvão, Berilose, Pneumoconiose do talco, Fibrose por metal pesado).
2-Induzida por drogas (Antibióticos, Antiinflamatórios, Cardiovasculares, Quimioterápicos, Drogas ilÃcitas).
3-Reações de hipersensibilidade (Bactérias, Fungos, Amebas, ProteÃnas animais, Substâncias quÃmicas).
4-Doenças do tecido conjuntivo (Artrite Reumatóide, Esclerodermia, Polimiosite/dermatomiosite, Lúpus Eritematoso Sistêmico, Doença mista do Tecido Conjuntivo, SÃndrome de Sjogren, SÃndrome de Behcet, Espondilite anquilosante).
5-Doenças Idiopáticas e não classificadas (Fibrose pulmonar idiopática, Sarcoidose, Pneumonia decorrente da bronquiolite obliterante, Granuloma eosinofÃlico, Linfangioleiomiomatose, Pneumonia eosinofÃlica crônica, Bronquiolite respiratória, Pneumonite intersticial aguda, Lipoproteinose alveolar pulmonar, SÃndrome da angústia respiratória aguda, Vasculite e capilarite pulmonar, Doença intestinal inflamatória, Cirrose hepática, Esclerose tuberosa, Neurofibromatose, Amiloidose, Crioglobulinemia).
Anatomia patológica

A caracterÃstica principal é o espessamento do interstÃcio da parede alveolar. Inicialmente há uma infiltração de linfócitos e plasmócitos. Mais tarde aparecem os fibroblastos e depositam espessos feixes de colágeno. Estas alterações podem encontrar-se irregularmente dispersas pelo pulmão. Finalmente a arquitetura alveolar é destruÃda e da cicatrização resultam múltiplos espaços cÃsticos cheios de ar, formados pelos bronquÃolos terminais e respiratórios dilatados, fato conhecido como “pulmão em favo de melâ€.
Quadro ClÃnico, Exame FÃsico
O paciente apresenta dispnéia , respiração rápida e superficial, a qual é lentamente progressiva, e uma tosse irritante e improdutiva. Sintomas de doença do tecido conjuntivo podem estar presentes, como queixa de dor, eritema e aumento de volume articular, que podem sugerir uma artrite reumatóide subjacente.
Ao exame fÃsico pode-se observar cianose em repouso que piora durante o exercÃcio. Na ausculta pulmonar ouvem-se crepitações finas, tipo “ruÃdo de velcroâ€, bilaterais, especialmente nas bases pulmonares e no final da inspiração. Sibilos expiratórios são relativamente incomuns na DPI não complicada e sua presença sugere uma doença das vias aéreas concomitante e não relacionada.
O baqueamento dos dedos e os sinais de hipertensão pulmonar com insuficiência ventricular direita, como edema das extremidades inferiores ou a distensão das veias jugulares, podem ser vistos mais tardiamente na evolução da doença.
Ainda no exame fÃsico podemos ter alterações da doença do tecido conjuntivo subjacente, incluindo inflamação articular ativa (sinovite), deformidades articulares, fraqueza muscular ou rash cutâneo.
Aspectos Radiográficos

Devido da natureza diversa das doenças englobadas na DPI, é difÃcil descrever aspectos radiográficos clássicos. Entretanto usualmente exames radiológicos e a tomografia computadorizada torácicas usualmente revelam infiltrados retÃculo-nodulares com predominância periférica e basilar.
O envolvimento da doença e a perda de volume tendem a ser maiores nas bases pulmonares. Não são observadas uma adenopatia importante ou uma doença pleural. Nos estágios tardios da doença, a radiografia torácica pode revelar vários cistos pequenos nas regiões mais envolvidas. O padrão cÃstico, denominado “favo de melâ€, reflete o estágio final da fibrose nessas áreas e é uma caracterÃstica da maioria dos estágios finais das DPIs.
Função Pulmonar
As DPIs geralmente ocasionam um comprometimento fisiológico restritivo. Assim na espirometria , tanto o VEF quanto a CVF diminuem e a relação VEF/CVF fica preservada ou, frequentemente, superior à normal. Todos os volumes pulmonares estão reduzidos, incluindo a CPT, a CFR e o VR, mas as proporções relativas encontram-se mais ou menos conservadas.
A curva de pressão-volume do pulmão está achatada e deslocada para baixo de tal modo que para qualquer volume a pressão transpulmonar é anormalmente alta. A máxima pressão elástica de distensão que é possÃvel atingir na CPT, pode ser superior à normal. A resistência das vias aéreas está normal ou reduzida quando referida ao volume pulmonar.
As alterações anátomo-patológicas de fibrose das paredes alveolares, reduzem a distensibilidade do pulmão exatamente como uma cicatriz da pele reduz sua distensibilidade. Disto resulta que os volumes pulmonares são pequenos e são necessárias pressões excessivamente elevadas para distender os pulmões. As vias aéreas não estão propriamente envolvidas no processo, mas estreitam a medida que o volume pulmonar se reduz.
Com respeito à s trocas gasosas, a PO2 e a PCO2 arteriais diminuÃdos e o pH normal é caracterÃstico nas DPIs. A hipoxemia em repouso é geralmente leve em até graus avançados da doença. Durante o exercÃcio porém, a PO2 desce muitas vezes abruptamente, podendo aparecer cianose. Na doença completamente estabelecida, o espaço-morto fisiológico e o shunt fisiológico estão aumentados.
Tratamento
Devido aos mais diversos fatores etiológicos que ocasionam as DPIs, o tratamento engloba desde o afastamento das causas da doença, como nas patologias ocupacionais, alérgicas, ou o uso de drogas corticoesteróides e citotóxicas. A oxigenioterapia e reabilitação pulmonar e exercÃcios também são recursos adequados
Por fim, o transplante pulmonar é o último recurso aplicável nos casos terminais das DPIs.
Referências:
1. West, John B., Doenças Restritivas, in Fisiopatologia Pulmonar Moderna, 1986, Ed. Manole.
2. Tarantino, Affonso B., Doenças Pulmonares, segunda edição, 1982, Ed. Guanabara Koogan.
3. Scanlan, Craig L. ET all, Fundamentos da Terapia Respiratória de Egan, sétima edição, primeira edição brasileira, 2000, Ed. Manole.