14
Abr

 Terminalidade - Parte 9. Hidratação

Categoria(s): Nutrição, Tanatologia

Tanatologia

Colaboradora : Marcia Cerqueira Boteon *

* Nutricionista e Pós-graduanda em Medicina e Saúde Geriátrica da METROCAMP

HIDRATAÇÃO

hidratar

A perda de água intracelular, durante o processo de envelhecimento, relacionada com a diminuição da massa magra muscular, contribui para o declínio da quantidade de água corporal em idosos, fato que pode ser agravado pelo uso de drogas diuréticas ou por alteração significativa do volume hídrico intracelular. Pode ser explicada pelo aumento da gordura corporal mediante mudanças hormonais. (FRANK,2004).

Em idosos o limiar para o desequilíbrio estreita-se por redução da água total corporal, percepção diminuída de sede,menor capacidade de reter água, somados a presença constante de polipatologia .

A deficiência de volume ocorre quando há uma depleção do volume de água e de sódio. Os principais sintomas da desidratação se manifestam com: perda de peso, diminuição do turgor cutâneo, membranas mucosas ressecadas, diminuição do suor e hipotensão. Os sinais bioquímicos mais perceptíveis são: a uréia elevada e a hiponatremia. Por outro lado, a desidratação, consiste na perda de água com uma relativa preservação do volume, levando a um quadro de hipernatremia. Neste caso, o sintoma mais comum é a sede, e, caso não ocorra a reposição suficiente de água, a hiperosmolaridade levará a confusão mental, fraqueza, letargia, obnubilação, coma e morte.

Pacientes em cuidados paliativos com baixa ingestão de líquidos, manifestam sinais e sintomas de desidratação como secura de pele e boca, diminuição da produção urinária e sede ocasional. O entorpecimento geralmente progride para uma morte pacífica.
O objetivo da terapia de hidratação é restaurar o paciente a um estado de equilíbrio hemodinâmico e osmolalidade normal do corpo, no entanto, quando falamos em paciente terminal, o objetivo da hidratação se restringe a fornecer conforto ao doente.

A necessidade de ingestão hídrica para o idoso pode ser calculada em torno de 30 a 35 ml / Kg de peso/ dia, sendo no mínimo 1500ml/dia ou 1 a 1,5ml/ Kcal. No entanto, estes valores não podem ser preconizados em situações de paliação, ou seja, quando o objetivo é manter o conforto do paciente, devemos fornecer o suficiente para que os sintomas da desidratação não se manifestem.

Neste momento o papel do nutricionista não é forçar a família, cuidador ou o próprio paciente, a ter uma ingestão hídrica semelhante ao preconizado, mas sim dar opções para que esta seja feita da forma mais confortável possível. Desmistificar conceitos como “se ele não tomar a quantidade correta de líquidos vai desidratar…†ou “por que não pedimos um soro ao médico…â€, é função de toda a equipe, bem como do nutricionista. Algumas sugestões como:

- Utilizar líquidos com sabor, como sucos, chás ou água de coco, melhoram a aceitação;
- Oferecer alimentos ricos em água: frutas como melancia, melão, laranja, pêra, sempre que possível;
- Gelatina nos intervalos;
- Bebidas isotônicas são indicadas quando há sinais de desidratação;
- Adaptar os utensílios para a oferta de líquidos, como: canudos, copos com bico, seringas ou até mamadeira;
- Atentar ao volume infundido quando o paciente estiver em uso de sonda gástrica, pois a oferta, se excessiva, poderá gerar complicações, principalmente em pacientes com quadro de caquexia ou desnutrição.
- Quando houver disfagia, verificar a necessidade do uso de espessantes.

Quando a ingestão não é possível por V.O. ou via sonda gástrica, pode-se recorrer a correção através da soroterapia, a qual, como qualquer procedimento, deve obedecer alguns critérios pois pode causar alterações de ordem hidroeletrolítica no paciente, principalmente nos quadros de desnutrição e hipercatabolismo. Esta reposição pode ser feita por via endovenosa, ou através de um procedimento muito utilizado em pacientes com doenças em evolução para um quadro terminal, a hipodermóclise. Após a via oral, a hipodermóclise é a via mais indicada para a reposição de fluídos e medicamentos para pacientes em fase terminal. Consiste na administração de fluídos pela via subcutânea. Apresenta baixo risco de complicações, é indolor e eficaz, desde que feita por profissional, médico ou enfermeiro, devidamente treinado.

Referências:

Dutra de Oliveira, I.E., Marchini, J.S.;Ciências nutricionais. ed. Sarvier, São Paulo, 1998.

Escott-Stump, S., Mahan, L.K. Alimentos, nutrição e dietoterapia. Ed.Roca, 9°de, São Paulo, 1998.

Frank, A.A, Soares, E.A. Nutrição no envelhecer. Ed. Atheneu, São Paulo, 2004.

Freitas, E.V., et al. Tratado de geriatria e gerontologia, ed. Guanabra Koogan, 2° ed, Rio de Janeiro, 2006.

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Terminalidade - Parte 10. Úlcera de pressão e nutrição

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13
Abr

 Terminalidade - Parte 8. Cuidando da Obstipação intestinal

Categoria(s): Nutrição, Tanatologia

Tanatologia

Colaboradora : Marcia Cerqueira Boteon *

* Nutricionista e Pós-graduanda em Medicina e Saúde Geriátrica da METROCAMP

OBSTIPAÇÃO INTESTINAL E SUAS COMPLICAÇÕES

Os episódios de obstipação ou constipação intestinal devem ser observados nesta fase, uma vez que, o idoso por sua condição fisiológica, já apresenta, naturalmente, um trânsito intestinal lentificado. Isto se dá pelo consumo insuficiente de alimentos fontes de fibras, baixa ingestão hídrica, uso de medicações, imobilidade física e tônus muscular reduzido. O tratamento da obstipação deve ser feito, sempre que possível, através de mudanças no hábito alimentar do indivíduo, com a adequação da dieta e da ingestão hídrica. No entanto, pacientes idosos em situações mais graves, apresentam quadros tão severos de obstipação intestinal, que o uso de laxantes se faz necessário.

Porém, devemos ter alguns cuidados quando o uso de laxantes for indicado:
- Manutenção da hidratação através da ingestão hídrica;
- Ficar atento a quadros de depleção de potássio e vitaminas hidrossolúveis;
- Iniciar com doses menores e aumentar, se necessário;

O auxílio nutricional se faz através da ingestão de alimentos estimulantes do intestino (tanto por via oral como por via enteral) bem como o aumento da ingestão hídrica.
Porém, como relatado anteriormente, o uso de determinados medicamentos, podem potencializar a constipação intestinal, dentre eles podemos destacar: os antiácidos, anticolinérgicos, antiparkinsonianos, antidepressivos, opióides e antiarrítmicos. Estes fármacos são utilizados, agrupadamente ou isolados, com bastante freqüências por pacientes sob cuidados paliativos, uma vez que, fazem parte do protocolo para amenizar os sinais e sintomas. Neste momento se faz necessário o uso de laxantes mais potentes, pois a obstipação leva a uma piora do estado geral do doente por provocar desconforto abdominal, piora na aceitação alimentar (sensação de plenitude gástrica) e dor. Cabe aqui ressaltar que, os agentes laxativos dividem-se em duas classes: os “purgantesâ€, cuja ação é rápida e drástica (1ª 3 horas), e os laxantes, que provocam uma eliminação mais lenta e suave do bolo (6 horas a 3 dias).

Alimentos laxativos

A lignina encontrada nas paredes de células de plantas maduras (grãos, ervilhas, cenouras, aspargos); a celulose, encontrada na camada de farelo de cereias, cascas das frutas e sementes; e hemicelulose existente no trigo e centeio em grãos, alimentos com amido e soja - reduzem a constipação intestinal, aumentando a massa fecal, a maciez das fezes e o trânsito intestinal. Promovem a renovação de células saudáveis e intensificam a proteção contra infecçõs bacterianas.

As pectinas, encontrada nas cascas de frutas cítricas e especialmente na maçã; as gomas, existentes no farelo de aveia e cevada; as mucilagens, encontradas em sementes e algas marinhas - Modulam a motilidade intestinal, auxiliam a fromação do bolo fecal nas diarréias, fornecem energia a mucosa intestinal, formam barreiras de proteção e garantem a imunidade das células intestinais contra infecções bacterianas patogênicas.

A inulina, existente na raiz de chicória, cebola, alho, algumas frutas e legumes; os frutooligossacarídeos (FOS) existentes na raiz de chicória, cebola, alho, tomate, banana,cevada, trigo, aveia e mel - ajudam à recuperar a flora intestinal, aumento da absorção de água melhorando os quadros de obstipação.

Alimentos formadores do bolo fecal - farelo, psilium, plantago, goma guar, surfactantes, lactulose.

Laxativos estimulantes - derivados do difenilmetano: fenolftaleína, biscodil; e derivados antraquinonicos: sene, cáscara sagrada, ruibarbo e aloe.

Laxativos osmóticos - fosfato de sódio, sulfato de magnésio, cirtato de magnésio, sorbitol, manitol, óleos surfactantes, óleo de rícino

Referências:

Santos Jr JCM.Laxantes e Purgativos - O Paciente e a Constipação Intestinal. Rev bras Coloproct, 2003;23(2):130-134.

Shils,M.E. et all;Tratado de nutrição moderna na saúde e na doença, ed. Manole, 9° ed. São Paulo, 2003.

Silva, S.M.C., Mura, J.D.P.;Alimentação, nutrição e dietoterapia, ed Roca, São Paulo, 2007.

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12
Abr

 Terminalidade - Parte 7. Cuidados nutricionais

Categoria(s): Nutrição, Tanatologia

Tanatologia

Colaboradora : Marcia Cerqueira Boteon *

* Nutricionista e Pós-graduanda em Medicina e Saúde Geriátrica da METROCAMP

ANOREXIA NO IDOSO TERMINAL

alimentos

A alimentação possui uma estreita ligação com a sobrevivência humana desde o nascimento. A recusa de alimentos por parte do paciente, gera na família um sentimento de ansiedade muito grande, provocado pela sensação de perda de um dos estímulos primordiais à vida: a vontade de nutrir-se. Isto sinaliza também a aproximação do óbito, pelo comportamento de desistência adotado pelo paciente. A recusa do alimento pode ocorrer pela ausência do apetite ou pela saciedade precoce, o que pode ocorrer por diversos motivos: pós gastrectomia, hepatomegalia, ascite, entre outros.

Neste ponto do acompanhamento surge, muitas vezes, um grande conflito entre os cuidadores e equipe: o uso de alimentação por vias alternativas . Neste momento, se faz necessário uma avaliação criteriosa por parte da equipe, bem como ouvir e compreender a opinião do paciente quando possível.

O uso de estimulantes de apetite (corticosteróide ou magesterol) poderão ser indicados pelo médico, porém, seu uso é contra indicado na saciedade prematura sem anorexia. A dor também é um fator que também leva o paciente a recusar o alimento, desta forma a intervenção médica se faz necessária, com uso de drogas específicas.

Alguns subterfúgios, como os elencados abaixo, poderão contribuir para melhora da aceitação alimentar:
· A ingestão de uma bebida alcoólica 30 minutos antes da refeição (para estimular o apetite);
· Alteração na consistência da dieta (utilizar alimentos líquidos ou pastosos);
· Seguir a preferência do paciente (geralmente o paladar é melhor para doces);
· Não obriga-lo a comer, mas sim, oferecer alimentação de forma fracionada;
· Uso de suplementos alimentares em pó como forma de enriquecer pequenas porções de alimentos;
· Fazer com que o paciente escolha aquilo que deseja ingerir;
· Chupar pequenas pedras de gelo para melhorar a xerostomia melhorando assim a aceitação do alimento;
· Fazer bochechos com chá de Camomila antes das refeições para diminuir a sensação de amargor na boca, provocada pelos medicamentos;
· Melhora dos quadros de dispepsia através de antiácidos e antiflatulentes;
· Uso de antieméticos no caso de náuseas e vômitos;
· Uso de laxantes em quadro de obstipação;
· Administração de estimulantes de apetite
· Atenção aos utensílios, utilizar pratos pequenos (tipo de sobremesa) para servir as refeições;
· Incentivar o paciente a sentar-se à mesa junto com a família, pois o convívio social é muito importante neste momento.

Mas quando o paciente encontra-se inconsciente, apático ou muito sonolento, a opção de utilizar uma sonda enteral, deve ser conversada com a família, e caso a opção seja positiva, iniciar a alimentação com pequenos volumes, sem a pretensão de restabelecer o estado nutricional do doente, pois nesta fase não é o objetivo principal da nutrição, mas sim manter o trofismo intestinal e um aporte calórico basal.

Referências:

Dutra de Oliveira, I.E., Marchini, J.S.;Ciências nutricionais. ed. Sarvier, São Paulo, 1998.

Escott-Stump, S., Mahan, L.K. Alimentos, nutrição e dietoterapia. Ed.Roca, 9°de, São Paulo, 1998.

Frank, A.A, Soares, E.A. Nutrição no envelhecer. Ed. Atheneu, São Paulo, 2004.

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11
Abr

 Terminalidade - Parte 6. Atendimento domiciliar

Categoria(s): Sociologia, Tanatologia

Tanatologia

Cuidados paliativos

Colaborador: Antonio Cesar Antoniazzi *

* Médico e pós-graduando do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp

ASPECTOS FAMILIARES E ATENDIMENTO DOMICILIAR

Para os familiares e amigos de um ente querido gravemente enfermo, enfrentar os problemas de saúde deste não é tarefa fácil, como não o é para o doente. As incertezas, o medo do desconhecido rodam suas mentes. A angústia da dor e sofrimento afloram a todo momento.

Internações hospitalares nos momentos mais críticos ocorrem com certa freqüência, onde o paciente com o auxílio da retaguarda hospitalar pode amenizar seu sofrimento, contando com a atenção de seu médico e equipe de saúde.

Passado este período, o local ideal para o paciente é a sua casa, seu ambiente em que viveu até o momento. Lá estará junto aos seus familiares, seus amigos, podendo manter o pouco de autonomia que lhe resta.

Neste fase da doença, é importante o acompanhamento domiciliar pela equipe interdisciplinar de saúde. Ela irá oferecer a todos o suporte técnico, físico, psíquico e espiritual adequado. Ajudará a enfrentar os problemas que surgirão e qual o melhor meio de solucioná-los.

É o cuidar quando o curar não é mais possível. Propiciar que as questões familiares pendentes possam ser resolvidas, os conflitos pessoais superados. É o preparar-se para a separação das vidas e o processo de luto.

É manter a dignidade da vida até o momento do óbito.

É estimular a gratidão entre o doente e seus familiares e amigos, onde no instante final, olhando-se mutuamente possam dizer:

Obrigado, desculpe, eu te amo, adeus.

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10
Abr

 Terminalidade - Parte 5. Curar e cuidar

Categoria(s): Tanatologia

 Tanatologia

Cuidados paliativos

Colaborador: Antonio Cesar Antoniazzi *

* Médico e pós-graduando do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp

PARADIGMAS HOSPITALARES E MÉDICOS DO CURAR E CUIDAR

No hospital, lugar de esperança e de vontade tanto quanto de trabalho e de sofrimento, estão em jogo o corpo da vida e o espírito da vida. Mais do que nunca o hospital atual deve constituir o anel que reconstitui o ser humano na sua integridade vacilante… Uma ética de cuidados cidadãos exige o esforço de uma difícil reconstrução dos comportamentos como dos valores e das necessidades: verdadeira revolução tanto dos princípios quanto das práticas (Hirsch, 1997).

Um profundo dilema enfrentado pelas instituições hospitalares se deve ao aperfeiçoamento tecnológico onde se opõe a economia de mercado, onde o lucro é o objetivo normal, e o mundo da caridade, do serviço por vezes voluntário e da generosidade altruísta. A manutenção da saúde custa cada vez mais, e a população cada vez mais exigente e informada procura beneficiar-se sem demora dos últimos recursos anunciados, nem sempre de comprovada eficácia.

Ações de saúde hoje são sempre mais marcadas pelo “paradigma da curaâ€, direcionadas aos cuidados críticos e da medicina de alta tecnologia. A existência cada vez mais numerosa das UTIs nos hospitais mostram essa realidade. A presença da tecnologia no ambiente hospitalar é um fato necessário na medicina moderna, mas não se pode deixar que esta tecnologia deixe de lado práticas humanistas.

O paradigma de curar torna-se facilmente refém da tecnologia médica atual. Havendo algo a ser feito, deve ser feito, e isto alimenta a tendência de usar o poder da medicina para prolongar a vida em condições inaceitáveis. Acredita-se que a inabilidade para curar ou evitar a morte é uma falha da medicina e hospital modernos.

Os cuidados de saúde, sob o paradigma do cuidar, aceitam a o declínio da saúde e a morte como parte da condição humana, sendo criaturas mortais, finitas. A medicina não pode afastar a morte indefinidamente, ela finalmente acaba por chegar e vencer. Surge assim a obrigação moral de interromper o que é medicamente inútil e intensificar os esforços no sentido de amenizar o desconforto de morrer. A medicina focada no alívio do sofrimento estará mais preocupada com a pessoa doente do que com a doença da pessoa.

Trata-se de uma resposta que tem por objetivo afirmar nosso compromisso com o bem estar da pessoa doente, a determinação em estar junto na sua dor e sofrimento, e o desejo de fazer o que estiver ao nosso alcance para aliviar essa situação. O cuidado deve sempre ter prioridade sobre a cura pois nunca existe uma certeza absoluta de que as doenças possam ser curadas, ou de que a morte possa ser evitada. As vitórias sobre a doença e a morte são sempre temporárias, mas a necessidade de apoio e cuidados diante delas são sempre permanentes (Callahan, 1990)

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