30 - out

Memória – Aspectos anatômicos e fisiológicos

Categoria(s): Neurologia geriátrica, Psicologia geriátrica, Terapeuta ocupacional

Resenha

A memória é fator inerente e absolutamente necessário à todas atividades do reino animal, no ser humano esta se especializou muito tornando ser pensante. A memória está inserida nas nossas funções involuntárias, no desenvolvimento das nossas habilidades e no reconhecimento das informações sensitivas e sensoriais advindas da visão, audição, olfação, gosto, e tato. A memória nos permite respostas ao mundo interno (nosso corpo) e externo, nossa comunicação através das mais variadas formas de expressão.

Hipotálamo

Toda e qualquer forma de aprendizagem, de aquisição de conhecimentos ou reconhecimentos e identificação de fatos, dependem basicamente de processos de memória. Em resumo, somos o produto de nossa memória.

De uma forma simplista podemos imaginar o nosso cérebro como um computador, que inicialmente não tem nenhum sistema operacional e o programador insere sistemas básicos que faz todo o sistema funcionar. Estas funções de sobrevivência do nosso cérebro são inconsciente e que geram resposta imediata. Exemplo, o reflexo de retirar rapidamente a mão de um local extremamente quente e nocivo para nossa saúde, como chapa quente de um fogão. Estes estímulos chamados de nociceptivos, existem até em seres unicelulares e a resposta reflexa de memória medular. Esta seria a memória do “sistema DOS” dos computadores.

Nossos hábitos, as habilidades motoras (dirigir automóvel, escrever, usar o teclado do computador), os condicionamentos de comportamentos, a habilidade de falar, raciocínio matemático, que utilizamos no dia-a-dia, mas não nos apercebemos conscientemente de como as operamos, constituem a chamada memória não declarativa ou implícita. Estas memórias seriam como os programas de desenho, escrita, planilhas e cálculos do computador.

Após retirarmos a mão da chapa quente tomamos consciência do fato, o primeiro reflexo se processa na medula espinhal (reflexo medular) e só posteriormente, o estímulo ascende as regiões superiores do cérebro (cortex cerebral). A memória que torna consciente os fatos chama-se memória declarativa ou explícita.

A memória declarativa pode ser evocada à nossa consciência, representando fatos ou episódios. Quando relembramos e associamos a fatos, como no exemplo anterior, queimaduras e dor, é a chamada memória semântica. Quando relacionada a uma determinada temporalidade chama-se memória episódica.

Relacionando com a informática podemos entender que a memória semântica é lembrar e concientizar com escrever um texto usando ao Word, e memória episódica, a lembrança do episódio em que estivemos escrevendo o artigo (como este artigo que estava sendo escrito há 15 dia). Ambas memórias são conscientes, mas o ato de digitar o texto é inconsciente (memória não declarativa ou implícita).

O nosso cérebro tem a capacidade de seleciona as informações relevantes que devem ou não serem estocadas. A toda hora, somos bombardeados com um mundo infinito de informações (sensitivas, visuais, auditivas, táteis, gustativas, psíquicas) trazidas do meio ambiente, ou de nossa atividade psíquica. O cérebro pode fazer um estoque temporário das informações (memória de curto prazo ou imediato), envolvendo a chamada memória elétrica. Estas informações poderão ser ou não transferidos a áreas cerebrais distintas, de modo a serem consolidadas (estocadas) de maneira mais duradoura, a memória de longo prazo e, posteriormente com os reforços passar a memória remota.

Quanto mais reforço, seja pela importância dos fatos, a relevância ou pelo impacto emocional (negativo ou positivo) que as informações produzem, assim como a repetição da ação, mais clara e mais duradoura será a memória.

A aquisição de informações específica e de nosso interesse depende da focalização sobre a informação, neutralizando as interferências internas (vg. situação emocional) e externas (vg. ruídos, iluminação). Estados emocionais como, ansiedade, estresse, depressão, apatia, insônia, sonolência, dispersividade, etc. interferem negativamente na retenção de informações.

Reconhecendo o passado (memória episódica) – A cronologia dos eventos de nossa vida, nascimento, data de formatura, data de casamento, etc, fica registrada através da eficácia da conexão entre neurônios na região do hipocampo. Ali existe, também, células que quando ativadas provocam em nós a sensação de novidade e são chamadas de células de novidade.

No hipocampo existem inúmeros neurônios de reconhecimento episódico que nunca foram ativados e que estão estreitamente conectados às células de novidade. Quando um evento ocorre pela primeira vez, ele ativa fortemente um desses neurônios, e sua estreita conexão com a célula de novidade nos proporciona a sensação de novidade. Mas essa forte ativação afrouxa a conexão entre ele e a célula de novidade. Dessa forma, nas próximas vezes que o mesmo evento ocorrer a sensação de novidade será cada vez menor, pois o neurônio que agora reconhecerá sempre esse episódio estará cada vez menos conectado com a célula de novidade.

Lesões na região do hipocampo podem ter efeitos devastadores, pois podem destruir a nossa memória retrospectiva. Deixamos de reconhecer nossos familiares, nossos amigos, os locais importantes de nossa vida, etc. Tudo se torna novo para nós e precisamos reaprender tudo outra vez.

Reconhecendo recente (memória declarativa) – As lesões neurológicas podem destruir a capacidade de reconhecer o recente. Não perdemos nosso passado antigo, mas não podemos gravar nosso passado recente. A partir do momento da lesão, perdemos nossa capacidade de guardar o ocorrido. Já não podemos mais nos lembrar do que aconteceu minutos atrás. O caso símbolo foi descrito em 1957, do paciente HM de 27 anos, com epilepsia refratária aos medicamentos, sendo submetido a uma cirurgia de retirada dos lobos temporais e suas partes mediais de ambos os hemisférios, incluindo na ablação os hipocampos e os núcleos amigdalóides. Após a cirurgia, controlou-se as crises epiléticas, porém, o paciente perdeu a capacidade de formar novas memórias de longo prazo, conservando a memória de seu passado antes da cirurgia. Diferente da memória retrógrada, dos fatos ocorridos no passado, a memória anterógrada (que envolve fatos recentes) localiza-se no lobo temporal região do hipocampo e amígdala.

A memória depende de diversos sistemas de conexões neurais, sendo um dos principais o chamado circuito de Papez, que envolve o hipocampo, o fórnix, os corpos mamilares e o septum e o núcleo anterior do tálamo. As regiões mais sensíveis para a produção de distúrbios da memória são: os lobos temporais mediais, o diencéfalo e a região frontobasal.

Referências:

Kaster S, Ungerleider LG – Mechanisms of visual attention in the human cortex. Annual Reviews of Neuroscience 2000,23:315-341.

Lent R – Cem Bilhões de Neurônios: Conceitos Fundamentais de Neurociência. São Paulo, Editora Atheneu 2001

Purves D, Augustine GJ, Fitzpatrick D, Katz LC, et al Cap 24. Cognition. In LaMantia AS & McNamara JO – Neuroscience Sinauer Associates, Sunderland, EUA 1997,p.465-482.

Purves D, Augustine GJ, Fitzpatrick D, Katz LC, et al Cap 29. Human Memory. In LaMantia AS & McNamara JO – Neuroscience Sinauer Associates, Sunderland, EUA 1997,p.465-482.

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