Resenha
A doença de Chagas é um dos melhores exemplos de como a ciência médica depende fundamentalmente da boa propedêutica fÃsica e da análise criteriosa dos dados obtidos.
Para compreendermos a importância das descobertas de Carlos Chagas, devemos nos imaginar no inÃcio do século onde os recursos tecnológicos a disposição da ciência eram muito escassos é o principal instrumento, além da razão cientifica, era os toscos microscópios mono-oculares de espelho refletor.
A história desta descoberta teve inÃcio em 1907 quando por solicitação do Ministro da Saude Dr. Miguel Calmon, no sentido de promover campanha anti-palúdica no Vale do Rio das Velhas (MG), o diretor do Instituto Manguinhos, Dr Osvaldo Cruz, designou o jovem cientista Carlos Chagas para este fim.
Um ano de intensa observação clÃnica em pacientes palúdicos permitiu a Chagas definir um outro tipo de protozoose até então desconhecida. Chagas consegui caracterizar todas as formas clÃnicas, hoje amplamente conhecida, sobre tudo as que acometem o sistema cardiovascular. Sem as facilidades da radiologia, da eletrocardiografia, da ecocardiografia e da hemodinâmica conseguiu determinar o protozoário causador da doença e seu ciclo.
Em 1945, Dias, Laranja e Nobrega, em trabalho que se tornou clássico, pois marcou a retomada dos estudos sobre a doença de Chagas, apresentaram uma nova visão sobre as manifestações e as formas clÃnicas da doença, sobre tudo chamando atenção para a sÃndrome de Stokes-Adams.
A diversidade de quadros clÃnicos da cardiopatia chagásica crônica justifica o interesse em reconhecer a forma pela qual a enfermidade se apresenta em cada paciente, não só para uma adequada investigação diagnóstica, escolhendo-se os exames mais úteis para cada caso, como também a orientação terapêutica.
Cardiopatia Chagásica
A doença de Chagas na sua forma crônica se manifesta cardiológicamente com uma ampla diversidade de quadro clÃnico. Ultimamente classifica-se as suas formas em a) disritmias, b) insuficiência cardÃaca congestiva, d) sÃndrome tromboembólica, e) cardiopatia silenciosa.
Forma arritmogênica - A forma clÃnica mais freqüente são as arritmias, as quais, por sua vez, se revestem de tantas particularidades que é possÃvel subdividi-las em três subgrupos: as bradidisritmias, as taquiarritmias e as extrassitólicas. Os sintomas mais freqüentes são as palpitações e as tonturas. No grupo de pacientes com arritmia inclui-se a sÃndrome de Stokes-Adams, seja em sua manifestação clássica com perda da consciência e convulsões, seja nas formas frustas caracterizada por lipotÃmia ou perda da consciência de curta duração, sem convulsões. Merece referência especial nesta forma clÃnica a alta prevalência de morte súbita, sendo as taquiarritmias ventriculares o mecanismo fisiopatológico mais importante.
Forma miocardiopática - A insuficiência cardÃaca é a forma bem definida, nas quais podemos diferenciar dois subgrupos. Um subgrupo apresentando a forma clássica de insuficiência cardÃaca, com algumas particularidades que devem ser ressaltadas. A principal é a inexistência de manifestações de insuficiência ventricular esquerda, dependentes de congestão pulmonar, precedendo a descompensação ventricular direita. A falência cardÃaca é global, porém, predominam as manifestações de insuficiência cardÃaca direita. Chama a atenção a facilidade com que se consegue compensar tais pacientes nas primeiras vezes que manifestam a ICC. Ressalta-se que a área cardÃaca esta sempre aumentada e o eletrocardiograma alterado.
Em outro subgrupo, o que chama atenção é o relato de cansaço aos esforços, sem sinais de ICC. segundo alguns autores esta forma deve ser denominada “sÃndrome de disfunção sistólica”. Nesta forma esta freqüentemente associada as arritmias, e a área cardÃaca é normal ou pouco aumentada.
Forma trombogênica - Outra forma clÃnica é a cardiopatia chagásica crônica tromboembólica. A presença de trombose na cavidade ventricular esquerda, com embolia cerebral, renal, mesentérica ou dos vasos dos membros, torna fácil o reconhecimento desta forma clÃnica.
Na avaliação diagnóstica a área cardÃaca esta normal ou aumentada e o eletrocardiograma freqüentemente alterado. Tanto o ecocardiograma como a ventrÃculografia mostra áreas discinéticas e trombos intracavitários.
Recentemente tem-se observado um tipo de manifestação da doença de Chagas, cujo dado clÃnico principal é a ausência de sintomas cardiovasculares apesar da sorologia positiva.
Este tipo de pacientes podem ser subagrupados nos que não possuem nenhum exame não invasivo alterado (também denominada forma indeterminada da doença) e no subgrupo onde existe alteração no eletrocardiograma pressupondo alguma alteração cardiológica.
O diagnóstico é o tratamento de cada uma desta forma depende da análise clÃnica do caso.
Forma indeterminada - O portador da forma indeterminada da doença de Chagas caracteriza-se por apresentar sorologia e/ou xenodiagnóstico positivo, em ausência tanto de manifestações clÃnicas, cardÃacas, digestivas ou nervosas, como de alterações eletrocardiográficas, radiológicas do coração e do tubo digestivo. Não se inclui, nesta definição, qualquer investigação invasiva.
Aneurisma apical - A lesão apical do coração foi descrita por Carlos Chagas, em 1961. Diversas publicações denominaram este acometimento com aneurisma ventricular, nódulo fibroso da ponta, lesão necrótica da ponta do coração, lesão atrófica do vortex, fibrose da ponta do ventrÃculo esquerdo e suas proximidades, adelgaçamento da ponta, aneurisma apical, lesão vorticilar, lesão fibrótica apical e aneurisma da ponta. A designação de lesão apical é a mais amplamente utilizada, pois abrange os vários aspectos morfológicos.
Sua freqüência é muito variável oscilando entre 30% e 86,9% em estudos de necropsia e de 40% a 77% em avaliações cineventriculográficas. Este envolvimento da ponta não é exclusivo do ventrÃculo esquerdo, podendo também ser encontrado no ventrÃculo direito, com incidência entre 9 a 19,4%. Os aneurismas são áreas arritmogênicas, havendo indicação de cirurgia nos casos em que ocorre episódios tromboembólicos, arritmias graves ou grande “roubo” da sÃstole cardÃaca.
ECO -O estudo ecocardiográfico pode mostrar um coração de aspecto anatômico normal até os quadros de grandes cardiomegalias dilatadas. Revelando em muitos casos a lesão apical com trombose, que quando exclui-se o diagnóstico de cardiopatia isquêmica, fecha o diagnóstico de cardiopatia chagásica.
Referências:
Chagas C, Vilela EA - Forma cardÃaca da tripanosomiase americana. Mem Inst Oswaldo Cruz. 1922;14:5.
Dias E, Laranja F, Nobrega G - Doença de Chagas. Mem Inst Oswaldo Cruz. 1945;43:495.
Chagas C - Processos patogênicos de tripanozomiase americana. Mem Inst Osw Cruz,1916;8:5-37.
Albanesi Fo FM - Aneurismas mamilares apical na cardiopatia chagásica crônica. Arq Bras Cardiol,1991;147-149.
Porto CC, Rassi S - Formas clÃnicas da cardiopatia chagásica crônica. Arq Bras Cardiol. 1989;52(5):235-237.
Decourt LV, Sosa EA, Pilegi F - Estudos eletrofisiológicos cardÃacos na forma indeterminada da doença de Chagas. Arq Bras Cardiol. 1981;36:227.
Marins M, Silva CT, Motta VP et al - Estudo hemodinâmico em indivÃduos chagásicos sem cardiopatia aparente. Arq Bras Cardiol. 1981;37:463-466.
Sousa ACS, Marin-Neto JA, Maciel BC et al - Disfunção sistólica e diastólica nas formas indeterminadas, digestivas e cardÃaca crônica da moléstia de Chagas. Arq Bras Cardiol.1988;50:293.
Cançado JR - Doença de Chagas. Belo Horizonte, Universidade Federal de Minas Gerais, 1968.