Interpretação clÃnica
Senhora de 72 anos foi trazida ao pronto socorro com quadro intenso de dispnéia, iniciado há 1 hora, tendo acordada com a dispnéia. Refere, estar sentido muito cansaço no último mês. Múltipara (4 gestações normais), Menopausa aos 45 anos, não fez terapia de reposição hormonal. Está em tratamento de mieloma múltiplo há 5 anos. Nega hipertensão arterial ou diabetes. Ao exame fÃsico, anciosa, dispnéica, com estertores em todos os campos pulmonares, obesidade, varizes em ambas as pernas, sem edema. Coração rÃtmo de fibrilação, de difÃcil ausculta pelos ruÃdos pulmonares. Encaminhada à unidade de terapia intensiva.
Qual a hipótese diagnóstica?
Este é um estado clÃnico crÃtico, com risco de morte eminente. O quadro é compatÃvel com edema agudo pulmonar. O tratamento imediato é a reversão do quadro hemodinâmico, com diminuição da sobrecarga de volume sangüÃneo para os pulmões. O tratamento pode ser feito no setor de emergências, porém deve-se continuar rapidamente em uma unidade de terapia intensiva. Os familiares ao perceberem que a pessoa está com intensa dificuldade respiratória, permanecendo sentada ou mesmo em pé, deve imediatamente leva-la ao pronto socorro.
Veja mais sobre Edema agudo pulmonar
Na fase aguda, o mais importante é reverter o quadro pulmonar, como mostra a página sobre o edema agudo pulmonar. Posteriormente, estudar as causas que levaram a este estado crÃtico.
No quadro descrito acima, devemos pensar em infarto agudo do miocárdio, mesmo sem a presença de dor pré-cordial. Outras hipóteses seriam as de causa valvar crônica (estenose mitral grave) e aguda (insuficiência mitral, endocardite infecciosa, rutura de cúspide ou cordoalha). O quadro deve ser diferenciado de embolia pulmonar.

Uma das etiologias do edema agudo pulmonar, que pode passar despercebida, é o decorrente da cardiomiopatia restritiva, normalmente, causada por um processo miocárdio infiltrativo, como na amiloidose cardÃaca ou fibrose idiopática. O distúrbio fisiológico primário é uma redução da complacência (falta de relaxamento) ventricular esquerda, levando a uma deficiência de enchimento ventricular esquerdo, com conseqüente “estagnação” do sangue no átrio esquerdo e veias pulmonares, levando a dispnéia e nos casos graves ao edema agudo pulmonar.
A ilustração do Dr. Netter mostra o músculo cardÃaco com aspecto estriado com faixas esbranquiçadas, pelo depósito de amiloide entre as células músculares cardÃaca (detalhe histológico).
Insuficiência diastólica do ventrÃculo esquerdo
O estudo do desempenho diastólico do ventrÃculo esquerdo foi negligênciado até pouco tempo atrás, quando Gibson e Brown desenvolveram método de análise da variação continua da dimensão ventricular esquerda, utilizando um sistema computadorizado, de aproveitamento de traçado ecocardiográfico.
Na conceituação clÃnica a fase diastólica do ciclo cardÃaco, inicia-se com o fechamento das valvas semilunares (aórtica e pulmonar), compreendendo a maior parte do relaxamento ventricular ativo, com os perÃodos isovolumétricos e de enchimento ventricular rápido, assim como a diastese ou enchimento “passivo” e, finalmente, o perÃodo que envolve a contração atrial. Assim, os métodos que avaliam o desempenho diastólico do ventrÃculo esquerdo, baseia-se na variação de dimensão ou de volume durante o relaxamento, se referem essencialmente a fase de enchimento ventricular, no contexto da definição clÃnica de diástole.
O relaxamento do coração e o determinante fundamental do enchimento ventricular rápido. Trata-se de um processo dependente de energia, que corresponde a seqüestração ativa, contra-gradiente, do Ãon cálcio liberado da troponina (proteÃna da célula miocárdica) durante a ativação contrátil. Tem sido documentados distúrbios neste processo de captação do cálcio pelo reticulo sarcoplasmático nos casos de falência ventricular com ICC. Também existem relatos de alterações do relaxamento ventricular em corações intactos, submetidos a condições especiais como hipóxia, isquemia, hipertireoidismo.
As patologias que provocam a IC diastólica são as cardiomiopatias restritivas e a pericardite constrictica. No caso devemos considerar a hipótese de amiloidose cardÃaca, secundária ao mieloma múltiplo. O tecido miocárdico apresenta infiltração (figuras) por aminas da porção terminal da região variável das imunoglobulinas de cadeia leve (A1) produzidas por plasmócitos anormais. Além do comprometimento miocárdico, pode ocorrer neuropatia autonômica (hipotensão ortostática), nefropatia, neuropatia periférica, doença hepática crônica e lesões cutâneas purpúricas.
A amiloidose pode ocorrer em pessoas com idade superior a 70 anos, sem um causa aparente e recebe o nome de amiloidose idiopática.
O tratamento das insuficiências cardÃacas diastólicas é feito utilizandos beta-bloqueadores, ou bloqueadores dos canais lento de cálcio que diminuam a forca contrátil. No caso da amioloidose cardÃaca a evolução depende do grau de comprometimento pelo depósito amiloide e dos orgãos afetados.
Referências:
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