06
Jun

 Estudo de caso - Retenção urinária

Categoria(s): Urogeriatria

Interpretação clínica

  • Senhor de 69anos, com diabetes mellitus há 20 anos, atualmente bem controlado com metformina. Portador de hiperplasia prostática benigna em uso de bloqueador do receptor alfa-adrenérgico. Há 2 dias sente dificuldade para urinar. A exame físico constatou-se “bexigoma”.

Que orientação tomar?

Se a retenção urinária for causada pelo aumento da próstata, o tratamento cirúrgico (prostatectomia transuretral) é, quase sempre, a terapia indicada. O objetivo da terapia é a drenagem da bexiga para evitar a hidronefrose e lesão renal. Tratamentos que não resultam em drenagem vesical não são apropriados.

A drenagem da bexiga, por longo período, pode ser conseguida apenas com a cateterização, quando o caso não permite a correção completa da obstrução. Existem, três opções de cateterização disponíveis: a cateterização intermitente, cateterização de demora e colocação de um cateter suprapúbico.

Cateterização intermitente - a cateterização intermitente é a terapia padrão para todas as formas de retenção urinária causadas por contrações inadequada do detrusor. Não deve ser usada no tratamento de pacientes com obstrução grave ou total da bexiga, por causa da dificuldade em passar o cateter através da uretra obstruída.

Esse tipo de procedimento pode ser feito pelo próprio paciente (autocateterísmo) ou por um cuidador. O uso de cateter limpo é suficiente e não aumenta o porcentual de infecção urinária que fica entre 1 a 4 episódios por 100 dias de cateterização intermitente. Dispensando-se o emprego de cateter esterilizados. Não há necessidade de antibióticoterapia supressiva. A freqüencia de cateterização é cada 3 a 6 horas.

As possíveis complicações são, uretrite, trauma uretral, estreitamento e infecção do trato urinário.

Cateterização de demora - A cateterização uretral de demora (Foley) é uma terapia apropriada para a retenção urinária irreversível, até a desobstrução definitiva.

Cateterização suprapúbica - Esse método envolve a colocação de um cateter no interior da bexiga através de uma abertura cirúrgia (punção) na parede abdominal. Em geral, é, o tratamento de escolha quando a obstrução uretral impede a passagem do cateter.

Referências:

Terpenning SM, Allada R, Kauffman CA: Intermittent uretral catheterization in the elderly. J Am Geriatr Soc. 1989;37:411.

Weiss Incontinência urinária Cap6. In Adelman AM, Daly MP 20 problemas + comuns Geriatria, Ed Revinter Rio de janeiro trad. Fioravanti I. - 2004 p.79

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28
Abr

 Doença de Alzheimer - Cuidados de Enfermagem. Parte 1

Categoria(s): Gerontologia

Resenha

Colaboradora: Larissa Franceschetti Lopes Cunha *

* Enfermeira e pós-graduanda do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp

Demência e Doença de Alzheimer

O aumento da expectativa de vida da população fez com que a demência passasse a ser um dos mais importantes problemas de saúde pública. A incidência e prevalência das demências aumenta com a idade, após 64 anos de idade, a prevalência é de cerca de 5 a 10% e após os 75 anos de idade é de 15 a 20% segundo o Instituto de Geografia e Estatística(IBGE). A demência é um quadro de diminuição progressiva da função cognitiva.

Segundo Matheus Papaléo Netto as formas de demência são: demência senil do tipo Alzheimer, demência por múltiplos infartos, além de outras como: deficiência de vitaminas, hipotireodismo e infecções.

Demência é uma síndrome caracterizada pelo declínio progressivo e global das funções cognitivas, na ausência de um comprometimento agudo do estado de consciência, e que seja suficientemente importante para interferir nas atividades sociais e ocupacionais do indivíduo. O diagnóstico de demência exige a constatação de deterioração ou declínio cognitivo em relação à condição prévia do indivíduo.

Dentre os critérios clínicos mais utilizados para o seu diagnóstico incluem-se o comprometimento da memória e, ao menos, um outro distúrbio como apraxia, agnosia e afasia. Tal declínio interfere nas atividades da vida diária e, portanto, na autonomia do indivíduo. A abordagem do paciente com demência deve incluir, sempre, a avaliação e monitoramento das habilidades cognitivas, da capacidade para desempenhar atividades da vida diária, do comportamento e da gravidade global do quadro.

A demência do tipo Alzheimer é a mais comum entre as demências em idosos. São 15 milhões de indivíduos acometidos pela Doença de Alzheimer em todo o mundo e sua prevalência vem aumentando de forma significativa, e no Brasil 500 mil pessoas são acometidas por esta doença .

Dentre todas as demências, a Doença de Alzheimer é a que mais ocupa espaços nas publicações e nos debates nos eventos científicos, bem como na mídia em geral. Tal assunto tornou-se mais evidente especialmente depois que personalidades do meio político, artístico e cultural, no âmbito internacional, declararam publicamente que eram portadoras dessa doença. Além disso, nos países desenvolvidos, os altos custos dos tratamentos da demência se avolumaram como nunca antes observado. O aumento dos gastos públicos e privados com os cuidados a um número crescente de portadores da doença provocou forte canalização de investimentos em recursos materiais e humanos em favor da pesquisa e intervenção com os portadores e suas famílias.

A doença de Alzheimer descrita pelo neuropatologista alemão Alois Alzheimer em 1907, é uma afecção neurodegenerativa progressiva e irreversível de aparecimento insidioso, que compromete as áreas do cérebro responsáveis pela memória, pensamento e linguagem .

A principal causa de declínio cognitivo em adultos, DA, sobretudo em idosos, representando mais da metade dos casos de demência. A idade é o principal fator de risco: sua prevalência passa de 0,7% aos 60-64 anos de idade para cerca de 40% nos grupos etários de 90 a 95 anos. Isso revela a magnitude do problema no Brasil, onde já vivem cerca de 15 milhões de indivíduos com mais de sessenta anos. A etiologia é desconhecida. Os fatores de risco para a doença de Alzheimer são: história familiar de demência, idade, presença da isoforma E4 da apolipoproteína E, trissomia do cromossomo 21, Síndrome de Down, sexo feminino, traumatismo craniano e exposição ao alumínio. Mutações dos cromossomos 1, 14 e 21 (raras) determinam doença de início precoce e herança autossômica dominante .

Três estágios são caracterizados pela doença de Alzheimer: leve, moderado e grave. Cada estágio pode durar alguns anos. No estágio leve os sintomas são: esquecimento de eventos recentes, comprometimento do aprendizado de novas informações, desorientação têmporo-espacial, dificuldade em realizar tarefas complexas, necessidade de ser lembrado sobre os cuidados pessoais e higiene. No estágio moderado os sintomas são: esquecimento eventual do nome e identidade de familiares e amigos, dificuldades com a noção de tempo, confusão aguda e crônica, agnosia, afasia, anomia, fala menos espontânea e complexa, perda da iniciativa, dificuldade em realizar as atividades da vida diária (AVDs), incontinência urinária e fecal, irritabilidade, agressividade, delírios, alucinações e perambulação.

No estágio Grave os sintomas mais freqüentes são: problemas com a memória de longo prazo, perda gradual da orientação de tempo e espaço, comunicação por modo não verbal, perda total da independência, aparência fragilizada , Irritabilidade extrema e mudança de personalidade.

O diagnóstico clínico da doença de Alzheimer se baseia na observação do quadro clínico compatível e na exclusão de outras causas de demência por meio de exames laboratoriais e de neuroimagem estrutural. A tomografia computadorizada e, particularmente, a ressonância magnética revela atrofia da formação hipocampal e do córtex cerebral, de distribuição difusa ou de predomínio em regiões posteriores. Esses pacientes preenchem os critérios diagnósticos da denominada doença de Alzheimer provável. Outra possibilidade é o diagnóstico de doença de Alzheimer possível, em que os pacientes apresentam variações na forma de apresentação ou evolução clínica e também nos casos em que outras condições passíveis de produzir demência estejam presentes, porém sem serem consideradas, com base em juízo e experiência clínica, responsáveis pelo quadro demencial. O diagnóstico definitivo só é possível por exame anatomopatológico.

O tratamento da doença de Alzheimer envolve estratégias farmacológicas e intervenções psicossociais para o paciente e seus familiares. Inúmeras substâncias psicoativas têm sido propostas para restabelecer ou preservar a cognição do paciente demenciado. Contudo, os efeitos limitam-se a um retardo na evolução natural da doença, permitindo apenas uma melhora temporária do estado funcional do paciente. Os inibidores da acetilcolinesterase são as drogas hoje licenciadas para o tratamento específico da doença de Alzheimer. Tem efeito sintomático discreto sobre a cognição, algumas vezes beneficiando também as alterações não-cognitivas da demência. Porém apresentam efeitos colaterais importantes.

Referências:

Almeida OP, Crocco EI. Percepção dos déficits cognitivos e alterações do comportamento em pacientes com doença de Alzheimer. Arq Neuro-Psiquiatr, v.58 (2), p. 292-299, 2000.

Barbosa AR, Souza JMP, Lebrão ML, Laurenti R, Marucci MF. Diferenças em limitações funcionais de idosos brasileiros de acordo com idade e sexo: dados da pesquisa SABE. Cad Saúde Pública; 21(4): 1177-85,2005.
Brasil. Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia. Perfil dos idosos responsáveis pelos domicílios Disponível em:
http://www.ibge.com.br/home/presidencia/noticias/25072002pidoso.shtm

Marzide MHP. A política nacional de atenção ao idoso e a capacitação dos profissionais de enfermagem. Rev Latinoam Enfermagem [periódico na internet]. 2003 Nov- Dez Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-11692003000600001&1

Netto MP. Gerontologia- a velhice e o envelhecimento em visão globalizada.São Paulo: Atheneu;2000. p.146-59, 181-4, 343-4.

Nitrini R. & Caramelli P (2003) Demências. In: Nitrini, L.E. Bacheschi (orgs). A neurologia que todo médico deve saber. São Paulo: Editora Atheneu (pp. 323-334).

Papaléo Netto M, Carvalho Filho ET, Salles RFN. Fisiologia do envelhecimento. In: Carvalho Filho ET, Papaléo Netto M, editores. Geriatria: fundamentos, clínica e terapêutica. 2. ed. São Paulo: Atheneu; 2005. p. 43-62.

Paula JAM, Diogo MJD. Avaliação da capacidade funcional motora em idosos atendidos em ambulatório de hospital universitário: análise comparativa de dois instrumentos. Rev Panam Salud Publica. 2007.
Rosa ALCS, Amendoeira MCR, Cavalcanti MT. Relações entre gênero e cuidados com o idoso demenciado. Disponível em: http://www.aperj.com.br/rev3_mat5.htm

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15
Dez

 Estudo de caso - Hidrocefalia com pressão normal

Categoria(s): Caso clínico, DNT, Neurogeriatria

Interpretação clínica

Homem de 72 anos, com queixa de 3 episódios de quedas nos últimos 6 meses. Tem apresentado fraqueza nas pernas, para andar tem ficar com as pernas afastadas. Apresenta incontinência urinária progressiva, perda da concentração, da velocidade de pensamento e a memória tem se mostrado gradualmente deficiente nos últimos 12 meses. Ao exame físico ele se mantém sobre uma base larga, e seus passos são muito curtos. o exame físico geral, pouco emagrecido, PA normal, coração com rítmo de fibrilação atrial, artérias endurecidas, pulsos carotídeos normais, sem sopro. Exame neurológico não exibe tremores ou rigidez nos braços e pernas. Fundo de olho normal. Reflexos lentificados.

Qual o possível diagnóstico a partir do exame radiológico (figura) ?

hidrocefalia

 O exame de ressonância magnética do cérebro mostra além de áreas escuras no parênquima cerebral (infartos cerebrais) uma grande dilatação dos ventrículos cerebrais, comprimento o parênquima cerebral contra as paredes ósseas do crânio.

A queixa clínica apresentada pelo paciente e a imagem radiológica nos direciona para o diagnóstico de hidrocefalia com pressão normal (HPN). A tríade clínica, incontinência urinária, distúrbio da marcha e déficit cognitivo é típica da hidrocefalia com pressão normal. Além disso, lentificação dos movimentos (bradicinesia) e lentificação do pensamento (bradifrenia) estão presentes nesses pacientes. Os pés do paciente parecem “grudar no chão”, como se fossem controlados por um imã (por isso a chamada “marcha magnéticaou “apráxica”).

ventrículos cerebrais normais

 Exame RM normal

A causa da HPN não é plenamente compreendida. A fisiopatologia pode ser devida a produção excessiva de líquido cefalorraquidiano ou absorção insuficiente. O desequilíbrio resultante causa dilatação dos ventrículos que “esticam” a rede neural corticossubcortical envolvida na cognição, equilíbrio e continência urinária. (veja mais sobre rede neural e memória)

O tratamento pode ser feito com a drenagem do líquido cefalorraquidiano para o abdome através de uma anastomose ventriculoperitoneal, este efeito do estiramento da rede neural pode diminuir, melhorando os sintomas do paciente. O HPN é de fácil diagnóstico, mas definir quem se beneficiará da anastomose ventriculoperitoneal, ou mesmo, em quem pode-se fazer este procedimento é uma grande dúvida. No idosos o risco de complicações como, meningite, mal funcionamento da anastomose e hematoma subdural ocorrem em 40% dos pacientes.

Nos casos onde o déficit de equilíbrio e marcha são os aspectos mais importantes, uma punção lombar com retirada de 30 ml de líquido cefalorraquidiano pode trazer benefícios.

A demência por infartos múltiplos é um diagnóstico que deve ser aplicado neste caso.

Os paciente com fibrilação atrial têm alto risco de sofre infartos cerebral, o uso de anticoagulantes é indicativo nesses casos, assim como um amplo estudo do sistema cardiovascular. (ver mais)

Referências:

Graff-Radford NR - Normal pressure hydrocephalus. The Neurologist 1999;5:194-204.

Graff-Radford NR, Godersky JC, Jones MP - Variables predicting surgical outcome in symptomatic hydrocephalus in the elderly. Neurology 1989;39:1601-1604.

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09
Ago

 Fisiologia da micção

Categoria(s): Conceitos, Fisioterapia, Urogeriatria

Resenha

Colaboradora: Fabiana Gonçalves Boccia Viscaino *

* Enfermeira e pós-graduanda do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp

A incontinência urinária no idoso é um fator importantíssimo a qualidade de vida dos idosos, causando constrangimento e isolamento social, além de constituir uma das queixas mais “escondidas” aos geriatras e clínicos gerais. O conhecimento da fisiologia do ato miccional é fundamental para a compreensão e tratamento dos diversos tipos de alterações que causam a incontinência urinária.

bexiga

A função vesical acontece em duas fases:

Fase de Armazenamento: O armazenamento ocorre quando a bexiga consegue acumular quantidades crescentes de urina no seu interior, sem causar pressão, enquanto os esfíncteres urinários permanecem contraídos, ou seja, acomodação vesical.

O esfíncter externo e os músculos elevadores do ânus servem como suporte para os mecanismos de continência, em permanente estado de contração podem contrair-se ainda mais para impedir a perda de urina sob condições de stress, são inervados pelo plexos sacrais e nervos pudendos.

Fase de esvaziamento:

O ato de conter a urina ocorre voluntariamente, quando a bexiga atinge sua capacidade máxima (350 - 650 ml), os receptores do interior do músculo detrusor emitem sinais aos centros corticais do cérebro para se iniciar a fase de esvaziamento.

O esvaziamento vesical acontece com a estimulação da contração da bexiga associada ao relaxamento esfincteriano e dos músculos elevadores do ânus, permitindo que a bexiga elimine seu conteúdo através de uma inversão desse gradiente de pressão. A uretra se encurta o que diminui a resistência do fluxo, a bexiga libera seu conteúdo sob controle voluntário dependendo diretamente de uma atividade coordenada da uretra e do músculo detrusor.

O reflexo da micção é um reflexo completamente autonômico da medula espinhal, mas pode ser inibido ou facilitado por centros do cérebro.

nervos

Controle autonômico - O sistema nervoso autônomo tem importante papel no controle da micção. A parede da bexiga contém densa inervação simpática e parassimpática, ambas atuantes sobe a musculatura lisa (músculo detrusor). Esta musculatura normalmente está relaxada, com exceção da que forma o esfincter interno, normalmente contraída. Essa configuração permite o enchimento gradativo da bexiga com a urina. Esse fenômeno de enchimento é mediado pelo sistema simpático. Veja na figura as estruturas anatomicas e a inervação da região.

O enchimento vai estirando a parede, e termina por ativar os mecanorrecptores aí situados. Então, entra em funcionamento um arco reflexo que envolveo nervo vago e seus núcleos no tronco encefálico. Retornam pelo mesmo nervo vago comandos que resultam na contração da musculatura da bexiga e no relaxamento do esfincter interno (fenômeno mediado pelo sistema parassimpático). Nesse momento a micção fica contida apenas pela contração do esfincter externo, constituído de fibras musculares estriadas sob o comando voluntário exercido por neurônios da ponte (núcleo de Barrington) e motoneurônios da medula sacra.

O núcleo de Barrington recebe informação sensorial sobre o enchimento da bexiga, bem como comandos do prosencéfalo relativo às condições socialmente adequadas para o relaxamento do esfíncter externo. Por tanto, o controle da micção é feito pela ação da medula espinhal, da ponte e do córtex cerebral.

Referência:

Lent R - Cem Bilhões de Neurônios - Conceitos Fundamentais de Neurociência. Editora Ateneu 2001;p.480

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