29
Jun

 Estudo de caso - Uso de amiodarona

Categoria(s): Cardiogeriatria, Caso clínico

Interpretação clínica

  • Mulher de 46 anos se apresenta para consulta médica com queixa de fadiga, insônia, agitação, inchaço nos tornozelos no final do dia, excesso de calor, refere que as menstruacões estão mais abundantes e o intestino mais “solto” que o habitual. Está em acompanhamento clínico com médico cardiologista há 3 anos para controle de fibrilação atrial paroxística, com amiodarona 200 mg por dia de segunda a sexta feira. Não toma outras medicações.
Como entender e conduzir o caso?
A maioria dos pacientes tratados com amiodarona (medicamento antiarrítimico) permanece eutireoiana. Entretanto, alguns pacientes desenvolvem disfunção tireoidina significativa, tanto hipo quanto hipertireoidismo. 

O iodo representa aproximadamente 35% do peso do medicamento. Um comprimido de 200 mg libera 6 mg de iodo livre ( 20 vezes a ingesta diária adequada de iodo para o ser humano). O efeito da amiodarona na função tireoideana pode se dar de várias formas. os níveis elevados de iodo podem levar a síntese reduzida e a secreção reduzida de tiroxina, causando o hipotireoidismo. Além disso, a amiodarona diminui a conversão de T4 em T3, e interfere na ligação da T3 no receptor nuclear.

O hipertireoidismo pode ser precipitado pelo uso contínuo da amiodarona. Pacientes com doença de Graves preexistente ou bócio multinodular podem se tornar hipertieroidianos em resposta a uma disponibilidade aumentada de iodo.

A amiodarona pode induzir a tireoidite, com elevação transitória dos níveis de hormônio tireoidiano pela liberação de hormônio pré-formado.  

No presente caso, a clínica é sugestiva de hipertireoidismo. Devemos solicitar os exames hormonais de função tireoideana (T4, T4 livre T3 e TSH). Em seguida, estudar o melhor tratamento a ser utilizado, inclusive a troca do antiarritmico. Os casos de hipertireoidismo leve podem ser acompanhados sem intervenção. Os casos de toxicose por tireoidite pode ser tratada com prednisona e, se possível a suspensão da amiodarona. 

Sempre que resolvermos utilizar a amiodarona em um paciente, devemos inicialmente estudar a função tireoideana e periodicamente avaliarmos o TSH, no sentido de surpreender alguma disfunção da glândula tireoide durante o tratamento da arritmia, que geralmente é crônico. 

Referência:
Loh KC - Amiodarona induced thyroid disorders: a clinical review. Postgrad Med J. 2000;76:133-140. 

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15
Jan

 Doença de Graves

Categoria(s): Endocrinogeriatria

 Resenha

Doença de Graves (DG), ou bócio difuso tóxico, que foi descrito incialmente por Caleb Parry, em 1825 na Inglaterra e posteriormente por Robert Graves, em 1835 na Irlanda. Sua etiologia esta ligada a presença, no soro, de auto-anticorpos que ligam ao receptor da TSH (Thyoid Stimulator Hormone) das células tireóideanas estimulando-as na produção do hormônio tireóideano. Estes auto-anticorpos receberam diversos nomes (long-acting thyroid stimulator - LATS; long acting thyroid stimulator protector - LATSp; thyroid stimulating antibody - TSA; human thyoid stimulator - HTS) sendo atualmente genericamente designado de “imunoglobulinas estimuladoras da tireóide” (TSIs - Thyroid stimulating immunoglobulins).

As TSIs são componentes da fração IgG do soro. Uma das hipóteses mais aceitas para explicar sua produção é baseada na desregulação dos linfócitos B, regulação esta mediada pela atuação dos linfócitos T. Este fenômeno ocorre pela predisposição genética do sistema imunológico sob a ação de um fator precipitante (estresse, infeção, trauma etc).

Clínica

A Doença de Graves se manifesta com: nervosismo, insônia, transpiração excessiva, intolerância ao calor, fadiga fácil, fraqueza muscular, perda de peso, aumento do apetite, hiperdefecação (geralmente sem diarréia), sintomas oculares. A fácies é característica, com o paciente mostrando-se agitado, inquieto, com pele quente e úmida. A exoftalmia é um dos sinais característicos da doença. Os olhos apresentam aumento do volume globular e ficam bastante expostos, com riscos de lesões na córnea (figura).

exoftalmia

O diagnóstico diferencial se. faz com os distúrbios psicossomáticos, sendo que nestes últimos a pele apresenta sudorese fria.

O hormônio tireóideano exerce efeitos diretos sobre o coração, aumentando as contrações da actina e miosina, aumentando o ritmo cardíaco, contractilidade e aumentando a atividade da adenil-ciclase.

O hormônio tireóideano induz a vasodilatação periférica, conseqüentemente, os pacientes tem sudorese, expansão do volume sangüíneo, fluxo sangüíneo periférico aumentado, ritmo cardíaco rápido, aumento do débito cardíaco e aumento do consumo de oxigênio pelo miocárdio.

O hormônio tireóideano tem poderosos efeitos cronotrópicos e inotrópicos positivos, conseqüentemente, a ejeção sistólica fica com até o dobro do volume, elevando a pressão sistólica, tornando o pulso rápido, o precórdio hiperdinâmico, e terceira bulha audível. Freqüentemente ouve-se um sopro de ejeção sistólica, pelo alto metabolismo e volume de sangue ejetado.

Os efeitos cardiovasculares parecem ser devidos aos efeitos combinados do hormônio tireideano e da estimulação simpática, porém este efeito leva a aumento do consumo de oxigênio pelo miocárdio, podem causar angina pecturis e/ou insuficiência cardíaca congestiva.

Nas pessoas idosas, a primeira, se não a única, manifestação do hipertireoidismo e a fibrilação atrial, cuja reversão ao ritmo sinusal esta condicionada ao controle do quadro tireóideano.

A insuficiência cardíaca congestiva que acompanha o caso desenvolve-se rapidamente porque a freqüência alta do ventrículos prejudica o enchimento diastólico e o desempenho cardíaco, já deficitário pela falta de contração atrial.

Tratamento

Qualquer que seja sua etiologia, o hipertireoidismo deve ser controlado, quer como tratamento exclusivo, quer como terapêutica temporária até que a causa possa ser eliminada, o que apenas raramente e possível, como nos casos de adenoma tóxico.
O controle medicamentoso representa, portanto, a primeira linha de ação no controle do hipertireoidismo. Do ponto de vista prático utiliza-se as tionamidas, o propranolol e o iodo como fármacos para ao controle do hipertireoidismo.

Tionamidas - As tionamidas produzem um decréscimo na produção de hormônio tireóideano. O estado eutireóideano pode ser alcançado após 4 semanas do início do tratamento. Adotando-se doses progressivamente menores e que permitam bloqueio apenas parcial da tireóide, evita-se o hipotireoidismo e conseqüente aumento do bócio pela elevação do TSH. As tionamidas apresentam reações tóxicas sob a forma de reações cutâneas, e mais raramente agranulócitose, sendo indicado o acompanhamento do tratamento com hemograma completo.

As tionamidas incluem o propiltiouracil (PTU) e o metimazol (Tapazol).
O propiltiouracil apresenta a vantagem de diminuir a conversão periférica de T4 em T3, além de produzir um decréscimo na produção do hormônio tireoideano. Suas dosagem habituais são de 300 a 600 mg por dia.

O metimazol é empregado na dosagem de 20 a 40 mg por dia em três ou quatro doses.

Propranolol - O propranolol, por seus efeitos beta-bloqueadores adrenérgicos, é extremamente útil no controle das manifestações cardiovasculares, o que conseguido com dose de 60 a 200 mg diárias.
Seu emprego e como adjuvante das drogas bloqueadoras da tireóide e seu uso está contra-indicado nos asmáticos e portadores de bloqueios atrioventriculares.

Iodo - O iodo inibe não só a biossíntese dos hormônios tireóideanos como também sua liberação pela glândula. Usado sob a forma de solução concentrada (Lugol), tem o iodo ação rápida, podendo apresentar, fenômenos de escape, ou seja após 10 a 14 dias, as concentrações de T3 e T4 voltam a se elevar. Seu principal emprego é no preparo pré-operatório.

Iodo radioativo - A terapia com Iodo 131 tem a vantagem de ser simples, segura e barata, uma vez que uma única dose (de 5 a15 mCi) costuma ser suficiente para a destruição do tecido tereóideano hiperfuncionante. As desvantagens são o aparecimento do hipotireoidismo, não pode ser usado em mulheres jovens e no período reprodutor, além de demorar de 3 a 6 meses da época da aplicação até o controle do hipertireoidismo, tempo este que o paciente continua com os sintomas.
O emprego em gestante é formalmente contra-indicado por travessar a barreira placentária e atingir o feto.

Tratamento cirúrgico - O tratamento cirúrgico é bem seguro em mãos hábeis de cirurgiões experimentados, tem morbidade reduzida e não provoca hipotireoidismo, nem hipoparatireoidismo. Normalmente preserva-se 4 a 8 gramos de tecido tireóideano, o que minimiza a probabilidade de lesão das glândulas paratireóideanas e dos nervos recorrentes.
A recidiva é de 10% dos casos.

Digitálico - O digital contínua sendo o agente preferido para o controle do ritmo ventricular na fibrilação atrial do hipertireoidismo. As doses empregadas deverão ser maiores que as habituais, por haver alto metabolismo. O propranolol em doses baixas age cinérgicamente com o digital no intuito de retardar a condução atrioventricular, sem produzir grande depressão da contractilidade miocárdica.

Acompanhamento - Ainda não existe um critério clínico ou laboratorial preciso paraprevisão de remissão do hipertireoidismo e suspensão do tratamento. A retirada precoce dos medicamentos geralmente acarreta o recrudecimento do quadro. O melhor critério e mantermos o tratamento por pelo menos 1 anos após atingir o quadro clínico e laboratorial eutireóideano.

Mesmo ocorrendo a remissão espontânea os pacientes devem ser mantidos em programa de reavaliação clínica e laboratorial periódico, visando a detecção de um eventual recidiva.
Os pacientes cujo controle medicamentoso não for suficiente ou não obtiveram remissão espontânea são candidatos a dois outros tipos de procedimento, ou seja a terapia com iodo 131 radioativo e tireoidectomia subtotal.

Referências:

Borst GC, Eil C, Burman KD - Euthyroid hyperthyroxinemia. Ann Int Med. 1983;98:366-378.

Caldwell G et al - A new strategy for thyroid function testing. Lancet, 1985;1:1117-1119.

Larsen Pr et al - Relationship between circulating and intercellular thyroid hormones: Physiológical and clínical implications. Endocr Rew. 1981;2:87-101.

Strakosch CR, Wenzel BE, Row VV, Volpe R - Immunology of autoimmune thyroid diseases. New Eng J Med. 1982;307:1499-1506.

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