04
set

 Estudo de caso – Cefaléia unilateral

Categoria(s): Neurogeriatria

Interpretação clínica

  • Mulher de 46 anos apresenta dor retroorbicular esquerda muito intensa há dois meses. Os episódios ocorrem de 10 a 12 vezes ao dia, com duração de 10 minutos e estando associado a congestão nasal e lacrimejamento do olho esquerdo. Não existe nenhum outro sintoma associado. As crises a têm acordado do sono e não têm respondido aos analgésicos habituais.
  • Exame físico e ressonância magnética cerebral normais.

Qual o diagnóstico provável e a conduta para o caso?

Existem diversas cefaléias unilateral (hemicrania) de curta duração, que apresentam quadro clínico semelhante e que devem ser distinguidas para evitar a exposição dos pacientes a terapêuticas malsucedidas e desnecessárias.

Hemicrania paroxística crônica – A Hemicrania paroxística crônica é uma cefaléia rara que afeta predominantemente mulheres da terceira e quarta décadas de vida. É caracterizada por crises múltiplas de dor unilateral, normalmente na região fronto-orbito-temporal e, com freqüência, associadas a sintomas autonômicos como lacrimejamento, hiperemia da conjuntiva e rinorréia ou obstrução nasal. Cada crise dura geralmente de 2 a 45 minutose, como critério de diagnóstico, deve ser absolutamente responsiva a indometacina. As características, congestão nasal e lacrimejamento refletem a ativação das vias nervosas parassimpáticas cranianas e não indicam um comprometimento sinusal ou mucoso.

Cefaléia em salvas – Antigamente conhecida como cefaléia de Horton, cefaléia histamínica, cefaléia agrupada ou em cachos, a cefaléia em salvas é uma doença rara. A dor dessa cefaléia é considerada a mais forte dor que existe. A cefaléia em salva predomina nos homens. A idade de início costuma ser após os 30 anos (enquanto na enxaqueca, costuma ser na adolescência). A dor é só de um dos lados da cabeça, nunca dos dois ao mesmo tempo. A localização mais comum da dor corresponde à área de uma mão espalmada sobre um dos olhos. A duração da crise de cefaléia em salvas é curta, quando comparada à enxaqueca: cada crise costuma durar entre meia hora e duas horas. A cefaléia em salvas não é precedida por aura e raramente está associada com náuseas importante, fotofobia ou fonofobia, mas está frequentemente acompanhada por sintomas autonômicos, tais como síndrome de Horner parcial, lacrimejamento, rinorréia, injeção conjuntival e congestão nasal.

A cefaléia em salvas recebe esse nome porque, em geral, a pessoa é acometida por uma “salva” de cefaléias (exemplo, 3 crises ao dia, de 30 minutos cada uma, durante 1 semana), seguida por um período sem cefaléias (que pode variar de semanas a anos), formando um padrão cíclico que se repete ao longo do tempo. Esta relação cíclica da cefaléia sugere um ritmo biológico ditado pela liberação de neurotransmissores cerebrais, como a serotonina. Porém, esta hipótese ainda não está confirmada. A medicação de escolha para a cefaléia em salvas é o verapamil.

Nevralgia do trigêmeo – A nevralgia do trigêmeo é uma nevralgia facial unilateral dolorosa que incide mais nas pessoas na sexta e sétima década da vida. É caracterizada por dor tipo intensa, breve (segundos), em facada ou agulhada. Os pacientes descrevem a dor como se fosse um choque elétrico. A dor pode ser provocada por estímulos táteis (pressão digital), geralmente na chamada zona-gatilho, que localiza-se em torno das narinas e da boca. Ato de escovar os dentes, mastigar, falar ou mesmo um golpe de vento frio na face, podem desencadear um crise dolorosa. A dor da nevralgia do trigêmeo é recorrente e assintomática entre as crises que duram alguns segundos, geralmente se localiza nas divisões do nervo trigêmeo, preferencialmente na segunda e na terceira, e tendo a divisão mandibular como a principal região acometida. A medicação de escolha é a carbamazepina.

Veja mais – Estudo de caso: Nevralgia do trigêmeo

Pelo quadro clínico, a paciente do caso pode estar sofrendo da hemicrania paroxística crônica, apesar de ter aspectos da nevralgia do trigêmeo e da cefaléia em salvas, assim, o uso da indometacina serve de teste diagnóstico e tratamento.

Referência

Goadsby PJ, Lipton RB – A review of paroxysmal hemicranias SUNCT syndrome and other short-lasting headaches with autonomic feature, including new cases. Brain. 1997;120(Pt 1):193-209.

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