Interpretação clÃnica
Senhor de 57 anos, trabalhador em industria de porcelana, queixa-se de muita falta de ar nos últimos seis meses, acompanhada de tosse seca que o impede de trabalhar normalmente. Tanbém, apresenta um quadro articular antigo, com deformidades dos dedos das mãos que se agravou nos últimos 3 meses o ficando com as mãos rÃgidas pela manhã, ficando mais de 40 minutos até poder movimentar “normalmente” os dedos. Atualmente esta com muita dificuldade para escrever e digitar textos. Refere que esta quadro da mão iniciou-se há mais de 15 anos, a princÃpio com formigamento nas mãos, e “dolorimentos” nas “juntas” dos dedos, com o tempo apareceram inchaços e os dedos começaram a “entortar”. Tinha épocas que passava bem, estava com os dedos tortos, mas não tinha dores. Não tem outras doenças, pois faz exams periódicos há cada 6 meses e todos estão normais. O exame fÃsico é de uma longilÃnea, emagrecido, pulmões tipo enfisematoso com diâmetro antero-posterior aumentado, peito em quilha de navio, hipersonoro, com murmúrio vesicular diminuÃdo, com expiração prolongada. Exame cardiocirculatório com hiperfonese da segunda bulha no foco pulmonar. Demais exame normal. Eletrocardiograma com sobrecarga atrial e ventricular direita. O exame ecodopplercardiográfico fechou diagnóstico de Hipertensão pulmonar.

Pergunta-se: Qual o diagnóstico e a conduta a ser tomada.
Resposta do caso
Trata de um caso de hipertensão arterial pulmonar (HAP) associada ao quadro de articular indicativo de artrite reumatóide. O caráter insidioso e o grau de deformidades articulares, fecha o diagnóstico de artrite reumatóide. A associação de doença pulmonar e artrite reumatóide foi definida por Caplan, em 1953, como a associação de imagens radiológicas pulmonares arredondadas, medindo de 0,5 a 5,0 cm de diâmetro, periféricas, associadas ou não a pequenas opacidades pneumoconióticas ou à fibrose maciça pulmonar, em pacientes com artrite reumatoide (AR) e expostos a poeiras de carvão mineral ou sÃlica. No Brasil a prevalência dessa entidade é baixa, porém acredita-se que existam mais casos não diagnosticado.
Apesar de originalmente a sÃndrome ter sido descrita em mineiros de carvão, numerosos casos têm sido diagnosticados em indivÃduos expostos à sÃlica livre e ao asbesto desde então, apesar de serem bem mais raros que em indivÃduos expostos à poeira de carvão mineral.
A relação das pneumoconioses, principalmente da silicose, com o desencadeamento de doenças autoimunes é um fato reconhecido desde a década de 50, com a publicação de casos associados à esclerodermia (sÃndrome de Erasmus), lúpus eritematoso sistêmico, doença mista do tecido conjuntivo, etc., e presença anormal de autoanticorpos. O processo inflamatório articular da AR é desencadeado por citocinas produzidas por macrófagos ativados. Essas citocinas, claramente implicadas no desenvolvimento da AR e na manutenção do processo inflamatório, como IL-1 e TNF, são detectadas em altas concentrações na membrana sinovial, no lÃquido sinovial e no soro de pacientes, o que provavelmente estaria relacionado à s manifestações extra-articulares da AR.
Os mecanismos imunológicos envolvidos na hiperatividade imune desencadeada pela presença de sÃlica livre no organismo humano ainda não foram completamente elucidados. Estudos experimentais mostram, sem dúvida, que a sÃlica desencadeia um importante efeito adjuvante na resposta imune animal, estimulando monócitos e macrófagos, com consequente liberação de citocinas, como a IL-1, fator estimulador de colônias de granulócitos-macrófagos e TNF-α. Além disso, a sÃlica estimula os macrófagos a produzir espécies reativas do oxigênio e a liberar proteases lisossômicas. Com relação aos linfócitos, existem fortes evidências de que a sÃlica não estimule diretamente essas células, mas o faça através do estÃmulo macrofágico, conectando o sistema imune inato com os braços adaptativos do sistema imune (responsável por respostas especÃficas humoral e celular a antÃgenos), incluindo a ativação de células dendrÃticas, que são as células apresentadoras de antÃgenos aos linfócitos T CD4. Através dessa conexão, existiria a possibilidade da exposição à sÃlica desencadear respostas autoimunes em pessoas geneticamente predispostas, como clinicamente ocorre na AR, esclerodermia, lúpus eritematoso sistêmico e outras doenças mistas do colágeno.
Comentários do caso
Os sinais e sintomas iniciais dos pacientes com hipertensão arterial pulmonar são decorrentes da diminuição acentuada da rede vascular pulmonar e do baixo débito cardÃaco. Com a evolução da doença, os sintomas relacionados com o baixo débito cardÃaco são os mais evidentes, como: fadiga, dispnéia, tonturas, sÃncope, lipotÃmia, e insuficiência cardÃaca direita (estase jugular, levantamento sistólico, hepatomegalia dolorosa). A circulação pulmonar é um circuito de baixa pressão com poucos ou nenhum tônus vascular no repouso e é definida hemodinamicamente pelo aumento da pressão arterial pulmonar média acima de 25 mmHg no repouso e 30 mmHg no esforço.
A hipertensão pulmonar é avaliada pela medida da PAP sistólica. No exame ecodopplercardiografico a presença de regurgitação pela valva tricúspide maior que 3 a 3,5 m/s é bom indicativo do diagnóstico, aplicando-se a equação modificada de Bernoulli simplificada:
PAPs = 4(VRT)2 + PAD
onde: PAPs= pressão de artéria pulmonar sistólica; VRT= velocidade de regurgitação da tricúspide; e PAD= pressão de átrio direito.
No III Simpósio Internacional de Hipertensão Pulmonar de Venesa (2003) a hipertensão foi subdividida em cinco grupos: arterial, venosa, tromboembólica, relacionada a doenças respiratórias e miscelânea. No presente caso o hipertensão pulmonar se deve a problemas respiratórios.
A artrite reumatóide (AR) é uma doença sistêmica que atinge 1% da população adulta e se caracteriza principalmente por poliartrite simétrica crônica e erosiva, tendo o diagnóstico eminentemente clÃnico. Em suas fases iniciais, existe uma considerável dificuldade na identificação de elementos clÃnicos e radiológicos tÃpicos, como no nosso caso. Apesar de sua baixa especificidade (35%) e sensibilidade (50%) tem sido utilizado a dosagem do fator reumatóide IgM (FR) como meio de diagnóstico nas fases iniciais. Nos últimos anos, surgiram novos exames com melhor valor preditivo para o diagnóstico, como anticorpos contra filagrina/profilagrina e peptÃdeo citrulinado cÃclico (CCP) com sensibilidade em torno de 70% e especificidade acima de 90%. Embora com sua etiologia ainda seja desconhecida, avanços significativos têm sido feitos no esclarecimento da patogênese da AR. Há, certamente, fatores desencadeantes dos processos imunológicos e inflamatórios e uma evidente participação genética, principalmente em relação ao HLA-DR4.
As alterações extra-articulares, como fibrose pulmonar intersticial, tenossinovites, nódulos subcutâneos, linfonodopatias, alterações oftálmicas, serosites, miosites, parotidite, vasculite cutâneo-visceral e anemia, deixam o quadro clÃnico da AR bastante complexo e muitas vezes o quadro de HAP demora a ser feito e o tratamento iniciado.
Tratamento – Na fase inicial da AR – os antiinflamatórios não hormonais (AINH) continuam amplamente indicados. Se, por volta de um mês, os sintomas persistem, devem ser associadas drogas de ação lenta, conhecidas também como drogas de base na AR, os antimaláricos (hidroxicloroquina ou difosfato de cloroquina), metotrexato, sulfassalazina, sais de ouro,D-penicilamina, azotioprina e ciclosporina, sendo que estes medicamentos são utilizados nas fases crônicas da doença. Os novos conhecimento da fisiopatologia da HAP e estudos clÃnicos com novas drogas têm proporcionado uma rápida evolução do seu tratamento nos últimos anos. A vasoconstricção, o remodelamento da parede dos vasos pulmonares e a trombose são os fatores envolvidos no aumento daresistência vascular na HAP. Acredita-se que a proliferação do endotélio vascular pulmonar, decorrente da disfunção das células endoteliais com perda do controle sobre a angiogênese e a apoptose, acarreta em obliteração do lúmen vascular com diminuição e/ou interrupção do fluxo sangüÃneo pulmonar. Por outro lado, o remodelamento da média, da adventÃcia e da Ãntima dos vasos se deve, ao menos em parte, à s alterações nas células musculares lisas e nos fibroblastos, além do aumento do tecido conectivo, assim o tratamento da HAP visa diminuir os efeitos dos produtos do endotélio lesado, incluindo os derivados da prostaciclina (Epoprosterol, Treprostinil e Iloprost), que além de potentes vasodilatadores, inibem a agregação plaquetária e diminuem a proliferação das células musculares lisas das paredes das artérias e os bloqueadores dos receptores da endotelina (Bosentana, Sitaxsentana, Ambrisentana e Sildenafila). O uso clássico dos anticogulantes e bloqueadores dos canais de cálcio está sempre indicado.
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Referências
Ferreira EVM, Arakaki JSO, Neder JA – Hipertensão arterial pulmonar. Rev Bras. Med 63:38-48,2006.
Monografia elaborada pela ARTHRITIS FOUNDATION dos EUA, no ano de 2000.
Arthritis – Guidelines