05 - mar

Memória: Dúvidas a respeito. 5ª Parte – Diagnóstico

Categoria(s): Conceitos, Enfermagem, Farmacologia e Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Neurologia geriátrica, Nutrição, Terapeuta ocupacional

Esclarecimentos

Existem inúmeras doenças neurológicas ou não, que podem se manifestar com quadro demencial. Apesar da forma mais comum ser a doença de Alzheimer, cabe ao geriatra avaliar todas as possíveis doenças, potencialmente curáveis, que causam a demência. A chave do diagnóstico é o quadro clínico, pois os exames são sofisticados, caros e pouco ajudam nas fases iniciais. A seguir lembramos alguns tipos de demência mais freqüentes, alguns exames e marcadores.

81. Como é feito o diagnóstico das demências?

  • O diagnóstico das demências está fundamentado no quadro clínico apresentado pelo paciente, como o modo de instalação e progressão dos sintomas e sinais da doença, alterações nos exames neurológicos, no exame neuropsicológico e confrontração com os exames de neuroimagem. A ausência de marcador biológico específico torna impraticável a detecção precoce das demências primárias.

82. A família ajuda no diagnóstico?

  • Geralmente, os sintomas iniciais passam despercebidos. Apenas em uma fase mais avançada, quando já começa a atrapalhar as atividades da vida diária do paciente, é que familiares e amigos passam a se dar conta do declínio cognitivo. Nesta fase, os familiares podem atribuir o declínio a algum fato, como luto ou perdas físicas, porém tais fatos apenas evidenciam o quadro demencial. Também é comum que os parentes minimizem os problemas dos pacientes, tomando para si responsabilidades que eram antes atribuídas a estes.
  • Outro fato muito importante é o preconceito, os familiares têm dificuldade de expor seu parente próximo com quadros de distúrbios da função cognitiva à sociedade, retardando o diagnóstico médico.

83. Quais as condições que se confundem com um quadro de demência em estágio inicial?

  • O declínio de memória associado à idade, que faz parte do envelhecimento normal, é a condição que mais frequentemente se confunde com demência, uma vez que ambos podem apresentar queixa de déficit de memória recente apenas.
  • A diferenciação com quadros de delirium pode ser mais difícil. Delirium é um quadro agudo, com flutuações do nível de consciência ao longo de um curto período de tempo (horas ou dias) e comprometimento fundamentalmente da atenção, levando a alterações cognitivas secundárias compatíveis com o diagnóstico de demência. O caráter flutuante das alterações cognitivas afasta o diagnóstico de demência.
  • A depressão é outra enfermidade que pode se confundir com demência. A denominação pseudodemência se aplica a quadros depressivos em que a diminuição da concentração e da atenção, associada a uma letargia do pensamento e falta de interesse ou motivação, levam a alteração no desempenho intelectual e alteração de memória, simulando um quadro demencial. Muitas vezes o quadro depressivo tem de ser tratado para saber se o comprometimento cognitivo é apenas devido à depressão ou se há um quadro demencial concomitante.

84. O distúrbio de memória do adulto jovem é diferente do idoso?

  • Sim, nos adultos jovens, as queixas trazidas aos consultórios de dificuldades com a memória, de modo geral, não implicam em enfermidades específicas. São indivíduos com distúrbios afetivos, como a depressão psíquica, com estados ansiosos crônicos e submetidos a situações crônicas de ansiedade e dificuldades adaptativas na esfera emocional, quer pessoal, familiar, acadêmica ou profissional. Não apresentam distúrbios estruturais neurológicos, mas interferências no processo de aquisição e fixação da memória, resultantes da falta ou dispersão da atenção, angústia ou ansiedade crônica, além de depressão.

85. Os distúrbios comportamentais auxiliam no diagnóstico dos diferentes tipos de demência primária?

  • Sim, a presença de distúrbios comportamentais precoce ocorrem na demência frontotemporal, demência com corpos de Lewy ou secundária a doenças desmielinizantes, ou sua ausência no início do quadro demencial (doença de Alzheimer e outra demências degenerativas.

86. O que evidencia o exame neuropsicológico?

  • O exame neuropsicológico visa evidenciar os sinais de comprometimento da memória (sistema límbico), da linguagem (anomia e distúrbios semânticos, convexidade do lobo temporal) e apraxia (lobo parietal).

87. Quais são as escalas de avaliação da memória?

  • No sentido de se quantificar científicamente a capacidade congnitiva das pessoas e poder avaliar a eficácia de um tratamento podemos utilizar uma dos vários testes, como Minimetal, o inventário neuropsiquiátrico, o camcog, a escala de Pfeffer e o teste Burden Interview. É importante que o profissional se acostume com a forma de aplicação de um determinado e passa a aplicá-lo constantemente, a usar um tipo de teste diferente em cada paciente.

88. O que é o Miniexame do Estado Mental?

  • O Miniexame do Estado Mental é um instrumento utilizado para triagem e avaliação da evolução dos distúrbios cognitivos, com pontuação variando de 0 a 30. As notas de corte dependem do grau de escolaridade, sendo considerados anormais, geralmente, escores menores que 24. As escalas utilizadas nesse estudo são amplamente utilizadas em pesquisas.

89. O que é Inventário Neuropsiquiátrico?

  • O Inventário Neuropsiquiátrico é um questionário de 12 itens que possibilita determinar a presença de sintomas neuropsiquiátricos e comportamentais, sua freqüência e intensidade. A pontuação, de 0 a 144, é calculada pela multiplicação da freqüência pela intensidade dos sintomas (delírios, alucinações, agitação psicomotora, depressão, ansiedade, euforia, apatia, desinibição, irritabilidade, comportamento motor aberrante, comportamentos noturnos e alterações alimentares). Quanto maior a pontuação, maior a intensidade e freqüência dos mesmos.

90. O que é o teste Camcog?

  • O Camcog, uma entrevista estruturada baseada na seção cognitiva do Cambridge Examination for Mental Disorders of the Elderly, permite a verificação de déficits cognitivos em diferentes domínios (orientação, linguagem, memória, atenção, concentração, praxia, percepção e pensamento abstrato). A pontuação varia de 0 a 107. É descrita nota de corte de 79/80, sendo valores menores indicativos de pior desempenho.

91. O que é a Escala de Pfeffer?

  • A escala de Pfeffer, composta por dez itens, evidencia a funcionalidade através do grau de independência para realização das atividades instrumentais de vida diária. O escore mínimo é 0 e o máximo é 30. Quanto mais pontos, maior é a dependência do paciente, sendo considerada a presença de prejuízo funcional a partir de um escore de 3.

92. O que é o teste Burden Interview?

  • O teste  Burden Interview é uma entrevista de 22 perguntas que avalia o impacto de doenças mentais e físicas nos cuidadores informais. Varia de 0 a 88. Maior pontuação indica aumento na sobrecarga.

93. Alterações do exame neurológico também pode sugerir o diagnóstico do tipo de demência?

  • Sim, a presença de determinadas alterações neurológicas pode indicar o tipo de doença que está cursando com quadro demencial. Veja os exemplos:
    Doença de Creutzfeld-Jakob – mioclonia, ataxia cerebelar e amiotrofia.
    Corea de Huntignton – Paciente com movimentos coréicos, história familiar de corea e demência.
    Hidrocefalia de pressão normal – Apraxia da marcha, ou seja, ter força muscular e movimentação conservada, porém dificuldade para caminhar, associado a incontinência urinária deve sugerir em primeiro lugar hidrocefalia de pressão intermitente, mas também demências por múltiplos infartos.
    Degeneração córtico-basal - Apraxia assimétrica, distonia, mioclonia de ação e sinal da mão alienígena sugerem degeneração córtico-basal, neste caso os distúrbios cognitivos mais típicos são acalculia, déficit visuoespacial e apraxia. Déficit do olhar vertical mais acentuado para cima, sinais e sintomas frontais como perseveração, snauting e grasping com discreto déficit de memória sugere paralisia supranuclear progressiva.
    Doença de Parkinson – Quadro demencial com síndrome parkinsoniana, ou seja, rigidez, oligocinesia e sensibilidade aos neurolépticos.
    Doença dos corpusculos de Lewi – observarmos flutuação do quadro de demência, com melhoras e pioras cognitivas diárias e frequentemente os pacientes são ciumentos do cônjuge, tendo idéia recorrente de estar sendo traído.

94. Os distúrbios da percepção pode servir de diagnóstico?

  • Sim, pois ao contrário dos pacientes esquizofrênicos, os pacientes com demência têm distúrbio perceptivo menos elaborado. Assim, eles costumam achar que estão sendo roubados, isto, em geral, em consequência ao déficit de memória, uma vez que eles guardam objetos de valores em determinados lugares e não conseguem encontrá-los, culpando em geral os cuidadores.

95. Como fazer o diagnóstico clínico da demência vascular?

  • A demência vascular resulta de lesões cerebrais de etiologia vascular, embora os eventos vasculares possam passar despercebidos, geralmente com comprometimento neurológico. É importante para o diagnóstico de demência vascular o início abrupto das perdas cognitivas e o curso flutuante, com uma evolução em degraus, na dependência de cada novo evento vascular. Do ponto de vista neurológico, são comuns sintomas e sinais neurológicos focais como hemi-hipoestesia, hemiparesia, marcha em pequenos passos, hiper-reflexia, sinais pseudobulbares (disfagia, disartria e risos imotivados).

96. Como a clínica ajuda no diagnóstico de doença de Alzheimer?

  • Nos casos de doença de Alzheimer, o sintoma mais precoce que interfere nas atividades de vida diária é a perda de memória. Primeiramente a memória para fatos recentes e, posteriormente, acomete outros tipos de memória. Com o progredir do quadro demencial, além da piora da memória, aparecem distúrbios de linguagem (afasia), inabilidade para desempenhar ações motoras (apraxia), dificuldade em reconhecer pessoas e objetos (agnosia) e sintomas associados. O progredir da doença de Alzheimer é lento e contínuo, a sobrevida é bastante variável, usualmente entre cinco e seis anos após o diagnóstico

97. Quais sintomas não cognitivos pode sugerir doença de Alzheimer?

  • Os sintomas não cognitivos, ou seja, sintomas psiquiátricos e comportamentais, como por exemplo: desordens do humor (depressão), delírios ou alucinações; agressividade, perambulação, desinibição sexual e distúrbios de alimentação.

98. A dificuldade com as palavras é um tipo de demência?

  • Sim, existem dois tipos de doenças demênciais corticais que cursam com distúrbios da fala: a afasia progressiva e a demência semântica.
  • Na afasia progressiva os distúrbios isolados da linguagem persistem durante longo período sem repercussão sobre as outras áreas da cognição. Na demência semântica a instalação dos sintomas se faz de forma insidiosa e tem progressão gradual. A linguagem espontânea não fluente, linguagem espontânea vazia, perda do significado das palavras.

99. Como é a clínica da afasia progressiva?

  • Na afasia progressiva pode ocorrer anomia (falta de palavra), dificuldades na compreensão verbal, distúrbios na fluência verbal, distúrbios da memória semântica, com repercussões negativas sobre a denominação e compreensão verbal, manutenção dos aspectos fonológicos (articulação d fala) gramaticais da linguagem, assim como da compreensão de ordens complexas, presenvação da memória autobiográfica e da memória da vida cotidiana.

100. Os dementes têm muita alteração do ciclo vigília-sono?

  • Sim, é comum os pacientes dementes terem alterações do ciclo vigília-sono com o ciclo circadiano bastante alterado. Assim, vemos com frequência pacientes dormirem durante o dia e passaram a noite acordados.
  • Estas alterações prejudicam a cognição, uma vez que durante à noite com a luz mais fraca e com diminuição do alerta, o paciente em geral tem maiores alterações da percepção. Em segundo lugar, uma vez que eles passam o dia mais sonolentos, têm um nível de consciência, por consequente, mais rebaixado, levando com isso a diminuição da cognição e piora do quadro demencial.

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02 - dez

Teste de avaliação da memória

Categoria(s): Gerontologia, Neurologia geriátrica, Programa de saúde pública, Terapeuta ocupacional

Resenha: Teste de avaliação da memória

A avaliação cognitiva pode ser iniciada com testes de rastreio, como o mini-exame do estado mental (Minimental – MEEM) (Folstein et al, 1975), devendo ser complementada por testes que avaliam diferentes componentes do funcionamento cognitivo. Para esta finalidade, podem ser empregados testes breves, de fácil e rápida aplicação pelo clínico, como os de memória, os de fluência verbal e o desenho do relógio. Estes testes permitem distinguir o paciente demente do não-demente, mas não são eficazes para fazer o diagnóstico diferencial entre Alzheimer e outros tipos de demência

Escalas de avaliação cognitiva

Miniexame do Estado Mental – As escalas utilizadas nesse estudo são amplamente utilizadas em pesquisas. O Miniexame do Estado Mental é um instrumento utilizado para triagem e avaliação da evolução dos distúrbios cognitivos, com pontuação variando de 0 a 30. As notas de corte dependem do grau de escolaridade, sendo considerados anormais, geralmente, escores menores que 24.

Camcog – O Camcog, uma entrevista estruturada baseada na seção cognitiva do Cambridge Examination for Mental Disorders of the Elderly, permite a verificação de déficits cognitivos em diferentes domínios (orientação, linguagem, memória, atenção, concentração, praxia, percepção e pensamento abstrato). A pontuação varia de 0 a 107. É descrita nota de corte de 79/80, sendo valores menores indicativos de pior desempenho.

Escala de Pfeffer – A escala de Pfeffer, composta por dez itens, evidencia a funcionalidade através do grau de independência para realização das atividades instrumentais de vida diária. O escore mínimo é 0 e o máximo é 30. Quanto mais pontos, maior é a dependência do paciente, sendo considerada a presença de prejuízo funcional a partir de um escore de 3.

Inventário Neuropsiquiátrico – O Inventário Neuropsiquiátrico é um questionário de 12 itens que possibilita determinar a presença de sintomas neuropsiquiátricos e comportamentais, sua freqüência e intensidade. A pontuação, de 0 a 144, é calculada pela multiplicação da freqüência pela intensidade dos sintomas (delírios, alucinações, agitação psicomotora, depressão, ansiedade, euforia, apatia, desinibição, irritabilidade, comportamento motor aberrante, comportamentos noturnos e alterações alimentares). Quanto maior a pontuação, maior a intensidade e freqüência dos mesmos.

Burden Interview – A Burden Interview é uma entrevista de 22 perguntas que avalia o impacto de doenças mentais e físicas nos cuidadores informais. Varia de 0 a 88. Maior pontuação indica aumento na sobrecarga.

Referências:

Pfeffer RI, Kurosaki TT, Harrah CH et al. Measurement of functional activities in older adults in the community. J Gerontol 1982 37: 323-9.

Folstein MF, Folstein SE, McHugh PR. Mini Mental State: A practical method for grading the cognitive state of patients for the clinician. J Psychiatr Res 1975 12:189-98.

Taub A. Dementia caregiver burden: reliability of the Brazilian version of the Zarit caregiver burden interview. Cad Saude Publica 2004 20: 372-6.

Scazufca M. Brazilian version of the Burden Interview scale for the assessment of burden of care in carers of people with mental illnesses. Rev Bras Psiquiatr 2002 24: 12-7.

Cummings JL, Mega M, Gray K et al. The Neuropsychiatric Inventory: comprehensive assessment of psychopathology in dementia. Neurology 1994 44: 2308-14.

veja – Demência – Avaliação cognitiva

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