04 - mar

Memória: Dúvidas a respeito. 4ª Parte – Aspectos clínicos

Categoria(s): Enfermagem, Fisioterapia, Gerontologia, Neurologia geriátrica, Nutrição, Psicologia geriátrica, Terapeuta ocupacional

Esclarecimentos

61. A demência é muito frequente entre os idosos?

  • Sim, a incidência de demência aumenta consideravelmente com o avanço da idade. A prevalência de demência dobra a cada cinco anos de vida, a partir dos 65 anos de idade. No mundo, algum grau de demência ocorre em pelo menos 7% das pessoas acima de 65 anos de idade, e em torno da metade naqueles com idade superior a 85 anos.

62. Existe alguma forma de diagnosticar precocemente quem tem ou vai ter demência primária?

  • Não, a ausência de marcador biológico específico torna impraticável a detecção precoce das demências primárias.

63. Quais os mecanismo e alterações bioquímicas que causam as demências primárias?

  • A demência primária implica mecanismos de natureza degenerativa, mecanismos ligados à morte celular (apoptose), depósitos de substâncias anormais no citoplasma do neurônio (substância β-amilóide e proteína Tau na doença de Alzheimer, depósitos de α-sinucleína e parkina na doença de Parkinson e na demência com corpos de Lewy), de mecanismos genéticos (formas hereditárias da doença de Alzheimer, da doença de Parkinson e da demência com corpos de Lewy e da doença de Huntington).

64. Como podemos classificar as demências primárias?

  • De acordo com cronologia da instalação dos distúrbios cognitivos e motores, as demências primárias podem ser divididas em demências corticais e demências frontais-subcorticais.

65. Como são as demências corticais?

  • Na síndrome demencial cortical existe um predomínio da atrofia em nível do córtex, com predomínio dos sintomas e sinais cognitivos e preservação por longo período do sistema motor.

66. Quais são as doenças que causam demências corticais?

  • As mais comuns são: Doença de Alzheimer e Demência frontal e frontotemporal.

67. Como são as demências frontais-subcorticais?

  • Na síndrome demencial subcortical o predomínio da atrofia ocorre nas estruturas subcorticais e os sintomas e sinais motores geralmente precedem o aparecimento do declínio cognitivo.

68. Quais são as doenças que causam demências frontais-subcorticais?

  • As doenças mais freqüentemente implicadas são:
    · Doença de Parkinson idiopática;
    · Síndromes parkinsonianas;
    · Demência com corpos de Lewy;
    · Paralisia supranuclear progressiva;
    · Degeneração corticobasal;
    · Doença de Huntington.
  • Veja – Estudo de caso – Demência com corpos de Lewy

69. Em quais doenças demenciais ocorre inicialmente distúrbios comportamentais?

  • a presença de distúrbios comportamentais precoces ocorre na demência frontotemporal, na demência com corpos de Lewy e na demência secundária a doenças desmielinizantes.

70. Em quais demências os sinais neurológicos precedem ao declínio cognitivo?

  • Os sintomas e sinais neurológicos precedem o declínio cognitivo, mais freqüentemente, nas demências subcorticais: na demência ligada a doença de Parkinson, na demência com corpos de Lewy, na paralisia supranuclear progressiva, nas atrofias de múltiplos sistemas e na degeneração ganglionar corticobasal.

71. O que é a Demência frontal e frontotemporal (DFT)?

  • Em 1982, Arnold Pick descreveu uma demência associada à atrofia circunscrita ao lobo temporal esquerdo acompanhada de depósitos argentofílicos intranucleares (inclusões ou corpos de Pick).
  • O quadro clínico da demência frontal e frontotemporal é caracterizado por: 1) distúrbios afetivos; 2) distúrbios do comportamento; 3) distúrbios da fala; e 4) com preservação da orientação espacial e das praxias.
  • A demência frontotemporal evolui em três estágios clínicos. O primeiro estágio com duração de um a três anos, o segundo com duração de três a seis anos e o terceiro estágio pode durar de 6 a 12 anos. Caracteristicamente o exame de neuroimagem (TC ou RNM) revela atrofia frontal ou frontotemporal bilateral.

72. O que é a Doença de Parkinson idiopática (DP)?

  • A doença de Parkinson idiopática se caracteriza por uma variação clínica considerável. Ela é constituída por uma síndrome extrapiramidal caracterizada por tremor, rigidez, lentificação de movimentos (bradicinesia), dificuldade para iniciar movimento (acinesia) e de postura cuja etiologia é desconhecida. A doença habitualmente é esporádica, predomina no sexo masculino (relação homem-mulher / 3:2) e se inicia entre 50 e 65 anos de idade. A duração média da doença é de oito anos (variação entre 1 e 30 anos). Nas formas hereditárias (raras) os sintomas se iniciam na idade adulto jovem (abaixo de 45 anos). Nos pacientes com doença de Parkinson pode ocorrer graus variável de demência podem ser encontrados em 44% a 46%.

73. O que é a Doença de Huntington (DH)?

  • A doença de Huntington é hereditária autossômica dominante ligada ao cromossoma 4 (expansão do tripleto CAG no braço curto do cromossoma 4 região IT15). Ela ocorre em 3 a 10 por 100.000 habitantes, inicia-se por volta de 30 anos de idade e tem curso evolutivo de 13 a 16 anos em média. Os sintomas e sinais clínicos cardinais são:
  • · Síndrome demencial;
    · Síndrome extrapiramidal (coreoatetose);
    · Manifestações psiquiátricas graves (depressão, quadros psicóticos, suicídio, alcoolismo);
    · Atrofia do núcleo caudado na neuroimagem cerebral.

74. O que é a Paralisia Supranuclear Progressiva (PSP)?

  • Trata-se de patologia de baixa prevalência (em torno de 1.38 por 100.000 habitantes), mas isso pode estar relacionado ao subdiagnóstico da PSP. Ela ocorre mais freqüentemente no sexo masculino com idade média de 63 anos (variação de 43 a 73) e a sobrevida média é de seis anos (variação de 2 a 16,6 anos).
  • A síndrome demencial, semelhante a que ocorre na doença de Parkinson, é o aspecto mais proeminente do quadro clínico. Pacientes com PSP podem apresentar níveis elevados da proteína Tau no líquor. A RNM revela importante atrofia do tronco cerebral e os exames funcionais (SPECT/PET) objetivam hipometabolismo global, mais acentuado em lobos frontais, região anterior do cíngulo, e de núcleos da base e núcleos ventrolateral e dorsomedial do tálamo e da região superior do tronco.

75. O que é a Degeneração corticobasal (DCB)?

  • A degeneração corticobasal, ou degeneração ganglionar corticobasal (DGCB), é uma síndrome parkinsoniana rara, caracterizada por sintomas motores [síndrome parkinsoniana assimétrica (rigidez ou bradicinesia unilateral de um membro não responsiva a L-dopa, distonia ou mioclonia ou tremor unilateral ou assimétrico)] e cognitivos específicos (apraxia ideomotora assimétrica predominando no lado não dominante, síndrome da mão alienígena ou estranha (50%), evidenciada nas tarefas bimanuais, nas quais existe uma competição entre elas, o que uma mão faz a outra desfaz.
  • Os exames de neuroimagem revelam atrofia cerebral assimétrica com hipometabolismo em regiões frontoparietais e sulcos centrais (RNM: 87,5% apresentam atrofia assimétrica frontoparietal associada à atrofia da porção média do corpo caloso).

76. O que é a doença de Fahr?

  • A doença de Fahr, também conhecida com calcificação idiopática dos gânglios da base, se caracteriza por um quadro de Parkinson progressivo, calcificações extensas dos gânglios da base, iniciando-se entre 20 e 40 anos de idade e manifestando-se por sintomas psiquiátricos (depressão, mania) demência (distúrbios da atenção concentração, da memória recente, disartria e palilalia, do cálculo e da capacidade de abstração. A tomografia computadorizada revela calcificações de núcleos da base podendo estender-se aos núcleos denteados do cerebelo.
  • A degeneração corticobasal não apresenta fatores de risco detectáveis e possivelmente pode fazer parte do contexto da demência frontotemporal.

77. O que é o comprometimento cognitivo leve?

  • O Comprometimento cognitivo leve (CCL) ou também chamado de declínio cognitivo leve, deve ser considerado quando existe um comprometimento de uma área cognitiva, como a memória, porém sem os critérios para diagnóstico de demência.
  • Segundo alguns trabalhos o diagnóstico de CCL pode significar um quadro inicial de demência, ou indicar o aumento na possibilidade de desenvolver o quadro de demência de 12% a 15% neste idoso, diferente do idoso saudável que tem de 1% a 2% de chance de ter um quadro demencial, por exemplo a D. Alzheimer.
  • Nem todo paciente com declínio cognitivo leve vai desenvolver um quadro de demência, alguns simplesmente ficam estáveis e outros se recuperam.

78. O que é a demência vascular?

  • A segunda causa de perda da memória é a chamada Demência Vascular (20% dos casos). Nela, os pacientes com aterosclerose das carótidas e artérias cerebrais podem apresentar demência por múltiplos infartos cerebrais.
    Veja – Demência de causa vascular

79. O que é demência por hidrocefalia com pressão normal?

  • Quando os exames de imagens cerebrais mostram aumento dos ventrículos cerebrais deve-se pensar em demência por hidrocefalia com pressão normal, que tipicamente apresenta-se com a tríade clínica de demência, apraxia da marcha e incontinência urinária.

80. O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob?

  • A doença de Creutzfeldt-Jakob tem incidência rara, 1 caso por milhão de habitantes,e é um distúrbio causado por um príon, uma partícula proteica pequena, com capacidade de se reproduzir e causar uma demência rapidamente progressiva muitos anos após o contato com pessoa doente. O príon é responsável pela “Doença da Vaca Louca”. Os parâmetros do exame do líquido cefalorraquidiano geralmente estão normais, um pequeno aumento das proteinas pode estar presente. A enolase neurônio-específica, uma enzima encontrada em neurônios e células neuroendócrinas, encontra-se bastante elevada no líquido cefalorraquidiano dos pacientes com doença de Creutzfeldt-Jakob.

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28 - set

Comprometimento Cognitivo Leve no Idoso

Categoria(s): DNT, Neurologia geriátrica, Saúde Geriátrica, Terapeuta ocupacional

Painel

Colaboradora : Dra Mônica Cristine Jove Motti *

* Médica geriatra

cognitivoO Comprometimento cognitivo leve (CCL) ou também chamado de declínio cognitivo leve, deve ser considerado quando existe um comprometimento de uma área cognitiva, como a memória, porém sem os critérios para diagnóstico de demência.

Segundo alguns trabalhos o diagnóstico de CCL pode significar um quadro inicial de demência, ou indicar o aumento na possibilidade de desenvolver o quadro de demência de 12% a 15% neste idoso, diferente do idoso saudável que tem de 1% a 2% de chance de ter um quadro demencial, por exemplo a D. Alzheimer.

Nem todo paciente com declínio cognitivo leve vai desenvolver um quadro de demência, alguns simplesmente ficam estáveis e outros se recuperam. Porém na tentativa de detectarmos quem são aqueles idosos que podem evoluir para a gravidade da doença, nos estudos atuais foram determinantes: a idade avançada; um desempenho pior em testes de memória semântica; a presença do alelo E4 da apolipoproteina E e alterações do volume hipocampal (atrofia).

Quadro Clínico

Três formas são descritas, primeiro a forma amnéstica onde o prejuízo cognitivo se restringia a alterações de memória, hoje inclui-se a forma não amnéstica em que uma outra função que não a memória esta comprometida e finalmente a forma de multidomínios em que mais de uma função cognitiva pode estar envolvida, porém sem preencher os critérios de demência.

Critérios para o Diagnóstico

1- Queixa de falta de memória, confirmada por um cuidador
2- Alteração objetiva da memória
3- Função cognitiva geral normal
4- Atividade de vida diária intactas ou com um pouco de dificuldade
5- Ausência de demência.

Exames para investigação

Hemograma completo; Função tireoideana; Função renal; glicemia; dosagem de vitamina B12 e ácido fólico; sorologia para sífilis e HIV; Exame radiológico.

Diagnóstico diferencial

1-Déficites sensoriais
2-Doenças psiquiátricas- ansiedade e depressão
3-Doenças sistêmicas
4-Doenças Neurológicas
5- Hipoxemia- ICC; arritmias; hipotensão postural;DPOC; apnéia do sono
6- Medicamentos – anticolinérgicos, os anticonvulsivantes, as drogas sedativas e o álcool.

Tratamento

Se possível aumento das atividades de estimulação intelectual;
Atividades físicas regulares;
Técnicas de reabilitação cognitiva;
Farmacoterapia: uso de donepezil (inibidor da colinesterase) está em estudo; outras drogas como antiinflamatórios, estrógenos, estatinas, antiamilóide, antioxidantes como vitamina E, nootrópicos e AMPArkinas

Referências:

Magaldi, RM – Comprometimento Cognitivo Leve. Atualizações Diagnósticas e terapêuticas em Geriatria, cap.40, pág.385-390, Atheneu,2007

Bertolucc, PHF e Okamoto,IH – Perda de memória do idoso; UNIFESP- Psiquiatria na prática médica; atualização 2001 [on line]

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