Resenha
O mieloma múltiplo (MM) é uma doença hematológica das chamadas Síndrome Mieloproliferativas crônicas *, que se caracteriza pela proliferação neoplásica de clones de células plasmáticas, com produção de imunoglobulina monoclonal. O pico de incidência dessa doença ocorre na sétima década da vida, sendo rara antes dos 40 anos. Atinge, preferencialmente, o sexo masculino e os pacientes de raça negra.

As células plasmáticas (Figura superior mostra um plasmócito normal rodeado de hemáceas) fazem parte do sistema imunológico do corpo. Elas são produzidas na medula óssea, sendo liberadas para a corrente sangüínea. Normalmente, as células plasmáticas constituem uma porção muito pequena (menos de 5%) das células da medula óssea. Os portadores de mieloma têm uma produção aumentada de células plasmáticas e, portanto, um número aumentado dessas células na medula óssea (Figura inferior) que pode variar de 10% a 90%.
Quando ocorre esse aumento de células plasmáticas, essas podem se acumular na medula óssea (intramedular) ou em outras localizações (extramedular), habitualmente nos ossos. Tais acúmulos de células plasmáticas são denominados plasmocitomas.
O fato do paciente apresentar um acúmulo de plasmócitos em um único local (um único tumor localizado) é considerado um sinal de que o paciente tem um risco significativo de um dia desenvolver mieloma múltiplo. Sendo assim, esse acúmulo local não é considerado MM. O MM é caracterizado por múltiplas lesões líticas (ósseas) e/ou proliferação difusa de células plasmáticas na medula óssea.
Clínica – Os sinais e sintomas mais freqüentes são: dores ósseas que não respondem ao uso medicações para dor ou fraturas ósseas patológicas isto é que ocorrem com pequenos traumas e alterações bioquímicas do sangue ou da urina.
Lesões osteolíticas – Quando há mais do que 30% de células plasmáticas, podem aparecer lesões ósseas disseminadas muito parecidas com uma osteoporose severa. As lesões líticas podem ter aparência de mancha escura ao raio-X. Essas lesões enfraquecem o osso e, como resultado, ocorrem dores ósseas e/ou fraturas patológicas que são os primeiros sintomas perceptíveis do mieloma.
As células plasmáticas produzem citoquinas chamadas de fatores de ativação dos osteoclastos (FAOs), essas substâncias estimulam o crescimento e a atividade desta célula denominada osteoclasto, e esse estímulo faz com que ocorram as lesões ósseas.
Quando o osso é reabsorvido, o cálcio é liberado em níveis elevados na corrente sangüínea. Essa condição é chamada de hipercalcemia que, quando descontrolada pode causar efeitos colaterais graves, incluindo insuficiência renal.
Proteína de Bence-Jones – As células plasmáticas secretam proteínas chamadas de anticorpos (imunoglobulinas), que são uma parte chave do sistema imunológico. O aumento das proteínas secretadas pelas células plasmáticas malignas e detectadas no sangue. Estas são denominadas proteínas M. Fragmentos dessas proteínas, chamadas de cadeias leves ou proteína de Bence-Jones, são evidenciados em exames de urina. Por essa razão, em muitos pacientes o diagnóstico de mieloma é suspeitado pela primeira vez quando, em exames de rotina de sangue ou urina, são demonstrados níveis elevados de proteínas.
Síndrome de hiperviscosidade – Uma ocorrência freqüente é a síndrome de hiperviscosidade, quando a imunoglobulina monoclonal do mieloma (proteína M), IgG ou IgA, excede ao valor de 5 g/dl. Nesse caso, podem ocorrer sintomas de fadiga, dispnéia, confusão mental e tendência a sangramentos. Essas proteínas produzidas tendem a se polimerizar e, assim, promover o aumento da viscosidade sanguínea. Nesses casos, está indicada a plasmaferese terapêutica e a quimioterapia associada, a fim de diminuir os níveis de imunoglobulinas.
Alterações hematológicas – O aumento das células plasmáticas, do cálcio e o excesso de proteínas no sangue podem danificar as células sangüíneas vermelhas e brancas, levando, muitas vezes, à anemia e fadiga. Podem também alterar o sistema imunológico, predispondo o paciente à infecção. Também é comum a trombocitopenia (diminuição no número de plaquetas), podendo causar sangramentos.
Anemia - A anemia está presente em 60% dos casos ao diagnóstico e decorre da diminuição da produção das hemácias secundária à infiltração medular por plasmócitos e pela diminuição da produção de eritropoetina nos pacientes com insuficiência renal, comum no MM. O volume plasmático, em geral, está aumentado, principalmente às custas de IgA ou IgG, levando à redução de 5% a 10% nos valores do hematócrito. Geralmente, o grau de anemia é moderado e bem tolerado, mesmo naqueles pacientes com insuficiência cerebrovascular ou coronária. A anemia intensa em geral é revertida com a instituição do tratamento quimioterápico e com a melhora da função renal.
Amiloidose – Outra complicação que pode ocorrer nesses pacientes, em 5% a 10% dos casos, é a presença de amiloidose. Essa complicação pode envolver o tecido cardíaco, os rins e os nervos. O acometimento cardíaco atinge o miocárdio, sendo responsável pelo desenvolvimento de insuficiência cardíaca congestiva e, às vezes, alterações do tecido de condução. O diagnóstico é histológico, com a demonstração do depósito amilóide nos tecidos por meio da coloração do vermelho-congo e de exames ópticos que utilizem a luz polarizada.
Cardiopatia – A doença cardíaca associada ao mieloma é pouco comum, uma vez que a infiltração do miocárdio e do pericárdio é rara. Os pacientes apresentam sintomas cardiovasculares com pouco freqüência, exceto se a anemia for pronunciada. É descrita, na literatura, a presença de tamponamento cardíaco e fibrilação atrial de difícil tratamento, associada a infiltração do nodo sinoatrial.
Diagnóstico
A confirmação do diagnóstico de MM requer a ocorrência de pelo menos dois dos seguintes itens:
1. Uma amostra de medula óssea com células plasmáticas acima de 10% (geralmente acima de 20 a 30%). Essas células plasmáticas normalmente são monoclonais.
2. Uma série de raio-X de todo o esqueleto que mostra lesões líticas em pelo menos três ossos diferentes.
3. Amostras de sangue ou urina com níveis anormalmente elevados de anticorpos (imunoglobinas) ou proteínas de Bence-Jones: secretadas por células plasmáticas e detectadas por um processo chamado eletroforese de proteínas.
4. Uma biópsia mostrando um tumor de células plasmáticas (plasmocitoma) dentro ou fora do osso. Tratamento
Os esquemas de tratamento do MM dependem do estadiamento e do grau de agressividade da doença. Por ser uma doença crônica deve ser tratada e controlada por tempo muito prolongado e o paciente poderá ter uma vida normal, com as atividades pouco interrompidas se seu tratamento e seguimento for realizado corretamente.
Os tratamentos disponíveis para o MM, que até o momento visam o controle dos sintomas, são: quimioterapia; radioterapia; interferon Alfa (como tratamento de manutenção); transplante de Medula Óssea e transplante de células tronco-periféricas (TCTP); coleta de células tronco-periféricas; plasmaferese.
Controle dos sintomas
A administração de drogas para controlar a hipercalcemia, a destruição do osso, dores e infecções., como os bisfosfonatos que podem reduzir a destruição óssea significativamente e melhorar a hipercalcemia.
Os antibióticos e as vacinas podem desempenhar um papel importante na prevenção e combate às infecções.
A eritropoetina pode ser utilizada para melhorar a anemia e os sintomas que a acompanham por exemplo, fadiga, falta de apetite.
A cirurgia pode ser utilizada para diminuir ou retirar os tumores, reparar alterações ósseas e reduzir a dor. Uma gama de medicações e procedimentos contra a dor está disponível para aliviar o desconforto.
* As síndromes mieloproliferativas constituem um grupo de doenças hematológicas, caracterizadas por proliferação clonal de um ou mais setores hematopoéticos da medula óssea e, em alguns casos, do baço e/ou fígado. Essas doenças estão inter-relacionadas, de modo que uma entidade pode evoluir para outra durante o processo.
Referências:
Hoffbrand AV, Pettit JV. Essential Haematology. Blackwell Scientific, 1994;272-85.
Hoffman R, Benz Jr EJ, Shettil SJ et al. Hematology. New York: McGraw-Hill, 1995.
Mandelli F. Multiple myeloma. Clin Haematol 1995;8(4):845-52.