Arquivo de Programa de saúde

14
mai

 O envelhecimento – Parte 1. Modificações gerais

Categoria(s): Demografia, Gerontologia, Programa de saúde, Sociologia

Envelhecimento

As modificações decorrentes da senescência

Colaboradora: Angela Terezinha de Favari Fornari *

* Nutricionista e pós-graduada do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp

Projeções demográficas estimam que em 2025 o Brasil deverá alcançar a marca de 33 milhões de pessoas idosas (KALACHE, VERAS, RAMOS, 1987; WHO, 2002). Como o processo natural de envelhecimento envolve muitos transtornos tanto de ordem psíquica, física e social, usualmente inter-relacionados, com repercussões nas condições de saúde e nutrição do idoso, é necessário obter informações nutricionais referentes a este grupo, para começar a avaliar sua problemática específica e enfrentar os desafios da pesquisa no campo de nutrição e envelhecimento (OLIVEIRA et al, 2006; SANTOS e JAHN, 2006).

Nos idosos assume especial relevância a definição de saúde da Organização Mundial de Saúde: “aquele estado em que existe uma situação ótima de bem estar físico, mental e social e não somente ausência de enfermidade”, ou seja, a saúde dos idosos se apóia nestes quatro pilares: ausência de doença, independência física, bem-estar psíquico e boa cobertura social (SERRA REXACH e CUESTA TRIANA, 2007).

O envelhecimento é um processo natural que submete o organismo a diversas alterações anatômicas e funcionais. Essas mudanças são progressivas e ocasionam efetivas reduções na capacidade funcional, desde a sensibilidade do paladar até os processos metabólicos do organismo (FREITAS et al., 2002).

Com o fato de os idosos viverem maior tempo, podem tornar-se mais vulneráveis a aquisição de patologias crônico-degenerativas, que tendem a gerar dependência funcional, bem como econômica. O envelhecimento também gera alterações funcionais que podem comprometer vários órgãos, entre os quais o acometimento dos padrões de postura e de equilíbrio, expondo-os às quedas (SANTOS e JAHN, 2006).

Hoyl (2000) esclarece que, à medida que envelhecemos ocorre uma diminuição fisiológica normal e um aumento na prevalência de algumas patologias, porém muitas dessas ocorrências que se pensava serem próprias do envelhecimento hoje se sabe serem doenças e, somente as alterações que estão presentes em todos os indivíduos que envelhecem e que evoluem com a idade é que representam o envelhecimento propriamente dito. Esse autor apresenta as seguintes características do envelhecimento:
-    Universal: próprio de todos os seres vivos;
-    Irreversível: diferentemente das enfermidades, não pode ser detido nem revertido;
-    Heterogêneo e individual: cada espécie tem uma velocidade característica de envelhecimento, porém a velocidade de diminuição funcional varia enormemente de indivíduo a indivíduo e de órgão a órgão numa mesma pessoa;
-    Deletério: leva a uma perda de função progressiva. Diferencia-se do processo de crescimento e desenvolvimento nos quais a finalidade é alcançar o amadurecimento da função;
-    Intrínseco: Não é devido a fatores ambientais modificáveis. Embora se observe uma aumento progressivo na expectativa de vida, a sobrevida máxima do ser humano alcança cerca de 118 anos.

Mudanças biológicas

Embora o passar do tempo seja o mesmo para todo o corpo humano, nem todos os órgão sofrem seus efeitos da mesma forma. Esses efeitos costuma ter um caráter universal, progressivo e em muitos casos irreversível.

É muito comum, ocorrerem distúrbios cardiovasculares, pulmonares, gastrintestinais, geniturinários, hematológicos, músculos-esqueléticos, endócrinos e metabólicos, doenças infecciosas, distúrbios neurológicos, psiquiátricos, cutâneos, oculares e do sono no idoso, o que resulta em mudanças significativas em sua vida, levando-o até mesmo ao isolamento. Esse quadro de alterações pode resultar em perda de função, que, sem intervenção adequada e em tempo hábil, causa a institucionalização precoce dos idosos. Desse modo são primordiais a promoção e a atenção à saúde ao idoso, de maneira que englobe medidas preventivas, restauradoras e reabilitadoras (IORIS apud NORONHA, 2007).

Alterações metabólicas

A energia mínima necessária para manutenção da vida, chamado metabolismo basal, diminui entre 10 a 20% entre os 30 e 75 anos, devido à menos massa muscular. Embora a absorção de hidratos de carbono não se altere até idades muito avançadas, a intolerância a lactose ocorre freqüentemente devido a diminuição da atividade da lactase. A incidência de diabetes aumenta e, muitas vezes, relacionada ao sobrepeso. A concentração plasmática de colesterol se modifica variando com a idade e o sexo, tendendo a diminuir progressivamente a partir dos 70 anos. No metabolismo das proteínas, o músculo perde importância para o fígado e o intestino. Em geral pode-se afirmar que o turnover protéico está aumentado na pessoa idosa (PALLAS, 2002). O peso global do fígado diminui e a capacidade de metabolização hepática é menor provocando alteração na farmacocinética de muitas drogas. A excreção de sai biliares também diminui com conseqüências na digestão. Tanto o pâncreas endócrino quanto o exócrino sofrem mudanças, com uma grande parte do tecido funcional substituída por tecido fibroso, provocando conseqüências tanto na digestão quanto na produção de insulina (GEIS, 2003)

Alterações na estatura e peso corporal

A partir dos 60 anos há uma diminuição progressiva da altura, podendo perder-se 1 cm ou mais pode década. Esta diminuição relaciona-se com a curvatura da coluna vertebral (lordose ou cifose) e o achatamento das vértebras. Por outro lado, o peso corporal que aumentou progressivamente até os 40-50 anos, se estabiliza e, a partir dos 70 anos começa a diminuir gradativamente (PALLÀS, 2002).

A porcentagem de gordura corporal aumenta e, enquanto no adulto fica em torno de 15% do peso corporal, em um idoso pode chegar a 25-30%, sendo que sua distribuição também se altera, com diminuição da gordura subcutânea e das extremidades e com maior concentração na região abdominal. Estas alterações podem estar relacionadas com a menor atividade física e a mudanças hormonais.

Diminuição da água corporal

De acordo com Kamimura et al. (2002) a massa tecidual humana pode ser dividida em dois grupos: massa gorda, composta pela gordura corporal, e massa magra, livre de gordura e constituida por proteínas, água intra e extracelular e conteúdo mineral ósseo. Em um adulto jovem, a água corporal total representa até 70% do peso corporal, porém, nos idosos, esta proporção diminui entre 10 1 15%, principalmente em decorrência da redução da água intracelular pela perda de massa muscular (PERIS e LESMES, 2007).

Referências:

FREITAS, E. V. et al. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Kogan, 2002.

GEIS, Pilar P. Atividade Física e saúde na terceira idade: teoria e prática. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2003.

HOYL, Trinidad M. Teorías del proceso de envejecimiento. Envejecimiento Biológico. In: MARIN, Pedro P.; ESPINOLA, Homero G. (ed.) Manual de Geriatria y Gerontologia año 2000. Escuela de Medicina Pontifícia Universidad Católica de Chile.

KALACHE, A.; VERAS, R.P.; RAMOS, L.R. O envelhecimento da população mundial. Um desafio novo. Rev. Saúde Públ., S. Paulo, v. 21, p. 200-210, 1987.

KAMIMURA, Maria A.; BAXMANN, Alessandra; SAMPAIO, Lilian R. et al. Avaliação Nutricional. In: CUPPARI, Lilian. Guia de nutrição: nutrição clínica no adulto. Barueri: Manole, 2002. p. 71-109.

NORONHA, Fabiana B. Sarcopenia. 2007. Monografia (Pós-Graduação em “Saúde e Medicina Geriátrica”) – Faculdades Integrada Metropolitanas de Campinas, Campinas.

OLIVEIRA, Giovani M.; MENEZES, Honório S.; SCHUH, Alexandre; URMESBACH, Carmem B.; KILPP, Débora. O estado nutricional do idoso institucionalizado no Lar Moriá. Arquivos Médicos. v. 9, n. 1, p. 7-18, mai., 2006.

PALLÀS, Mercê C. Importancia de la nutrición en la persona de edad avanzada. Barcelona: Novartis, 2002.

PERIS, Garcia.; LESMES, Breton. Composición corporal. In: PLANAS, Mercè (Coord.). Valoración nutricional en el anciano: Recomendaciones prácticas de los expertos en geriatría y nutrición. Documento de Consenso. Sociedad Española de Nutrición Parenteral y Enteral (SENPE), Sociedad Española de Geriatría y Gerontología (SEGG), Novartis. 2007.

SANTOS, Alessandra R.; JAHN, Alice C. Envelhecimento humano e distúrbios do equilíbrio: estudo em grupo de idosos institucionalizados. Arquivos Médicos da Universidade Luterana do Brasil (ULBTA), v. 9, n. 1, p. 19-31, mai. 2006.

SERRA REXACH, José A.; CUESTA TRIANA, Federico. Valoración Geriátrica Integral. In: PLANAS, Mercè (Coord.). Valoración nutricional en el anciano: Recomendaciones prácticas de los expertos en geriatría y nutrición. Documento de Consenso. Sociedad Española de Nutrición Parenteral y Enteral (SENPE), Sociedad Española de Geriatría y Gerontología (SEGG), Novartis. 2007.

WHO – World Health Organization, Tufts University. Keep fit for life: meeting the nutritional needs of older persons. Geneva: World Health Organization; 2002. Disponível em http://www.who.int/nutrition/publications/olderpersons/en/index.html. Acesso em 24/08/2008.

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01
mai

 Hanseníase – Parte 1. Lepra um problema de saúde pública

Categoria(s): Dermatogeriatria, Programa de saúde

Hanseníase

O fim da marca do preconceito

Colaboradora: Larissa Regina Alves de Carli Zanca *

* Médica e pós-graduada do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp

Lepra

A Hanseníase é uma das doenças mais antigas da humanidade, popularmente conhecida como lepra, causa lesões na pele, ataca o sistema nervoso periférico, causando deformações quando não tratada no início. É uma doença infecto-contagiosa transmissível e sua transmissão ocorre através das vias aéreas, principalmente pelo nariz por onde as bactérias eliminadas por gotículas da fala são inaladas por outras pessoas penetrando o organismo pela mucosa do nariz. Outra forma de contágio é o contato direto com a pele através das lesões do doente.

O período de incubação e desenvolvimento da hanseníase compreende um período que varia de 2 a 7 anos e entre os fatores de incidência dessa patologia estão o baixo nível sócio-econômico da população, a desnutrição e a superpopulação doméstica. Com isso, a doença ainda se manifesta em grande número nos países subdesenvolvidos.

A hanseníase é uma patologia fácil de se diagnosticar e seu tratamento leva à cura, no entanto, quando o seu diagnóstico é tardio e o início do tratamento retardado, o indivíduo pode ter graves conseqüências para a família do portador, bem como para o doente devido a lesões que causam deformações, principalmente nos pés e mãos, incapacitando-o fisicamente para o trabalho.

Enquanto a doença se torna mais rara em alguns países ou regiões, quinze países com mais de 1 milhão de habitantes foram considerados endêmicos pela Organização Mundial da Saúde ao final de 2000. No mundo existiam 597.232 casos registrados, e foram diagnosticados 719.330 casos novos. O Brasil detém o segundo lugar no mundo, em número absoluto de casos (77.676 casos – 4,6/ 10.000) e índice de detecção considerado muito alto (2,41/10.000 – 41.070 casos novos).

Segundo o Ministério da Saúde (2001), a hanseníase no Brasil ainda é um problema de saúde pública, apesar da redução drástica no número de casos – de 17 para cinco por 10 mil habitantes – no período de 1985 a 1999. O Brasil atualmente dispõe de condições altamente favoráveis para a sua eliminação como problema de saúde pública. Diante disso, o Ministério da Saúde, em novembro de 2002, lançou o Plano Nacional de Mobilização e Intensificação das Ações para a Eliminação da Hanseníase no Brasil, que reúne os mais diversos segmentos sociais, bem como os gestores do Sistema Único de Saúde e os profissionais de saúde e, com isso, o governo brasileiro assumiu em janeiro de 2002, na ocasião da reunião da Aliança Global para a Eliminação da Hanseníase, o compromisso de mobilizar-se para a erradicação da mesma no território brasileiro, através de ações preventivas, promocionais e curativas realizadas pelas Equipes de Saúde da Família, com envolvimento e comprometimento de todos os profissionais, principalmente dos agentes comunitários de saúde, pois os mesmos têm um contato maior com as famílias a nível domiciliar.

Esse envolvimento é imprescindível, pois os pacientes que sofrem de Hanseníase muitas vezes demoram iniciar o tratamento devido a alguns fatores como: o seu período de incubação, sua evolução arrastada, o preconceito da sociedade e até mesmo o preconceito dos familiares e do doente, e isso impede que a doença seja tratada em fase inicial.

Referências:

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Área Técnica de Dermatologia Sanitária. Guia para utilização de medicamentos e imunobiológicos na área de hanseníase. Brasília, Ministério da Saúde, 2001.
_______. Ministério da Saúde. Guia para o controle da Hanseníase. Brasil, 1983.
_______. Arcoverde, W. M. Guia para o controle da Hanseníase. Brasil, 1984. Brasil.
_______. Saúde para a vida treinamento para prevenção de incapacidades em hanseníase.Brasília: Ministério da Saúde e American Leprosy Mission; 1998.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE – OMS. Working paper: currents status in reactions and nerve damage in leprosy – What next? Report of the Scientific Working Group on Leprosy. Geneva, Switzerland, 2005.

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02
dez

 Teste de avaliação cognitiva

Categoria(s): Gerontologia, Neurogeriatria, Programa de saúde

Resenha

A avaliação cognitiva pode ser iniciada com testes de rastreio, como o mini-exame do estado mental (Minimental – MEEM) (Folstein et al, 1975), devendo ser complementada por testes que avaliam diferentes componentes do funcionamento cognitivo. Para esta finalidade, podem ser empregados testes breves, de fácil e rápida aplicação pelo clínico, como os de memória, os de fluência verbal e o desenho do relógio. Estes testes permitem distinguir o paciente demente do não-demente, mas não são eficazes para fazer o diagnóstico diferencial entre Alzheimer e outros tipos de demência

Escalas de avaliação cognitiva

Miniexame do Estado Mental – As escalas utilizadas nesse estudo são amplamente utilizadas em pesquisas. O Miniexame do Estado Mental é um instrumento utilizado para triagem e avaliação da evolução dos distúrbios cognitivos, com pontuação variando de 0 a 30. As notas de corte dependem do grau de escolaridade, sendo considerados anormais, geralmente, escores menores que 24.

Camcog – O Camcog, uma entrevista estruturada baseada na seção cognitiva do Cambridge Examination for Mental Disorders of the Elderly, permite a verificação de déficits cognitivos em diferentes domínios (orientação, linguagem, memória, atenção, concentração, praxia, percepção e pensamento abstrato). A pontuação varia de 0 a 107. É descrita nota de corte de 79/80, sendo valores menores indicativos de pior desempenho.

Escala de Pfeffer – A escala de Pfeffer, composta por dez itens, evidencia a funcionalidade através do grau de independência para realização das atividades instrumentais de vida diária. O escore mínimo é 0 e o máximo é 30. Quanto mais pontos, maior é a dependência do paciente, sendo considerada a presença de prejuízo funcional a partir de um escore de 3.

Inventário Neuropsiquiátrico – O Inventário Neuropsiquiátrico é um questionário de 12 itens que possibilita determinar a presença de sintomas neuropsiquiátricos e comportamentais, sua freqüência e intensidade. A pontuação, de 0 a 144, é calculada pela multiplicação da freqüência pela intensidade dos sintomas (delírios, alucinações, agitação psicomotora, depressão, ansiedade, euforia, apatia, desinibição, irritabilidade, comportamento motor aberrante, comportamentos noturnos e alterações alimentares). Quanto maior a pontuação, maior a intensidade e freqüência dos mesmos.

Burden Interview – A Burden Interview é uma entrevista de 22 perguntas que avalia o impacto de doenças mentais e físicas nos cuidadores informais. Varia de 0 a 88. Maior pontuação indica aumento na sobrecarga.

Referências:

Pfeffer RI, Kurosaki TT, Harrah CH et al. Measurement of functional activities in older adults in the community. J Gerontol 1982 37: 323-9.

Folstein MF, Folstein SE, McHugh PR. Mini Mental State: A practical method for grading the cognitive state of patients for the clinician. J Psychiatr Res 1975 12:189-98.

Taub A. Dementia caregiver burden: reliability of the Brazilian version of the Zarit caregiver burden interview. Cad Saude Publica 2004 20: 372-6.

Scazufca M. Brazilian version of the Burden Interview scale for the assessment of burden of care in carers of people with mental illnesses. Rev Bras Psiquiatr 2002 24: 12-7.

Cummings JL, Mega M, Gray K et al. The Neuropsychiatric Inventory: comprehensive assessment of psychopathology in dementia. Neurology 1994 44: 2308-14.

veja – Demência – Avaliação cognitiva

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24
nov

 Estudo de caso – Pneumonite

Categoria(s): Caso clínico, Pneumogeriatria, Programa de saúde

Interpretação clínica

  • Homem de 62a, procurou-o por sentir intensa falta de ar e ocasionalmente tosse com escarro esbranquiçado. Nega “chiado”  ou escarro com sangue. Não apresentou febre. Tabagismo desde os 16 anos, atualmente 1 maço por dia. Trabalhava em um negócio da familia como escultor de monumentos desde o final da adolescência, até que aposentou, aos 58 anos, por “bronquite crônica”. O exame físico mostra pulmão em quilha de navio, estertores bilaterais no final da inspiração. Está emagrecido e com dedos em baqueta de tambor.
  • A radiografia de tórax revela opacificações nodulares arredondadas de 1 a 3 mm nos terços inferior e médio dos pulmões, tumoração mal definida de 8 cm por 6 cm no ápice pulmão direito.
  • Após dois meses da consulta o paciente falece.

Qual o possível achado na necropsia?

O paciente deve ter silicose em fase avançada com fibrose maciça progressiva (FMP). Ele teve extensa exposição à poeira de sílica durante anos no seu trabalho.

A “silicose simples” com nódulos pulmonares pequenos não está associada a sintomas ou anormalidades fisiológicas, no entanto, com a exposição continuada e o desenvolvimento de FMP, ocorrem os sintomas incapacitantes. A FMP é o termo genérico aplicado a uma reação fibrosante confluente no pulmão que pode ser uma complicação de qualquer pneumoconiose, apesar de ser mais comum na silicose e pneumoconiose dos trabalhadores com carvão.

Papel da sílica

A quantidade de sílica retida nos pulmões é determinada pela concentração desta no ar ambiente, pela duração da exposição, pelos efeitos adicionais de outros irritantes (p. ex, fumo) e, pela eficácia dos mecanismos de limpeza das vias aéreas (aparato mucociliar). As partículas mais perigosas variam de 1 a 5 mm de diâmetro, pois podem alcançar as vias aéreas terminais e os sacos alveolares, acomodando-se em seus revestimentos.

A sílica é encontrada tanto na forma de cristais como na forma amorfa, mas nas formas de cristais (quartzo, cristobalita e tridimita) são as que mais promovem da fibrose (fibrogênica), revelando a importância da forma física e das propriedades de superfície na patogênese da lesão pulmonar.

Após a inalação do quartzo, as partículas interagem (reatividade físico-química) com as células epiteliais, causando lesão direta sobre os tecidos e às membranas celulares através da interação com radicais livres e outros grupos químicos na superfície da partícula. O dano resultante na membrana celular pode causar morte da célula.

Apesar dos macrófagos pulmonares fagocitarem as partículas de sílica e poderem sucumbir a seus efeitos tóxicos, a sílica causa a ativação e liberação de mediadores (interleucina 1; fator de necrose tumoral, fibronectina, mediadores lipídicos, radicais livres derivados do oxigênio e citocinas fibrogênicas), que podem causar efeitos fibrogênicos causando a FMP.

As lesões decorrentes das pneumoconiose, preferentemente, localizam-se nos interstícios e saco alveolar levando à pneumonite intersticial, com pouca ação sobre os bronquios. Dai o uso dos broncodilatadores não trazerem tanto benefício. Em fases precoces da doença a retirada do agente agressor, ou seja, afastar-se do local poluído pela sílica, e moduladores da reação imunológica (corticóides) pode retardar a evolução do caso para a fibrose maciça pulmonar.

Tratamento – O tratamento é com suporte fisioterápico e oxigênioterapia, nos casos mais graves.

Veja – Doença Pulmonar Intersticial

Referências:

Wagner GR – Asbestosis and silicosis. Lancet 1997;349:1311-1315.

Mossman BT, Chung A – Mechanisms in the pathogenesis of asbertosis and silicosis. Am J Respir Crit Care Med 1998;157:1666-1680.

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28
set

 Incontinência Anal nos idosos – Parte 3. Tratamento

Categoria(s): Fisioterapia, Gastrogeriatria, Programa de saúde

Resenha

Incontinência anal em Idosos – Qualidade de vida

Colaboradora: Natália Azambuja Mendonça *

* Enfermeira e pós-graduanda do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp  

Tratamento 

O tratamento da IA poderá envolver o uso de terapêutica farmacológica, procedimentos cirúrgicos, reabilitação da musculatura do assoalho pélvico, reeducação alimentar, ou ainda, o uso de dispositivos que minimizem os sintomas e suas conseqüências, como plug anal.

O tratamento não cirúrgico da IA destina-se aos casos menos graves, onde a avaliação clínica e os métodos diagnósticos não identificaram lesões estruturais ou funcionais importantes.

Aspectos medicamentosos

      Alguns pacientes requerem agentes farmacológicos para aumentar a consistência das fezes ou reduzir a motilidade do cólon. Os agentes mais utilizados agem na redução da fluidez das fezes, na redução das secreções intestinais e proliferação microbiológica. Medicações anti-diarrêico são usados para reduzir a motilidade intestinal e devem, portanto, ser usados somente para diarréia não infecciosa. Dentre os agentes anti-motílicos, loperamida é a droga escolhida devido a sua excelente segurança e a eficácia no tratamento de diarréia crônica. Loperamida age na redução da atividade peristáltica a qual reduz a urgência fecal, a freqüência de defecação e o volume das fezes. Além disso, loperamida, aumenta o tônus do esfíncteres e pode reduzir a sensitividade dos reflexos reto-anal, ambos podem suportar a continência durante episódios de diarréia. Loperamida, entretanto, pode causar dor abdominal e constipação caso não seja dosada corretamente.

      Atualmente, terapias farmacológicas para tratamento da IA tem sido limitada a agentes anti-diarreicos, entretanto gel phenilefrine esta sob pesquisa como um agente estimulante do esfíncter. Phenilefrine é um adrenérgico alfa 1 usualmente utilizado como descongestionante nasal e está sendo avaliado pela sua capacidade de aumentar o tônus do esfíncter anal interno.

      Em um estudo envolvendo pacientes com deficiência muscular no esfíncter interno, aplicação tópica do gel em concentrações em 10 e 40% aumenta a pressão anal em níveis significativos, e com concentrações de 30 a 40 % aumenta o tônus a níveis normais. O único efeito adverso é queimação localizada que é amenizada após 20 min. Esse agente é promissor para indivíduos com incontinência resultante de baixa pressão do canal anal, entretanto, estudos mais detalhados são necessários e o seu uso é considerado experimental.     

      Injeção de silicone - A injeção de silicone tem demonstrado ser uma opção eficaz. O procedimento é realizado com o paciente na posição de decúbito ventral sob anestesia local. É realizado ambulatorialmente. A utilização do silicone tem como vantagens baixo índice de complicações infecciosas e representa uma opção eficaz e segura.  

     Biofeedback - O biofeedback vem se constituindo um importante meio terapêutico para IA. A técnica vem sendo utilizada desde a década de 70. É feita com aparelho de manometria sendo introduzida uma sonda intra-retal, e o paciente responde contraindo a musculatura esfincteriana a estímulos verbais, visuais ou auditivos. O paciente é colocado na posição lateral, e é introduzido um cateter no reto o qual é tracionado lentamente, até o balonete insuflado localizar-se na zona de alta pressão no canal anal; é solicitado que o paciente contraia a musculatura esfincteriana, enquanto o mesmo foi estimulado a atingir gradualmente, maiores pressões de contração máxima do esfíncter anal, assim como maior sustentação dessa contração, até que atingisse a normalização da função esfincteriana.  

      Tratamento cirúrgicoO objetivo do tratamento cirúrgico da incontinência anal é a restauração da função esfincteriana compatível com a vida social normal. O esfíncter anal artificial (EAA) é uma prótese destinada a simular a função esfincteriana normal, sendo a abertura do canal anal mecanicamente acionada pelo paciente. O EAA é constituído de três principais mecanismos: cinta oclusiva ou “cuff”, reservatório e bomba de controle. O “cuff” é implantado ao redor do canal anal e quando inflado, oclui o canal anal através de aplicação circunferencial de pressão. O reservatório ou balão regulador de pressão é implantado no espaço pré-vesical, sendo responsável pelo controle da pressão exercida pelo “cuff”. A bomba de controle é implantada na bolsa escrotal ou no grande lábio e contém um resistor e válvula que regula a transferência de fluído do reservatório para o “cuff”.

O “cuff” mantém-se em situação basal preenchido por fluído o que promove a oclusão do canal anal. Para atender o chamado à evacuação, através da compressão da bomba reguladora, o paciente promove a transferência de fluido do “cuff” para o balão reservatório. Assim, após várias compressões, o “cuff” se esvazia, e o canal anal se abre, permitindo que o paciente possa evacuar. Após a evacuação, o fluído automaticamente retorna do balão para o “cuff” para ocluir o canal anal novamente após a evacuação.

O EAA é implantado através de um procedimento relativamente simples, requerendo apenas dois sítios de incisão: perineal e abdominal. O acesso perineal consiste de duas incisões laterais ao ânus, seguidas de dissecção romba ao redor do canal anal para criação de túnel para implantação do “cuff”. A incisão abdominal, transversa em região suprapúbica, é utilizada para implantar o balão reservatório, o qual é posicionado no espaço pré-vesical, e a bomba reguladora, posicionada no escroto ou no grande lábio através de tunelização subcutânea. O sistema fica em sua totalidade implantado dentro do organismo, e a conexão entre os componentes pode ser facilmente realizada através de dispositivos especializados que integram o sistema. 

Papel da enfermagem

      A enfermeira tem um papel muito importante na educação, orientação e assistência do paciente com IA.

      É responsável pelo plano de cuidados, com o objetivo de evitar complicações e melhorar a qualidade de vida. Personalizar os cuidados conforme a realidade psicossocial, econômica e habilidosa do idoso. Desvendar qualquer dúvida que o paciente tenha, sobre a doença ou tratamento. Encaminhar para um especialista quando achar necessário. Aperfeiçoar a equipe de enfermagem sobre o assunto.

      Entre os cuidados, estão: higiene, onde o paciente realizará a retirada do excesso do conteúdo fecal e limpeza local contínua, evitando o contato direto com a pele íntegra, contaminação bacteriana das vias urinárias e não haverá presença de odor fétido, facilitando o convívio social.

      O cuidado com a pele do idoso com IA é importante. Deve-se inspecionar diariamente e proteger do contato das fezes utilizando cremes, óleos ou filmes transparentes. Ter atenção com o uso prolongado de fraldas, pois favorecerá o aparecimento de úlceras por pressão.  

Referências:

Carvalho LP, Corleta OC Neuropatia pudenda: correlação com dados demográficos, índice de gravidade e parâmetros pressóricos em pacientes com incontinência fecal. Arq. Gastroenterol. 2002 v. 39 n.3 São Paulo.

Doughty DB. Urinary & Fecal Incontinence. 2000.

Habr-Gama A, Jorge JM O esfíncter anal artificial no tratamento da incontinência grave: descrição técnica e resultados preliminares, Rev. Brás. Coloproct, 2002 20(4): 217-222.

Yusuf SAI, Jorge JMNJ Avaliação da qualidade de vida na incontinência anal: validação do questionário FIQL (Fecal Incontinence Quality of Life). Arq. Gastroenterol, 2004. v.41, n3.

Oliveira L. Incontinência fecal. 2006. J. bras. Gastroenterol, 6(1):35-37.

Oliveira L, Jorge JMN Novos Tratamentos para Incontinência Anal: Injeção de Silicone Melhora a Qualidade de Vida em 35 pacientes incontinentes. Rev. Bras Coloproct, 2007 27(2):167-173.

Ramalho EN, Starling F Tratamento da Incontinência anal com biofeedback. Resultados preliminares. Rev. Bras Coloproct, 1999; 19(2):89-83.

Santos VLCG, Silva AM Qualidade de vida em pessoas com incontinência anal. Rev. Brás Coloproct, 2002; 22(2):98-108

Sobrado JCW Incontinência anal: fisiopatologia. Rev. Esc Enf USP 1999; 33: 33-38.

Voebig RG Os desafios diagnósticos da Incontinência Fecal. Arq. Gastroenterol. 2002 39(3):137-138. 

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