Arquivo de Ginecogeriatria

24
Out

 Estudo de caso - Pericardite por radioterapia

Categoria(s): Cardiogeriatria, Caso clínico, Ginecogeriatria

Interpretação clínica

  • Mulher de 53 anos, casada, um filho de parto normal. Há 10 anos teve câncer na mama esquerda, tratado com mastectomia radical e terapia radioativa. Vem a consulta médica com o esposo, com queixa de canseira aos esforços físicos nos último ano, e com piora acentuada nas últimas semanas, acompanhada de distensão abdominal. Há seis mêses esteve internada com derrame pleural à direita, que foi drenado , mas voltou a refazer em um mês.
  • Ao exame físico, pulso era fraco e irregular com 110 bpm e, durante a inspiração praticamente desaparecia; PA 110/60 mmHg, com declínio de 5 mmHg durante a inspiração. A pulso venoso jugular mostrou com onda y proeminente e descendente. O exame da mama foi normal. Cicatriz no local da mama esquerda. Ausência de linfonôdios aumentados. Ictus pouco visível e palpável. Ausência de sopros cardíacos. Hepatomegalia dolorosa de 8 cm da borda costal. Edema de grau moderado nas pernas até próximo dos joelhos. Pontilhados equimóticos nos tornozelos. A radiografia de tórax mostrou silhueta cardíaca normal e derrame pleural de moderado volume no lado direito. O eletrocardiograma abaixo mostro ritmo de fibrilação atrial. O ecodopplercardiograma transtorácico mostrou câmaras cardíacas de tamanhos e funções normais e nenhum derrame pericárdico.

Como entender o caso?

Os sintomas e os sinais clínicos dessa paciente com história de radioterapia para câncer de mama são indicativos de pericardite constritiva que provoca a insuficiência cardíaca que constitui a síndrome da restrição diastólica. A doença pericárdica induzida pela radiação é uma das causas mais comuns de pericardite constritiva.

Os achados do pulso venoso jugular (pulso venoso jugular mostrou com onda y proeminente e descendente) descrito no exame físico é muito sugestivo de compressão da veia cava superior.

Veja mais sobre pulso venoso

O fenômeno propedêutico que ocorreu com o pulso arterial e com a toma da pressão arterial (PA 110/60 mmHg, com declínio de 5 mmHg durante a inspiração) é caracaterizado como Pulso de Kussmaul.

A ecocardiografia transtorácica fornece importante informações, tais como evidências hemodinâmicas de constrição no estudo com o Doppler e a presença de doença valvar associada com a irradiação. Esse exame pode ser de utilidade para demonstrar o espessamento pericárdico, porém algumas vezes este fato pode não ocorrer.

A ressonância magnética nuclear (RMN) é o exame que mais dados diagnósticos fornece. A RMN cardíaca tem a capacidade de revelar espessamento pericárdico maior que 4 mm, crescimento biatrial leve a moderado, veias cavas dilatadas e dimensões normais dos ventrículos.

Tratamento - A cirurgia de pericardiectomia, nesses pacientes, é complicada pelas densas aderências pericárdicas e pelo envolvimento da camac visceral do pericárdio. As artérias coronárias podem ser facilmente lesadas nesse tipo de cirurgia.

Referências:

Ling LH, Oh JK, Schaff HV, Danielson GK, Mahoney DW et al. Constrictive pericarditis in the modernera: envolving clinical spectrum and impact on outcome after peri-cardectomy. Circulation 1999;100:1380-1386.

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10
Ago

 Esteróides sexuais e o sistema nervoso central

Categoria(s): Bioquímica, Conceitos, Endocrinogeriatria, Ginecogeriatria

Resenha

As alterações nos níveis circulantes dos esteróides sexuais não estão associadas somente com a função reprodutiva, mas resultam também em mudanças significativas no humor e numa variedade de comportamentos não reprodutivos, desde a função sensomotora até as funções de memória e aprendizado.
Receptores celulares de esteróides sexuais foram identificados em áreas específicas do cérebro: hipófise; hipotálamo; sistema límbico; locus coeruleus e córtex cerebral. Evidentemente, a natureza não distribuiria estes receptores se eles não exercessem ações específicas nestas áreas.

As áreas grísea periaquedutal e a tegmentar ventral estão relacionada com as manifestações comportamentais. A amigdala (também chamada de complexo amigdalóide é o “botão de disparo” das reações emocionais. O hipotálamo e o troncoencefálico respondem pelas manifestações fisiológicas.

Sistema límbico

Diante das ações estrogênicas sobre o SNC, podemos imaginar que o climatério, caracterizado pela falência progressiva da função ovariana, acarretará várias e, às vezes, profundas alterações, num espectro que vai desde depressão e diminuição da capacidade cognitiva até quadros que envolvemos reflexos sensomotores, o equilíbrio, o parkinsonismo e a demência senil do tipo Alzheimer.

Os neurônios deste sistema colinérgico são os que sofrem as primeiras e mais pronunciadas alterações degenerativas vistas no desenvolvimento da doença de Alzheimer.

Um forte argumento em favor do papel dos estrogênios na expressão desta patologia pode ser inferido examinando-se a sua epidemiologia. A incidência da doença é maior em mulheres do que em homens (1,5 a 3 vezes maior) e atinge preferentemente mulheres acima de 65 anos. 

Também no SNC de vários mamíferos, os estrogênios podem ser formados intracelularmente, a partir dos androgênios circulantes, através da ação de um complexo enzimático conhecido como aromatases. Esta aromatização ocorre especificamente nos neurônios e esta atividade metabólica depende das condições hormonais, sendo influenciada por estímulos ambientais.

Mais recentemente, foi demonstrada uma nova via de biossíntese de esteróides, a partir do colesterol, nos oligodendrócitos e as substâncias assim produzidas foram denominadas neuro-esteróides. Acumulam-se no SNC, independentemente do suprimento pelas glândulas endócrinas periféricas. Graças a esta fonte, as concentrações de pregnenolona e dehidroepiandrosterona no cérebro são superiores aos níveis plasmáticos, contudo, o real significado, as implicações e aplicações clínicas ainda são desconhecidas. Estes achados abriram um vasto e fascinante campo de investigação que é a psiconeuroendocrinologia, que tem contribuído enormemente para a compreensão de inúmeras patologias, abrindo novas perspectivas terapêuticas.

ESTROGÊNIOS E SNC

Os estrogênios atuam nos neurônios por efeitos diretos e indutivos. Os efeitos diretos se fazem por via não genômica e ocorrem rapidamente. Por exemplo, os estrogênios alteram a atividade elétrica do hipotálamo, podendo afetar o limiar de convulsão, aumentando a excitabilidade neuronal. Devemos conhecer este fato ao prescrevermos estrogênios a portadoras de epilepsia. Os efeitos indutivos são de inicio retardado e duração prolongada. O mecanismo de ação ocorre pela indução do ácido ribonucléico (RNA) e síntese protéica por meio de mecanismos genômicos, via receptores hormonais, que, por sua vez, causam mudanças nos níveis de produtos genéticos específicos tais como enzimas sintetizadoras de neurotransmissores.

Os estrogênios possuem ações similares aos agentes antidepressivos sobre os neurotransmissores e seus receptores. Eles aumentam a disponibilidade da norepinefrina aumentando a sua liberação e inibindo a ação da MAO. As atividades adrenérgicas e serotonérgicas podem ser alteradas pelos estrogênios através da modulação da sensibilidade dos receptores. Estrogênios podem, também, potencializar o sistema dopaminérgico, através da dessensibilização dos receptores pré-sinápticos da dopamina e através do mecanismo de feed-back do GABA.

Catecolestrogênios, formados localmente no SNC pela hidroxilação dos carbonos 2 e 4 (C2 e C4) do estradiol, também podem atuar nos receptores noradrenérgicos, fornecendo assim uma avenida adicional para a atuação dos esteróides.

Existem trabalhos na literatura mostrando resultados altamente significativos de altas doses de estrogênios em pacientes severamente deprimidas que não responderam aos tratamentos convencionais como a eletroconvulsoterapia, antidepressivos e psicoterapia. Entretanto, nas doses convencionais, os estrogênios poderão aliviar sintomas psiquiátricos menores como a irritabilidade, alterações do humor de curta duração, crises de choro e sentimentos de tristeza que tipicamente aparecem no climatério. Contudo, não há razões para acreditar que estas doses de estrogênios terão efeito benéfico significativo em distúrbios do temperamento de magnitude clínica, porém existem evidências de que os estrogênios potencializam os efeitos de alguns antidepressivos, fazendo com que pacientes na pós-menopausa respondam a doses menores de antidepressivo. O corolário desta observação é: mulher na pós-menopausa, cuja depressão é refratária aos antidepressivos, pode-se beneficiar com a adição do estrogênio.

Em contraste com a atuação dos estrogênios sobre o SNC, os progestogênios apresentam potentes propriedades anestésicas. A administração de doses elevadas induzem sonolência, tonteira, e mesmo sono profundo. Enquanto os estrogênios diminuem a atividade da MAO no SNC, aumentando os níveis de serotonina, os progestogênios possuem ação inversa, resultando em concentrações mais baixas de serotonina, predispondo a comportamentos disfóricos e depressivos.

Os estrogênios não atuam sobre o SNC somente induzindo alterações bioquímicas sobre os neurotransmissores e enzimas. Correlacionado com o ciclo estral dos roedores, há uma dramática remodelação das estruturas neuronais hipotalâmicas, caracterizada por uma perda, seguida de regeneração destas estruturas.

A remoção mecânica da inervação aferente do núcleo arcuato hipotalâmico resulta na degeneração dos neurônios e na perda das sinapses desta estrutura. Na rata ooforectomizada, a administração de estrogênio estimula a arborização neuronal e restaura o número de sinapses a 75%. Esta rearborização dendrítica e recuperação das sinapses após o tratamento estrogênico é decorrente de um efeito trófico do estrogênio em regiões hormônio-sensíveis do cérebro.

A adição de estrogênio a culturas in vitro de neurônios diferenciados da amígdala e do hipotálamo prolongam as suas sobrevidas. Assim, os estrogênios podem atuar diretamente no neurônio, promovendo a sua sobrevida ou estimulando a produção neuronal de um fator neurotrófico.

Um destes fatores é o fator de crescimento neuronal (NGF), produzido por neurônios colinérgicos que originam-se nos núcleos do prosencéfalo basal. Estes núcleos são as principais fontes de inervação colinérgica do hipotálamo, hipocampo, sistema límbico e córtex cerebral.

Este sistema colinérgico está envolvido na maioria das funções da memória

Diante das ações estrogênicas sobre o SNC, podemos imaginar que o climatério, caracterizado pela falência progressiva da função ovariana, acarretará várias e, às vezes, profundas alterações, num espectro que vai desde depressão e diminuição da capacidade cognitiva até quadros que envolvemos reflexos sensomotores, o equilíbrio, o parkinsonismo e a demência senil do tipo Alzheimer.

veja mais - Menopausa e alterações neuroendócrinas 

Referências:

Fernandes CE, Pereira Filho AS - Climatério: Manual de Orientação Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasco).

Kaster S, Ungerleider LG - Mechanisms of visual attention in the human cortex. Annual Reviews of Neuroscience 2000,23:315-341.

Lent R - Cem Bilhões de Neurônios: Conceitos Fundamentais de Neurociência. São Paulo, Editora Atheneu 2001

Purves D, Augustine GJ, Fitzpatrick D, Katz LC, et al Cap 24. Cognition. In LaMantia AS & McNamara JO - Neuroscience Sinauer Associates, Sunderland, EUA 1997,p.465-482.

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24
Jun

 Estudo de caso - Hipercalcemia

Categoria(s): Bioquímica, Endocrinogeriatria, Ginecogeriatria

  • Interpretação clínica

  • Mulher de 55a é encaminhada por colega cirurgião, para avaliação de hipercalcemia. Há 3 anos foi operada da mama esquerda por apresentar carcinoma. Em seguida recebeu tratamento quimioterápico e sessões de radioterapia. Tem estado clinicamente bem desde então, mas em umchek-up de rotina, três meses atrás, descobriu ter um nível sérico de cálcio de 10,7 mg/dL. Em novo exame há 1 semana, o nível estava em 11,1 mg/dL.

Como entender o caso?

A primeira hipotese da hipercalcemia em uma mulher na pós-menopausa é de hiperparatireoidismo primário, cuja prevalência é de até 3 casos cada 1000 mulheres. Um nível elevado de paratormônio (PTH) seria consistente com este diagnóstico. Um nível suprimido de PTH indicaria que não é de origem das glândulas paratireoide.

Caso dessa paciente se o PTH estiver baixo (origem não paratireóidea), a causa provável da hipercalcemia a ser investigada é a de metástases ósseas do câncer de mama, mesmo na ausência de dores ou outros sinais.

Se a paciente não tiver nem hiperparatireoidismo nem evidências de carcinoma de mama recorrente, outros teste laboratoriais são indicados para procurar por causas raras de hipercalcemia, como intoxicação por vitamina D, que seria indicada por níveis aumentados de 25-hidroxivitamina D, ou sarcoidose, que resulta da produção de 1,25 diidroxivitamina D em granulomas sarcóides

Glossário - Paratormônio

O PTH é um hormônio secretado pela glândula paratireóide, cuja função principal é de regular o teor de cálcio e fósforo no organismo. Atua aumentando o número de osteoclastos, promovendo ativa osteólise osteocítica. Atua também modulando a atividade osteoblástica.

O PTH funciona aumentando a liberação de cálcio e fósforo dos ossos e diminui a perda de cálcio pela urina e aumenta a excreção urinária de fósforo.

O PTH aumenta a reabsorção do ion cálcio no túbulo renal distal e diminui a reabsorção de fósforo no túbulo proximal.

Quando os níveis séricos de cálcio esta baixo ocorre um aumento da secreção do PTH.

Referências:

Potts JT Jr - Hyperparathyroidism and other hypercalcemic disorders. Adv Intern Med. 1996;41:165-212.

Silverberg SJ - Diagnosis, natural history, and treatment of primary hyperparathyroidism. Cancer Treat Res. 1997;89:163-181.

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23
Jun

 Estudo de caso - TRH e trombose venosa

Categoria(s): Caso clínico, Endocrinogeriatria, Ginecogeriatria

Interpretação clínica

  • Mulher de 51 anos, em menopausa há 1 ano, com fogachos importantes, que atrapalham os seus afazeres do dia a dia. Teve episódio de trombose venosa na perna direita há 6 anos, fazendo terapia com anticoagulante (warfarina) por 1 ano. Atualmente, sem medicações. Está preocupada com os efeitos colaterais dos hormônios e gostaria de sua orientação.
Tanto a terapia de reposição hormonal quanto o raloxifeno produzem aumento na incidência de eventos tromboembólicos. No entanto, nenhum deles é formalmente contra-indicado em mulheres com história de trombose venosa.
 
Fogachos - Os fogachos são resultantes de instabilidade vasomotora; a patogênese é complexa e envolve diversas substâncias vasoativas. O fogacho ocorre principalmente nos casos de amenorréia secundária com altos níveis de gonadotropina, e são suprimidos por doses de estrogênios que reduzem os níveis de gonadotropina. 
 
Raloxifeno - O raloxifeno é uma substância moduladora seletiva da resposta estrogênica, mas não previne o fogacho, e até ao contrário pode aumenta-lo.
Referência:
 
McNagny SE - Precribing hormone replacement therapy for menopausal symptoms. Ann Intern Med. 199;131:605-616.

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27
Fev

 Estudo de caso - Síndrome de Turner

Categoria(s): Caso clínico, Endocrinogeriatria, Ginecogeriatria

Interpretação clínica

Mulher de 45 anos procura seu médico por causa de amenorreia. Baixa estatura, pescoço em esfinge, cúbito valgo e história de cirurgia anterior por coarctação de aorta. Qual o diagnóstico?.

Comentários

O exame clínico da paciente nos direciona para as pacientes com a síndrome de Turner .Na idade adulta, muitas pacientes com essa síndrome se afligem por sua infertilidade e baixa estatura. Embora a terapia com estrogênios possa levar ao desenvolvimento dos órgãos genitais internos e externos, caracteres sexuais secundários e menstruações, não corrige a infertilidade, que é uma característica quase constante, resultado da atresia das células germinativas iniciais.

Síndrome de Turner é uma anomalia sexual cromossômica, cujo cariótipo é 45, X, sendo portanto, encontrada em meninas. A constituição cromossômica mais constante é 45, X sem um segundo cromossomo sexual, X ou Y. Contudo, 50% dos casos possuem outros cariótipos. Um quarto dos casos envolve cariótipos em mosaico, nos quais apenas uma parte das células é 45, X. Apresentam-se com baixa estatura, amenorréia, pescoço em esfinge, e elevada freqüência de complicações cardiovasculares (As anomalias cardíacas, particularmente a coarctação da aorta e válvula aórtica bicúspida são freqüentes. Mesmo não sendo clinicamente significativas estas alterações podem estar associadas a aneurismas da aorta ou à ateroesclerose.)

Referências:

Thompson, T: Genética Médica. 5ªed.São Paulo, SP : Guanabara, 1991.534p.

Davies MC, Guleki B, Jacobs HS. Osteoporosis in Turner’s syndrome and other forms of primary amenorrhoea. Clin Endocrinol 1995;43:741-6.

Brown DM, Jowsey J, Bradford DS. Osteoporosis in ovarian dysgenesis. J Pedriatr 1964;84:816-819.

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