Arquivo de Contos e Poemas

08
Set

 Poemas da Dalva Saudo - Cansaço

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Dalva Saudo *

* Poetisa Paulista

CANSAÇO

Estou cansada do mundo. Cansada de tantos números.
RG. –CPF – número do CEP.
Telefone fixo e celular. Quantos números p’ra. decorar!
Número da casa, hollerit, carteira de motorista.
Chapa do carro, número do cheque e senhas do banco e da internet.
Data do nascimento e de inúmeros outros documentos,
E logo… do falecimento! Quantos documentos!
Estou cansada de tudo! Cansada de tantos números!
Cansada de tantos medos.
Medo de dirigir pela estrada. Medo de ser multada!
Medo de ser processada. Medo de ser agredida e ficar ferida!
Medo do ladrão e de entrar em confusão.
Medo de entrar na contra mão e sofrer colisão.
Medo de a perna quebrar e não dar mais para sambar!
Medo do que o exame vai dar e da doença se instalar,
Medo de o dinheiro acabar e as contas ficarem sem pagar.
Fui para o analista e fiquei a esperar
Os meus medos ele tirar.
Ele disse para ter paciência,
E com os medos ficar, até a violência acabar!
Não seria solução
Trocar tanta numeração.
Pela placa do cemitério,
E acabar com tanto mistério e confusão?

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07
Set

 Contos do Bié - O banho de Cecília

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

                 

                 Foi uma noite feliz, sono tranqüilo, sem nenhum pesadelo ou sonho de mau agouro.  Na manhã seguinte, após cumprir as tarefas que me cabiam no âmbito doméstico, estava novamente em casa de Sa Maria, a ajudá-la nas lidas da casa.  Um dos serviços naquela manhã era recolher para debaixo do forno de assar quitandas  a lenha despejada pelos cargueiros na entrada do portão de acesso ao quintal.

                Vez por outra me sentava à sombra da trepadeira para tomar fôlego e reiniciar a lida.  Num dos intervalos, Cecília saiu ao terreiro, andar ligeiro, o vestido a esvoaçar de leve.

                  Ao vê-la, deu-me como um estalo na cabeça e me veio à mente uma cena que me deixou leve, meio abobado, fora de mim.

                Ao observa meu olhar pasmado, aproximou-se e, antes de qualquer palavra, fui direto ao que lhe queria dizer.

               - Vi você tomando banho nas bicas da fonte do Caminho do Cemitério!

               Surpresa, atônita mesmo, sorriu nervosa, mas sem rancor, e abaixando-se calmamente, bem de frente para mim, pegou-me as mãos suadas e sujas de carvão de lenha, e apertando-as nas suas falou:

                 - Repita meu anjo, que foi que você diz?

                 Naqueles instantes eu não sabia pensar e muito menos falar. Tudo ficou muito confuso. De uma alegria e tranqüilidade interiores passei a experimentar angústia e complexo de pecado e medo. Mas ao mesmo tempo eu queria que aqueles momentos fossem eternos, que se não esgotassem, tal o prazer e a felicidade que me proporcionava estar Cecília, diante de mim, frente a frente, a me segurar as mãos e a fixar-me firme e ternamente, olhar manso vindo de tão amável criatura…

                 -Vamos - continuou a falar devagar e calmamente – me conte como foi!
                 -Vi você banhando-se nas bicas, foi isso. E você estava linda, muito linda mesmo. Eu não sabia que você gostava de tomar banho nas bicas, senão…
                 -Senão… - insistiu para que eu completasse o pensamento.
                 -Meu bem – continuou - você tem razão, eu gosto de me banhar. Mas nas bicas, não, porque esses dias estão muito frios e a água fica gelada. Mas lá em casa eu e minhas amigas e minhas irmãs e até meus pais tomamos banho nas corredeiras na época do calor.
                  Fez pequena pausa, pôs o dedo em riste junto aos lábios, como que para facilitar-lhe o raciocínio.
                  -Não estou entendendo como você me viu nas bicas, porque desta vez ainda não estive lá.
                  -Você não esteve lá? - perguntei admirado.
               Sa Maria foi até o forno com pretexto de pegar alguma vasilha, ouviu parte da conversa e ficou de orelha em pé.

                Voltei aos meus afazeres e recolhi toda a lenha, após o que dei boa varrida na parte onde a lenha tinha sido despejada pelo cargueiro, na entrada do portão.  Enquanto lavava as mãos e o rosto, Sa Maria, ao me dar o pano para me enxugar, veio logo com a advertência:

                    -Pelo visto você tem sonhado muita bobagem. É porque não reza antes de dormir ou o faz de má vontade.

                    Cecília interveio:
                    -Que é isso, tia, ele é um doce de menino. Apenas sonhou e nada mais.
                    -Mas o sonho que ele teve você há de concordar que é sonho de pecado!
                    -Nada disso, tia, são fantasias. Nem fantasias. São apenas sonhos, sem maldade alguma.

                Calado, a enxugar o rosto e as mãos, me demorava de propósito, pois não sabia como sair daquela situação e muito menos como ir para casa. Deixei que as duas chegassem a um acordo, porém a discussão ganhou calor com a chegada de Isaltina. Colocado o assunto em evidência novamente, Isaltina disparou a rir e me perguntou se não a tinha visto também a banhar-se nas bicas, porque, me confidenciou depois, era o que ela mais queria na vida. Sua mãe ficou séria, carrancuda e deu o assunto por encerrado, mas não deixou de emitir rigoroso veredicto: eu não poderia fazer a primeira comunhão sem que me confessasse novamente, e teria que contar ao padre o sonho “feio” que tivera com Cecília.

                 Eu me achava em palpos de aranha. Como justificar minha ida à igreja mais uma vez? .O quê dizer à professora, às catequistas, aos meus colegas? Em casa ninguém ficaria sabendo. “Não estaria a cometer um pecado, omitindo o fato?” - pensava eu. Porém, minha consciência não estava muito tranqüila. Procuraria Cecília para me aconselhar. Afinal, ela estava para ser “Irmã de Caridade”, e quando recebesse o hábito iria chamar-se Clara, a grande santa que ajudou S. Francisco de Assis nas suas obras em favor dos pobres e pequeninos. 

               Infiltrei-me junto à nova turma de crianças que naquela tarde se encaminhava para a igreja, e, mais uma vez, me vi diante da fila para o confessionário, para novamente recitar o “Ato de contrição e bom propósito”, ficar bem procedido, contrito, tudo como na véspera.

              Estava sem saber como iniciar o diálogo com o confessor, pois como justificar minha presença ali outra vez, um dia depois da última confissão?  Olhei para as imagens dos inúmeros santos, orei a todos e pedi coragem. Não compreendia o que se passava comigo. Em minha consciência eu tinha certeza de que o acontecido não era pecado. Meu sentimento em relação a Cecília era tão sublime como o respeito e o amor que sentia por minha falecida mãe, e por aqueles santos  a quem sempre me recorria. 

               Até chegar minha hora já me vi mais calmo. Tinha certeza de que o padre não iria ficar bravo. Talvez a penitência fosse rigorosa, como ficar mais tempo de joelhos e rezar muitas ave-marias, o padre-nosso e outras orações complicadas.

                Com jeito pude observar que o padre parecia sonolento e desanimado. “Seria o peso dos pecados que o deixara naquele estado?” Fiquei a assuntar. Ora, pelo que eu conhecia de quase todas as crianças que ali se achavam, os pecados seguiam sempre a mesma linha, tudo igualzinho, com pouquíssimas variações: o pecar por proferir nomes feios, brigar com o colega ou com o irmão; pelo fato de ter urinado na cama ou se levantado mais tarde. Ou respondido mal aos mais velhos e de ter maltratado os animais e passarinhos. Ou ainda as inocentes mentirinhas.  Ficar a ouvir essa lengalenga ao cair da tarde, no ambiente frio e silencioso do templo tinha que dar sono, pois afinal o padre “não havia comido do boi do Divino”.

                - Há quanto tempo faz que você se confessou?
                Respondi que tinha sido “ontem”, o que bastou para o padre se ajeitar melhor, dar uma tossidinha e indagar:
                - Uai menino! ou não fez boa confissão ou cometeu um  pecado grave para estar aqui outra vez. O quê foi?
                - Foi Sa Maria que falou para eu confessar novamente.
                - Que Sa Maria, menino?
                - Sa Maria, mulher de Seu Virgolino.
                - Sei, sei.  Que pecado não contou ou em que pecado você caiu?
                - Vi Cecília tomar banho nas bicas do Caminho do Cemitério.
                - Cecília? Que Cecília é essa?  -

                Despertado de sua sonolência, ajeitou-se  no assento, achegou-se mais para perto da divisória de palhinha e,  a mão direita em concha no ouvido, quis saber detalhes  do acontecido.

                - É sobrinha de Sa Maria – esclareci.
                - Sei, sei, mas como é que a viu?  Estava tomando banho de roupa ou estava…
                - Estava sem roupa.
                - Todinha?
                - Sim, todinha nua, acho que sim.
                - Estava pertinho dela ou longe, escondido atrás do mato?
                - Estava escondido, não. Não estava perto, nem longe.
                - E viu o quê?
                - Só vi a capanguinha e o pó dela.
                - O quê? O pinto? Mas mulher não tem pinto! Você tem certeza? A que horas foi? Tinha mais alguém lá?

                 Foram tantas e rápidas as perguntas, que fiquei confuso, e não me era dada oportunidade de esclarecer o acontecido. Fiz silêncio por uns segundos e continuei.
                 - Não sei a que horas foi, se de dia ou de noite. Foi num tempo diferente. Não havia mais ninguém por lá.  Somente eu e ela, as bicas, as gramas e o mato ao redor. Foi… foi um sonho, seu padre. Foi um sonho…
                 Ajeitando-se novamente no assento do confessionário, abaixou a mão que trazia no ouvido, deu um suspiro e desabafou:
                  -  Menino! Por que não falou logo? Então foi apenas um sonho? Logo vi!  Só podia ser mesmo um sonho…
                 Realmente tinha sido apenas um sonho. Mas me pareceu tão real, porque a mente, a transbordar de tantos projetos infantis, às vezes não distinguia os sonhos da realidade. Os dias eram curtos para mim como para todos os  meninos, que em turma, sempre juntos, paravam apenas para comer e dormir, depois, é lógico, de cumprirem com suas obrigações de escola e de trabalho.  Constante em nós a ânsia de participar da vida plena, a buscar emoções nos galopes dos cavalos em pêlo, os banhos nas bicas e nos pequenos ribeirões; as corridas desenfreadas pelos pastos afora, à procura dos ouricuri - fruto de uma espécie de coqueiro, de coloração vermelha, quando maduro.Ou então à cata de madeira própria para fazer bodoques e estilingues,  e as idas à olaria de seu Generoso, para os lados da Gangorra, de onde  trazíamos barro próprio para  o fabrico de pelotas de atirar nos passarinhos.

                 Quando não estávamos nos pastos, nos ribeirões, nos laranjais, nas bicas, nas ruas e nas florestas, nos achávamos por sob os assoalhos, nos porões de uma ou outra casa, a lidar duro na feitura dos carrinhos de quatro rodas, de empurrar e de montar, ou na armação dos papagaios, que ao serem empinados levavam para as alturas nossos sonhos e desejos de voar. À noite eram o pegador e a gata parida, afora a reunião dos grupos para os famosos causos de assombração e de almas do outro mundo. Por tudo isso os dias eram pequenos demais, a ponto de não sobrar tempo para separar os sonhos da realidade, intensamente vivida e sentida por mim e por toda a criançada.

                    - Olhe, escute bem, sua penitência é rezar dez ave-marias e cinco padre-nossos ao santo Anjo da Guarda, ajoelhado ali aos pés de sua imagem. Hoje à noite ore com fervor à  Nossa Senhora para o livrar de maus sonhos que o levem a pecar.

                  À noite, antes de me deitar, contrito recitei um número sem contas de ave-marias. Comecei o padre-nosso, mas não terminei. O sono era demais.         

                 O pecado me perseguia… Manhã seguinte, logo que me despertei me veio à mente o sonho que mais uma vez eu tivera com Cecília. Cópia fiel, sem tirar nem acrescentar nada. Via-me encantoado, angustiado mesmo, e não atinava com o que estava acontecendo comigo.

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05
Set

 Poemas da Silvia Trevisani - Para construir o ninho

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoção

Colaboradora: Silvia Cristina Martins Trevisani *

* Poetisa Paulista

PARA CONSTRUIR O NINHO

Você conhece
O trabalho do passarinho?
Colhendo com o biquinho,
Palhinha para fazer o seu ninho.

E quando vem uma pedra,
Do estilingue do menino,
Destruindo sem piedade o ninho,
- imagina o tempo perdido?

Mas ele não abandona a tarefa…
De nenhuma maneira,
Começa tudo de novo, se apressa,
Para acolher a companheira.

O pássaro não emudece
E segue cantando…
E segue construindo…
E nunca entristece.

A criança é como o passarinho.
Pula, brinca e deve estudar,
Para construir devagarinho,
E o seu futuro formar.

Sem jamais desanimar!

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01
Set

 Poemas da Dalva Saudo - Pousada na Janela

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Dalva Saudo *

* Poetisa Paulista

POUSADA NA JANELA

(CENÁRIO – CASA DOS MEUS AMIGOS MANUEL E ESPOSA CÉLIA PAULINO)

A bela janela da moradia do Jardim Garcia
atrai passo a passo o pássaro,
que chega saltitante… dando olé!
trinando cantoria, brindando alegria,
Inspirando poesia em passos
e compassos de balé.
É amor entre racional e irracional
onde o pássaro faz sua pousada
em close angelical e magistral
de ousada liberdade,
aos olhares acolhedores.
O cenário torna-se encantador.
Flashs nos olhares, rebrilhos de alegria,
congelam a cena do canário cantor
e a registram na memória
como lindo filme de história———–de amor,
É identificação de emoção
entre o frágil pássaro desprovido de medo,
com pessoas providas de amor no coração.
E afinal…o pássaro personagem principal,
cantor, encantador e inspirador desta poesia,
sente com sabedoria, mesmo irracional…
sua credencial de liberdade e solidariedade.
Seu santuário e aviário na bela janela
desse lar, onde o verbo amar
faz conjugação no coração!

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31
Ago

 Contos do Bié - Os maribondos de Pega-Urubu

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Não foi o tanger do sino a anunciar o Angelus naquele clarear do dia que despertou os moradores da Rua do Quenta-Sol e do Largo da Igreja, mas a latomia dos guizos e dos cincerros, que misturada às palavras de ordem de Pega-Urubu fez as pessoas pular da cama mais cedo, e das portas e janelas olhavam em fresta aquela figura metida em sacos descosturados, afora os balangadangues atados aos punhos e tornozelos e pendentes da manguara que ele imaginava fosse um estandarte, daqueles dos tempos das Cruzadas, repleto de rabiscos e desenhos de cores vivas e vermelhas, tom de sangue, tintura de urucum que por certo ele usara.
- Do meu ninho divisei o pecado, santo não és, mas um pecador inveterado! Quero de volta o nicho que desde o princípio o Altíssimo me destinou, mas na calada da noite me foi surrupiado, oh filho das sombras, parceiro de satanás! Estou indo para lá, o lugar santo e definitivo que a mim pertence; porei ordem em todo o proceder e varrerei da terra a maldade que espuma nas bocas e gera palavras más. Saiam do caminho aqueles que não são dignos de nele caminhar, que o fim está próximo, a vil semente foi lançada, mas o que no ventre será gerado é o fruto do pecado!
Quanto ao nicho que dizia ter-lhe sido surrupiado, comentava-se que o vigário interrompera a vida religiosa de um dos filhos da cidade que ingressara no seminário. Pobre, mas de mente brilhante, o moço era visto como o futuro e promissor sacerdote para assumir a direção da paróquia há quase meio século sob os desmandos do autoritário e temido vigário, também prefeito dito nomeado.
Dispensado do seminário, o jovem tomou rumo ignorado e ninguém ficou sabendo-lhe o paradeiro.
Havia a crença de que não morrera, mas ficara encantado para atormentar aqueles que os perseguiram.
Quanto ao “fruto do pecado”, segredava-se entre as pessoas adultas que ele se referia a uma solteirona muito ligada às lidas da igreja, catequista preferida do vigário que a engravidara.
A estranha criatura persistia em sua pregação.
Ninguém se atrevia a sair à rua, modo botar cobro naquela desordem e interromper a marcha do Padre Gorado - mais uma alcunha entre tantas a daquela figura que de tempos em tempos surgia como do nada, que ninguém lhe sabia o nome, de onde vinha e para onde ia; e do mesmo modo como aparecia, quando menos se esperava logo sumia, como que levado para o além feito alma encantada.
Ele ia e vinha, depois estacava, a assuntar se as portas das casas já estavam todas escancaradas, que a sua advertência era coisa séria, que rezassem e fizessem penitência, que as revelações chegariam no devido tempo, antes de ser dado à luz o fruto do pecado!
Zé Bigorna saiu a claro, e em acelerada caminhada ganhou vantagem, passou pela igreja e dobrou à esquerda, alcançou a Rua de Seu Clarimundo, o delegado, que à frente da casa, já bem composto, barba feita, ia e vinha a passos lentos e contados, rezando o terço, seu costume de todas as manhãs, rotina há muito já incorporada ao seu sistema de vida de homem compenetrado nas coisas de Deus.
Um susto as notícias da presença do impertinente e infeliz Pega-Urubu, “que foi lhe deu na bestunta, se há tanto tempo estava em dormência seu proceder de tresloucado?“
Quase a perder o fôlego, Zé Bigorna dava conta ao delegado: “O insubordinado Pega-Urubu não fala coisa com coisa, mas uns trens de arrepiar, e parece que está indo para a igreja, que está fechada e daqui um tiquinho de tempo vai ser aberta pela sacristã para o toque da hora do Angelus”.
- Se assim é - reagiu sério o delegado - corra até o Corpo de Guarda e me traga duas praças.
Zé Bigorna disparou ladeira abaixo, e ao passar pelo vigário, imprimiu mais ligeireza às pernas, e ao quebrar a esquina do Beco da Georgina volveu a cabeça, olhando para trás, a ver se reparavam na sua destreza, mas ele, o Padre Galo - corruptela de Gallus, Frederico Gallus, origem polaca, tipo esguio, atlético e vermelhão - tinha os olhos fitos no ponto de onde partia o gritame do doido, e gesticulando ao delegado exigia providências, que aquela criatura, Pega-Urubu, tinha de ser metido em camisa de força e despachado sem delongas para Barbacena·.
Passava das seis e o toque do Ângelus ainda não fora dado, modo que a exótica figura, os braços erguidos em forma de cruz, postou-se à entrada principal da igreja, impedindo a passagem da sacristã.
A redondeza entupetou de gente, homens e mulheres naquilo de esfregar os olhos, que, parecia, nem ainda haviam lavado as caras, tampouco bochechado as bocas; cabelos assaranhados, davam mostra de assustados e mal dormidos.
- Chega nele, vamos, Chico Neco! Não vê que aquele trem está a cometer uma heresia?
Assim falava Maroveu da Bomba, muito chegado às rezas, e nas procissões de liturgia de maior solenidade se punha todo empoado, metido na opa e portando a grande cruz de metal ou a tocha principal, mostrando ares.
Mas Chico Neco, Oficial de Justiça, se fez de surdo, que sua valentia e autoridade eram só com os bêbados raquíticos e os famintos e inofensivos. Pega-Urubu constituía outra laia, e seu corpo era fechado e dono de muitos segredos que o punham a salvo de qualquer valentão que com a sua pessoa se metesse.
Foi só chegar a tropa, dois soldados fardados - Zé Baiano - o Caôio - e Abdula do Jota - um par de mal encarados, truculentos e matreiros, que o povoame a princípio suspirou aliviado, “que agora ele, Pega-Urubu, havera de ver em que encrenca se metera. Deixa estar que não demora nada todo o lugar vai escutar o toque do Ângelus, e se prepare Pega-Urubu que seus ossos serão destroncados, e uma padiola vai ser preciso para levá-lo ao manicômio de Barbacena, que é onde deveria estar trancafiado”!.
- Teje preso! - gritaram ao mesmo tempo Zé Baiano e Abdula do Jota, jeito de autoridade.
Pega-Urubu deu de ombros e continuou as pregações, os braços ainda em forma de cruz, aqueles trens pendurados na manguara, tudo balangando para lá e para cá, acompanhado do tilintar dos cincerros e do som oco de duas cabaças pendentes do estandarte, presas por embiras.
- Se não se entrega por bem, se entrega por mal! - gritaram os dois soldados.
E marcharam sobre ele, que a passos ligeiros principiou por descer as escadarias e ganhar o Largo, ao encontro de seus perseguidores, que estacaram de repente, como que aguardando uma pacífica rendição.
Pega-Urubu os encarou firme e os desafiou a dar mais um passo, e eles, resolutos, tomaram posição de ataque, um na frente e outro na retaguarda.
Pega Urubu, como um corisco, tomou de uma das cabaças, bradou com todas as forças dos pulmões e fê-la em pedaços, arremessando-a a esmo em direção de um dos praças.
Procedeu da mesma forma com a outra peça, toda a gente a ver naquilo um gesto de doido - ingênuo e vago intento de vencer os praças com um trem leviano daquele, meros cacos de cuia, de nenhuma serventia para um embate de tamanha ordem.
Mas ledo engano! Pois que, mais que num repente, não só os praças endoidaram de tudo em galope desembestado, mas também todas as gentes que ali se achavam, debandada geral, que um enxame de maribondos tatu, daqueles pretos de bunda vermelha, verdadeiras armas voadoras, desalojados das cabaças iam cravando os ferrões em tudo e em todos: soldados e gente do povo; homem de Deus e representante do governo na pessoa do Senhor Delegado.
Naquele dia e até depois as feições e as partes de quem se viu atacado mostravam-se demudadas: beiços enormes; olhos empapuçados e orelhas superdimensionadas. Quem já possuía de natureza nariz avantajado, este se apresentava como uma imensa batata, aquele trem esquisito, torto, disforme.
Zé Glostora, estafeta dos Correios, não teve outra sina: bastou tão somente uma ferroadinha bem ali na cabeça do pó, para num triz o pinto virar galo, aquela coisa horrível, empelotada, que a esposa Laudicéia reparava compadecida.
O toque do Ângelus não foi dado, que nem mesmo a piedosa sacristã se livrou das doloridas ferroadas.
Por muitos dias o assunto corrido eram os maribondos de Pega-Urubu, que evaporou, sumiu do mundo, que ‘”daqui ele não era”, afiançavam, mas alma errante, encantada, de parceria com o demo, tinha fama leal. Por isso mesmo, por bom tempo as rezas da igreja apresentavam mais abastança de fiéis, que além da iminência da Grande Guerra, agora o maligno andava à solta, e só muita reza, das fortes, para mantê-lo à distância lá no seu mundo, o das trevas, asseverava o vigário.

* Figura anjo - Candido Portinari

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