Arquivo de Contos e Poemas

21
Set

 Contos do Bié - Aulas de catecismo

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro
             Todo sábado à tarde havia aulas de catecismo, e era um martírio ter que aturar a Irmã Catarina – da congregação das Vicentinas - a falar dos pecadores e de como eram jogados de cabeça para baixo nas labaredas do inferno, onde os capetas aguardavam as almas com espetos pontiagudos e incandescentes.

            Para me livrar daquele sacrifício, engendrei um plano que eu rezava para não dar errado.

            Minha irmã já lavara meu terninho de algodão riscado e o estendera para enxugar sobre um frondoso pé de pimenta malagueta.

           Quando me vi a sós, e quase à hora da que eu considerava a torturante aula, jorrei ali todo o líquido (xixi) que vinha armazenando para aquele fim.

           Certa de que a roupa já estivesse no ponto, foi a minha irmã pegá-la para me trocar.

           Não deu para eu ir ao catecismo, mas nunca me lembro de ter levado tantas e doídas chineladas como naquela tarde de sábado!

           Chegara uma nova Irmã de Caridade - Celina – que viera substituir a Irmã Catarina.

           Era paulista – mas o povo dizia polista.  Linguajar diferente do nosso, foi logo motivo da curiosidade de todos, em especial da meninada.

           As aulas passaram a ser dadas no domingo após a missa das sete horas, e a freqüência era maciça, meninos de todo tipo, idade e condições sociais.

          Havia uns pretinhos, chorões, nariz sempre a escorrer; de calças curtas – como eu – mas só que de suspensórios de fitas, sobras do pano da calça ou da camisa. 

          Havia também umas meninas magrelas e de olhos tortos – as caolhas – de vestidos compridos e desajeitados, panos ralos que deixavam ver as calcinhas rotas e folgadas, constantemente puxadas para cima, num gesto que a Irmã não gostava.

          Na verdade, a grande freqüência dos meninos devia-se mais à curiosidade de conhecer a paulista e seu modo de falar, do que propriamente se inteirar a respeito das coisas de Deus.

          Era deveras simpática, mas saía do sério quando vínhamos com a palavra “trem”.

         Às vezes fazíamos de propósito, só para sermos corrigidos e a Irmã discorrer sobre os trens de verdade.

        Às escondidas, eu cutucava o Carlos Washington, menino bem vestido, calça de casimira, blusa de seda, um pano escorregadio – aquela lindura de encher os olhos -; sapatos de duas cores, lustrosos. Cinta preta, de fivela dourada, suspensórios de vaqueta da mesma cor da cinta. Cabelos bem penteados, partidos de lado, um cheiro gostoso de brilhantina.

        A Irmã ia passando as gravuras dos santos, dando explicações, e eu a cutucar o Carlos Washington. Quando chegava na gravura do inferno, para desviar o assunto o Carlos Washington intervinha.

        - Irmã ! – e levantando o braço – posso perguntar?

        Toda sorrisos: - Sim, Carlos Washington.

        Gaguejando, sem saber mesmo o que perguntar, o Carlos Washington se descontrolou todo.Com o dedo indicador em direção da gravura, procurando apontar para algo que não lhe era muito  familiar e a que pudesse chamar de “trem”, soltou o palavrão.

       Bum! Vem o trem novamente!

       A palavra soou como uma bomba, ou melhor dizendo, como uma heresia, pois era aula de catecismo!

       A Irmã corou, franziu os lábios, e um pesado silêncio reinou por alguns segundos, todos os olhares ora fitos na gravura, ora cravados no Carlos Washington, o menino bem arrumadinho e comportado,  filho  de um dos médicos   da cidade.

     Contendo-se, a Irmã explicou, pelo penúltima vez, o que vinha a ser  um “ trem”.

     - Mas domingo que vem – falou firme – estejam aqui às oito horas em ponto, porque pela última vez vou ensinar-lhes que trem é trem, e trarei uma porção de fotografias para conhecerem um trem de verdade!

         Nunca esperei tanto por uma aula de catecismo, e todos lá em casa ficaram admirados do meu interesse pelas coisas de Deus… 

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19
Set

 Poemas da Silvia Trevisani - Mãe

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoção

Colaboradora: Silvia Cristina Martins Trevisani *

* Poetisa Paulista

MÃE

Mãe: Que bom tê-la quando criança…

Imprescindível, quando, adulta me tornei.

Na vida, contigo, tudo é mais simples…

Hoje supero com seu amor,

As lágrimas que ontem chorei.

Quer minha felicidade a qualquer preço

Unge minha vida com um amor especial.

Emoção, proteção e carinho, sempre me acolhem…

Reza, perdoa, ama e abençoa…

Idealiza meus caminhos, planta e nem sempre colhe.

Doçura incontestável a colorir os meus sonhos,

Acalentando o fruto do teu ventre.

Mamãe, tu persistes em ajudar-me…

Adivinha minhas vontades e envaidece-me,

Matou o bicho-papão da minha infância

Alimentou o papai-noel da minha vida.

Edificou a fé que hoje me fortalece!

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15
Set

 Poemas da Dalva Saudo - Alma Retalhada

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Dalva Saudo *

* Poetisa Paulista

ALMA RETALHADA

Nas artes, amizades,

Minha alma é fracionada me retalhos

De intensas felicidades

Variedades de emoções!

Exaltação no coração

Quando meus cacos, pedaços.

Penetram num túnel sem perspectivas,

Alegria vira distimia

Exaltação em depressão

Não consigo amoldar

Nem compactar.

Minh’alma é como Patchwork,

Tem retalhos coloridos oscilantes

E bilhos cintilantes

Contrapondo-se com pedaços

Monocromáticos

Escuros e sombrios.

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14
Set

 Contos do Bié - Entrando nos meandros do mistério da vida

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

            O pecado me perseguia… Manhã seguinte, logo que me despertei me veio à mente o sonho que mais uma vez eu tivera com Cecília. Cópia fiel, sem tirar nem acrescentar nada. Via-me encantoado, angustiado mesmo, e não atinava com o que estava acontecendo comigo.

            O mundo me parecia outro, diferente do que até então eu conhecia, e que agora vinha tomando coloração estranha, como se a sombra do mal estivesse a me acompanhar em todos meus passos. Fiz como que um exame de consciência para ver onde havia falhado, porém não conseguia vislumbrar nada de errado.

            Não me atrevi a ir à casa de Sa Maria, receoso de que as coisas pudessem piorar mais ainda para o meu espírito conturbado. Se eu pudesse, longe de tudo e de todos, num lugar bem escondido, conversar a sós com Cecília, tinha certeza de que me daria orientação e acalmaria meu espírito em ebulição. Mas onde? Todo mundo conhecia todo mundo. Não havia lugar secreto. A não ser que tivéssemos asas e voássemos para bem longe, e, no meio da floresta, o encontro se realizasse. Mas o pior de tudo é que, no meu íntimo, eu desejava que todas as noites aquele sonho se repetisse. E se travava dentro de mim uma luta das maiores. Entre o bem e o mal. Deus e o demônio! Senti que estava a um passo de cair no inferno…Aí, eu chorei, e foi tanto, que a uma indagação de uma de minhas irmãs sobre o que me sucedera, mostrei-lhe a unha do dedão do pé ensangüentado, que de propósito eu chutara uma pedra, desculpa convincente para um choro de verdade. 

                 Naquela sexta-feira não houve aula.

                 Pela primeira vez aquele iria ser um dia muito longo para mim. Os dias se arrastam quando a alma está triste e inquieta, ou quando sérias preocupações nos afligem.  Sozinho eu não esqueceria meus problemas. Procurei pelos meus amigos, mas sem a intenção de dizer a eles o que me afligia.

                Brincávamos na grama do Largo do Rosário, em frente à casa de seu Vicente Cascalho, senhor de idade, mas ainda disposto e trabalhador. Extremamente religioso, não perdia nenhuma reza, sempre acompanhado da esposa de seu segundo casamento, Rosa, bem mais nova que ele, miudinha, baixinha, corpo roliço e gordo. Estava também sempre em sua companhia a filha Efigênia, do primeiro casamento, bem mais velha que a madrasta. Solteirona, tão religiosa quanto o pai, era uma das zeladoras  da igreja.

              O casal não tinha filhos do segundo casamento. O que seria o primeiro e único estava, naquela manhã, sendo levado num caixãozinho branco para o cemitério.

              Reunidos ali a brincar, a cena nos tomou de surpresa, pois a expectativa era de alegria com a notícia de que Vóvó Carolina - uma velha parteira, senhora de cor do lugar -  estava prestes a tirar do ôco da imbaúba um menino para a Rosa de seu Cascalho.  Paramos de brincar e ficamos a ver de longe o diminuto cortejo do anjinho.

               Alguém do nosso grupo iniciou perguntas sobre como e de onde vinham os meninos. Cada um deu sua resposta. “Eram retirados do ôco da “imbaúba” ou que “havia uns buracos na chapada, onde D. Carolina ia buscá-los”. Uma das meninas, filha de D. Pepa, foi quem tocou mais sério no assunto, a explicar que nossos pais, os homens, tinham uma cabecinha na ponta do “pó”, a qual, por eles retirada e dada à mulher, fazia surgir um “menino”. Como a cabecinha do “pó” de seu Cascalho já estava velha e gasta, o “menino” nasceu morto. Ficamos boquiabertos e tomados de uma espécie de medo. Estávamos, a partir daquele momento, entrando nos meandros do mistério da vida. O mundo principiava a se nos apresentar diferente. Um dos presentes quis saber se doía ao retirar a cabecinha.

              - Sim, dói muito e sai sangue, concluiu a menina com ares de importante e de muita sabida! 

              Longe de ser uma prosa qualquer, o assunto estava sendo encaminhado com certo respeito e seriedade, nenhum dos grupos - meninos e meninas - a desandar para a imoralidade. Estávamos como que “pisando em ovos” ou a andar num campo minado. Cada um media bem o que iria dizer ou perguntar, de modo a não desmoralizar o papo que a todos interessava, o que explicava o silêncio que se fazia em determinados momentos, a turma como que compenetrada, maravilhada e surpresa com o palco que se lhe descortinava. 

               Um dos meninos, Jubileu, filho de Zica de Zé Antão, criou coragem e, gaguejando, quis saber das meninas se elas também tinham a tal cabecinha, e se poderiam mostrá-la ao grupo. A princípio risada geral, mas uma delas, a líder, filha de D. Pepa, falou sério e o ambiente ficou respeitoso, para não dizer pesado, como se adultos fossem as pessoas ali reunidas.

               - Bobão! - retrucou uma delas - menina mulher não tem isso que os meninos têm, não.

               - Como é que elas fazem para urinar, então?

               - Fazendo, uai - responderam, quase em coro, o riso bem disfarçado.

               - E parem de fazer perguntas de “bobagens”, porque é pecado - finalizou uma delas,  apoiada por  seu grupo e pela maioria dos meninos.    

                Macedônio, filho adotivo de Rosário e Zé Cândido, geralmente muito falante, ainda não tinha falado um “a”. Só escutava. Parecia sério e preocupado. Provocado, saiu de seu mutismo e soltou a bomba:

               - Meu pai tem cabecinha?

               Todos riram à beça, mas, aos poucos, foi-se fazendo silêncio, e, pelo visto, cada um dos participantes deve ter pensado seriamente na pergunta. Realmente, quando a tal cabecinha for retirada, como ficaria para conseguir outra, se uma família possuía tantos e tantos filhos?   A resposta, inteligente, veio logo, segundo a qual tempos depois nasceria outra, tal como sucede com as flores e os frutos. Colhe-se a rosa, logo nasce outra. Apanha-se o fruto do mamão, surge outro em seu lugar, e assim por diante. Macedônio, porém, sabia que era filho adotivo, e o único do casal. Não sei o que se passou em sua mente depois daquela revelação.

                Já se sabia que era D. Carolina quem recebia as cabecinhas e providenciava  para que se transformassem em “meninos” nos ocos da “imbaúba” e ou nos buracos da Chapada. De fato, quando da visita a D. Cândida de Seu Carlos Amantino, por ocasião do nascimento  do filho Luiz,  lá estava Vóvó Carolina. No quarto todo fechado e submerso em penumbra, iluminado apenas por uma chama de candeeiro de óleo de mamona, encontrava-se o recém nascido que ainda não abrira os olhos, e a parturiente, em repouso quase absoluto, alimentava-se à base de canja de galinha. E também os cabelos sem pentear, o que poderia ser feito somente depois de oito dias, e, para lavá-los, após quarenta dias, pois o “menino” era do sexo masculino.

                Detalhe: todo recém nascido era “menino”. Assim chegava a notícia: “Fulana teve “menino”. Logo vinha a pergunta: “homem ou mulher”?”

                Coisas de Nossa Senhora dos Acordados…                                                                

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12
Set

 Poemas da Silvia Trevisani - Amizade

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoção

Colaboradora: Silvia Cristina Martins Trevisani *

* Poetisa Paulista

AMIZADE ( Poema dedicado à Eneida Tagliolatto )

Amizade que nasce pura,
despida de toda maldade
com suave textura
partindo da sinceridade.
Nos fazem seguras,
guerreiras, imbatíveis e notáveis
solidifica o imutável…
Incansável e imorredoura virtude
no Universo humano.

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