Arquivo de Contos e Poemas

13
Out

 Poemas da Dalva Saudo - Dança de Salão

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Dalva Saudo *

* Poetisa Paulista


DANÇA DE SALÃO

Homenagem ao Túnel do tempo

Lindos musicais aos turbilhões de ilusões

Conduzem-nos ao túnel subconsciente,

Espelhando reflexos conscientes de paixões!

No lirismo poético, lembranças e esperanças,

Vão refletindo trajetórias de histórias.

Emoções nas canções, lampejos de desejos,

Em eras das noites de paqueras.

Meteoros da noite, luzes e refletores oscilam,

Estrelando cintilantes cores de brilhos,

Riscando e distribuindo rebrilhos num vaivém,

Encantando freqüentadores sonhadores.

Um vento brando suaviza…dando leveza e beleza

Aos movimentos da dança e luzes do “firmamento”

Tornamo-nos personagens desse cenário,

De musicais essenciais. Na dança de salão,

Transportamo-nos aos sonhos…existenciais.

Na “arte de se divertir dançando”

Vive-se um sonho, esquecendo o pesadelo.

Vive-se a alegria, esquecendo a tristeza.

Prova de que Deus está em todos os lugares

Igrejas, lares, bailes, bares…

A dança é anestésico temporário

Fragmentos de esquecimentos, receituário…

Para nos auxiliar a chegar ao fim do itinerário,

Até o fechar do cenário.

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12
Out

 Contos do Bié - O que vinha a ser a guerra?

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

_______Parecia estar indo tudo muito bem em nossa pacata cidadezinha, com os preparativos para a celebração do “Dia da Família”, em homenagem a São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus. Cresceu meu relacionamento com outras crianças. A amizade com Lindolfo, meu companheiro de carteira, estreitava-se sempre mais. Freqüentávamos a casa um do outro, trocávamos confidências, falávamos de nossos segredos, de nossas dúvidas, de nossos projetos. Apresentei-o à Sa Maria e Isaltina, e o levei a conhecer o buraco do tatu, que ali ainda fazia morada. Narrei-lhe toda a história durante os recreios na escola, e ele ficava curioso, me agradava, me oferecendo doce de canudo, que trazia de casa. 

             De fato, tudo estava indo muito bem, até que, em determinado dia, ao entrarmos no salão de canto, notamos uns quadros grandes de papel, colados na parede de frente para o salão, um ao lado do outro, onde se via a figura de Mussolini a montar uma pessoa, e Hitler, o braço erguido e a dizer: “Eu farei deste continente mestiço um domínio alemão!”.  Perfilamos, fizemos as orações e nos dirigimos para a sala de aula. Não levou tempo, e logo feita a chamada fomos dispensados, sem atinar com o que estava acontecendo. Novamente perfilados ali no salão de canto, além de muitas orações, houve discurso da parte de seu Eloy, o Diretor, que falou sobre o alastramento da peste que os dois monstros mandavam lá do estrangeiro.

               As conversas sobre a guerra estavam já em todas as rodas, não importando o grau de instrução e a classe social.  

              Observei que seu Virgolino, antes brincalhão e sorridente, não apresentava mais aquele mesmo espírito, agora calado e pensativo.  Nem do tatu falava mais. Aparentava-se estranho, diferente daquele homem que eu queria ser quando um dia crescesse. E o mesmo sucedeu à Sa Maria, preocupada, o olhar perdido, sem muito ânimo para fazer suas quitandas. Nas orações, pedia a Nossa Senhora paz para o Brasil e o mundo.

              Silenciosamente, eu sofria com todos eles, sempre rezando cada vez mais. Eu queria ser grande e forte, para ir à guerra. Não suportava a idéia de ver meu pai nem Seu Virgolino e os três filhos metidos naquela coisa doida, que diziam ser a guerra.

              Mas por incrível que pareça eu não sabia ao certo o que vinha a ser a guerra. Imaginava ser apenas e tão somente os dois quadros colados na parede do Grupo, aqueles dois homens, um com o braço levantado e o outro a montar uma pessoa.

              Nas minhas andanças solitárias pelos altos da Chapada, lançava o olhar para além das montanhas, e ficava a imaginar onde se localizavam a tal Alemanha e a Itália. Mas era tudo tão calmo que eu não chegava mais a acreditar no que todo mundo estava tanto a falar.  Dava uma confusão das maiores em minha cabeça.

              Havia ainda um nome sempre presente nas conversas que eu escutava, e que me deixava encafifado: Polônia!  Passei a relacioná-la com polaina.

              Meu irmão mais velho, entre muitos bicos que fazia, era também engraxate. Vez por outra chegava a casa com uns níqueis a mais, a dizer que tinha engraxado a polaina do Dr. Rafael. Eu ouvia seu comentário, guardava-o na mente e elaborava um emaranhado de conclusões confusas, chegando à certeza de que a guerra já estava na casa do Dr. Rafael, porque ali havia a tal “Polaina” ou Polônia, que meu irmão havia engraxado. Coincidentemente, Dr. Rafael, advogado emérito, grande tribuno, elegante e bem vestido, tinha, para mim, grande semelhança com um dos “monstros” do quadro do grupo escolar: Hitler. Até o cabelo e o bigode eram parecidos.

              E dia a dia a confusão ia crescendo em minha cabeça. Procurei me desabafar com o Lindolfo. Estava em piores condições do que eu, pois achava ele que a tal “guerra” morava no porão da casa de Seu José Reis,  marido de Maria Wanderlei, onde, já fazia tempos, tinha estado presa numa jaula uma onça pintada, que vivia a acordar e  a incomodar toda a vizinhança com seus urros.

______________________________

               O mestre José Braga entrou na classe dando um animado “boa-tarde”. Com dificuldade no andar, dirigiu-se para a mesa, e, de pé, fez o nome do padre, acompanhado no gesto por todos nós, que, contritos, recitamos as costumeiras três ave-marias, com pedido do mestre para a paz no Brasil e no estrangeiro. Era engraçado como ele fazia o sinal do “nome do padre”. Eu ficava a prestar atenção no seu gesto, para ver se conseguia fazer como ele. Oramos. No momento do “nome do padre” prestei bastante atenção, e parecia que eu tinha aprendido.

               Pedi licença para ir à latrina, e ali, sem saber que estava sendo observado, comecei a me benzer conforme fazia o mestre.   Com a pressa que tinha no intuito de imitá-lo, esqueci a porta aberta, e D. Georgina, uma solteirona de idade, religiosa como ela só, funcionária da casa, percebeu meus gestos, e a escola em peso, por parte das beatas e santas professoras, passou a ver em mim um virtuoso e bem comportado menino,  digno de um outro nome que não José Dirigível,  mas quem sabe Gabriel, “o  anjo que anunciou a Maria”.

              Naquele dia, o mestre fez a leitura da página 67, “O Recruta”, a história de um rapaz:   “Anselmo, que aos 22 anos tinha sido chamado para lutar na Guerra do Paraguai. Dizia, ainda, que ele, desde pequeno, habituara-se à vida ao ar livre. Que mal rompia a aurora, já andava,  ao sol e à chuva, descalço e correndo, como cabrito montês. Aos oitos anos, já montava em pelo os cavalos mais bravos. Com essa existência de exercícios fortes, fizera-se um colosso. Tinha a face corada, os cabelos negros, uma musculatura possante, espáduas largas, pulso  de abater um touro com um soco”.

               Nos comentários a respeito da lição, o mestre José Braga falou sobre a necessidade de levarmos vida sadia, ao ar livre, levantar-se e deitar cedo, alimentar-se adequadamente e evitar as estripulias, para que, quando crescêssemos, fôssemos fortes de corpo e mente, para o bem de nossa pátria, nosso querido Brasil. Tínhamos que ser uma raça pura, mas pura de mente e de coração, livre da ganância e da prepotência. Não como aquele monstro do estrangeiro, o tal Hitler, a querer criar uma raça apenas baseado na força física, homens sem alma, sem sentimento nobre e sem amor ao próximo.  “Vocês, crianças - continuou o mestre - são o futuro desta grande nação. Não queiram seguir o exemplo daqueles monstros do estrangeiro, que tencionam expulsar Deus de nossos lares. Eles são a guerra em pessoa, a destruição e o caos”.

              Compenetrado, as mãos cruzadas sobre o abdômen, como em postura clerical, o professor, tom solene e sério, insistiu, uma vez mais, que cuidássemos da saúde, pois que ele, infelizmente, apesar dos bons exemplos que recebera dos mais velhos, não soube conservar a sua, “e agora vejo o quanto fui irresponsável, esbanjando o que de mais sagrado existe em nós, e que hoje está fazendo falta tanto a mim, à minha família e à nossa amada pátria”.

              Nunca, acredito, nenhuma das inúmeras crianças, testemunhas daquela sincera confissão, comentou com quem quer que fosse o que acabara de ouvir. Não porque nada entendessem, mas porque muito forte o senso de discrição e, acima de tudo, de respeito ao mestre.

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10
Out

 Poemas da Silvia Trevisani - Telhadinho de vidro

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoção

Colaboradora: Silvia Cristina Martins Trevisani *

* Poetisa Paulista

Telhadinho de vidro
Meu telhadinho de vidro,
claro como cristal…
na vida que eu prossigo,
não tem telhadinho igual.

Uma casinha branquinha,
Um quintalzinho, um canteiro,
um pézinho de manacá,
e aos meus pés o mundo inteiro.

Das janelas azuis…
onde vejo o pôr-do-sol,
e no meu telhadinho de vidro…
onde pousa o rouxinol.

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06
Out

 Poemas da Dalva Saudo - Preconceito

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Dalva Saudo *

* Poetisa Paulista

PRECONCEITO

O jovem negro dançava

Marcava os compassos com os passos,

Sorrindo, sentindo calma em sua alma.

Pela simpatia, alegria, gingado e graça,

Encantava a muitos no salão.

Muito feliz, fazia a dama sorrir.

Sintonizado com a canção, estava seu coração.

Na busca de divertimento,

deixara lá fora seu sofrimento.

Distraidamente, num movimento,

No pé do branco pisou.

Todo sem jeito o negro se desculpou.

O preconceito não demorou:

–Negro, só serve para pisar em branco

Que desencanto! O negro entristeceu

Seu sorriso emudeceu

O pranto rolou quente e doído

Fora atingido com chicotada em sua alma.

Mesmo assim, manteve a calma.

Apenas seu pranto derramou

Um grito dentro do peito sufocou!

Cecília Meireles, diz em ¨CANÇÃO DO AMOR PERFEITO¨

¨  O tempo seca a beleza. Seca o amor seca as palavras.

O tempo seca a saudade. Seca as lembranças e as lágrimas¨

Será que um dia o tempo dará um jeito e “secará” o preconceito?

A ocorrência se deu em dezembro de 2006.

118 anos após o término da escravidão.

Quando o preconceito terá realmente um fim?

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05
Out

 Contos do Bié - Adão e Eva e o pecado original

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Sa Maria Amélia, esposa de Seu Virgolino – O Barbeiro - quitandeira e exímia cozinheira, moradora ali nos altos da Rua das Almas, e de quem passamos a ser vizinhos, tomou a incumbência de me dar lições extras de catecismo. Um de seus quatros filhos, Salatiel, depois de anos no seminário de Manhumirim, viu que não tinha vocação para padre, abandonou os estudos e foi trabalhar em São Paulo.
Seus livros de rezas, um punhado deles - grande parte em latim - ficaram aos cuidados dos pais, alguns bem guardados numa espécie de baú, e outros, expostos nas mesinhas dos quartos de dormir, serviam de consulta freqüente por parte de Sa Maria e a filha Isaltina.
Um de grosso volume, capa grossa como de couro, impressionava pelas inúmeras gravuras, em que sobressaíam as almas dos pecadores caindo de cabeça para baixo no inferno, os capetas a esperá-las com garfos pontiagudos, ao lado de labaredas de fogo e serpentes devoradoras.  Ante meu espanto, ela dizia sem sombra de dúvida serem retratos tirados por um tal Dante.
Eu ficava a cismar, assuntando aquilo, pois como poderia aquele homem ter ido ao inferno, tirado os retratos e voltado aqui, sem que os capetas não o retivessem lá?   - lugar de onde ninguém mais pode sair, segundo aprendíamos nas longas e horripilantes aulas de catecismo.  Com certeza devia ser um santo, eu concluía, ou então um homem mais forte que Sansão. Ficou esta hipótese, que na igreja não havia sua imagem. Depois, vim a saber, santo não tinha sido. Retratista, sim.
Das rezas que me ensinava, as mais difíceis eram a Salve Rainha e o Ato de contrição e bom propósito. Longa demais, a Salve Rainha tinha palavras diferentes e difíceis de entender. Eu já aprendera o Padre Nosso e o Senhor Meu Jesus Cristo. O Creio ficaria mais para o final. Reza especial - explicava Sa Maria - que tinha vez me chamava à atenção, dizendo que eu estava distraído.
Eu me punha a matutar no que Eva tinha aprontado, e aquilo me martelava a cabeça dia e noite. Tentava desviar os pensamentos daquele trem complicado, pois quem sabe eu poderia estar enveredando pelos caminhos do pecado em reprovar o ato por ela praticado no paraíso, tentando a Adão?
Vinham-me à mente as figuras dos bichos e dos pássaros no paraíso, me transportando em pensamento para o morro da Chapada, de onde lançava a vista para o Vale do Ouro Fino.  Não teria sido ali o paraíso?   Nessas ocasiões Sa Maria falava mais alto e sério comigo, despertando-me dos misteriosos e complicados devaneios. Chegava a afirmar a meu pai que eu estava com preguiça e má vontade. Ou então sinal de bicha. Se não melhorasse, melhor seria me dessem um lombrigueiro.

-
Não foram, entretanto, somente aqueles retratos que me deixaram impressionados.  Ao ver as representações de Adão e Eva no paraíso, rodeados de plantas e flores, frutos, pássaros, e cachoeiras, onde o casal se banhava em companhia dos animais, sem que os leões e cobras os atacassem; a vida alegre e descontraída e sem dor nem morte, e que tudo aquilo lhes foi tirado por Eva ter desobedecido ao Criador, aquilo, sim, me deixou chocado e pensativo!  Deveu-se à desobediência de Eva, proibida de provar da maçã, que nós, se quiséssemos ganhar o céu, teríamos que aceitar todo o sofrimento em nossa vida, ser obedientes e não ter preguiça de trabalhar, estudar e rezar.  A primeira pergunta que me veio foi se Adão e Eva voavam como os pássaros, se falavam com eles e com as feras daquele tempo.
- Sim! Sim! – respondeu de imediato, mostrando-me as gravuras e apontando para o que seria a prova do que afirmava.  A desobediência – continuou ela - transformou-se em pecado - o pecado original.
Encafifado com aquelas revelações, eu quis saber se o tal pecado, confessado ao padre no dia da primeira comunhão, iria acabar. Muito a contragosto, e meneando a cabeça, respondeu:
- Não… - um “não” carregado de tristeza.
.- Não! - repetiu - a mancha do pecado original é eterna. Não se apaga nunca! Só após a morte, e desde que estejamos na graça de Deus.
- O que é a graça de Deus? - perguntei, curioso e aflito pela resposta.
- É cedo ainda para você aprender isso. Nem eu sei direito – interrompeu o assunto,   como que desconsolada:
- Agora vai pra casa, que é hora de dormir.


Ao escalar os montes e as pequenas elevações, de seu pico me punha a olhar as serras distantes, uma após outra, de alturas e formatos diferentes, até onde a vista pudesse chegar..
O mundo era grande, muito grande, e o céu mais ainda, que ninguém podia pegar. Nem os pássaros, que voavam alto. Eles deviam chegar perto e vê-lo melhor que nós, aqui da terra. Com certeza conheciam serras mais altas, extensas planícies, grandes rios e cachoeiras. Cachoeiras bonitas como aquelas da terra de Adão e Eva.
E eu ficava a admirar as aves nos seus vôos serenos, indo e vindo, subindo e descendo, a cortar os ares num planar suave e tranqüilo, que causavam inveja em mim.  Tomado de ânimo, eu dava um pulo lá do alto da colina e, no arremesso do corpo, os braços abertos sempre a agitar, era firme na minha esperança de um dia poder voar…
Caía lá embaixo nas moitas macias, nas moitas fofas de capim gordura. Em vôo rasante, a presa nas garras, piava feliz: “Pinhé”!   Era o gavião, que à distância assistia à minha desolada tentativa de voar. Infrutífera vontade e ilusório meu grande desejo de planar nas alturas… Trazia comigo a mancha do pecado original, o que me deixava acabrunhado, desanimado.   E eu mirava o espaço, a fitar o infinito. Quem sabe enxergaria a morada de Deus, que me daria de volta o dom de voar?

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