Arquivo de Contos e Poemas

13
Nov

 Histórias da Eneida - Quem me dera!

Categoria(s): Contos e Poemas

Poesia

Colaboradora: Eneida Tagliolatto *

* Poetisa Paulista

Quem me dera ser uma borboleta!
Poder voar sem me preocupar com a vida.
Sem ter medo, sem receio, apenas sentindo a brisa,
no bater de minhas asas.
Gozando de tudo que tenho direito;
Liberdade, amor e respeito.

Liberdade de me expressar,
da forma que quiser.
Seja falando, escrevendo, dançando,
rindo, ou até mesmo chorando.
Mas chorando alto, sem precisar abafar o meu pranto,
sem ter medo de que escutem,
que me interpelem e me recriminem.

Quero amor! Não somente amor de desejos.
Quero um amor sem cobrança,
que me traga esperança,
que me faça feliz, sem que eu precise,
deixar de lado, tudo o que sempre quis.

Ah! E o respeito?

Quem respeita, dá a liberdade necessária.
Dá o amor pleno na sua consistência.
Consistência essa, que gera: Cumplicidade,
igualdade, tranquilidade e felicidade. Borboleta; quem me dera!

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06
Nov

 Contos do Bié - Alma penada em casa de Zé Badalo

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Alma penadaCerta feita correu a notícia do aparecimento de uma alma penada em casa de Zé Badalo, vizinha de onde morávamos.

Íntimo do vigário, o casal tanto insistiu que o padre concordou em responsar a dita cuja.

Naquela noite quente e abafada, nenhuma aragem no ar, os gemidos desapareceram. Agradecido, Zé Badalo foi depositar umas moedas de mil Réis no cofre das almas, na igreja da cidade.

Duas ou três noites depois, ocasião de muito vento e prenúncio de chuva, os gemidos recomeçaram. O jeito era apelar para Zé do Trago, que chegou acompanhado de Sa Maria do Gole. Vela acesa, saíram em direção de onde partiam os gemidos, um estreito corredor de acesso aos fundos do enorme quintal.

Passaram pela cancela de madeira e se meteram quintal adentro por entre o bananal. Instantes depois voltaram eufóricos, dando por cumprida a sagrada tarefa de acalmar e afugentar os mortos.

Levaram debaixo do braço uma garrafa de pinga, a “Teimosa”, pela paga dos bons serviços prestados.

Naqueles dias chuvosos os gemidos cessaram por completo.

Mas numa tarde, na boca da noite, meu pai, a querer saber de onde vinham umas formigas cabeçudas, pediu licença para procurar a panela de origem no quintal de Zé Badalo.

Ao forçar a cancela, abrindo-a com jeito, eis que soou o gemido!

Apesar de medroso e supersticioso, viu não ser nada mais do que a completa ausência de óleo de mamona junto às dobradiças da pesada cancela de madeira.

Do alpendre, onde tranqüilo enrolava seu cigarro de palha, Zé Badalo levou um susto e, sem querer, exclamou a chamar por D. Carola, sua mulher:
- Um dia são os mil Réis! No outro é garrafa de pinga! E hoje?
- Quando viu o semblante aliviado de meu pai, indagou confuso:
- Uai, João, achou as formigas?
- Achei! E a alma penada também!

Embora medroso, meu pai exorcizou a alma penada, ao receitar a Zé Badalo uma pequena porção de óleo de mamona, do que as dobradiças realmente precisavam.

E Zé Badalo ficou contente, e com o canivete “corneta” principiou a cortar o fumim cheiroso para as baforadas de sempre.

Noite feita, tragava o inseparável cigarro de palha ali na penumbra do alpendre, a fagulha do pito lembrando olho de onça a brilhar no escuro.
Lá fora na rua alguém resmungou assustado:
- Cruz credo, é os zóios da alma penada! Te esconjuro!

E Zé Badalo soltou gostosas baforadas, agora livre da alma penada, exorcizada com óleo de mamona!!!

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30
Out

 Histórias da Eneida - Na casa de minha prima Adair

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaboradora: Eneida Tagliolatto *

* Poetisa Paulista

Carl LarssenNa casa de minha prima Adair, a nora da mesma que se chama Ana Paula, tendo o dom de cabelereira, costuma usar um pequeno espaço ali para fazer sempre os reparos de estética nas parentes mais próximas; como cortar e tingir cabelos, dar uma limpada nas sombrancelhas, arrancar uns determinados pelinhos que teimam em aparecer no queixo, etc e tal… Eu então já tendo telefonado avisando que ia hoje à tarde lá, cheguei um pouco antes da hora combinada, porque assim conversaria um pouco com minha prima, conversa essa sempre parecida; recordações.

A nora chegou e logo começou a preparar a cadeira onde eu sentaria, e de tesoura em punho foi dando um trato no meu cabelo e em seguida, aquela tinturinha básica.

O bom mesmo veio depois, eu já toda arrumada estava parecendo a Hilary Clynton, ou a Marta Suplicy, isso dito pela filha de minha prima que chegara há pouco ali. Desconjuro, fui logo dizendo; só falta você dizer para eu relaxar e gozar. Depois de boas gargalhadas, entramos casa adentro (o espaço que falei era no quintal), pois o café já estava sendo servido, e para deleite de todos, minha prima havia feito pão de queijo e bolo de milho verde.

Quer coisa melhor do que cortar cabelo na casa da prima?

* Pintura de Carl Larsson(1853-1919)

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23
Out

 Contos do Bié - O Santo que eu queria e os sinos de meu desejo

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

São FranciscoAté que enfim se decidiu, após longas e extenuantes reuniões do vigário com os principais da cidade, entre eles o senhor prefeito, a demolição da velha igreja matriz.
Não levou muitos dias chegaram à cidade Dedê e Armelindo, pedreiros competentes, encarregados de construir o novo templo… Solteiros. Dedê, magro, alto, simpático, fala mansa. Armelindo, gordão, também muito amável e comunicativo.

Vi-os pela primeira vez do lado de fora da igreja, em companhia do vigário e de grande parte dos principais da cidade que decidiram levar a cabo a nova obra. Examinaram o velho templo a ser demolido e toda a área em volta, como a estudar onde seriam depositados os materiais básicos da futura construção.

A cidade estava eufórica e eu muito mais ainda. Afinal chegará a hora de ter um santo em minha casa. Seria uma oportunidade para eu rezar quase que dia e noite, a rogar ao santo que mantivesse a guerra lá fora e restabelecesse a saúde de meu pai. As inúmeras imagens e estampas dos santos da igreja seriam distribuídas a determinadas casas da cidade, que aí permaneceriam até a conclusão do novo templo. Ora, eu raciocinava, todos de nossa casa éramos assíduos freqüentadores das rezas e missas , e meu pai, em sendo membro do coro, onde tocava e cantava, e ainda prestava assistência técnica ao harmônico, preenchia todos os requisitos para abrigar um santo em casa. Pronto, eu matutava ,favas contadas, e, no meu íntimo e silenciosamente, alegrava-me, imaginando-me ajoelhado em algum canto da casa, diante do santo que ali iria estar, zelando por mim, por meu pai e meus irmãos, por toda a família.

Amiudaram-se minas idas à igreja, e quantas vezes, durante o dia, via-me a sós com meus medos, pavores e esperanças, postado diante das imagens, como a fazer uma via-sacra, detendo-me diante de cada um dos santos e santas, examinado-os em detalhes, reparando bem neles, no seu jeito de ser, na sua fisionomia, triste, alegra, decidida ou não. Lá num canto, à direita do altar principal, entre outras, via-se a imagem de Nossa Senhora das Dores, que parecia imensa, uma dona de toda altura, o manto a cobrir-lhe a cabeça e todo o corpo até as extremidades dos pés. Expressão de tristeza e dor, o olhar fixo, perdido no espaço, em direção à imagem do filho, o Senhor Morto, estendido no esquife, ali a seus pés. Nunca recebiam minha visita, e eu já descartara a ida dos dois para minha casa. São Sebastião, apesar de crivado de flechas, ensangüentado, não demonstrava expressão de dor e de derrota. A cabeça erguida e os olhos vivos pareciam traduzir sua indiferença ao martírio, o que me deixava seguro e confiante em tê-lo como hóspede e por isto já figura como um dos escolhidos, e, além dele, incluía-se uma santa linda, o olhar terno, as delicadas mãos a segurar um feixe de flores. Devia ser Santa Luzia. Havia outro santo, figura simpática de um velhinho, com uma criança ao lado, uma das mãos em sua cabeça, em gesto de afago. Era São Vicente de Paula. Mas com quem me simpatizei, de fato, e mais me demorava diante de sua imagem, foi São Francisco de Assis. Já escutava muita história a seu respeito, em especial de seu convívio com a natureza, a que chamava de irmã. Figurava entre os mais citados para ficar em minha casa, que, apesar de acanhada e muito simples, pobre até, dispunha, num dos cômodos dos fundos, de um viveiro com tuins, além de um bando enorme de pombas caseiras. Sua imagem poderia ser acomodada ao lado do viveiro, junto aos barulhentos passarinhos verdes.

Todos estes planos eu traçava silenciosamente em meu coração, e não via a hora em que o vigário fizesse o anuncio oficial das casas contempladas para acolher as imagens dos santos de devoção de todos nós, velhos, adultos e crianças. Por isto eu não perdia uma reza, um terço e muito menos missa, na expectativa da grande notícia. Esta frequencia à igreja animou muitas beatas minhas vizinhas e as professoras do grupo onde eu estudava, pois quem sabe haveria em mim uma santa vocação para padre, menino bom, rezador, de bom procedimento- “bem procedido?”

Todas as tardes, a partir das seis horas, logo após o momento do Ângelus na Radio Tamoio, em que Júlio Louzada levava às lágrimas, mormente as mulheres, os ouvintes de seu programa, tinha início a novela em que se abordava a vida dos santos, e estava sendo levada ao ar a vida de São Francisco de Assis.

Chegou, afinal, o dia do grande anúncio e também de minha decepção e tristeza, de vez que nossa casa não figurava entre as que iriam acolher as imagens dos santos e santas. Terminada a celebração daquela manhã fria e úmida do mês de junho, permaneci no interior da igreja, cujos trabalhos de demolição teriam início na semana seguinte, com a retirada das imagens e de todos os utensílios e componentes que pudessem ser aproveitados no novo prédio, e os sinos seriam um dos primeiros a serem retirados, junto com o velho e tradicional relógio e seu pesado pêndulo.

De início em nicho, orei a todos os santos e santas, dentendo-me mais um pouco diante daqueles de minha maior simpatia e devoção. Dei início aos meus passos pela parte reservada exclusivamente às mulheres, e, do último nicho fui para o outro lado, lugar de exclusivo assento dos homens. Passei rápido ao lado de Nossa Senhora das Dores e do esquife do Senhor Morto, postados ao lado da sacristia e do altar-mor.

À tardezinha voltei à igreja e dirigi meu adeus aos santos todos, cujas imagens, na tarde daquele domingo, foram levadas às sua novas e provisórias moradas, em procissão formada por diversos grupos dos fiéis devotos, que iam saindo a entoar hinos de louvores.
E fiquei ali, do lado de fora, tiritando de frio, e vi quando sumiu, no fim do largo do chafariz, o derradeiro grupo de fiéis que levaram o Senhor Morto e Nossa Senhora das Dores à casa de seu Lalade e Sinhazinha, onde foram acolhidos. E já de noite, no silêncio da rua erma e deserta, tomei o caminho de casa. Aqui e acolá escutavam-se os cantos dos pássaros noturnos, entre eles o curiango, que, piando agouros, dava-me a pressentir.

Uma noite de maus sonhos e pesadelos

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16
Out

 Contos do Bié - O Muro de Berlim em Peçanha

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Muro de Berlim

Corria o ano de 1944, devia ser mês de junho, tempo frio, e de muita poeira. Mas ali no Peçanha a coisa estava quente, só se falava em guerra. De fato, era americano por toda parte, aqueles caminhões e jipes sem capota indo e vindo, transportando minério. Aviões subindo, aviões descendo, movimentação nunca vista. Um novo ingrediente se misturou no que já tinha complicado a vida do povo d0 lugar: o tal Comunismo, PC do B e PCB, siglas proibitivas de pronunciar, ainda mais de escrever, exorcizadas em todas as liturgias pelo vigário. Pois bem, certo dia a coisa tomou rumos incertos e não recomendados, eis que no muro branco e alvo da D. Lota Perpétuo, que ficava logo ali no final da Rua do Quenta-sol e início da Rua da Fontinha, bem na curva que demandava a rua onde antigamente havia o negócio do Seu Carlos Amantino, naquele virgem muro caiado de branco apareceu escrito com letras pretas e em tamanho gigante: “Despeito vê prestígio onde há traição - PCB”. Aquilo foi uma bomba! “A peste por fim chegara à cidade!!!” - bradou o Padre Amaral.

Convocaram-se as pessoas gradas e de bem do lugar, e, diante do dito cujo muro, as feições carregadas, se interrogavam no íntimo, a querer saber quem teria sido o autor daquela heresia política. Seu Ostinho, óculos de aro de metal, lentes grossas, chegou mais perto, e sem ter o que dizer, tal a ousadia do autor ou autores, remexeu no bolso interno do paletó e tirou do maço um cigarro - Consul - de imediato aceso pelo solícito Jeremias, solidário no repúdio ao pestilento Comunismo. E em todas as rodas que se formavam o assunto era um só e somente aquele: quem teria violado o muro branco de D. Lota??? “Não é gente daqui! - dizia um. “Só pode ser um doido!” - ajuntava outro. “Isto é gente que não tem o que fazer!” E assim ia indo, o trêm tomando forma de um grande e complicado caso político, carregado de mistério.

Sol morrente, retornava eu de meu trabalho no campo de aviação, quando mais uma vez passei por ali, que era meu caminho. Os grupos de curiosos se revesavam, e já se comentava que o prefeito Dr. Antônio da Cunha determinara ao Zé Bão proceder à limpeza do muro, ou melhor, fazer sumir aquela porcaria que ali estava escrito. Ao chegar a casa, meu pai, postado na janela, olhava afoito para a descida da Rua da Fontinha. Aguardava a chegada do compadre Antônio Vitor, que todos os dias ia para o Retiro Córrego das Almas. logo que o compadre desceu do Pampa, meu pai o chamou até à sala, e enquanto o Dete desarreava o animal, meu pai contou toda a história do muro. O padrinho, surpreso e abismado ante o sucedido, foi logo perguntando: “Quem foi, João?”.

Terminado o papo, eu e meu pai fomos cuidar da rega da horta. Teve uma hora que meu pai se achegou a mim e quis saber o que se passava comigo, que achava muito estranho meu proceder. No fim da conversa, afoito, me chamou para dentro de casa, e a sós e trancados no quarto, me recomendou: “Não conte isto a ninguém, nem ao padre, na hora da confissão”. Menino obediente, não abri o bico, e só faço hoje, a dizer que, quando cedinho ainda, eu a conversar com a minha estrela guia, vi, isto afirmo e juro, que Lúcio de seu Ostinho estava ali estreando o alvo e branco e virgem muro de D. Lota, predecessor do Muro de Berlim. Que Deus o tenha em sua Glória, que muro no Céu nunca houve, não há, nem haverá.

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