Arquivo de Contos e Poemas

24
Dez

 A verdadeira doação

Categoria(s): Contos e Poemas

 Sabedoria

A verdadeira doação

Autor - Desconhecido

Colaboradora: Dulcinea Maria Zanini Mardegan *

amada jovem

O homem por detrás do balcão olhava a rua de forma distraída. Uma garotinha se aproximou da loja e amassou o narizinho contra ovidro da vitrine. os olhos da cor do céu brilhavam quando viu um determinado objeto. Entrou na loja e pediu para ver o colar de turquesa azul.

É para minha irmã. Pode fazer um pacote bem bonito? - diz ela.

O dono da loja olhou desconfiado para a garotinha e lhe perguntou:

Quanto dinheiro você tem?

Sem hesitar ela tirou do bolso da saia um lenço todo amarradinho e foi desfazendo os nós. Colocou-o sobre o balcão e feliz, disse:

Isso dá?

Eram apenas algumas moedas que ela exibia orgulhosa.

Sabe, quero dar esse presente para minha irmã mais velha. Desde que morreu nossa mãe ela cuida da gente e não tem tempo para ela. É aniversário dela e tenho ceerteza que ficará feliz com o colar que é da cor de seus olhos.

O homem foi para o interior da loja, colocou o colar em um estojo, embrulhou-o com um vistoso papel vermelho e fez um laço caprichado com uma fita verde.

Tome, disse à garota. Leve-o com cuidado. Ela saiu feliz e saltitando pela rua abaixo.

Ainda não acabara o dia quando uma linda jovem de cabelos louros e maravilhosos olhos azuis adentrou a loja. Colocou sobre o balcão o já conhecido embrulho desfeito e indagou:

- Este colar foi comprado aqui?

- Sim senhora.

- E quanto custou?

Ah, falou o dono da loja. O preço de qualquer produto de minha loja é sempre um assunto confidencial entre o vendedor e o cliente.

A moça continuou: “Mas minha irmã tinha somente algumas moedas. O colar é verdadeiro, não é? Ela não teria dinheiro para paga-lo.”

O homem tomou o estojo, refez o embrulho com extremo carinho, colocou a fita e o devolveu a jovem.

Ela pagou o preço mais alto que qualquer pessoa pode pagar. ELA DEU TUDO O QUE TINHA!!!

O silêncio encheu a pequena loja e duas lágrimas rolaram pela face emocionada da jovem, enquanto suas mãos tomavam o pequeno embrulho.

“Verdadeira doação é dar-se por inteiro, sem restrições. Gratidão de quem ama não coloca limites para os gestos de ternura. Seja sempre grato, mas não espere pelo reconhecimento de ninguém.

Gratidão com amor não apenas aquece quem recebe, como reconforta quem oferece.”

Veja Também:
Camomila - Chamomilla suaveolens
Poemas de Silvia Trevisani - Fios de mim; O Parto da Vida
Contos do Bié - Carta ao Compadre Zico
Terminalidade - Parte 5. Curar e cuidar
Pericardite constritiva
Hipertensão do jaleco branco: benigna ou maligna

Comentários (2)     Indique esse artigo Indique esse artigo



23
Dez

 Contos da Eneida - Onde ele mora?

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaboradora: Eneida Tagliolatto *

* Poetisa Paulista

ONDE ELE MORA?

Anjos

Hoje, Joana está muito preocupada com Ana Maria, sua filha mais nova. Das três filhas, Ana Maria é a mais quieta, mas também a mais interessada em questionar sobre coisas, as vezes até embaraçosas. Certa feita questionou sobre os anjos, o porquê das asas se ninguém via eles passarem voando. Nessa ocasião Joana lhe dissera que os anjos eram seres invisíveis, o que de pronto Ana Maria comentou:
- Ah! Então é por isso que quando cai um avião e ninguém consegue saber a causa, só pode ser um anjo desorientado que acabou trombando com ele. Lógico, como anjo é invisível, o piloto não percebe, nem mesmo os radares captam, a caixa preta também não registra nada, porque nem deu tempo do piloto e co-piloto conversarem sobre o que estava acontecendo. Sabe mãe, não fala para ninguém isso, porque senão os anjos estão fritos, ninguém mais vai querer saber deles.
Nesse dia, Joana só balançou a cabeça e deu risada. Mas hoje Joana está encafifada com a atitude de Ana Maria. A menina está sentada num banquinho no fundo do quintal, o olhar perdido num ponto qualquer, e isso já faz um bom tempo; tanto que vira e mexe Joana chega até o vitrô da cozinha e espia para ver se ela ainda está lá. E lá está Ana Maria do mesmo jeito, pensativa demais.
Joana não aguenta, afinal uma criança de apenas oito anos não pode ficar desse jeito, ainda mais numa manhã tão gostosa como essa; o sol iluminando tudo, o céu tão azul, uma brisa suave balança as folhas do pequeno pé de Manacá que exala um doce perfume. Tudo convida para folguedos. Mas Ana Maria está tão absorta em seus pensamentos, que não consegue perceber nada ao seu redor.
Joana chega até a porta da cozinha e diz: - Ô, filha! Porque você está tão quieta desse jeito, parece que está no mundo da lua. Vem, entra e toma esse suco de laranja que eu acabo de fazer e que você gosta tanto.
- Já vou, mãe! Deixa só eu resolver uma coisa aqui na minha cabeça, que está me incomodando.
- Tá bom! Mas não demora, viu? Senão sua irmã Catarina vem e toma a sua parte. Você sabe como ela é gulosa.
Joana entra, mas fica no vitrô espiando preocupada.
Passado alguns minutos Joana percebe que Ana Maria se movimenta, e trata de disfarçar para que a menina não perceba sua curiosidade.
Ana Maria entra e pede logo o suco de laranja. Toma quase de um fôlego só, coisa que Joana a repreende.
Limpando a boca com as costas da mão, Ana Maria fala: - Mãe…
Mas é interrompida por Joana que mais uma vez chama a sua atenção…
- Você não sabe que e muito feio limpar a boca desse jeito? Pega um guardanapo de papel, menina!
- Tá bom, tá bom! Mas agora já foi e eu quero te perguntar uma coisa.
Joana balança a cabeça em sinal de desaprovamento, mas acaba deixando que a menina pergunte, afinal está curiosa para saber o motivo de tanto tempo sentada naquele banquinho.
Sabe mãe, eu queria saber se a senhora sabe onde Deus mora. A senhora sabe?
- Lógico que eu sei, assim como todo mundo sabe. Deus mora no céu.
- Engano seu, Deus não mora no céu…
- Ana Maria, eu aqui preocupada e você vem com essa agora?
- Mãe, Deus sabe de tudo, não é isso que a senhora diz? Ele sabe quando estamos certos, sabe quando estamos errados, sabe quando estamos tristes, fica feliz quando estamos felizes, isso quer dizer que Ele está sempre presente, e isso é com tudo que Ele criou. Então mãe, eu pensei, pensei… E cheguei a seguinte conclusão:- Deus não mora no céu, Ele mora dentro de todos nós, dentro de todas as coisas que Ele criou. Ali sentada no banquinho, eu vi Deus passar quando um passarinho voou por cima da nossa casa, eu vi Deus dançar quando as folhas do Manacá balançaram, quando o Bem-te-vi cantou, era Deus cantando, e quando a senhora me chamou para tomar o suco de laranja, era Deus dentro da senhora que estava preocupado comigo. Sabe mãe, não vou mais ter medo de dormir por causa do escuro, porque agora eu sei que Deus vai estar dormindo comigo. E agora vou brincar, porque Deus está querendo brincar comigo. Tchau mãe!
Ana Maria sai correndo e chama por suas irmãs.
Lágrimas rolam pelas faces de Joana que nesse momento diz baixinho: “Obrigada Senhor, por morar conosco”.

Veja Também:
Poemas da Eneida - Tributo à Élen Rosana
Poemas da Eneida - Pai meu
Poemas da Eneida - Sou o que sou
Poemas da Eneida - Cotidiano Cruel
Poemas de Eneida - Miséria miserável
Poemas da Eneida - Solidão

Comentários (2)     Indique esse artigo Indique esse artigo



18
Dez

 Contos do Bié - Nossa Senhora dos Acordados

Categoria(s): Contos e Poemas

O LUGAR, SUAS GENTES E SEUS COSTUMES..
Igreja Nossa Senhora dos Acordados, no auge da febre do ouro e do diamante nos confins das Gerais, foi erguida entre as alterosas num dos pontos mais altos daquele oco de mundo. De tão alta, e tantos os acidentes topográficos, que estradas nunca existiram, mas estreitas e íngremes trilhas por onde até hoje as conduções trafegam com
dificuldade de toda ordem.

Teve um tempo que para ali chegarem, as pessoas
deixavam o carro ou a jardineira no sopé da grande montanha, onde ficavam a pastar inúmeros e bons animais de carga e sela que faziam o resto do trajeto até o lugarejo.

As autoridades, pelo menos o prefeito nomeado, não tinham lá muito entusiasmo pelo progresso, e se justificavam que era para não despertar a curiosidade de visitantes inoportunos e turistas indesejáveis. Quanto mais desconhecido e de difícil acesso o lugar,
tanto melhor, que temiam por mudanças radicais em seu cotidiano.

Era este também o pensamento entre os de meia idade, assim considerados os da faixa de 50 a 70 anos, como igualmente entre os mais vividos, dos de 100 para mais.

Existiu época em que havia pouquíssimos jovens, assim vistos os de 40
a 60 anos. Mais e mais crescia a leva dos de meia idade, considerados os de 70 anos para cima.

Tudo pelo fato de a vida ali se prolongar além da conta. E havia os que se mudavam e retornavam depois de atingirem certa idade, e era baixo o índice de óbitos.

Ainda é comum casas e mais casas fechadas e sobradões centenários esperando pelo retorno de seus antigos moradores.

Uma figura muito conhecida na cidade era o Zé Tira Jejum, além do Dirceu Péla Égua. Aquele, pedreiro; e este um famoso embuçador de telhados, profissão herdada do pai, que por sua vez aprendeu com o avô. Na faixa dos 92 anos, não enjeitavam nenhum
serviço.

Havia também o Zé Minhoca, de profissão lá chamada bombeiro, a que em outras regiões do Brasil denominam encanador. Só descansou da lida e se foi em definitivo aos 104 anos, quando o burrico Gabinete lhe deu uma patada nas virilhas.

Tinha como ajudante um de seus catorze filhos, Minhoquinha, que aos oitenta e dois anos não largava de sua caixa de ferramentas pela cidade afora.

Os treze restantes caíram no mundo. Quim Traíra, Zé do Beco e João Mandi retornaram, e estão lá…

Veja Também:
Contos do Bié - Chico Voador
Contos do Bié - Maroveu Pára-Raio, O Beato
Contos do Bié - O lugar, suas gentes e seus costumes
Contos do Bié - Cecília. Era este seu nome.
Poemas de Arita Pettená - Precisa-se
Contos do Bié - O Francês

Comentários (3)     Indique esse artigo Indique esse artigo



16
Dez

 Poemas da Silvia Trevisani - Raízes

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoção

Colaboradora: Silvia Cristina Martins Trevisani *

* Poetisa Paulista

RAIZES

amarelinha

Quero mergulhar no passado em busca do meu “eu”.
Vasculhar nas fendas da vida as minhas raízes.
Conhecer todos os lados deste coração que perece.
Sonhar no futuro com a beleza dos matizes.

Quero voltar àquela porteira velha empoeirada.
Que rangia quando eu me abria para vida,
Quando o sol nascia todos os dias no meu sorriso,
Onde a esperança era mantida.

Quero pisar naquele caminho longínquo,
Onde caminhei sobre as pedras e sobrevivi,
Hoje sou andarilha das calçadas,
Nem pra sonhar me sobra tempo, acho que me perdi…

Quero ouvir o vento açoitar as matas,
E o gorjear festeiro do bem-te-vi,
Colher as flores silvestres e brincar de bem-me-quer,
E sonhar com a vida que escolhi.

Quero ser hoje, tudo que almejei no passado,
Construir meu castelo com os sonhos que acalentei,
Renascer das cinzas do meu presente pétreo,
E buscar nas minhas raízes o que não alcancei.

Veja Também:
Poemas da Silvia Trevisani - Brava Gente Brasileira
Poemas da Silvia Trevisani - Sonho, Suor e Lágrimas
Poemas da Silvia Trevisani - Crepúsculo
Poemas da Silvia Trevisani - Arte de Viver
Poemas da Silvia Trevisani - Pensamento
Poemas da Silvia Trevisani - Árvore dos sonhos

Comentários (3)     Indique esse artigo Indique esse artigo



11
Dez

 Poemas da Eneida - Aproveitando o tempo

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaboradora: Eneida Tagliolatto *

* Poetisa Paulista

Um comentário muito comum quando está se aproximando o final do ano é o de: “Nossa como passou depressa o ano, não consegui nem fazer tudo o que queria!”

O tempo é o mesmo. A Terra continua girando do mesmo jeito, 24 horas girando em torno de si mesma sem ficar tonta, e 365 dias em torno de sua majestade, o todo poderoso Rei Sol, que apesar de ter um nome masculino, é uma linda estrela, e olha como gosta da cor alaranjada… Mas deixando de lado a sua sexualidade e voltando aos giros da Terra, essa senhora de quatro me quatro anos se dá ao luxo de ter uma preguicinha e prolonga por mais um dia o seu giro, nunca se sabe a sua intenção, talvez seja uma esperança de num desses giros acabar por conquistar o Sol, mas também não nos interessa. Então, a cada quatro anos temos 366 dias. Grande coisa, não? Mas isso tudo foi para explicar que o tempo continua o mesmo.

A grande verdade é que muitas vezes não sabemos aproveitar esse tempo, que é precioso e implacável, pois cobra e muitas vezes com juros a nossa ociosidade, o nosso pouco caso em relação ao seu uso.

Tomemos por exemplo uma criança. Quando uma criança nasce, o seu cérebro ainda está vazio, está pronto para receber todas as informações necessárias, sejam elas boas ou más, mas todas necessárias para sua sobrevivência, pois para poder sobreviver tem que saber se defender das más, e isso só acontece depois da informação. Assim que sai do ventre materno e perde a sua ligação umbilical com a mãe, ela dá o primeiro vagido, seu pulmão se abre e a partir desse momento começa o seu aprendizado. O que eu estou querendo dizer é o aprendizado do mundo exterior, pois no ventre a natureza se encarrega de tudo que é necessário para a sua vida até aquele momento, o seu organismo já se encarrega de eliminar o que não precisa (fezes, urina) e até sugar o leite materno ela já sabe. E sabe botar a boca no trombone quando não está de acordo com o que está acontecendo e muitas vezes esse choro é pura malandragem, que já começou a descobrir.

O filhote humano é o único que precisa de ajuda; não sabe andar, não sabe falar, não sabe se defender. Se o colocarmos num lugar e o deixarmos lá, lá ele ficará até morrer de frio, fome. Mas, aí vem o melhor; o cérebro começa a armazenar as informações e transmiti-la àquele ser. Com o passar dos meses ela já reconhece a mãe, já aprendeu a sorrir, a levar a mão à boca, e para encurtar quando completa um ano, ela se não estiver andando sozinha, com ajuda já troca os passos, já balbucia sílabas; a tão esperada: ma ma, pa pa; que os pais quase choram ao ouvir. Já fica sentada, brinca e até alimento leva à boca. Então muita coisa acontece em um ano e não damos conta disso. Acho que temos ter como exemplo os bebês que estão ao nosso redor e aproveitarmos mais o tempo que muitas vezes deixamos escorrer pelos nossos dedos. Vamos cumprimentar mais as pessoas que cruzam o nosso caminho, vamos procurar adquirir mais conhecimentos, vamos sorrir mais e com isso com certeza vamos expandir o nosso tempo e vamos parar de achar que o ano passou depressa, pois a Terra gira do mesmo jeito de séculos e séculos atrás. Tenho certeza que desse jeito conseguiremos fazer de um ano o tempo necessário para aquilo que projetamos.

Veja Também:
Contos de Silvia Trevisani - O que vejo da minha janela
Poemas de Silvia Trevisani - Rascunho
A Caravana da vida
Poemas da Eneida - Tributo à Élen Rosana
Contos de Mardegam - Bernardo Ermitão
Poemas da Dalva Saudo - Preconceito

Comentários (1)     Indique esse artigo Indique esse artigo



Paginas (37): « First ... « 26 27 28 29 30 31 32 [33] 34 35 36 37 »