Arquivo de Contos e Poemas

09
Dez

 Poemas do Bié - Homenagem a Clarice Lispetor

Categoria(s): Contos e Poemas

Saudades

Clarice LispetorNo aniversário da passagem da saudosa Clarice
Lispetor, a ocorrer no dia 9 dezembro, EU, GABRIEL ARAUJO DOS SANTOS,
BIE O PROSADOR, desejo lembrar meu casual encontro com a grande musa.
Eu era jovem ainda, e até hoje sinto o vibrar daquelas emoções.

Eu estava de retorno a casa. Dias depois
chegaram-me os versos da Clarice:
Quero escrever o borrão vermelho de sangue

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.
De imediato lhe respondi:
Inesquecível Clarice,

Naquela tarde, ao tomar água de coco na praia do Arpoador,
ocorreu-me tivesse sido o sol causticante a razão de tanta sede.
Confesso-lhe, desde aquele instante nenhuma água, nem natural,
nem de coco mitiga-me a sede, que persiste, me martiriza.
Naquele fortuito e feliz encontro, ao entregar-lhe o leque que
das mãos lhe escapulira, dei com o seu olhar, e a semente do amor foi
plantada em mim.
Aqui, nas Gerais, das montanhas tento divisar o mar.
E à noite, miro a Lua à procura de seu vulto nela refletido.
De que são feitos esse olhar e esse sorriso que tanto me cativaram?
Ou seria o feitiço do mar, que bramia sem medida naqueles
instantes de suprema felicidade do encontro casual?
Tão profundos os sulcos da saudade, que minha vida se esvai
gotejando sem medida.
Aceite, lhe rogo, as gotículas vermelhas para molhar a sua
pena, e que se eternize nos seus poemas meu imorredouro e sincero
amor.

Recebida minha carta, ela me responde em versos:

Na procura do meu vulto.

Persiste e insiste na procura do meu vulto
Na face pálida das noites de luar

Persiste e insiste na procura do meu vulto
Na praia à beira mar

Persiste e insiste na procura do meu vulto
Ao léu das noites cálidas e ermas

Mas não sei se o meu vulto verás.

Mas com certeza hás de encontrá-lo
Na forte correnteza que deságua no mar…

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04
Dez

 Contos do Bié - O Francês

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

menino

Apesar da fama de homem seco e de pouca conversa, tive boa convivência com ele na minha lida de engraxate.
Refiro-me ao Sr. Alexandre Ceolin, um dos três estrangeiros do lugarejo.
Sentia-me um privilegiado em ser recebido na sua casa, e me encantava com seu modo de falar, pois que ainda não perdera o sotaque da gente de sua Terra.
Muitos invejavam aquela minha intimidade com o Sr. Ceolin, e me orgulhava disso. Por isso mesmo, eu me esmerava no engraxar-lhe os sapatos.
Sua morada ficava em frente a um chafariz do largo onde havia o jardim, o repuxo e o coreto, e tinha como vizinho um outro estrangeiro, este suíço, o Sr. Daniel Maytre.
Tanto eles, como o Seu Nagib, - apesar de estrangeiros, já se achavam totalmente integrados naquele nosso meio, e eram considerados e respeitados por todos, gente nossa.
Quando eu batia palmas, quem sempre atendia era uma senhora de cor e já de idade, de fado (lenço) na cabeça, bem robusta, uns seios que chamavam a atenção, tal o volume que faziam.
E o velho Ceolin surgia lá de dentro, e quando me via com o caixote de engraxate, retornava ao interior da casa e vinha com um par de sapatos para eu engraxar.
Descalçava-se dos chinelos felpudos com que andava dentro de casa e punha os tais sapatos. Fazia questão que eu os engraxasse com eles nos seus pés, mania que eu não entendia.
Sentava-se numa cadeira de palhinha, punha o pé no engraxate e eu começava o serviço, sempre dando sinal a dizer que eu não precisava ter pressa.
Daí a pouco a tal senhora vinha com uma garrafa de bebida e uma espécie de cálice. Ele pegava o cálice e ela ia servindo, e a um leve gesto, quase imperceptível, ela parava. Dava outro sinal e ela se retirava.
De soslaio, ficava a reparar no seu modo calmo e demorado na degustação da bebida, que ele sorvia aos pequenos goles, e até fechava os olhos.
Achava engraçado que todas as vezes que eu ia lá ele fazia sempre as mesmas perguntas: quem era meu pai, o que ele fazia, quem era minha mãe e quantos irmãos eu tinha. Aí, se lembrava de meu pai, e dizia que meu pai tinha feito uns móveis para ele. Em outras
ocasiões, indagava se eu sabia jogar baralho, e se eu quisesse, ele me ensinava.
Então eu dizia que meu pai não gostava de baralho.
Era quinhentos Réis a engraxada, mas sempre me dava o dobro, apesar de muita gente dizer que era sovina.
Depois de alguns dias, voltava lá.
Sempre a mesma coisa, uma espécie de ritual.
Batia palmas, vinha a tal senhora. Daí a pouco apontava lá, do mesmo modo, com o mesmo chinelo, o mesmo sapato que não dava mostra de ter sido usado, pois quando o via lá na venda de Seu Paulo Renan, estava sempre de botinas de pelica.
E vinha a senhora com a garrafa e o cálice sempre servido na medida exata.
Parecia já sabia da quantidade certa para chegar ao termo do meu serviço.
Depois, as perguntas, as mesmas respostas.
Mas nunca tive coragem de dizer a meu pai que se oferecera para me ensinar jogo de baralho, tal o receio de que me proibisse de ir lá engraxar os sapatos, e minha mina secar.
Certa feita, traído no meu jeito de reparar nele - devo ter deixado transparecer minha vontade inconsciente de provar da tal bebida - deu um estalo com os dedos, e logo apareceu a tal senhora.
Cochichou-lhe aos ouvidos e ela foi lá dentro e retornou com um minúsculo cálice pelo meio, que ele pegou e passou a mim.
Encafifado, fiquei na dúvida se tomava ou não. Fez sinal de riso e falou, misturando os idiomas:
- Pode tomar, mas aos pouquinhos, que é licor francês.
Nunca, em toda minha vida, lembro-me de ter experimentado bebida tão deliciosa.
Em casa, narrei o acontecido aos meus familiares. Mas a cidade inteira já sabia da minha proeza, ainda que não chegasse a duas colheres das de sopa a quantidade que me fora servida.

Veja Também:
Contos de Mardegam - Bernardo Ermitão
Contos do Bié - O Jardim e a Literatura
Contos do Mardegam - Somos a Doença
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02
Dez

 Poemas da Silvia Trevisani - Crepúsculo

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoção

Colaboradora: Silvia Cristina Martins Trevisani *

* Poetisa Paulista

CREPÚSCULO

O crepúsculo é um momento de renascimento dos povos.
É o que cabe a cada um de nós dentro desse Universo,
o despertar de sentimentos em busca de novos horizontes e metas.
O sonho misturando-se a realidade e contado em verso.

O crepúsculo é o momento de perceber o brilho nos olhos dos excluídos,
de não ignorar o semblante cansado do desempregado no findar do dia.
É a verdade do mundo, estampada nas primeiras páginas.
É o confronto da realidade com a poesia.

O crepúsculo é o alaranjado sustentando a profusão das cores.
São as mãos calejadas do lavrador arando a terra.
É o amor vencendo o ódio nos cárceres e nas algemas,
e a vida impondo bandeira branca desafiando a guerra.

O crepúsculo é o resultado das condições humanas.
É a luz que enxergamos além do motim.
O sorriso meigo que aflora nos lábios das crianças.
É o sonho, a esperança o amor enfim…

O crepúsculo é vencer o mal com o bem.
É repousar consciente que o amanhecer sempre será de luz.
É mergulhar na vida, navegar novos mares, ver além dos horizontes.
Viver além das manhãs preguiçosas
e das tardes congestionadas nos semáforos da cidade grande.

Crepúsculo é o momento em que o dia se despede,
rendendo-se ao encanto da escuridão.

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27
Nov

 Poemas da Eneida - Alma enferma

Categoria(s): Contos e Poemas

Poemas

Colaboradora: Eneida Tagliolatto *

* Poetisa Paulista

ALMA ENFERMA

Alma enfermaSe todos pudessem entender
os sentimentos que invadem
a alma de alguém.
Seria no meu modo de ver,
muito mais fácil compreender,
quando essa alma deixa transparecer,
a sua tristeza e sua dor também.

Sim, é verdade, alma tem dor.
Uma dor cruel, que leva ao desespero total,
e que muitas vezes,
pode-se tornar fatal!

Mas é tão simples conter esse pesar,
basta as pessoas que rodeiam o infeliz,
deixá-lo em paz, sem cobrar.
Deixá-lo apenas viver;
viver como sempre quis.

DESILUSÃO

Em nosso vocabulário existem palavras terminadas em “ão” que mexem com nossos sentimentos. Exemplos: emoção, afeição, satisfação, ilusão, e outras tantas mais.
Mas tem uma, que para mim é muito cruel: é a desilusão.

Desilusão é terrível.

Ela já matou meus desejos, anseios, sonhos,
deixando-me triste e magoada.
Vivendo apenas de lembranças,
poucas, quase nada.

Ah, desilusão.
Você é algo que alguém semeia,
e vai regando sutilmente,
fazendo você ir corroendo a alma
da terra em que foste plantada.

Seus brotos aparecem no meu olhar tristonho.
Suas raízes entrelaçam os meus membros,
que se esmorecem,
e não têm mais forças para caminhar.
Até na minha fala você interferiu.
A voz que antes era possante,
agora quer calar.

Mas vejo uma luz no túnel,
e lembro que ainda me resta uma semente,
semente essa; poderosa,
que embora você teime em abafar,
devagarzinho, disfarçada, até um pouco audaciosa,
ela consegue respirar.

Foi plantada de outra forma.
Está sendo regada com estímulos.
E estou com esperança
de voltar a ter a alegria de uma criança,
pois essa semente, me foi dada
por pessoas sem leviandade,
pessoas que apenas querem; a minha felicidade.

Essa semente chama-se: Amizade

* Figuras de Carl Larsson (1853-1919)

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20
Nov

 Contos do Bié - O Trem

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Trem

Todo sábado à tarde havia aulas de catecismo, e era um
martírio ter que aturar a Irmã Catarina - da congregação das
Vicentinas - a falar dos pecadores e de como eram jogados de cabeça
para baixo nas labaredas do inferno, onde os capetas aguardavam as
almas com espetos pontiagudos e incandescentes.
Para me livrar daquele sacrifício, engendrei um
plano que eu rezava para não dar errado.
Minha irmã já lavara meu terninho de algodão
riscado e o estendera para enxugar sobre um frondoso pé de pimenta
malagueta.
Quando me vi a sós, e quase à hora da que eu
considerava a torturante aula, jorrei ali todo o líquido (xixi) que
vinha armazenando em minha bexiga para aquele fim.
Certa de que a roupa já estivesse no ponto, foi a
minha irmã pegá-la para me trocar.
Não deu para eu ir ao catecismo, mas nunca me lembro
de ter levado tantas e doídas chineladas como naquela tarde de sábado!
Chegara uma nova Irmã de Caridade - Celina - que
viera substituir a Irmã Catarina.
Era paulista - mas o povo dizia polista.
Linguajar diferente do nosso, foi logo motivo da curiosidade de todos,
em especial da meninada.
As aulas passaram a ser dadas no domingo após a
missa das sete horas, e a freqüência era maciça, meninos de todo tipo,
idade e condições sociais.
Havia uns pretinhos, chorões, nariz sempre a
escorrer; de calças curtas - como eu - mas só que de suspensórios de
fitas, sobras do pano da calça ou da camisa.
Havia também umas meninas magrelas e de olhos
tortos - as caolhas - de vestidos compridos e desajeitados, panos
ralos que deixavam ver as calcinhas rotas e folgadas, constantemente
puxadas para cima, num gesto que a Irmã não gostava.
Na verdade, a grande freqüência devia-se mais à
curiosidade de conhecer a paulista e seu modo de falar, do que
propriamente se inteirar a das coisas de Deus.
Era deveras simpática, mas saía do sério
quando vínhamos com a palavra “trem”.
Às vezes fazíamos de propósito, só para sermos
corrigidos e a Irmã discorrer sobre os trens de verdade.
Às escondidas, eu cutucava o Carlos
Washington, menino bem vestido, calça de casimira, blusa de seda, um
pano escorregadio - aquela lindura de encher os olhos -; sapatos de
duas cores, lustrosos. Cinta preta, de fivela dourada, suspensórios de
vaqueta da mesma cor da cinta. Cabelos bem penteados, partidos de
lado, um cheiro gostoso de brilhantina.
A Irmã ia passando as gravuras dos santos,
dando explicações, e eu a cutucar o Carlos Washington. Quando chegava
na gravura do inferno, para desviar o assunto o Carlos Washington
intervinha.
- Irmã ! - e levantando o braço - posso perguntar?
Toda sorrisos: - Sim, Carlos Washington.
Gaguejando, sem saber mesmo o que perguntar, o
Carlos Washington se descontrolou todo.Com o dedo indicador em direção
da gravura, procurando apontar para algo que não lhe era muito
familiar e a que pudesse chamar de “trem”, soltou o palavrão.
Bum! Vem o trem novamente!
A palavra soou como uma bomba, ou melhor dizendo, como uma
heresia, pois era aula de catecismo!
A Irmã corou, cerrou os lábios, e um pesado
silêncio reinou por alguns segundos, todos os olhares ora fitos na
gravura, ora cravados no Carlos Washington, o menino bem arrumadinho e
comportado, filho do Dr. Carlos Wahington Vieira, médico do
lugarejo..
Contendo-se, a Irmã explicou, “pela penúltima
vez” , o que vinha a ser um “trem”.
- Mas domingo que vem - falou firme -
estejam aqui às oito horas em ponto, porque pela última vez vou
ensinar-lhes que trem é trem, e trarei uma porção de fotografias para
conhecerem um trem de verdade!
Nunca esperei tanto por uma aula de
catecismo, e todos lá em casa ficavam admirados do meu interesse pelas
coisas de Deus…

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