Arquivo de Contos e Poemas

19
Out

 Contos do Bié - O Tabuleiro

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

CÂNDIDO PORTINARI
Menino do Tabuleiro (detalhe), 1947
Pintura a óleo sobre tela 100 x 81 cm
Coleção Particular – Rio de Janeiro, RJ

O tabuleiro, já arrumadinho, um pano branco a cobri-lo, dava gosto de ver, repleto de biscoitinhos, broas, brevidade e uma enormidade de barras de geléia de mocotó. Fez uma rodilha, colocou-a na minha cabeça e assentou o tabuleiro em cima, recomendando que na chegada ao ponto, o coretinho em frente à igreja, pedisse a seu Eliasinho me ajudasse a descer a peça da cabeça. Acompanhou-me até à porta, ajudou-me na descida dos degraus e ficou na porta até eu dobrar a esquina da Rua das Almas com a do Largo do Rosário.

A procissão acabara de entrar na igreja e o andor já estava sendo ajeitado no lugar de costume.

Vi seu Eliasinho, o leiloeiro oficial da igreja, postado na parte térrea do coretinho, onde ficava o depósito das prendas do leilão.  Não foi preciso pedir, que ele veio logo em minha direção, todo elogioso a me exaltar a valentia de carregar um tabuleiro daquele, aquela trenheira toda.  Senti-me cheio, feliz da vida!  Não me lembrava de nenhuma reza complicada, nem dos capetas, tampouco dos retratos do Dante. O que eu queria mesmo era vender as quitandas!

A praça em frente à igreja lotou de gente, mas não deu para dispor de pelo menos metade da quitanda do tabuleiro.  Os roceiros, na sua simplicidade, se aproximavam, olhavam, admiravam, mas comprar mesmo, nada, ou quase nada!  Alguns se postavam por perto, assuntando, por vezes até me ajudavam a fazer as contas e a providenciar os trocados.
O velho Januário Cota, roceiro, postado a meu lado, me orientava nas contas e conferia os pagamentos. Só arredou pé quando o movimento, sempre muito fraco, terminou de vez, os roceiros retornando às suas casas.
Tilintavam em minhas mãos, contadas e conferidas repetidas vezes, uma prata de hum mil Réis, outra de quinhentos Réis, três níqueis de quatrocentos Réis, cinco de duzentos Réis e sete - conta de mentiroso - de um tostão, muito pouco pelo trabalho  que Sa Maria tivera, e pela perda de uma gamela inteirinha de massa que o tatu revirara e fuçara.

Deveras esmorecido ante o resultado, peguei o caminho de casa.
Subi a Rua do Quenta-Sol, dobrei à esquerda e logo passei em frente ao negócio de Seu Carlos Amantino, que funcionava só a meia porta, para atendimento aos roceiros. Entrei rápido e mais rápido saí, que não havia uma viva alma, a não ser um dos caixeiros, Xaxá, a arrumar as peças de fazendas nas prateleiras.
Tomei rumo e, um pouco adiante, a me abanar a mão, chamando-me, uma preta velha, fado na cabeça - espécie de lenço - saias até os pés, sentada na grossa raiz de centenária gameleira, interrompeu-me  a caminhada.
Sem pestanejar, na esperança de conseguir mais alguns trocados, fui até ela.
- Calu! É a senhora? - perguntei surpreso.
- É eu, nhonhô
Deu-me um frio no corpo inteiro, e a voz trêmula e quase a sumir, fiquei ali, imóvel, sem acreditar no que via:   Calu!
Feiticeira por muitos temida, presa e quase levada à fogueira, refugiada no Vale do Ouro Fino, estava ali na minha frente, em carne e osso!
Não vi, contudo, uma Calu derrotada, cheia de mágoa, faminta e solitária. Ao contrário. Nos seus olhos e largos sorrisos divisei uma Calu feliz consigo e o seu mundo, o mundo do Vale do Ouro Fino, onde encontrara a paz, a boa convivência com a natureza, junto com os bichos, os pássaros, a mata, e as águas nas corredeiras.
- Nhonhô num é filho de Doninha? Tá criscido, benza Deus! Te carreguei nos braço muita vez; te curei de maus oiados, meu fio!  Doninha era uma santa, que Deus a tenha!. - não se cansava de repetir, quase às lágrimas, a voz grave e rouca.
Meu espírito ingênuo de criança via em Calu, apesar de sua fama de feiticeira, alguém que algum dia me embalou, me curou de mau olhado e naturalmente transmitiu muita paz à minha saudosa mãe e a mim também.   Às suas perguntas eu apenas balbuciava, ali parado e o mundo a girar em minha cabeça confusa.
Hoje, me pergunto: quem seria mais feiticeiro: Calu ou as pessoas que a apontavam como tal?
- Nhonhô parece cum medo? Deixe de bobage, minino!  Percisa ficá cum medo não,  nem  burrecido cumigo não.  Sou bicho, não.  Às vez cê num sabe, bobo, mas vou lhe contar, até os bicho gosta de mim . No Vale tenho muita amizade. Ninguém burrece o outro. Somo tudo amigo, eu e os bichos, os passarim,  a mata e as águas.
Enquanto falava, fui longe, em pensamentos, lá no Vale.  E fiquei a imaginar como devia ser a vida de Calu junto aos bichos e aos pássaros.  A brisa a tocar a mata, e as águas nas caídas das pedras. Voltei a mim, de retorno do Vale, e. quando dei fé estava sentado ao seu lado, o tabuleiro no colo, ainda rebuçado com o pano branco.
- Que tem aí, nhonhô? - indagou, a apontar para o tabuleiro.
- Quitanda e outros trens.  Às vezes a senhora não sabe, boba, mas vou lhe mostrar.
Desrebuçando o tabuleiro, fui-lhe mostrando o muito que ficara dos biscoitinhos, biscoitos de goma, brevidades e barras de geléia de mocotó.   Admirada da variedade de coisas ali expostas, meneava a cabeça e engolia seco, como já a experimentar, em pensamento, o sabor de tudo aquilo.
- Este biscuitim, quanto é?
- Cinco por um tostão.
- E isso
- Geléia de mocotó.
- Quanto?
- Duzentos Réis.
- Me dá os biscuitim. Quero cinco.
Colocou-os num lenço - aparência de bastante velho, mas limpinho de dar gosto.  Retirou de dentro do colo, acomodado entre os seios, um pano ralo, velho, asseado, dobradinho. Desdobrou-o pacientemente, pegou um papel velho de maço de cigarros, também dobrado, e ficou a esmiuçar talvez uns três ou quatro níqueis de tostão e de duzentos Réis. Passou-me o tostão novamente e ficou a dobrar o papel de maço de cigarros, colocando-o no pano e o arrumando no interior da grossa e surrada roupa de algodão, por entre os seios volumosos.

Enquanto rebuçava as quitandas, fiquei a imaginar sua vontade em provar de pelo menos um taquinho de tudo o que ali havia. Tive ímpeto de lhe dar uma pequena porção de cada espécie do que se achava no pesado tabuleiro. Mas não era nada meu e, além do mais, a venda fora muito fraca, aquém do que havíamos imaginado e até sonhado.
Eu não estava com medo, conforme observara Calu, mas deveras triste e acabrunhado, caipora mesmo. Rebucei as quitandas e deixei de propósito uma barra de geléia à mostra, e ao me levantar, peguei a barra e joguei no seu colo. Tomada de surpresa, e assustada, danou a gaguejar. Rápido, peguei o caminho de casa e ela, sem atinar o que fazer, agitava os braços, a dizer palavras para mim ininteligíveis. De uma coisa eu tinha certeza: era um gesto de abenção.
Com o tabuleiro na cabeça não me era possível me volver com ligeireza e olhar em sua direção, e, quando o fiz, ela se achava de pé, os braços elevados aos céus, imóvel, como em sentido de oração e súplica.

Dei mais alguns passos e percebi que o tempo mudara de repente, e em seguida um redemoinho enorme se formou à minha frente, numa zorra desenfreada, como a querer tragar tudo em sua barulhenta passagem!   Senti o tabuleiro leviano, e com a perda do equilíbrio deslizou por sobre minha cabeça, tornando inútil minha tentativa de impedir que as quitandas fossem ao chão. E o bendito tabuleiro ficou de todo vazio, sem quitandas e sem toalha, e, quando me lembrei da rodilha, na cabeça já não se encontrava.
Olhei para o céu, e lá esvoaçava a toalha branca, orgulho de Sa Maria, e também a rodilha que o tabuleiro até então sustentava, quase sumindo, bem longe, em meio a um mundo de folhas lá fundo do céu.
E as quitandas e todos aqueles trens, aonde foram?  No tabuleiro e no chão é que não estavam!
Se Calu, como dissera, me curou de quebranto e mau olhado, quando eu ainda era pequenino e não andava, porque não pedir a ela quebrar do redemoinho aquela força brava, que para longe minhas quitandas, a toalha e a rodilha levara, me deixando angustiado, temeroso e assustado?
Nisso, veio lá de dentro, do fundo de mim, o grito de socorro a Deus e a Calu. No esforço daquele grito fechei os olhos, na esperança de que quando os abrisse o pesadelo já tivesse chegando ao fim.
E foi aí que divisei, a princípio incrédulo, mas era verdade, lá nas alturas, como no fim do espaço, uma negra figura de mulher rotunda, enorme e forte,  agitando-se com bravura, como a colocar peias no possante redemoinho, que pela sua truculência desmedida   parecia ter em si concentradas todas as forças malignas do mundo!
Depois a figura, que eu imaginara já ter domado a fúria insana daquele trem demoníaco, se viu subjugada por aquela coisa que não dava trégua à valente criatura!  Até que enfim, dela esgotadas as derradeiras energias que ainda lhe restavam, pareceu, para espanto e surpresa, que de fato a mulher fora dominada e vencida!
Qual nada!
Pois eis que surge de repente, vindo não sei como e nem de onde um preto velho, esguio, já grisalho, mas destemido e lépido, que num abrir e fechar de olhos esgotou como num sopro as forças desenfreadas do redemoinho endoidecido. E os dois, mulher e ancião, em parceria de esforços conjugados conseguiram colocar peias naquele trem desembestado, e em seguida vieram planando como as aves dos bosques em passeio pelos vales!
A rodilha e a toalha, como num passe de mágica principiaram a perder altura, caindo pelo espaço afora; e a rodilha, antes desmanchada pelo redemoinho, tomou sua forma original e assim pousou em minha cabeça. Enquanto que a toalha, que eu imaginara infestada de poeira, nada disso, estava mais bonita, alvejada, e caiu dobradinha no tabuleiro!
O redemoinho, que num repente virou brisa, veio de manso, me tocou o rosto e me refrescou todo, aquela agradável sensação de alívio, enquanto as figuras se afastavam pelo espaço afora.
Satisfeito, saí andando, pensando em tudo aquilo, e senti que minhas duas algibeiras estavam como que me incomodando, repletas de moedas e o tabuleiro de todo vazio. Assuntei comigo: quem tanto andou comprando?  Calu, uai, que com toda aquela quitanda iria se regalar por muitos dias!

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18
Out

 Contos do Bié - Maria, retornei por minhas próprias pernas

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Desculpem-me a minha falha, que ainda não reentrei direito nos
eixos, e por isso revisei, eliminando algumas impropriedades léxicas
ortográficas.
Ele, o Bié.

Maria, Querida Amiga,
Boa tarde deste sábado que promete chuva.
Estou felicíssimo por essa também felicíssima notícia, coisa óbvia que
tinha que acontecer quando você sai a campo esparramando suas poesias.
Sabe de uma coisa, que terça, dia 14, ali pelo morrer do dia, eu
imaginei que teria chegado também o meu morrer? Saíram comigo naquele
dia e momento e só hoje aqui retornei por minhas próprias pernas, pelo
menos para sair do carro e ganhar o piso da garagem e da casa, ir à
cozinha, sair à porta e divisar o quintal com seus entulhos de plantas
e flores, varais e badulaques, aquilo que com o tempo
acumulamos.Acomentimento de uma forte crise de labirinto, que eles, os
doutores de hoje falaram ser outro trem, que chamam derrame, não de
ouro, mas de um metal sem valor que nos leva a mundos escuros. Bati
pé, dizendo que não me levassem, mas teve jeito não, pois eu já não era
mais dono de minhas forças, e fui naquilo que chispa luzes multicores e
emite uns chiados intermitentes pra abrir caminho entre multidão de
veículos e de gente à sua frente para me levar. Bem que eu tinha
razão, mas mesmo assim me seguraram por lá, e vi, durante os dias e
noites para mim intermináveis, aquela gota a gota vindo tubo abaixo e
sumindo no meu corpo naquelas camas onde muitos já se deitaram e
inúmeros não se levantaram. E fotos foram tiradas, até dele, do baú
onde guardo meus amigos e meus amores, aquele que dia e noite manda
energia a todos os segmentos de minha carcaça em dores. E não
satisfeitos, penetraram meus pensamentos, e estava lá a magnânima
cerebral massa, firme e intacta, mas já diminuindo de tamanho, que os
anos se lhe pesam, por isso já pede descanso.
Enfim, ficou sabido que podia ser de fato aquilo que eu com firmeza
sempre afirmara, é o labirinto, meus senhores, que se desgovernou ante
ante os movimentos bruscos do mundo, que parece estar indo ao
contrário de tudo aquilo que o Supremo determinou.
Agora, estou aqui de retorno, até com teclado novo, que pra surpresa
minha foi meu filho Pedro que na minha inesperada ausência aqui
instalou, e por isso daqui há pouco, quando ele vier de seu repouso -
muito merecido, pois tantas noites ao meu lado passou desdormido - vou
agradecê-lo.
Meu forte abraço, que minhas energias já reentram nos eixos - como diz
meu conterrâneo Guimarães Rosa.
Bié.

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17
Out

 Poemas da Silvia Trevisani - Um poeta em extinção

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoção

Colaboradora: Silvia Cristina Martins Trevisani *

* Poetisa Paulista

Um poeta em extinção
Sou poeta deste Universo…
Rico em beleza natural…
Garimpo e componho meus versos
No verde das matas sem igual…
No som que vem das cascatas
Com o cantarolar dos rios.
No gorjear dos passarinhos…
No vôo livre do beija-flor
Na vida simples dos ribeirinhos.
Nas flores campesinas
No alaranjado do pôr-do-sol…
Mas sinto que os meus versos…
Estão chorando assustados…
Parece que o pôr-do-sol,
E toda a biodiversidade
Estão sendo ameaçados…
Os peixes estão morrendo…
Com tanta poluição…
Os rios estão lutando para sobreviver.
O desmatamento e a falta de consciência
Estão matando a fauna e a flora.
Os meus versos não têm como nascer
E eu? O que faço agora?
Estou agonizando quase morrendo…
Não por falta de inspiração…
Mas quase um poeta em extinção…
Contaminaram o ar,
O tal dos aerossóis…
Da minha janela já não vejo os girassóis,
Estou me sentindo mal…
Tenho medo desta roda…
Do aquecimento Global.

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16
Out

 Poemas do Silas - A Viagem

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaborador: Silas Corrêa Leite *

* Poeta de Itararé - SP

A VIAGEM

Não adianta ser longa a Viagem
Ou muito distante o último horizonte a ser atingido
Um dia sempre voltamos para nós mesmos
E descobrimos que estamos em casa
Onde tudo um dia começou.

Podemos morrer na tempestade em alto mar
No deserto atrás de uma borboleta de ouro
Mas quando desfalece o corpo o espírito se liberta
E achamo-nos novamente no mesmo lugar
Em que demos o primeiro choro, o primeiro passo.

Se você for céu, haverá céu nessa hora
S você for relâmpago, haverá muita chuva
O lugar de início será o mesmo lugar onde deixaremos de existir
Porque longe pode ser também um lugar dentro da gente.

Quando rompemos a placenta da barriga gestora
Fundamos ali um marco historial
O céu ou o inferno desenvolveremos a partir dali e de nós
E seremos depositados no mesmo lugar
Em que demos o primeiro passo na existência desse plano dimensional.

Na hora final todos os nossos momentos
Passarão com um filme rápido em nossa mente atiçada
E a nossa última lágrima de dor
Ou a nossa alegria de libertação
Então se fará ouvir como se o último passo fosse também o primeiro
Agora de resgate, ou do recomeço.

Seremos recolhidos para sermos pesados no espírito
A evolução, a conquista do mérito
Ou o aumento do débito terrestre
Depois seremos remarcados para o horror de termos que voltar
(Tudo de nosso, até o pleno aprendizado devido)
Ou libertos para sempre do inferno da terra onde o tempo é algoz.

A Viagem, portanto, é sempre dentro de nós.

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15
Out

 Poemas da Dalva Saudo - O Dia do Professor

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Dalva Saudo *

* Poetisa Paulista

POESIA INFANTIL

DIA DO PROFESSOR
15 DE OUTUBRO

Todas as profissões dependem do professor.
Você quer ser dentista, analista, artista?
Vai depender do professor!

Quer ser músico, médico, mecânico,
Promotor, pesquisador,
Ou até mesmo governador?
Com certeza…
Vai passar pelo professor!!!

Saudações ao primeiro professor do Brasil
Padre José de Anchieta o pioneiro!!!!

Saudações a todos os mestres!!!
Às  Marias, aos Josés.

Saudações ao mestre dos mestres!

Jesus!

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