Arquivo de Contos e Poemas

05
Fev

 Poemas da Eneida - Olé

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaboradora: Eneida Tagliolatto *

* Poetisa Paulista

OLÉ

Há pouco tempo conheci uma pessoa,
que me encantou de imediato.
Não tive nenhum desaponto,
tudo nela é feito com recato.
Meiga, estatura pequena, delicada,
a até certo ponto eu diria sem questionar;
frágil, frágil até no seu falar.
Disse-me que gosta de coisas simples,
nada que tenha muito requinte.
Eu concordando com ela, digo:
“Com isso te ergo um brinde”.
Pelo que percebi, muitos a chamam de vó,
acho que é como ela mesmo se autodenomina.
Para mim, confesso, isso não senti,
acho mais parecida com uma menina,
ou porque não dizer, um colibri.
mas essa pessoa me surpreende
quando coloca entre seus dedos, a castanhola,
e dança, volteia, sapateia, balança,
e vira uma espanhola.
Gritando olé, peço a ela que dance e não receie.
Que permita-me não chamá-la de vó.
Mas simplesmente, Meire.
“Olé!”

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03
Fev

 Contos do Bié - Nhá Tuca*

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro
                                                  Nhá Tuca. (+)

Tachos de doces

Num profundo suspirar,  miro à minha frente
um taquinho de nada do tudo que
me lembram os doces de goiaba,
as geléias de amora e de mocotó,
                                  quitutes de tempos idos;
e de quando eu saía à cata de gravetos
para formar as labaredas que lambiam
a bunda preta do  enorme
e familiar tacho de cobre.
E a laboriosa Nhá Tuca,
os cabelos nevoentos  e
em coque, cobertos por um fado,
as longas saias se arrastando;
                                  munida da surrada colher de pau,
mexia e remexia – santa lerdeza! 
a mistura  pegajosa e plena de sustança.
Bicas de suor lhe inundavam a face,
os óculos baços a lhe caírem nariz abaixo…
- Ajeita aqui, Bié – pedia-me  Nhá  Tuca.
                          De pronto, na certeza de um agrado,
lá ia eu a limpar-lhe as lentes
e ajeitar a peça no rosto encharcado.
E ficava a reparar no seu jeito de ser,
figura inesquecível que de amor
me encheu a vida.
Tão doce, tão doce o seu olhar…
Que hoje não consigo achar graça
nas modernas docerias,
tal a sentida ausência daquele rosto,
            saudosa,  terna e laboriosa Nhá Tuca…

                               * Homenagem a  Gertrudes do Amaral,
                                precursora dos doces caseiros Inhá Tuca,
                                de Espírito Santo do Pinhal – SP

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01
Fev

 Contos da Silvia Trevisani - O sonho de João

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoção

Colaboradora: Silvia Cristina Martins Trevisani *

* Poetisa Paulista

O SONHO DE JOÃO

O salão estava repleto de familiares e amigos. O som da música embalava os espaços vazios, celebrando a suave magia daquela noite.
No ritmo da música de Roberto Carlos, João deslizava na pista… Dois pra lá, dois pra cá… com um sorriso solto e abraçado a sua amada Maria coração.
“… Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo, olhando pra você e as mesmas emoções sentindo… São tantas já vividas, são momentos que eu não me esqueci… detalhes de uma vida, histórias que eu contei aqui…”. E como num passe de mágica, toda a sua vida passava como um filme na sua memória.
João era filho de italianos imigrantes. Seus pais vieram tentar a vida no Brasil, a sorte nunca esteve ao seu lado, mas foram superando as dificuldades pouco a pouco e com o tempo tiveram que esquecer a volta para a Pátria amada. Restou só o sangue italiano correndo em suas veias e a saudade da bela Itália.
João Sonhador é um dos filhos desta união. O personagem desta história que vou contar.
João menino era esperto, altivo, lidava como gente grande com a roça do sitio de seu pai, estudou pouco, sempre preocupado com o trabalho, não sobrava tempo para se dedicar aos estudos, e nas poucas vezes que conseguia ir para a escola, acabava dormindo sentado, dominado pelo cansaço. Mas era inteligente por natureza. Não havia na redondeza menino que tivesse o raciocínio mais rápido para resolver problemas de matemática do que ele. E com as poucas visitas que fez a escola, aprendeu a ler e a escrever como ninguém.
João adolescente possuía muitas qualidades. Entre elas, a mais impressionante, era a facilidade em compor poemas. Era um poeta-sonhador. Compunha versos, poemas e trovas, que encantava a todos, principalmente as moças.
João adulto encantou-se por Maria Flor. Depois de um breve namoro o casamento simples na capela da fazenda.
caipiraO sonho de João escritor era editar um livro de poesias. E seus poemas faziam tanto sucesso que já circulavam nos cadernos das estudantes.
Maria companheira apoiava os sonhos do amado João.
Nas tardes, depois que o sol se escondia atrás dos morros, restando o crepúsculo alaranjado, João sentava-se na rede e ficava a escrever suas belas poesias.
Mas o tempo passou, João completava seis décadas, e os seus rascunhos ainda perduravam na gaveta de seus sonhos.
No dia do seu aniversário, João foi levado por seus filhos a um enorme salão, todo iluminado e cheio de flores. Quando adentrou, foi cercado por uma multidão de amigos que gritavam:
- Viva o João! Viva o João…
De seus olhos caíram lágrimas cristalinas.
Lá no fundo do salão, uma mesa com uma toalha de veludo vermelha, destacavam centenas de livros expostos.
“Memórias Poéticas de João Sonhador”. Este era o nome do seu livro.
Maria decisão e seus filhos num gesto de amor realizaram o sonho de João sonhador, editando o livro, como presente de aniversário.
Ele não se conteve. As pernas tremiam sob aquele corpo já cansado de viver, mas amparado pelas esperanças.
Na primeira folha do livro, uma trova de João realização:
Vivo nesta vida labutando…
No acalento do meu sonho
Trago nos olhos um brilho triunfante
Nestes versos que componho.
E a música tocava a alma e o coração. E João emoção deslizava no salão… dois pra cá… dois pra lá…

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31
Jan

 Contos de Maria Coquemala - A traça e Eu

Categoria(s): Contos e Poemas

 Emoções

Colaboradora: Maria A. S. Coquemala*

* Poetisa Paulista de Itararé - Professora de Língua e Literatura Portuguesa

A Traça e Eu

O livro

Pintura de Carl Larsson 1853-1919

A traça surge sobre um livro em minhas mãos. Sacudo-o, cai, piso nela. Reação impensada. Reflito que pensar não é, como se supõe, ferramenta muito usada pelo cérebro. Ou seria melhor dizer, pela nossa mente? Afinal, dizem os estudiosos, o cérebro está para nossa mente como o estômago está para a digestão. É função dele. Que seja então pela nossa mente e não pelo nosso cérebro. Enquanto penso, a mente determina que meu corpo vá ao banheiro. Relembro como a mente se desenvolveu ao longo dos milênios, respondendo, segundo os biólogos, aos desafios da sobrevivência, em diferentes locais e respectivas dificuldades, daí os diferentes tipos de inteligência. E me lembro daquele Prêmio Nobel que declarou isso e quase foi linchado, por racismo. Pelos ignorantes. Haja…
 No banheiro, leio versos de Maiakovski,
 A tarde cai com cem sóis,
  a brilhar como um farol…
 Brilhar com brilho eterno…
 Gente é pra brilhar…
 Que tudo o mais vá pro inferno
 Meu slogan.
 E do Sol.
 Mas, não me ponho a pensar sobre o tema, e sim no que determinou a minha opção pelo poema.  A psique? E que vem a ser a psique? A alma, se pode ler no Aurélio.  O que não explica. Em quê mente e psique se distinguem? A mente determinou a vinda ao banheiro. A psique levou à leitura de Maiakovski. Penso nisso, enquanto os órgãos terminais do aparelho digestivo cumprem sua missão. Não chego a qualquer conclusão, exceto que corpo, mente e psique podem trabalhar simultaneamente em perfeita harmonia, como trabalham agora, ou algo mais complexo, caminhar olhando vez ou outra para os lados, comendo, rindo, cumprimentando, pensando na  teoria da seleção natural de Darwin ou como contornar as dificuldades surgidas com o cônjuge….
 Volto à biblioteca. Lá está a defunta traça, massa inerte e esbranquiçada, antes prateada e ágil.  Extinguiu-se sob a minha pisada brutal o milagre que é viver. E me vem à lembrança o confronto da personagem da Clarice com a barata, em A Paixão Segundo GH, num momento epifânico, libertador das camadas superpostas de superfluidades que atravancavam o eu profundo, cegando para o essencial da vida. Livro rico de metáforas bonitas, nem sempre inteligíveis. Não importa. O belo carece do entendimento racional.  Penso melhor, me corrijo, gosto do que me é belo, mas em Literatura isso implica também entendimento. Se não entendo, fico perturbada, procurando o sentido claro.
 Volto a pensar na traça… Falhou na defesa da vida. Reflito sobre as palavras de Rita Montalcini, a pesquisadora italiana, a razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos. Nós, não. E, ao sermos imperfeitos, temos recorrido à razão, aos valores éticos: discernir entre o Bem e o Mal é o mais alto grau da evolução darwiniana. Mas, nesta batalha de vida ou morte, sou eu a mais apta, malgrado a perfeição dela. E sobrevivem os pensamentos de Maquiavel no livro que ela não mais vai roer… Ao mesmo tempo, me vejo também juíza de meu ato. Matei uma traça, um ser perfeito, vítima inocente. Racionalizo: inocente, mas que roía livros que eu amo, comprados não sem sacrifícios. Quantas vezes, estudante, me abstive de algo desejado, para comprar um livro? Quanto poupei para comprar revistas, jornais, freqüentar cursos, buscando sanar carências intelectuais, saciar a curiosidade que na verdade nunca se sacia?  Livros são os elos da minha intelectual cadeia alimentar que a Natureza ou algum ignoto poder também programou. Sou igualmente inocente. Forças poderosas me moveram, não o livre arbítrio.
 Desvio o pensamento para o paladar… Roía meus livros…Que gosto tinham para ela? Alguma diferença entre um poema lírico, um tratado de medicina, uma tábua de logaritmos? Que gosto teria um soneto estelar de Bilac? As reflexões de Rousseau sobre a educação? A teoria dos “quanta” de Planck? Que idéias dos humanos, se é que tinha idéias, tais textos poderiam lhe passar? Ou como para nós, o alimento nada acrescentava? Não partilhamos a dor silenciosa do boi vendo o outro em frente morrer na guilhotina; nem a dor nos últimos suspiros retidos na garganta das galinhas estranguladas à moda antiga, nem a dos gritos desesperados dos porcos mortos apunhalados no coração… Comemos nossos churrascos saboreando suas carnes sem qualquer percepção sobre a agonia deles.
 Mas, assim como a personagem da Clarice, me absolvo, pois traças são também alimento de lagartixas, que por sua vez são elos de qualquer outra cadeia alimentar, como todos nós, um dia, dos vermes que nos aguardam.  Tudo tendo que ser e sendo num círculo vicioso…

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29
Jan

 Contos da Eneida - Meditação

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaboradora: Eneida Tagliolatto *

* Poetisa Paulista

Silêncio! Estou tentando meditar, vocês não perceberam ainda? Digo isso em voz alta, para que todos da família, que agora está reunida e se encontram na sala, se calem.
O silêncio é total e percebo que todos estão olhando para mim, com olhos assustados, como a indagar:
- O que tem? Tá louca?
Agora sou eu que fico estarrecida. Puxa, que direito tenho eu de exigir que todos à minha volta fiquem mudos. Só porque quero meditar?
Peço desculpas. Todos parecem aceitar e trocam olhares entre si.
Acho que devo ir à pracinha, mas como vou meditar se lá tem playground, mesinhas de cimento com bancos ao redor, para os aposentados jogarem dominó, damas, xadrez, truco, etc e tal. Devo ir viajar para as montanhas, lá pelo menos com a natureza ao meu redor, poderei meditar mais tranquila, ou quem sabe para uma praia deserta.
Outra vez me pego em críticas. Lá também não posso; hoje com a moda de esportes radicais, decerto terá gente praticando montanhismo, rapel, trekking, etc. Na praia que bobagem a minha, não existe mais praia deserta, elas foram invadidas pelos adeptos do nudismo, surfistas, jet-ski, e tantos outros mais esportes.
Realmente está difícil meditar. Até nas igrejas que antes era puro silêncio; fora é lógico, dos horários de missa ou de culto, hoje tem sempre alguém ensaiando – não órgão – que é coisa do passado, mas flauta, violino, piano; sem contar que tem beatas que se reúnem para aproveitar o momento com a desculpa que vão rezar, e assim colocarem as fofocas em dia.
É! Está mesmo difícil meditar. Mas espera aí, meditar vem de meditação e isso é coisa para monge que consegue se desligar do mundo ao seu redor. Eu não. Tenho certeza que até um simples pardal me tirará da meditação.
Reflito e chego a seguinte conclusão. Vou fazer o que fazia antes; vou conversar com meus botões. Abaixo os olhos e procuro em minha roupa algum botão. Nenhum, o vestido que estou usando é de enfiar pela cabeça, coisa muito comum hoje em dia.
Ai, hoje não é mesmo para eu ter um momento só meu.
Chego até à sala, peço para minha neta se afastar um pouco no assento do sofá, sento-me e percebo o olhar de todos sobre mim. Olho para todos e digo:
- E aí, qual é o papo do dia?

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