Emoções
Colaboradora: Maria A. S. Coquemala*
* Poetisa Paulista de Itararé - Professora de Língua e Literatura Portuguesa
A Traça e Eu

Pintura de Carl Larsson 1853-1919
A traça surge sobre um livro em minhas mãos. Sacudo-o, cai, piso nela. Reação impensada. Reflito que pensar não é, como se supõe, ferramenta muito usada pelo cérebro. Ou seria melhor dizer, pela nossa mente? Afinal, dizem os estudiosos, o cérebro está para nossa mente como o estômago está para a digestão. É função dele. Que seja então pela nossa mente e não pelo nosso cérebro. Enquanto penso, a mente determina que meu corpo vá ao banheiro. Relembro como a mente se desenvolveu ao longo dos milênios, respondendo, segundo os biólogos, aos desafios da sobrevivência, em diferentes locais e respectivas dificuldades, daí os diferentes tipos de inteligência. E me lembro daquele Prêmio Nobel que declarou isso e quase foi linchado, por racismo. Pelos ignorantes. Haja…
No banheiro, leio versos de Maiakovski,
A tarde cai com cem sóis,
a brilhar como um farol…
Brilhar com brilho eterno…
Gente é pra brilhar…
Que tudo o mais vá pro inferno
Meu slogan.
E do Sol.
Mas, não me ponho a pensar sobre o tema, e sim no que determinou a minha opção pelo poema. A psique? E que vem a ser a psique? A alma, se pode ler no Aurélio. O que não explica. Em quê mente e psique se distinguem? A mente determinou a vinda ao banheiro. A psique levou à leitura de Maiakovski. Penso nisso, enquanto os órgãos terminais do aparelho digestivo cumprem sua missão. Não chego a qualquer conclusão, exceto que corpo, mente e psique podem trabalhar simultaneamente em perfeita harmonia, como trabalham agora, ou algo mais complexo, caminhar olhando vez ou outra para os lados, comendo, rindo, cumprimentando, pensando na teoria da seleção natural de Darwin ou como contornar as dificuldades surgidas com o cônjuge….
Volto à biblioteca. Lá está a defunta traça, massa inerte e esbranquiçada, antes prateada e ágil. Extinguiu-se sob a minha pisada brutal o milagre que é viver. E me vem à lembrança o confronto da personagem da Clarice com a barata, em A Paixão Segundo GH, num momento epifânico, libertador das camadas superpostas de superfluidades que atravancavam o eu profundo, cegando para o essencial da vida. Livro rico de metáforas bonitas, nem sempre inteligíveis. Não importa. O belo carece do entendimento racional. Penso melhor, me corrijo, gosto do que me é belo, mas em Literatura isso implica também entendimento. Se não entendo, fico perturbada, procurando o sentido claro.
Volto a pensar na traça… Falhou na defesa da vida. Reflito sobre as palavras de Rita Montalcini, a pesquisadora italiana, a razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos. Nós, não. E, ao sermos imperfeitos, temos recorrido à razão, aos valores éticos: discernir entre o Bem e o Mal é o mais alto grau da evolução darwiniana. Mas, nesta batalha de vida ou morte, sou eu a mais apta, malgrado a perfeição dela. E sobrevivem os pensamentos de Maquiavel no livro que ela não mais vai roer… Ao mesmo tempo, me vejo também juíza de meu ato. Matei uma traça, um ser perfeito, vítima inocente. Racionalizo: inocente, mas que roía livros que eu amo, comprados não sem sacrifícios. Quantas vezes, estudante, me abstive de algo desejado, para comprar um livro? Quanto poupei para comprar revistas, jornais, freqüentar cursos, buscando sanar carências intelectuais, saciar a curiosidade que na verdade nunca se sacia? Livros são os elos da minha intelectual cadeia alimentar que a Natureza ou algum ignoto poder também programou. Sou igualmente inocente. Forças poderosas me moveram, não o livre arbítrio.
Desvio o pensamento para o paladar… Roía meus livros…Que gosto tinham para ela? Alguma diferença entre um poema lírico, um tratado de medicina, uma tábua de logaritmos? Que gosto teria um soneto estelar de Bilac? As reflexões de Rousseau sobre a educação? A teoria dos “quanta” de Planck? Que idéias dos humanos, se é que tinha idéias, tais textos poderiam lhe passar? Ou como para nós, o alimento nada acrescentava? Não partilhamos a dor silenciosa do boi vendo o outro em frente morrer na guilhotina; nem a dor nos últimos suspiros retidos na garganta das galinhas estranguladas à moda antiga, nem a dos gritos desesperados dos porcos mortos apunhalados no coração… Comemos nossos churrascos saboreando suas carnes sem qualquer percepção sobre a agonia deles.
Mas, assim como a personagem da Clarice, me absolvo, pois traças são também alimento de lagartixas, que por sua vez são elos de qualquer outra cadeia alimentar, como todos nós, um dia, dos vermes que nos aguardam. Tudo tendo que ser e sendo num círculo vicioso…