Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
MINHA VIAGEM À LUA
Já vi muita gente brincar com os acontecidos alheios, e até fazem uso deles para escrever alguma coisa, dando uma de bom e criativo escritor.
Um articulista muito conhecido aqui da cidade e região fez isso comigo, o que me deixou intrigado, pois não sei como chegaram até ele os detalhes do sucedido com a minha pessoa. Como que a banalizar o acontecido, deu ao artigo o título: “O Homem que foi pra Lua”. Quando li o artigo, não agüentei e escrevi a ele:
“Sr. João, desta vez foi demais! Parece que você está brincando com minhas lembranças, e que até sabe o que se passou comigo. Nunca me lembro de haver contado a pessoas fora das minhas intimidades o que naqueles idos envolveu a minha pessoa. Aliás, é a primeira vez que toco neste assunto, coisa muito minha. Nem meus filhos, nem minhas netas estão a par disso, e minha mulher, esta sim, mas não tão profundamente em sua totalidade, porque infelizmente ela não acredita no que vou contar, um sucedido verdadeiro:
Minha mulher esperava o terceiro filho, que já tínhamos um casal. Ia nascer em setembro. Em fins de julho de 1969 me deu um trem esquisito, uma coisa muito mais forte que a mais forte das saudades. Não sei explicar. Trem doido. E falei: “mulher, estou doidinho para ir a Minas, preciso rever minha terra”. Ela respondeu: “Marido, outro dia mesmo você veio de lá, seus parentes aqui estiveram…” Mas eu insistia que queria ir lá. Não propriamente até à cidade, mas ao pico do Itambé, que conhecia desde menino ainda, inúmeras vezes tendo ido até à sua grimpa em companhia de meu pai. Depois, na juventude, não saía de lá, que me parecia um lugar à parte no mundo, como que sagrado. Teve jeito não, uma coisa me puxava pra lá. Fui sozinho, que o estado interessante de minha mulher se adiantava cada dia mais. Mas fui assim mesmo. Ah, não conto nada! Nunca uma alegria tão grande se apossou de mim quando principiei por escalar o dito cujo Pico. Logo na primeira trilha rezei três vezes: São Bento Água Benta, Jesus Cristo no Altar, arreda bicho mau para o filho de Deus passar. Depois de mais de doze horas de caminhada alcancei o cume, uma enormidade de altura, aquilo de dar vertigem!
Veio a noite, um frio medonho, sô. Além da pequena fogueira para me aquecer, lancei mão dos inúmeros cobertores que levara comigo. Armei a trempe, fervi água e daí a pouco estava pronto o chá de mulungu. Tive uma noite tranqüila repleta dos mais belos sonhos – uma das inúmeras propriedades do mulungu é predispor a quem o ingere a ter lindos sonhos. De manhã, ao raiar do dia, acordei bem disposto. A Lua ainda reinava absoluta, e parecia que toda a paz que ali havia jorrava dela aos borbotões. Quando vi, uma sombra enorme se fez na clareira onde eu me achava, e um cavalo belo e fogoso, todo branco e montado por um senhor de vestes estranhas estacou a poucos metros de mim. Por incrível que pareça encarei sua presença com a maior naturalidade. E o cavalo relinchava forte e decidido, e, sapateando sempre, sacudia a longa e abundante cauda. O cavaleiro, em trajes que eu até então só vira nas revistas, nos livros de reza e nas fitas de cinema, desceu e veio a mim, quando reparei que também trazia uma grande e pesada espada, e na cabeça um capacete que rebrilhava a todo instante. E ele, em me vendo só a reparar a Lua, me perguntou se eu queria ir até lá. Abanei a cabeça, e, antes que pronunciasse a confirmação, já me vi espaço afora, grudado na cintura do estranho e as pernas a açambarcarem as espáduas largas e musculosas do belo animal que silente voava rumo à Lua. Isso mesmo! Estávamos indo à Lua! Em lá chegando, a primeira coisa que experimentei foi a mais bela e triste visão do mundo… Tinha hora me dava a tentação de não mais voltar, tal a vontade de ficar eternamente admirando a beleza do planeta Terra. Mas, enfim, eu deixara família, e meu terceiro filho ia nascer. Não ficou só nisso. Ponderou o cavaleiro que muito havia ainda na Terra por fazer, e que eu ainda ia conhecer muita gente boa, e que nem tudo estava perdido, era só esperar, e ver acontecer. Perguntei-lhe porque se ausentara naqueles dias, ao que me respondeu que alguns intrusos ali chegaram, e como o gênio dele e de seu cavalo era muito esquentado, resolveu tornar à Terra, de onde tinha sido exilado por conta de umas briguinhas com uns dragões malvados, mas que o tempo dele estava vencendo, e que muito em breve retornaria ao nosso convívio. Já era tarde, uma banda da Terra escurecia, e em parte da Lua ainda era dia. Me deu sono, mesmo sem chá haver tomado. Tranqüilo foi o regresso à Terra. Triste foi o retorno do cavaleiro à Lua, depois de me ter deixado lá no Pico do Itambé e de mim se despedir.
Daí, virei lunático. Dizem aqui em casa, e alguns dos poucos e bons amigos que tenho, que vivo a olhar o céu. Não olho o céu, olho a Lua, pois é lá que ele está, meu amigo Jorge montado no seu cavalo inquieto e rinchador”.