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02
Nov
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Contos do Bié - O tatu do Biléu. Parte 2 “O buraco do tatu”
Categoria(s): Contos e Poemas |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
Levantei-me cedo e fui logo para a cozinha. A chaleira de café com leite jazia em banho-maria no tacho de cobre sobre um dos crivos da fornalha. Em outro crivo descansava mais um tacho, e neste, também em banho-maria, um bule de ágate, azul com florzinhas brancas, cheio de café coado àquela hora, adoçado com rapadura. No velho e surrado mancebo de madeira - já escura de tanto uso - o coador de pano pingava lerdamente um resto de café, aparado por um bule menor, desgastado pelo tempo.
Sa Maria me providenciou uma pequena bacia com água fria, tirada dos potes de barro. Como de costume, o pão de sabão de cinza se achava ali ao lado do lavatório. Antes que eu terminasse de me enxugar, já estava a prestativa senhora pegando a bacia e se dirigindo para o canteiro de flores ao lado da porta da cozinha, onde jogou a água, não sem antes dizer que era para o bem das plantas, por conter sabão de cinza, detalhe que todo mundo, até os vizinhos, já estavam cansados de saber, e constituía uma das inúmeras minúcias que se incorporaram à rotina de seu viver, e ela fazia questão de as seguir à risca, dia após dia, anos a fio… Por isso mesmo, receosa de que eu desse destino diverso à água em que me lavara, apressou-se em se apossar da vasilha. Tudo isso e muito mais tinham origem nas leituras dos almanaques e da Folhinha Mariana, esta um orgulho e tradição da família.
Não levou tempo, apareceu o esposo, barbeiro de profissão.
Acabara de chegar da igreja, onde fora à missa das seis da manhã. Tirou o paletó, enfiou a gravata para dentro da camisa, e desta arregaçou as mangas. A água já estava posta, também tirada dos potes de barro. Fez uso do mesmo sabão de cinza, e, antes que terminasse de lavar as mãos e o rosto, Sa Maria já lhe havia colocado a toalha sobre os ombros e retornado ao fogão, naquilo de estar sempre lidando com uma coisa ou outra, mas de olho nele, Seu Virgolino, a reparar onde ele iria jogar a água. Depois de passar o pente nos cabelos, ficou a se mirar sob variados ângulos no minúsculo e velho espelho que pendia da parede, logo acima do lavatório. Recompôs-se no traje, desdobrando as mangas da camisa e ajeitando o nó da gravata. Como que reanimado pela água fria com que se lavara, deu com as duas mãos espalmadas umas batidas no peito, tal galo a ensaiar um estridente canto ao despertar do dia. Foi até o dito cujo canteiro e esvaziou a pequena bacia. Sa Maria me pareceu contente! Pequenos e simples gestos como aquele faziam-na feliz, do mesmo modo que a infelicitavam quaisquer atos que interferissem na rotina de seu dia a dia.
Eu tomava café com quitandas, quando percebi os passos de Biléu em direção à cozinha. Pus o copo no fogão de lenha e saí ao seu encontro. Aflito, eu me pinicava de vontade de ver o tatu debaixo do pilão, mas como o bichinho era dele, somente ele, segundo sua mãe, podia me levar até à despensa, levantar a pesada peça e permitir que eu admirasse o bichinho.
Ninguém se atrevia a contrariá-lo, devido ao seu modo sistemático. Olhos empapuçados, trazia uma toalha ao ombro e a escova de dente com uma pitada de pasta. Ao me aproximar, não me deu a mínima e, a cara fechada, pegou água do pote e quase encheu a bacia. Levou a mão acima da soleira da porta da cozinha e dali tirou um sabonete usado, envolto num pedaço de jornal velho. Lavou o rosto na água fria, fez um esparramo dos diabos, molhando todo o lavatório e o chão em volta. Ainda com o rosto molhado, jogou a água pela janela, ensopando parte do terreiro de chão batido por onde se tinha acesso à cozinha.
Vi que a mãe, mesmo sem nada dizer, não aprovara o que fizera, que devia ter jogado a água de leve e com jeito no canteiro de flores. . Era uma norma que vinha de longe, mas ele não a seguia, o que a entristecia.
Enxugou-se, pegou o sabonete, ajeitou-o novamente no pedaço de jornal velho, foi até a porta da cozinha e o colocou no mesmo lugar de onde o havia retirado. Também era um ritual, repetido todos os dias. Pegou mais água do pote, e ali na janela ficou a escovar os dentes por uma eternidade. Tossiu muito, limpou a garganta, parecia que ia vomitar. Encheu a boca d’água, bochechou, bochechou e cuspiu tudo. Limpou a boca com a toalha, jogou-a novamente nos ombros, tomou de um pente velho desdentado e ficou a ajeitar os cabelos. Foi ao fogão e se serviu de café do bule esfolado, que era o menos forte e estava mais para morno do que para quente, do jeito que ele gostava, e sua mãe, sabendo disso, assim fazia, e aquilo vinha de longe, mas a coitada parecia que não se cansava daquela rotina.
Sentado no tamborete, permaneci todo o tempo calado, observando a tudo e a todos nos mínimos detalhes Sem nada dizer, tal o medo de sua cara fechada, acompanhava seus movimentos.
Aumentava minha aflição, sentia-me cada vez mais tenso e doidinho para ver o tatu, mas me agüentava firme, e fiquei ali bispando, esperando por sua boa vontade. Ele bem que sabia de minha curiosidade, e por isso, eu imaginava, parecia demorar de propósito. Ninguém falava um “ó”. Nem ele, nem a mãe; tampouco a irmã, Isaltina; muito menos Seu Virgolino, que sutilmente, enquanto afiava as navalhas da barbearia, resmungava entre os dentes: “Se entrasse para o exército, tudo isso mudaria!”.
Nicanor, irmão mais novo que ele, ainda dormia.
Era um silêncio torturante…
Sa Maria se via sempre ocupada a fazer alguma coisa. E Seu Virgolino permanecia lá num canto da sala contígua à cozinha, cuidando das ferramentas de trabalho, numa lida que não tinha fim. Fiquei a imaginar que também ele – Seu Virgolino - se pinicava de curiosidade de ir à despensa e ver o tatu. O mesmo devia estar a suceder com Isaltina, que sentada num dos tamboretes ali na cozinha demorava uma eternidade catando os marinheiros do arroz na peneira sobre o colo.
Continuei quieto no meu canto, a aguardar ordens. De repente, sem dizer nada, Biléu me pegou pelo braço e tomamos a direção da porta da despensa. Desatou a tira de couro que segurava a porta junto a um prego do batente, abrindo-a com jeito. Devagarzinho, finalmente entramos no cômodo onde fora colocado o dito cujo. Seu Virgolino interrompeu a lida, foi à porta da cozinha e se pôs a espichar o olhar para os lados da despensa.
Isaltina, os olhos grudados onde estava o prisioneiro, parou de catar os marinheiros e ficou a aguardar o resultado do que tanto esperava: a apresentação do tatu, prestes a ser retirado de sob o pilão.
Sa Maria, de costas para o fogão, atenta, caneca de café nas mãos, bebia aos poucos, maneira de disfarçar a ansiedade que com toda certeza a dominava.
Biléu fechou a porta, agachou-se junto ao pilão e lhe forçou a base, modo levantar-lhe a boca. Erguendo mais e mais o pilão, deu para ver onde estava cativo o bicho. Levantou a pesada peça o quanto pôde, até topar com o inesperado:
- Uai! - exclamamos surpresos - cadê o tatu?
Ficamos ali, um a olhar para o outro, numa sengraceza danada, com cara de quem comeu e não me deu.
- Puxa - resmunguei desanimado - era muito bom para ser verdade!
- Pode abrir a porta da despensa - falou Biléu, num desânimo sem medida.
Mais que depressa escancarei a porta, e todo mundo entrou ligeiro, aflitos para ver o tatu.
- Uai, para onde foi o tatu? - perguntaram em coro.
Biléu, ainda agachado junto ao pilão, virou-se para a mãe: ·.
- Não está vendo, mãe? Olhe a terra do buraco que ele fez! Cavou e foi embora, uai!
- Mas que danado, hem? - balbuciou Sa Maria.
Nisso chegou Isaltina, que meneando a cabeça:
- Não pode ser… Nooossa fez um buraco deste tamanho? Olhe quanta terra! Que danado, hem! Até onde vai esse buraco?
- Vai saber! Vamos ferver água e jogar aí dentro e ver se ele sai!
Foi uma das soluções aventadas por Biléu, que rápido colocou o tacho - o maior de todos - no fogão de lenha. Mandou fogo e ficou esperando a fervura da água. A água já borbulhava. Enfiou um pau de uma asa à outra do tacho, segurou de um lado e Sa Maria do outro, e com jeito levaram a vasilha até à borda do buraco e despejaram aquela quentura toda lá dentro!
- Chiii, vai morrer queimado e não vai sair! - gritei.
Nisso, Seu Virgolino deu seu palpite.
- Essa água não vai adiantar nada! Sei como é buraco de tatu. Ele fura um pouco para baixo, depois desvia para cima, faz uma reta, torna a descer, depois sobe outra vez e na reta final apronta a cama, onde vai morar e procriar.
E riscou no chão a planta do buraco de um tatu. O pessoal ficou meio assim, sem falar nada ao contrário, que a explicação tinha sido convincente. Também, era um autodidata, e disso tinha orgulho.
Eu admirava Seu Virgolino. Queria ser como ele.
- Se furar muito vai sair lá no buraco da latrina - comentou Sa Maria.
As casas, de modo geral, não possuíam água encanada nem rede de esgoto. A água era colhida nos diversos chafarizes, de onde as buscadeiras de água recolhiam o precioso líquido e enchiam os vasilhames - enormes potes de barro e até tambores de duzentos litros. A casa de Sa Maria não fugia à regra. Por isso havia a latrina a que ela se referia, e lhe veio o receio de o tatu, ao perfurar a terra, chegar até à latrina. Mas Seu Virgolino tratou logo de lhe acalmar o espírito:
- É muito longe. O máximo que ele fura não chega a cinco metros. Daqui até lá tem mais de dez - falou convicto.
Ficamos ali, ao redor do buraco, sem mais nada poder fazer. Foi Seu Virgolino quem deu a ordem:
- Tirem o pilão daí e deixem a terra do jeito que está. Vai sair qualquer dia desses, que até onde furou não vai encontrar raízes para comer. Ainda vai sair, é só esperar!
O acontecido mudou a rotina da casa depois daquela manhã. O assunto ali, em nossa casa e também em toda a Rua das Almas envolvia o tatu de Biléu! .Algumas pessoas não davam crédito ao que eu lhes contava a respeito do tatu. Nervoso, meio aborrecido, eu insistia:
- Tão acreditando, não? Então vão perguntar à Sa Maria, vão!
Com o passar dos dias a coisa esfriou. Mas para mim continuou quente!
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