Arquivo de Contos e Poemas

17
Ago

 Contos do Bié - Manoel do Óleo e o Finado Tatá

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Era uma espécie de doido manso, filho de gente de bem do lugar.

                 Morava num imponente sobrado do Largo da Igreja, e da sacada ficava a vigiar todo o movimento de quem ia e vinha. Queria ter notícia de tudo.

                 No intuito de ganhar uns trocados, aceitei a incumbência de, junto o Totonho da Carmelita, levar o caixão para o enterro de Tatá.

                Ao passar defronte ao sobrado,  saiu à toda, até que nos alcançou, e fazendo sinais queria  saber para onde íamos com a peça funerária.

                Satisfeito na sua mórbida curiosidade, retornou ligeiro a casa, naturalmente para se aprontar e aparecer por lá, no velório.

                Manoel do Óleo, assim o chamavam, era magrelo, talvez um metro e setenta de altura; claro pálido, tórax saliente, empinado no andar; nariz afilado e arrebitado como a apontar para cima; tinha os cabelos emplastados de óleo de ovo, – daí o apelido -  invariàvelmente penteados com esmero, a mostrar o topete cuidadosamente armado.

                 Chegara afobado, afoito que estava para ver onde repousava o morto.

                 Gesticulando - pois era mudo - pedia passagem por entre os presentes, que vararam a noite e a madrugada, revezando-se nos préstimos aos familiares do falecido. 

                 Nessas ocasiões, os amigos tomam a si a administração dos afazeres domésticos e sociais da casa: recebem os visitantes, coam café, providenciam o caldo para a canja e fazem picadinhos a serem misturados na farofa apimentada.

                Formam-se grupos espalhados pelos quartos e salas, cozinha e alpendres e terreiro.

                Fala-se de tudo, contam-se casos e mais casos, e até se esquecem do defunto e de seus familiares, que extenuados e encharcados de chás preparados pelas solícitas mulheres, dormem nos colchões esparramados a esmo pela casa afora. 

              Amanhecido o dia, recompõem-se todos, e os familiares, sonolentos ainda, são servidos pelos amigos, a dar-lhes ânimo e conforto.

             Pessoas outras vão chegando, e o grupo da madrugada, agora menos falante, assume ares de consternação e seriedade, e não se contam mais casos.

           Finalmente é dada a hora de levar o finado para o seu destino. 

           E Manoel do Óleo aparece, que traz a muitos dos presentes outros sentimentos além da comoção pelo finado Tatá. 

                                                      

                      Certa ocasião, no velório do Batica, de família antiga e conhecida da cidade, como de costume Manoel do Óleo estava lá.

                Olhos vivos em constante movimento - parecia querer saltar das órbitas - era seu intento, mais uma vez, satisfazer o doentio anseio de ajudar a carregar o caixão.

                Dado o momento de deixar a casa, em meio àqueles lamentos, impaciente tentou pegar numa das alças do esquife, no que lhe foi negado por um dos tios do finado.

   Foi até a outra ponta. Um senhor de idade também lhe negou a alça, pois tinha que levar o neto à última morada.

              Tentou as outras alças, em vão.

              Em todos, um motivo relevante para não se arredar do esquife, que àquela altura já ganhara a rua e lentamente  tomava o rumo da morada definitiva.

              Mas ainda estava confiante, imaginando que ao se iniciar a escalada do Largo do Rosário, próximo à Rua do Gambá, teria chance de lograr o intento e ajudar na condução do féretro.

             No começo da íngreme subida do Largo do Rosário, nada!

            E sua impaciência foi crescendo, a testa alumiando de suor e óleo de ovo.

            Uma derradeira esperança, entretanto, ainda se lhe acenava: a subida final, aquela logo depois da Fonte do Caminho do Cemitério.

              Aí, mais uma decepção.  

              Nervoso, apressou os passos, adiantou-se e chegou rápido ao campo santo. 

             Postou-se de cócoras em cima do muro de pedra e ali ficou aguardando a chegada do cortejo.

             À entrada, cabisbaixas, as pessoas se viram despertadas por Manoel do Óleo, a gritar lá de cima:

                    - Ei pessoal ! - e todos olharam em sua direção.

                      De cócoras e dedo em riste, falou bem alto:

                     - Enfia o defunto no…

                     Todo mundo, estupefato, manteve-se em silêncio, silêncio sepulcral.

                       E Manoel do Óleo ficou mudo, mudinho mesmo, e nunca mais falou, nem mesmo o palavrão final daquele vitupério.

                        Dizem ter sido castigo mandado pela alma do finado, o querido  Batica.                                              

                        E o povoame, no seu íntimo, ria gostoso e em silêncio, a afugentar a aparente tristeza que lhes maquiava o semblante…

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15
Ago

 Poemas da Silvia Trevisani - Tatuagem

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoção

Colaboradora: Silvia Cristina Martins Trevisani *

* Poetisa Paulista

TATUAGEM…

Acordei com um toque de amor
Uma presença gentil e cordial…
Há muito não via o céu…
Ele estava aqui,
mas não era azul.
Acordei com um brilho de amor
Um sorriso maroto observava-me
Há muito não via o sol…
Ele estava aqui,
mas não brilhava.
Acordei com você olhando-me
Um olhar puro e sincero…
Há muito não via seus olhos…
Eles estavam aqui,
mas não me fitavam.
Acordei com o coração iluminado
Um delicioso beijo caramelado
Há muito não sentia meu coração
Ele estava aqui,
Mas não pulsava.
Acordei para a vida!
Há muito te desenhei…
Assim, em mim, tatuado!

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11
Ago

 Poemas da Dalva Saudo - Amor incondicional

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Dalva Saudo *

* Poetisa Paulista

AMOR INCONDICIONAL

Em espaços de solidão
É que me desenho agora. Apenas…
O tênue fio de tua presença emudecida me tranqüiliza,
Mesmo que tenha que me fundir à tua ausente presença.
Uso de artimanhas para não te magoar,
E argumentos esfarrapados para te ver.
Preciso de fragmentos de tua presença espacial
Tão vital para mim.
És cristal que jamais poderei quebrar
Para não me sangrar e sofrer muito mais.
Calada, sem poder me pronunciar emudeço.
Em tua presença me esqueço,
Temerosa de ofensas que poderia te causar,
Tento me calar ante a tua quietude!
Assim…ficamos nos periférico monossílabos das questões.

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10
Ago

 Contos do Bié - A alegria do Pai

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

O tempo estava frio, mas todo meu corpo era suor, e volta e meia eu enxugava na manga da camisa os pingos que me corriam pela testa.  Era o suor da emoção de engraxar a bota do “Dr.” Demetrius, e a alegria de já poder contar, naquela manhã de segunda-feira, com mil Réis na algibeira.

           Entretanto, mais que tudo isso, era como uma espécie de desforra frente à humilhação que sofrera.  Eu, que fora tocado da porta do estabelecimento, agora lá me achava a servir o “Dr.”  Demetrius.

            Terminada a empreitada, perguntou-me quanto era.  “Quando é sapato, cobro quinhentos Réis. Bota é mil Réis” - respondi com firmeza, a firmeza que ele infundira em mim.  Ficou em silêncio, a cabeça meio inclinada, olhando para mim de cima para baixo.

              Imaginei fosse regatear no preço do serviço ou algo parecido.

                - Como se chama?  - perguntou – ensaiando um sorriso.

               Senti-me aliviado, e antes que lhe respondesse quis saber há quanto tempo eu trabalhava de engraxate, quantos irmãos eu tinha e que ano da escola eu freqüentava.

                  Didi, antes que eu falasse qualquer coisa, deu de querer responder  por mim.

                - Então você não tem mãe?

                - Não, senhor.

                - Que mal a vitimou?

                 Nisso, Didi interferiu de novo, e falou-lhe, sussurrando-lhe aos ouvidos, sobre as circunstâncias do falecimento de minha mãe.

                - Como é, menino, já trabalhou muito hoje?  - lá veio Didi.

                - Qual seu nome verdadeiro?- indagou o “doutor” Demetrius, vez que ele observava que Didi só me tratava por menino, como era comum as pessoas grandes chamarem os pequenos, mesmo sabendo-lhes seu nome.

                - Meu nome é José, mas todo mundo, as pessoas grandes, me chamam de “menino”.

                - Pois não, José, vamos acertar as contas!

Pegou uma carteira grã-fina, abriu o fecho e puxou uma nota de cinco mil Réis.

                 Antes de colocar aquele dinheirão em minhas mãos,  já lhe fui dizendo que  não dispunha de troco. Não fui muito claro, e conseguia apenas balbuciar ante a visão de tamanha fortuna.

                - Não tem importância. Depois você me engraxa os outros sapatos. Volte aqui amanhã, neste mesmo horário.

               Deu um tapinha em minha cabeça e se recolheu  ao refeitório para o café da manhã. 

               Didi, boquiaberto, não atinava como sair do lugar.

               Com a caixinha de engraxate a tiracolo, retirei-me em disparada, e daí a pouco toda a cidade já tinha conhecimento do acontecido, não de minha boca, que fui direto para casa, mas da parte do Dr. Secundino, hóspede permanente do hotel, que assistira a  todo o desenrolar da história.

            Estava feliz naquela manhã.

            Não tanto pela fortuna que ganhara, mas por ter sido chamado pelo meu verdadeiro nome.  Para o “doutor” Demetrius eu era mais que um “menino”.

            Aquilo me fez outra pessoa, contente comigo e o mundo!! 

                                                  -           

 

            Sem fazer ruído, entrei no quarto em penumbra onde meu pai estava de cama, levando-me a imaginar que ele ainda não experimentara melhora, pois dizia estar com as pernas doces, umas dores que não sabia direito onde começavam e acabavam. Falava baixo, a voz fraca. Tive vontade de chorar. Tomei coragem e lhe contei ter engraxado a bota do “doutor.” Demetrius, e que me dera uma boa quantia em dinheiro, coisa nunca vista. Não lhe disse um “a” do que Didi aprontara. .  Peguei a nota de cinco mil Réis e coloquei em cima do pequeno caixote ao lado da cabeceira do catre.  Deu rápida olhada e esboçou sorrir, o que me deixou animado, sinal de que ainda tinha disposição  para se alegrar com as boas notícias, e tanto é que logo à tardinha, antes de o sol se por, já se levantara e se dirigira para a horta, e ali ficou um tempão,  regando as plantas e eliminando as ervas daninhas, fazendo-me feliz da vida. 

          

                                         ————–                 

 

               O padrinho não estranhou minha presença ali na fazenda, assim de momento, pois já estava habituado com minhas chegadas naquelas bandas a qualquer hora do dia, pois tínhamos, particularmente nós crianças, ampla liberdade de ir e vir, a  andar à solta, sem receio de nada, a não ser à noite,  por medo de assombração.

              Já na cidade a coisa era diferente, por modo das leis que não permitiam o vai-e-vem de crianças nas ruas depois das oito horas da noite

               Logo que percebeu meu semblante alegre, o padrinho quis saber se eu “tinha visto passarinho verde”. “Vi, sim, uma nota de cinco mil Réis, que me foi dada pelo “Dr.” Demetrius!”                                               

- Doutor? - reagiu surpreso.

  Pelo que ele tinha conhecimento, o homem do carro cinema não era “Doutor”.  “Mas para mim era, expliquei”, senão o Didi não teria colocado uma cadeira no corredor do hotel para eu engraxar a bota.  

         - É, se foi assim, então o homem é “Doutor” mesmo”  - concluiu, a rir da história que lhe contei.

          - Mas tem outra coisa – continuei - meu pai mandou que eu procurasse o senhor para avisá-lo de que não está bem, e não foi trabalhar hoje. 

O padrinho mudou o tom de voz, demonstrando preocupação.

           - O que seu pai tem?

           - Diz que está com umas dores nas escadeiras, sente as pernas doces, e tudo aquilo vai responder nas pontas dos pés, e fica deitado, sem ânimo e esmorecido. De manhã tomou um coité de café e depois chá de fubá.

            - Coitado do João, só isto que faltava. – murmurou.

              Tomando de uma rala de queijo, me deu para comer e me mandou de volta, dizendo que à noite passaria por lá. 

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08
Ago

 Poemas da Silvia Trevisani - Amanhã

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoção

Colaboradora: Silvia Cristina Martins Trevisani *

* Poetisa Paulista

AMANHÃ

Amanhã quero falar-te
tudo que tenho pensado
Das noites mal dormidas
e dos dias mal acabados
Amanhã tudo será diferente…
Vou conseguir expor-me…
Falar doce e francamente,
dos fantasmas e do meu amor.
Só amanhã, vou conseguir…
olhar nos teus olhos e não chorar
Tocar tuas mãos e não tremer
Sentir teu corpo e apenas amar-te.
Amanhã… Só amanhã…
Hoje não posso, sou incapaz!
Hoje serei só a tua lembrança…
Amanhã sim… Ser-te-ei paz.
Só amanhã…

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