Arquivo de Contos e Poemas

06
Out

 Poemas da Dalva Saudo - Preconceito

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Dalva Saudo *

* Poetisa Paulista

PRECONCEITO

O jovem negro dançava

Marcava os compassos com os passos,

Sorrindo, sentindo calma em sua alma.

Pela simpatia, alegria, gingado e graça,

Encantava a muitos no salão.

Muito feliz, fazia a dama sorrir.

Sintonizado com a canção, estava seu coração.

Na busca de divertimento,

deixara lá fora seu sofrimento.

Distraidamente, num movimento,

No pé do branco pisou.

Todo sem jeito o negro se desculpou.

O preconceito não demorou:

–Negro, só serve para pisar em branco

Que desencanto! O negro entristeceu

Seu sorriso emudeceu

O pranto rolou quente e doído

Fora atingido com chicotada em sua alma.

Mesmo assim, manteve a calma.

Apenas seu pranto derramou

Um grito dentro do peito sufocou!

Cecília Meireles, diz em ¨CANÇÃO DO AMOR PERFEITO¨

¨  O tempo seca a beleza. Seca o amor seca as palavras.

O tempo seca a saudade. Seca as lembranças e as lágrimas¨

Será que um dia o tempo dará um jeito e “secará” o preconceito?

A ocorrência se deu em dezembro de 2006.

118 anos após o término da escravidão.

Quando o preconceito terá realmente um fim?

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05
Out

 Contos do Bié - Adão e Eva e o pecado original

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Sa Maria Amélia, esposa de Seu Virgolino – O Barbeiro - quitandeira e exímia cozinheira, moradora ali nos altos da Rua das Almas, e de quem passamos a ser vizinhos, tomou a incumbência de me dar lições extras de catecismo. Um de seus quatros filhos, Salatiel, depois de anos no seminário de Manhumirim, viu que não tinha vocação para padre, abandonou os estudos e foi trabalhar em São Paulo.
Seus livros de rezas, um punhado deles - grande parte em latim - ficaram aos cuidados dos pais, alguns bem guardados numa espécie de baú, e outros, expostos nas mesinhas dos quartos de dormir, serviam de consulta freqüente por parte de Sa Maria e a filha Isaltina.
Um de grosso volume, capa grossa como de couro, impressionava pelas inúmeras gravuras, em que sobressaíam as almas dos pecadores caindo de cabeça para baixo no inferno, os capetas a esperá-las com garfos pontiagudos, ao lado de labaredas de fogo e serpentes devoradoras.  Ante meu espanto, ela dizia sem sombra de dúvida serem retratos tirados por um tal Dante.
Eu ficava a cismar, assuntando aquilo, pois como poderia aquele homem ter ido ao inferno, tirado os retratos e voltado aqui, sem que os capetas não o retivessem lá?   - lugar de onde ninguém mais pode sair, segundo aprendíamos nas longas e horripilantes aulas de catecismo.  Com certeza devia ser um santo, eu concluía, ou então um homem mais forte que Sansão. Ficou esta hipótese, que na igreja não havia sua imagem. Depois, vim a saber, santo não tinha sido. Retratista, sim.
Das rezas que me ensinava, as mais difíceis eram a Salve Rainha e o Ato de contrição e bom propósito. Longa demais, a Salve Rainha tinha palavras diferentes e difíceis de entender. Eu já aprendera o Padre Nosso e o Senhor Meu Jesus Cristo. O Creio ficaria mais para o final. Reza especial - explicava Sa Maria - que tinha vez me chamava à atenção, dizendo que eu estava distraído.
Eu me punha a matutar no que Eva tinha aprontado, e aquilo me martelava a cabeça dia e noite. Tentava desviar os pensamentos daquele trem complicado, pois quem sabe eu poderia estar enveredando pelos caminhos do pecado em reprovar o ato por ela praticado no paraíso, tentando a Adão?
Vinham-me à mente as figuras dos bichos e dos pássaros no paraíso, me transportando em pensamento para o morro da Chapada, de onde lançava a vista para o Vale do Ouro Fino.  Não teria sido ali o paraíso?   Nessas ocasiões Sa Maria falava mais alto e sério comigo, despertando-me dos misteriosos e complicados devaneios. Chegava a afirmar a meu pai que eu estava com preguiça e má vontade. Ou então sinal de bicha. Se não melhorasse, melhor seria me dessem um lombrigueiro.

-
Não foram, entretanto, somente aqueles retratos que me deixaram impressionados.  Ao ver as representações de Adão e Eva no paraíso, rodeados de plantas e flores, frutos, pássaros, e cachoeiras, onde o casal se banhava em companhia dos animais, sem que os leões e cobras os atacassem; a vida alegre e descontraída e sem dor nem morte, e que tudo aquilo lhes foi tirado por Eva ter desobedecido ao Criador, aquilo, sim, me deixou chocado e pensativo!  Deveu-se à desobediência de Eva, proibida de provar da maçã, que nós, se quiséssemos ganhar o céu, teríamos que aceitar todo o sofrimento em nossa vida, ser obedientes e não ter preguiça de trabalhar, estudar e rezar.  A primeira pergunta que me veio foi se Adão e Eva voavam como os pássaros, se falavam com eles e com as feras daquele tempo.
- Sim! Sim! – respondeu de imediato, mostrando-me as gravuras e apontando para o que seria a prova do que afirmava.  A desobediência – continuou ela - transformou-se em pecado - o pecado original.
Encafifado com aquelas revelações, eu quis saber se o tal pecado, confessado ao padre no dia da primeira comunhão, iria acabar. Muito a contragosto, e meneando a cabeça, respondeu:
- Não… - um “não” carregado de tristeza.
.- Não! - repetiu - a mancha do pecado original é eterna. Não se apaga nunca! Só após a morte, e desde que estejamos na graça de Deus.
- O que é a graça de Deus? - perguntei, curioso e aflito pela resposta.
- É cedo ainda para você aprender isso. Nem eu sei direito – interrompeu o assunto,   como que desconsolada:
- Agora vai pra casa, que é hora de dormir.


Ao escalar os montes e as pequenas elevações, de seu pico me punha a olhar as serras distantes, uma após outra, de alturas e formatos diferentes, até onde a vista pudesse chegar..
O mundo era grande, muito grande, e o céu mais ainda, que ninguém podia pegar. Nem os pássaros, que voavam alto. Eles deviam chegar perto e vê-lo melhor que nós, aqui da terra. Com certeza conheciam serras mais altas, extensas planícies, grandes rios e cachoeiras. Cachoeiras bonitas como aquelas da terra de Adão e Eva.
E eu ficava a admirar as aves nos seus vôos serenos, indo e vindo, subindo e descendo, a cortar os ares num planar suave e tranqüilo, que causavam inveja em mim.  Tomado de ânimo, eu dava um pulo lá do alto da colina e, no arremesso do corpo, os braços abertos sempre a agitar, era firme na minha esperança de um dia poder voar…
Caía lá embaixo nas moitas macias, nas moitas fofas de capim gordura. Em vôo rasante, a presa nas garras, piava feliz: “Pinhé”!   Era o gavião, que à distância assistia à minha desolada tentativa de voar. Infrutífera vontade e ilusório meu grande desejo de planar nas alturas… Trazia comigo a mancha do pecado original, o que me deixava acabrunhado, desanimado.   E eu mirava o espaço, a fitar o infinito. Quem sabe enxergaria a morada de Deus, que me daria de volta o dom de voar?

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03
Out

 Contos da Silvia Trevisani - Acróstico cidadão

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoção

Colaboradora: Silvia Cristina Martins Trevisani *

* Poetisa Paulista

ACRÓSTICO CIDADÃO

Cada olhar, um reflexo e uma virtude,

Indicando os direitos e deveres de cada cidadão…

Decidir por cumpri-los com atitude,

Avaliando os fatos com precisão.

Diretrizes, crescimento e prosperidade,

Ainda que os recursos sejam fracos

Não discriminando nem por sexo nem por idade,

Intensificando os projetos e desafiando os “ratos”,

Assim se faz a riqueza da Nação.

União, aliança, pacto e junção…

Melhoram a vida da população!

Dignidade, justiça e soberania,

Integram os povos e as nações

Resultado de um dever cumprido

Envolvem sentimentos e emoções

Imperiosos são os deveres do povo nato,

Travando um desequilíbrio íntimo,

O cidadão só quer seus direitos de fato.

Deveres, obrigações, precariedade, educação…

Essa revolta do povo é mais que indignação…

Tráfico, crime, suborno e corrupção…

O povo faz uma parte, e qual é a parte da nação?

Direitos e deveres são para todos.

Onde há quem “fura a fila”, dá margem para a projeção.

Sem ordem não há progresso e nem projeto cidadão.

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29
Set

 Poemas da Dalva Saudo - Girassol

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Dalva Saudo *

* Poetisa Paulista

GIRAS     SOL     GIRA     TORNAS     SOL

Gira girassol, gira… em direção ao sol energizado,

Que Ilumina e renova  a vida, crisófilo dourado!

Para sobreviver do Astro Rei ao nascer,

Vá  gi    ran    do…  gi   ran   do

Tornassol a brilhar, embelezando ar

Encantando o meu viver!

Vá…     gi   ran   do         gi      ra      sol!

Gire em torno da estrela de grandeza maior,

Não com inveja para lhe roubar a luz,

Mas…para abrilhantar

Ah girassol!  Ao desfolhar,

Bem     me     quer       mal     me     quer,

Meu anseio de desejo, você vai adivinhar!!!

Vejo o seu meigo olhar me namorando…

E eu…lhe desfolhando!

Você…    NÃO    mal    me    quer!

Bem     me      quer      bem      me     quer!

Com esse essencial musicAL

VOCÊ  SEM   PRE   É…BEM   ME   QUER!

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28
Set

 Contos do Bié - O Meu Padrinho

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Passava das cinco horas da tarde quando meu padrinho parou à porta de nossa casa. Apeou do “Banjo”, enrolou a ponta do cabresto na cabeça da sela, e o animal ficou ali, quieto, como se amarrado estivesse. Sonolento, a cauda vez por outra a balançar, paciente, aguardava o retorno do cavaleiro.

Nisso, chegou o Dr. Carlos. Foram para o quarto onde meu pai repousava.  Quando soube do longo repouso que deveria fazer, meu pai quase chorou de desgosto, pois como deixar de trabalhar, se havia quatro filhos cujo sustento dependia exclusivamente de sua labuta? E os remédios?  Até que os medicamentos não custavam lá essas coisas. E a alimentação especial?  O padrinho me chamou de lado e mandou que eu fosse urgente a sua casa e falasse à sua esposa, D. Zezé, para ir urgente à nossa casa.

D. Zezé procurava acalmar meu pai, a lhe dizer que tudo se resolveria. e que logo iria vê-lo passar à frente de sua casa para o  trabalho.

Mas a preocupação maior de meu pai centrava em como sustentar a família durante o tempo de repouso. Além do mais havia a despesa forçada com o aluguel da casa e outros gastos mais.

Os três, o Dr. Carlos, meu padrinho e a esposa ouviam atentos tudo que ele dizia.  “Se a preocupação maior é essa, falou o padrinho, tire logo isso da cabeça, homem!”.   “Isso mesmo, seu João - continuou D. Zezé - não precisa ficar esmorecido não, bobo, porque de sua comida cuido eu, e Antônio resolve o caso da moradia, não é?” - completou, dirigindo-se ao marido.

-É isso mesmo, João. Vai depender de você concordar. Temos aquela casa ao lado da nossa, que vai ser desocupada pelo Pedro Cezar em uma semana. Faremos uns consertinhos rápidos de que está precisando, e, se não fizer questão, mude para lá.

- E será que vou poder pagar o aluguel que você quer?

- Que é isso compadre, é para você morar lá o tempo que quiser, como se a casa fosse sua, sem se falar em aluguel! Além do mais, vai ficar perto da gente, e assim podemos cuidar melhor de você e também deste menino.

Tomou-me pela cintura e me fez chegar bem a ele, numa demonstração de que me queria como a um filho.
D Zezé, emocionada, discretamente deixou o quarto.

Dr. Carlos, a que tudo assistira, passou as costumeiras recomendações a meu pai.

- João, pelo que acabo de presenciar, vejo um bom motivo para sua melhora. Como já lhe disse, doce, nem sonhar. O feijão é para ser cozido em panela de ferro, comido em bago-bago, sem ser machucado, com tempero normal. Arroz, só de pilão, do vermelho. Leite, pode tomar à vontade, sem se esquecer das gotas de iôdo que lhe receitei.  Não é para ir à venda escutar os noticiários da guerra nem de coisa nenhuma. Esqueça o que está acontecendo lá no estrangeiro! Seu menino já sabe rezar?

Antes que meu pai se pronunciasse, me apressei em responder.

- Sei, sei uma porção de rezas!

- Então reze muito e peça a Deus para curar seu pai.

Despediu-se e foi saindo.

Quando descia o degrau da porta da rua, se lembrou de falar mais alguma coisa.

- Daqui uns quinze dias faz aquele teste da urina e vai lá em casa ou no hospital  me avisar. Sabe quando é  daqui a quinze dias?

Minha irmã mais velha, que ao lado de D. Zezé escutara a recomendação, prometeu anotar o dia e providenciar o teste.

D. Zezé, ao se despedir deixou claro que minha obrigação, já a partir do dia seguinte, seria ìr à sua casa pegar a alimentação de meu pai. Que eu não precisava levar nenhuma vasilha, que ela providenciaria tudo.

Meu padrinho ainda demorou alguns instantes a conversar com meu pai, agora bem menos esmorecido depois daquele apoio.

Fiquei a pensar que o mundo todo podia ser daquele jeito, com pessoas tão boas a se interessar pela gente. E me lembrava das notícias da guerra, que Seu Virgolino dizia dos homens sem coração que matavam velhos e doentes.

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