Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
Passava das cinco horas da tarde quando meu padrinho parou à porta de nossa casa. Apeou do “Banjo”, enrolou a ponta do cabresto na cabeça da sela, e o animal ficou ali, quieto, como se amarrado estivesse. Sonolento, a cauda vez por outra a balançar, paciente, aguardava o retorno do cavaleiro.
Nisso, chegou o Dr. Carlos. Foram para o quarto onde meu pai repousava. Quando soube do longo repouso que deveria fazer, meu pai quase chorou de desgosto, pois como deixar de trabalhar, se havia quatro filhos cujo sustento dependia exclusivamente de sua labuta? E os remédios? Até que os medicamentos não custavam lá essas coisas. E a alimentação especial? O padrinho me chamou de lado e mandou que eu fosse urgente a sua casa e falasse à sua esposa, D. Zezé, para ir urgente à nossa casa.
D. Zezé procurava acalmar meu pai, a lhe dizer que tudo se resolveria. e que logo iria vê-lo passar à frente de sua casa para o trabalho.
Mas a preocupação maior de meu pai centrava em como sustentar a família durante o tempo de repouso. Além do mais havia a despesa forçada com o aluguel da casa e outros gastos mais.
Os três, o Dr. Carlos, meu padrinho e a esposa ouviam atentos tudo que ele dizia. “Se a preocupação maior é essa, falou o padrinho, tire logo isso da cabeça, homem!”. “Isso mesmo, seu João - continuou D. Zezé - não precisa ficar esmorecido não, bobo, porque de sua comida cuido eu, e Antônio resolve o caso da moradia, não é?” - completou, dirigindo-se ao marido.
-É isso mesmo, João. Vai depender de você concordar. Temos aquela casa ao lado da nossa, que vai ser desocupada pelo Pedro Cezar em uma semana. Faremos uns consertinhos rápidos de que está precisando, e, se não fizer questão, mude para lá.
- E será que vou poder pagar o aluguel que você quer?
- Que é isso compadre, é para você morar lá o tempo que quiser, como se a casa fosse sua, sem se falar em aluguel! Além do mais, vai ficar perto da gente, e assim podemos cuidar melhor de você e também deste menino.
Tomou-me pela cintura e me fez chegar bem a ele, numa demonstração de que me queria como a um filho.
D Zezé, emocionada, discretamente deixou o quarto.
Dr. Carlos, a que tudo assistira, passou as costumeiras recomendações a meu pai.
- João, pelo que acabo de presenciar, vejo um bom motivo para sua melhora. Como já lhe disse, doce, nem sonhar. O feijão é para ser cozido em panela de ferro, comido em bago-bago, sem ser machucado, com tempero normal. Arroz, só de pilão, do vermelho. Leite, pode tomar à vontade, sem se esquecer das gotas de iôdo que lhe receitei. Não é para ir à venda escutar os noticiários da guerra nem de coisa nenhuma. Esqueça o que está acontecendo lá no estrangeiro! Seu menino já sabe rezar?
Antes que meu pai se pronunciasse, me apressei em responder.
- Sei, sei uma porção de rezas!
- Então reze muito e peça a Deus para curar seu pai.
Despediu-se e foi saindo.
Quando descia o degrau da porta da rua, se lembrou de falar mais alguma coisa.
- Daqui uns quinze dias faz aquele teste da urina e vai lá em casa ou no hospital me avisar. Sabe quando é daqui a quinze dias?
Minha irmã mais velha, que ao lado de D. Zezé escutara a recomendação, prometeu anotar o dia e providenciar o teste.
D. Zezé, ao se despedir deixou claro que minha obrigação, já a partir do dia seguinte, seria ìr à sua casa pegar a alimentação de meu pai. Que eu não precisava levar nenhuma vasilha, que ela providenciaria tudo.
Meu padrinho ainda demorou alguns instantes a conversar com meu pai, agora bem menos esmorecido depois daquele apoio.
Fiquei a pensar que o mundo todo podia ser daquele jeito, com pessoas tão boas a se interessar pela gente. E me lembrava das notícias da guerra, que Seu Virgolino dizia dos homens sem coração que matavam velhos e doentes.