Abscesso anorretal
Os abscessos anorretais (abscessos perianais) são processos infecciosos agudos, supurativos, caracterizados por coleções purulentas na região anorretal.
Os abscessos se formam a partir de inflação das glândulas anais de Chiari na região da criptoglandular, recebendo o nome de criptite. As glândulas anais localizam-se ao redor do canal anal, no nÃvel da linha pectÃnea, uma linha imaginária localizada no espaço entre o esfÃncter anal interno e externo, são em torno de 10 glândulas e seus ductos que desembocam nas bases das criptas anais. Pelos ductos é que pode ocorrer a contaminação glandular consequente a uma criptite pré-existente. O fator desencadeante deste processo é o traumatismo local, ocasionado principalmente pela passagem de fezes endurecidas no canal anal, por quadro diarréico ou pelo uso de papel higiênico. Esse trauma acarreta um processo inflamatório favorecendo a invasão de microorganismos da microbiota colônica, criando um processo infeccioso agudo. Os abscessos perianais têm como fatores predisponentes e agravantes: as doenças associadas (diabetes mellitus, AIDS, linfomas, leucemias, doença inflamatória intestinal) e a radio e/ou quimioterapia.
Sintomatologia – A dor é o sintoma mais caracterÃstico, do tipo contÃnua e latejante, pode piorar com a deambulação, ao sentar-se e à evacuação. Podem também ocorrer febre, calafrios, tenesmo retal e urinário e tumoração perianal.
Diagnóstico – O diagnóstico é realizado pelo exame e inspeção da região anorretal, sendo que nos abscessos superficiais há presença de sinais inflamatórios (tumoração, hiperemia, dor e calor local). À palpação, observa-se abaulamento e flutuação da região do abscesso. Nos abscessos profundos, a inspeção externa pode nada revelar, no entanto, ao toque retal pode-se palpar abaulamentos dolorosos na parede do canal anal e reto.
A anorretossigmoidoscopia deve, sempre que possÃvel, ser realizada para diagnóstico de doenças associadas. A ultrassonografia transretal pode ajudar nos casos de abscessos mais profundos, tanto quanto a tomografia computadorizada. Há casos em que a dor é muito intensa, dificultando o exame proctológico, que deve ser realizado sob anestesia.
Tratamento – O tratamento é sempre cirúrgico. Ao ser diagnosticado, o abscesso deverá ser drenado. Uma das opções é a drenagem ampla e simples por meio de incisão, que não permite o fechamento precoce da ferida com consequente recidiva da infecção. Nos abscessos superficiais e pequenos, a drenagem pode ser realizada sob anestesia local, em ambulatório. Nos abscessos profundos e amplos, a drenagem deverá ser efetuada sob bloqueio anestésico, em centro cirúrgico. A ferida precisa permanecer aberta até a cicatrização se completar. Por esse procedimento, é frequente ocorrer a persistência de um trajeto, com eliminação contÃnua de secreção purulenta e sanguinolenta, que exigirá uma nova cirurgia para correção da fÃstula anorretal remanescente e, portanto, da causa do abscesso, ou seja, a cripta infectada. O uso de antibiótico deve ser especÃfico para o agente causal, determinado por cultura e antibiograma do material obtido da secreção.

Classificação dos abscessos anorretais
A classificação dos abscessos anorretais é feita conforme sua localização anatômica nas regiões perianal, perirretal e pélvica. São chamados de perianais, isquiorretais, submucosos, interesfincterianos e pelvirretais. (Veja a figura)
A – Perianais – Localizam-se no tecido gorduroso da borda anal e são os mais frequentes, menos agressivos e de tratamento cirúrgico mais simples.
B – Isquiorretais – Ocupam o espaço da fossa isquiorretal, podem propagar-se para o lado oposto configurado uma forma em ferradura. O tratamento cirúrgico é mais complexo e, nesses casos, deve-se diferencia-lo dos processos inflamatórios inespecÃficos, como os da doença de Crohn.
C – Submucosos – São processos infecciosos, em geral pouco agressivos. Abaulam o espaço submucoso do reto inferior e assim seu diagnóstico é feito pelo toque retal. O tratamento cirúrgico é feito via transretal.
D – Interesfincteriano – Avolumam e dissecam o plano intermuscular (entre os esfÃncteres interno e externo). Seu diagnóstico é tratamento são mais complexos.
E – Pelvirretais – Localizados acima dos músculos elevadores do ânus e abaixo da reflexão peritoneal (fossa pelvirretal), são mais raros e de mais difÃcil diagnóstico e tratamento.
Referências:
Cruz GMC. Coloproctologia: Propedêutica Geral. Rio de Janeiro, Ed. Revinter,1999.
Quilici FA, Reis Neto JA. Atlas de Proctologia do Diagnóstico ao Tratamento. São Paulo, Lemos Editorial, 2000.