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Qualidade de Vida

Categoria(s): Conceitos, Sociologia


Resenha

O viver bem

Colaborador: Marcelo Francisco Bombardi *

* Fisioterapêuta e pós-graduado do curso de Gerontologia da Metrocamp

A expressão qualidade de vida foi empregada pela primeira vez pelo presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson em 1964 ao declarar que “os objetivos não podem ser medidos através do balanço dos bancos. Eles só podem ser medidos através da qualidade de vida que proporcionam às pessoas”. O interesse em conceitos como “padrão de vida” e “qualidade de vida” foi inicialmente partilhado por
cientistas sociais, filósofos e políticos. O crescente desenvolvimento tecnológico da Medicina e ciências afins trouxe como uma conseqüência
negativa a sua progressiva desumanização. Assim, a preocupação com o conceito de “qualidade de vida” refere-se a um movimento dentro das ciências humanas e biológicas no sentido de valorizar parâmetros mais amplos que o controle de sintomas, a diminuição da mortalidade ou o aumento da expectativa de vida. Assim, a avaliação da qualidade de vida foi acrescentada nos ensaios clínicos, como a terceira dimensão a ser avaliada, além da eficácia (modificação da doença pelo efeito da droga) e da segurança (reação adversa a drogas) (BECH e BOURDEL, 1998). A oncologia foi à especialidade que, por excelência, se viu confrontada com a necessidade de avaliar as condições de vida dos pacientes que tinham sua sobrevida aumentada com os tratamentos propostos (KATSCNIG, 1997), já que muitas vezes na busca de acrescentar “anos à vida” era deixado de lado a necessidade de acrescentar “vida aos anos”.

Para FEINSTEIN e GILL (1994), o termo qualidade de vida como vem sendo aplicado na literatura médica não parece ter um único significado.
“Condições de saúde”, “funcionamento social” e “qualidade de vida” tem sido usados como sinônimos (GUYATT et al.,1994) e a própria definição de qualidade de vida não consta na maioria dos artigos que utilizam ou propõe instrumentos para sua avaliação (FEINSTEIN e GILL, 1994).

Qualidade de vida relacionada com a saúde (“Health-related quality of life” ) e Estado subjetivo de saúde (“Subjective health status”) são conceitos afins centrados na avaliação subjetiva do paciente, mas necessariamente ligados ao impacto do estado de saúde sobre a capacidade do indivíduo viver plenamente. BULLINGER (1993), considerou que o termo qualidade de vida é mais geral e inclui uma variedade potencial maior de condições que podem afetar a percepção do indivíduo, seus sentimentos e comportamentos relacionados com o seu funcionamento diário, incluindo, mas não se limitando, à sua condição de saúde e às intervenções médicas.

MINAYO, HARTZ e BUSS (2000), definem como sendo qualidade de vida uma noção eminentemente humana, que tem sido aproximada ao grau de satisfação encontrado na vida familiar, amorosa, social e ambiental e a própria estética existencial. Já MATOS (1998), relaciona qualidade de vida com a democracia, onde cita que quanto mais aprimorada a democracia, mais ampla é a noção de qualidade de vida, o grau de bem-estar da sociedade e de igual acesso a bens materiais e culturais.

BURKHARDT (1989), considera qualidade de vida a composição de satisfação física e mental, bons relacionamentos com os outros, habilidade nas atividades extracurriculares, desenvolvimento pessoal, satisfação e recreação. Segundo CROOG et al., (1986), definem como base de cinco medidas: ser bem intencionado, satisfação com a vida, estado psicológico, estado emocional e intelectual em funcionamento e habilidade da satisfação na performance no papel social. Já AVAVIER & MENDENDIZABAL (1997), a qualificam como um conceito equívoco como o de inteligência, ambos dotados de um senso comum variável entre os indivíduos.

MARTIM & STOCKLER (1998), definem a qualidade de vida como a distância entre a expectativa individual e a realidade, onde quanto menor a
distância melhor a qualidade de vida. Entendemos por boa qualidade de vida, no sentido da aptidão física, a condição de poder realizar as atividades desejadas, do ponto de vista biomecânico e homeostático, e sem riscos para a integridade do organismo. Para tanto, contribuem condições neuro-musculares, ósteo-articulares, metabólicas e hemodinâmicas. Evidentemente, o grau de aptidão necessário
para uma boa qualidade de vida depende das atividades pretendidas (SANTAREM, 2000).

A qualidade de vida das pessoas/profissionais e organizações tem uma íntima relação com o uso adequado do tempo. Muitas são as pessoas que se não trabalhassem não saberiam utilizar o seu tempo e aproveitar os demais aspectos da vida. Por isto, muitos profissionais e empresários quando se aposentam ou passam o comando de seus negócios para familiares ou sócios lembram uma flor que perdeu o viço e morreu (SAMPAIO, 2000). Estudos realizados sobre esse tema foram conduzidos pela Universidade Stanford, uma das mais prestigiadas nos Estados Unidos, mostrou que a qualidade de vida é o mais importante fator de longevidade nos países industrializados. Neste estudo definiu-se por qualidade de vida uma alimentação saudável, a prática regular de atividade física e alguma tranqüilidade para encarar os problemas familiares e profissionais (FRANCO, 1998). Também mostrou os fatores que levam uma pessoa viver mais que 65 anos, entre eles estão: 10% assistência médica, 17% genética, 20% o meio ambiente e 53% a qualidade de vida. Através deste estudo podemos perceber que a parte médica, a genética e o meio ambiente influenciam a longevidade das pessoas, mas o que mais importa é a qualidade de vida. Com isso temos que nos preocupar com a mesma se quisermos ter um futuro saudável.

Outro estudo realizado no México em 1998, sobre esse tema estava relacionado aos indicadores ambientais, onde elaboraram um extenso trabalho de observações dos possíveis fatores relevantes da melhora da qualidade de vida. Os aspectos envolventes com a degradação ambiental; o ruído, a falta de espaços verdes, poluição do ar, da terra e a falta de água limpa afetam as atividades cotidianas na cidade. (FRANCO, 1998).

1-) Qualidade do ar – se refere a sua pureza, ou seja, é inversamente proporcional a quantidade de poluentes. Há dois grupos de poluentes; os gases (CO2, CO, NO2, SOX) e as partículas ( o pó ) gerados pelas indústrias, carros, ruas não pavimentadas.

2-) Qualidade da água – relacionado se a água é tratada e qual o nível de higiene existente.

3-) Densidade Populacional – onde a densidade da população em um bairro pode ser uma ameaça a qualidade ambiental quando provoca dificuldade de locomoção, falta de sol e circulação do ar.

4-) Resíduo sólido – os resíduos devem ser coletados e dispostos de maneira que não poluam o ambiente.

5-) Níveis de ruído – o ser humano suporta o ruído até certos níveis a partir dos quais pode sofrer cansaço e doenças do sistema nervoso.

6-) Áreas verdes disponíveis – essas são os pulmões da cidade, além de servir como ambiente de lazer.

Com isso pode-se perceber outros aspectos relevantes em relação a qualidade de vida, envolvendo fatores ambientais que muitas vezes passam
despercebidos aos olhos da população, que ocorrem de uma maneira silenciosa.

Alguns pesquisadores se preocupam com os outros aspectos relacionados com a qualidade de vida, ou seja, KALACHE (1999), verificou a relação existente entre o poder econômico dos países. Nos países ricos, em 1900 tinham uma expectativa de vida de 45 anos, já para o povo brasileiro era de 33,7 anos. Em 1950 para 66 anos e 42,7 anos respectivamente, já em 2000 seria de 75, 3 anos contra 68, 6 anos e para ao ano 2050 seria de 78,9 anos e 75,9 anos. Onde através deste estudo podemos perceber que ao longo dos anos está existindo uma proximidade entre os países ricos e o Brasil, isso se deve a vários fatores que estão ocorrendo nos dias atuais, ou seja, alimentação mais balanceada, a consciência da população, o avanço da medicina entre outros (MARCHIN, 1999).

Recente estudo realizado em Nagoia em 1998, sobre a qualidade de vida e expectativa de vida mostrou que o Japão será o país de maior
longevidade no novo milênio, sendo que a expectativa de vida no Japão é de 80 anos, sendo 76,9 anos para os homens e 82,9 anos para as mulheres (WADA, 1999). Um fator determinante para essa liderança está na alimentação, onde a dieta japonesa é reconhecida pelo balanço nutricional. Das calorias absorvidas, pouco menos de 60% provêm do arroz, do trigo e outros carboidratos; 13% a 14%, das proteínas. Apenas a metade das proteínas ingeridas vem da carne animal; o restante é proteína de soja e de outras fontes. Mesmo a proteína animal é bem dividida. Metade vem da carne e dos laticínios e a outra metade de peixes e produtos do mar. Neste mesmo estudo relacionou a pequena quantidade de comida ingerida pelos japoneses (2.627 calorias por dia). No EUA e na Europa o consumo é de 3.300 calorias. Isso mostra um aumento de quase 700 calorias diário na ingestão do povo ocidental.

Referências:

AVAVIER,P.S.M.C.& MENDIZABAL,H. Approches théoriques et methodo logiques de la qualité de vie Ireé à lá santé.,Revve Previner,33, 1997,p.77-86.

BECH, R., BOURDEL,M.C., Método de simulação e a escolha de fatores na análise dos componentes principais.. , Revista de Saúde Pública. 1998,
32(3):p. 267-272.

BULLINGER, D. Locomotor disability in very elderly people, Bristish Medical Journal. 1993,301, p. 216-220.

BURKHARDT,C.S. The impacto of arthritis on quality of life. Nursing Res. 1989,34(1),p.11-16.

CROOG,S.,LEVINE,S.,TESTA,M.,BROWN,B.,BULPETL,C.,JENKENS,D., The effects of anti-hipertensive therapy on quality of life. N. Engl.J.Med.
1886,314(26),p.1657-1664.

FRANCO, R. M., Análise dos fatores ambientais. , S.P., Ed. Fontoura, 1998, p. 86 -90.

FEINSTEIN, S., GILL, C., Factor analysis revisited. Nursing Res. 1994, 39(1),p. 59-62.

GUYATT, G.,DEGO,R.A.,CHARLSON,M.,LEVINE,M.N.,& MITCHELL,A. Responsive-ness and validity in heath status mensurement: A clarification. Journal of Clinical Epidemiology.1994, 42,p. 303-308.

KALACHE A.,Nacional Center for Health Statístics,1999.E.U.A.

KATSCNIG S., An Approach to response scale development for cross-cultural questionnaires. Europen Phychologist, 1997, 2(3):p.270-276.

MARCHIN, R., Qualidade de vida e seus aspectos multifatoriais. , S.P., Ed. Aratebi, 1999, p. 52 -59.

MARTIM,A.J.&SOCKLER,M. Quality of life assessmentin heath cone research and pratice.Evoluction & Health Professions 21(21),1998,p.141-156.

MATOS,O., As formas modernas do atraso. Folha de São Paulo, Primeiro Caderno, 27 de Setembro, 1998, p.3.

MINAYO, M.C.S.; HARTZ, Z.M.A.;BUSS,P.M., Qualidade de vida e saúde: um debate necessário. Ciência/Saúde Coletiva(51),2000,p.7-18.

SAMPAIO, SP,Ed. A saúde e qualidade,Academus,2000, p.25-28.

SANTARÉM, J. Qualidade de vida e saúde, Revista de Saúde Pública, 32(4), 2000,p.275-280.

WADA, H., A influência da alimentação na expectativa de vida, Jornal Brasileiro de Nutrição,1999,47(9),p.20-30.

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