25 - mai
  

Doença Sexualmente Transmitida – AIDS entre os idosos brasileiros: Parte 2. A nova face da pandemia

Categoria(s): Infectologia, Sexualidade e DST




Resenha: AIDS

O estigma do preconceito

Colaboradora: Daniela Maria Cardozo *

* Médica generalista e pós-graduada do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp

A Organização Mundial da Saúde (OMS) faz uma projeção que nos próximos vinte anos, 70 milhões de pessoas estarão infectadas com o vírus HIV, caso não seja urgentemente aplicada uma ação eficaz a nível mundial para deter a propagação do HIV / Aids. O número de infectados pelo vírus HIV no Brasil e de casos de Aids já atingiu cerca de 258 mil pessoas, sendo 73 mil em pessoas do sexo feminino e 185 mil em indivíduos do sexo masculino. A relação entre homem e mulher que era de 25 homens para 1 mulher infectada, no início dos anos 80, saltou na cifra de 1 mulher a cada 2 homens. Logo, calcula-se que alguns milhões de indivíduos sejam portadores do vírus HIV sem saber e que, entre as mulheres, a infecção seja ainda bem maior e crescente.

Como é de conhecimento de todos os profissionais da área de saúde que cuidam dos aidéticos, está ocorrendo a estabilização da Aids em todas as faixas etárias, com exceção dos indivíduos na faixa etária compreendida entre cinqüenta e setenta anos de idade. Essas mudanças provavelmente são oriundas do aumento das relações sexuais mantidas pelos adultos e idosos maiores de cinqüenta anos que por falta de esclarecimentos, valores culturais, sociais e econômicos, dentre outros, não fazem uso de preservativos. Com isso, em muito pouco tempo a tendência é de que haverá sem dúvida, um grande número de idosos portadores do vírus HIV e com Aids. Devemos lembrar que o cuidar do jovem familiar doente, por parte do idoso (mãe ou pai) não os coloca em risco de contaminação, desde que medidas preventivas sejam tomadas BRITO; CASTILHO; SZWARCWALD (2001).

Segundo FEITOZA; SOUZA; ARAÚJO (2004), existem muitas interrogações sobre a epidemia da Aids entre os idosos que estão ativos sexualmente e,  com isso os infectados pelo HIV que encontram-se na faixa etária entre 35 a 50 anos de idade, que apesar de não apresentarem sintomas nem desenvolverem  a doença pelo uso de antiretrovirais, que prolongam sua sobrevida, com o passar dos anos, ficarão idosos e portadores do vírus HIV e com Aids. Os dados do Ministério da Saúde brasileiro (2007), são alarmantes e desesperador, pois supera o número de 43 mil casos de diagnósticos soropositivos em indivíduos com idade igual ou superior a 50 anos de idade, o que é muito preocupante, pois representa cerca de 9,1% da totalidade de casos de AIDS diagnosticados. Assim 2% da população acima de sessenta anos são portadores do vírus HIV, o que significa que 5.500 idosos têm a doença.

Baseado nesse contexto, percebemos claramente a necessidade de adequar políticas públicas que visem o esclarecimento do idoso com relação a sua sexualidade e as formas de prevenção em relação a contaminação pelo vírus HIV e conseqüentemente a AIDS.
Contudo, em nosso país, apesar do significativo aumento da oferta de preservativos, pelo Ministério da Saúde, eles não estão acessíveis a toda a população. Além disso, muitas mulheres convivem com muita dificuldade em fazer uso da camisinha com os parceiros sexuais, as vezes por se considerarem protegidas do vírus por realizarem sexo só com um parceiro, ou porque a exigência do uso da camisinha pelo parceiro, venha a trazer-lhe conseqüências desagradáveis como a violência, ou a ameaça de rompimento da relação. Além disso, temos aquele velho mito do amor romântico, no qual uma grande paixão e amor é bem superior, a qualquer tipo de contaminação sexual. Além de tudo, nos confrontamos com a cultura machista, a qual apregoa que o preservativo faz mal e atrapalha a ereção durante o ato sexual sendo incômoda e, que esses homens, segundo eles jamais entrarão em contato com o vírus HIV e se contaminarão.

Logo, percebemos claramente que a inoperância de medidas preventivas à terceira idade está na forma de discussão e o preconceito no tocante a sexualidade do indivíduo idoso, além da falta de comprometimento social por parte dos governos a esse respeito.
Sob esse aspecto nos reporta muito bem Arilha (2001), quando afirma que: “a facilitação do enfrentamento da epidemia implica trabalhar de maneira mais eficaz com o gênero. As políticas governamentais reconhecem as desigualdades e especificidades de gênero, mas tanto a busca da redução da pobreza estrutural quanto a abordagem mais aprofundada de gênero implicam ações mais radicais”.

O comportamento sexual está implícito na forma como nossa sociedade dá a sexualidade, tornando o corpo cada vez mais como um produto a ser explorado e vendido pela mídia, através de anúncios de remédios, carros, produtos de limpeza, eletrodomésticos e etc. e, queiramos ou não associamos a imagem do corpo belo a realização sexual, pois há um estímulo a libido. Sob esse prisma, o desenvolvimento e uso de terapias hormonais e a descoberta do Viagra e do Uprina estão promovendo uma melhor qualidade da vida sexual para os idosos, mas em compensação não há uma política pública que dê respaldo a esta população de idosos na prevenção da Aids.

A ONU durante a IV Conferência Mundial sobre a Mulher em 1995, afirma o seguinte com relação aos direitos inerentes à saúde da mulher: “Os direitos humanos das mulheres incluem o seu direito a ter controle sobre questões relativas a sua sexualidade, inclusive sua saúde sexual e reprodutiva, e decidir livremente com respeito a estas questões, livres de coerções, discriminações e violência” .

Referências:

Veja as referências na página do dia 26 de maio de 2009 – AIDS entre os idosos brasileiros – Parte 3. Prevenção

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