Nov
16

Contos do Bié - Candidatura a prefeito do velho Lindolfo

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Logo cheguei, inúmeros daqueles conhecidos do tempo de infância vieram me abraçar.
Da antiga geração - podia-se contar nos dedos - uns partiram para o descanso eterno, e outros se ausentaram, como eu - e nunca mais voltaram.
Coincidiu de naqueles dias ter sido lançada a candidatura a prefeito do velho Lindolfo – aquele meu colega de escola e de catecismo - que nos seus quase oitenta anos fora empurrado para a política, coisa engendrada pelo partido do qual saiu candidato.
Vieram todos para os cumprimentos, e não escondiam a satisfação por eu aparecer justo no dia da homologação da candidatura de meu amigo de infância, que a toda hora me pegava pelo braço e saía a me apresentar às novas gerações. Um trunfo para ele, já acalentando minha presença para o primeiro grande comício de sua campanha.
Com a experiência de meus cinco mandatos de vereador e dois de prefeito na progressista cidade de São Pedro do Sul - além de uma legislatura de deputado estadual -, viam em mim um poderoso coadjuvante para a vitória do partido no renhido embate eleitoral.
Lindolfo, agora Lindolfo da Barra, graças a um arranjo do vigário casou-se com Leontina, filha de rico e poderoso fazendeiro e minerador, transformando-se em cidadão respeitável e de muitas posses ao herdar do sogro, além de grandes fortunas, também o acrescente de “Barra” ao nome, indicativo da região onde situavam suas propriedades que se perdiam de vista.
Entre um aperitivo e outro e aquela fartura de tira gosto, o ânimo foi tomando corpo e as apresentações igualmente.
Havia de ver o entusiasmo da velha guarda, que apressada para desenterrar lembranças chegou até beirar o inconveniente.
Foi quando um dos presentes, João Saracura – apelido em função das pernas finas e por demais compridas – buliu no que sucedera ao vigário, morto em circunstâncias nebulosas, cujo assassino jamais foi descoberto.
O ambiente ficou carregado – aquilo de troca de olhares dissimulados. Mas a tagarelice de Nonô Barril, tipo atarracado – para não dizer obeso - de diminuta estatura, cara redonda e vermelha, retornou as coisas nos eixos.
- Olha aqui, Zé Sossego, olha quem está entre nós! – insistia Nonô Barril ao retardatário – que era sempre o último a chegar.
Zé Sossego fazia parte do chamado grupo do falta pouco – que a qualquer hora podia bater as botas - eis que igualava comigo e o Lindolfo em idade. Entretanto, parece que a natureza foi pródiga conosco, pois enquanto as chamadas gerações jovens viam-se apáticas pelos cantos da ampla sala do comitê, as de avançada idade animavam o ambiente, aquilo de contar causos e até rodopiar pelo salão quando o conjunto do Chico Pega Bode fazia a alma reviver.
- Lembra! – continuou o hilariante Nonô Barril – lembra do Mané Desmaio?
- Não, coitado, deixe isso pra lá, deixe o homem descansar em paz – interferiu o velho Lindolfo.
O inusitado se deu na despensa.
Mané Desmaio, flagrado pela mulher quando assediava a Gerusa, empregada da casa, simulou um desmaio e a boazuda tentou ampará-lo. Mas caiu largado, batendo com a cabeça na panela de ferro que escapulira das mãos da assediada.
Depois daquilo, já não era mais o mesmo, foi encolhendo na expressão – quase não falava – e diminuindo de estatura, até que virou nada, e morreu, coitado.
E os amigos diziam: “o que não faz uma panela, hem!” – só que a panela era apenas um detalhe.
Depois, a curiosidade quanto à reação da viúva quando o caixão baixasse à sepultura.
Um rio de lágrimas ou um rosário de vitupérios?!
Nem um, nem outro.
Ela desmaiou.
E a maledicência continuou: “de ódio ou de amor?”
E todo mundo queria lembrar os tempos da infância, da adolescência e da entrada para a vida adulta.
Muitos dos presentes comichavam de vontade de remexer nos acontecidos obscuros da vida das pessoas.
Pensava comigo: vamos devagar com o andor que o santo é de barro. E era mesmo.
O Lindolfo, por exemplo.
Quando lidávamos na sapataria do Quim Zé - um senhor já de idade e que levava vida em sobressaltos financeiros - ele, o Lindolfo, remunerado por peça trabalhada, tinha o disparate de acrescentar duas, três ou quatro unidades a mais na lista dos sapatos em cujo solado dava o acabamento, e o bem intencionado Quim não atinava pela coisa.
E a turma ficava a lembrar dos apelidos, e Josimar da Dina, ali presente, já foi ficando ressabiado. E não deu outra. Todo mundo se lembrou: Boca de Traíra!
Não se sentiu ofendido. Do contrário, riu à beça.
- Bons tempos! – falava a todo instante meu amigo Lindolfo, com o que todos concordavam. Na minha campanha – continuava ele – vou bater forte para o retorno da moral, da ética e dos bons costumes. Bons costumes, sim, bons costumes principalmente na família, que está cada vez mais indo por caminhos tortuosos e desprezando os valores cristãos!
Palmas e mais palmas!
Animado com aquilo, suspirou fundo e falou, ressuscitando o velho refrão: “Naqueles tempos, éramos felizes e não sabíamos…”.
Não, não era a expressão da verdade.
Lindolfo não era uma criatura feliz, pelo menos depois daquele dia em que eu e ele – quando meninos ainda - nos sentamos ali rente ao tapume da velha casinhola.
Tudo porque, é custoso dizer, era a sua mãe a penitente que se achava no confessionário.
E tem mais: toda a conversa no confessionário girou em torno da vida de Lindolfo, ela rogando ao padre um futuro menos incerto e sem sofrimento para o menino, filho único, cujo pai seria o próprio confessor…

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