Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro

CÂNDIDO PORTINARI
Menino do Tabuleiro (detalhe), 1947
Pintura a óleo sobre tela 100 x 81 cm
Coleção Particular – Rio de Janeiro, RJ
O tabuleiro, já arrumadinho, um pano branco a cobri-lo, dava gosto de ver, repleto de biscoitinhos, broas, brevidade e uma enormidade de barras de geléia de mocotó. Fez uma rodilha, colocou-a na minha cabeça e assentou o tabuleiro em cima, recomendando que na chegada ao ponto, o coretinho em frente à igreja, pedisse a seu Eliasinho me ajudasse a descer a peça da cabeça. Acompanhou-me até à porta, ajudou-me na descida dos degraus e ficou na porta até eu dobrar a esquina da Rua das Almas com a do Largo do Rosário.
A procissão acabara de entrar na igreja e o andor já estava sendo ajeitado no lugar de costume.
Vi seu Eliasinho, o leiloeiro oficial da igreja, postado na parte térrea do coretinho, onde ficava o depósito das prendas do leilão. Não foi preciso pedir, que ele veio logo em minha direção, todo elogioso a me exaltar a valentia de carregar um tabuleiro daquele, aquela trenheira toda. Senti-me cheio, feliz da vida! Não me lembrava de nenhuma reza complicada, nem dos capetas, tampouco dos retratos do Dante. O que eu queria mesmo era vender as quitandas!
A praça em frente à igreja lotou de gente, mas não deu para dispor de pelo menos metade da quitanda do tabuleiro. Os roceiros, na sua simplicidade, se aproximavam, olhavam, admiravam, mas comprar mesmo, nada, ou quase nada! Alguns se postavam por perto, assuntando, por vezes até me ajudavam a fazer as contas e a providenciar os trocados.
O velho Januário Cota, roceiro, postado a meu lado, me orientava nas contas e conferia os pagamentos. Só arredou pé quando o movimento, sempre muito fraco, terminou de vez, os roceiros retornando às suas casas.
Tilintavam em minhas mãos, contadas e conferidas repetidas vezes, uma prata de hum mil Réis, outra de quinhentos Réis, três nÃqueis de quatrocentos Réis, cinco de duzentos Réis e sete - conta de mentiroso - de um tostão, muito pouco pelo trabalho que Sa Maria tivera, e pela perda de uma gamela inteirinha de massa que o tatu revirara e fuçara.
Deveras esmorecido ante o resultado, peguei o caminho de casa.
Subi a Rua do Quenta-Sol, dobrei à esquerda e logo passei em frente ao negócio de Seu Carlos Amantino, que funcionava só a meia porta, para atendimento aos roceiros. Entrei rápido e mais rápido saÃ, que não havia uma viva alma, a não ser um dos caixeiros, Xaxá, a arrumar as peças de fazendas nas prateleiras.
Tomei rumo e, um pouco adiante, a me abanar a mão, chamando-me, uma preta velha, fado na cabeça - espécie de lenço - saias até os pés, sentada na grossa raiz de centenária gameleira, interrompeu-me a caminhada.
Sem pestanejar, na esperança de conseguir mais alguns trocados, fui até ela.
- Calu! É a senhora? - perguntei surpreso.
- É eu, nhonhô
Deu-me um frio no corpo inteiro, e a voz trêmula e quase a sumir, fiquei ali, imóvel, sem acreditar no que via:  Calu!
Feiticeira por muitos temida, presa e quase levada à fogueira, refugiada no Vale do Ouro Fino, estava ali na minha frente, em carne e osso!
Não vi, contudo, uma Calu derrotada, cheia de mágoa, faminta e solitária. Ao contrário. Nos seus olhos e largos sorrisos divisei uma Calu feliz consigo e o seu mundo, o mundo do Vale do Ouro Fino, onde encontrara a paz, a boa convivência com a natureza, junto com os bichos, os pássaros, a mata, e as águas nas corredeiras.
- Nhonhô num é filho de Doninha? Tá criscido, benza Deus! Te carreguei nos braço muita vez; te curei de maus oiados, meu fio! Doninha era uma santa, que Deus a tenha!. - não se cansava de repetir, quase às lágrimas, a voz grave e rouca.
Meu espÃrito ingênuo de criança via em Calu, apesar de sua fama de feiticeira, alguém que algum dia me embalou, me curou de mau olhado e naturalmente transmitiu muita paz à minha saudosa mãe e a mim também.  Às suas perguntas eu apenas balbuciava, ali parado e o mundo a girar em minha cabeça confusa.
Hoje, me pergunto: quem seria mais feiticeiro: Calu ou as pessoas que a apontavam como tal?
- Nhonhô parece cum medo? Deixe de bobage, minino! Percisa ficá cum medo não, nem burrecido cumigo não. Sou bicho, não. Às vez cê num sabe, bobo, mas vou lhe contar, até os bicho gosta de mim . No Vale tenho muita amizade. Ninguém burrece o outro. Somo tudo amigo, eu e os bichos, os passarim, a mata e as águas.
Enquanto falava, fui longe, em pensamentos, lá no Vale. E fiquei a imaginar como devia ser a vida de Calu junto aos bichos e aos pássaros. A brisa a tocar a mata, e as águas nas caÃdas das pedras. Voltei a mim, de retorno do Vale, e. quando dei fé estava sentado ao seu lado, o tabuleiro no colo, ainda rebuçado com o pano branco.
- Que tem aÃ, nhonhô? - indagou, a apontar para o tabuleiro.
- Quitanda e outros trens. Às vezes a senhora não sabe, boba, mas vou lhe mostrar.
Desrebuçando o tabuleiro, fui-lhe mostrando o muito que ficara dos biscoitinhos, biscoitos de goma, brevidades e barras de geléia de mocotó.  Admirada da variedade de coisas ali expostas, meneava a cabeça e engolia seco, como já a experimentar, em pensamento, o sabor de tudo aquilo.
- Este biscuitim, quanto é?
- Cinco por um tostão.
- E isso
- Geléia de mocotó.
- Quanto?
- Duzentos Réis.
- Me dá os biscuitim. Quero cinco.
Colocou-os num lenço - aparência de bastante velho, mas limpinho de dar gosto. Retirou de dentro do colo, acomodado entre os seios, um pano ralo, velho, asseado, dobradinho. Desdobrou-o pacientemente, pegou um papel velho de maço de cigarros, também dobrado, e ficou a esmiuçar talvez uns três ou quatro nÃqueis de tostão e de duzentos Réis. Passou-me o tostão novamente e ficou a dobrar o papel de maço de cigarros, colocando-o no pano e o arrumando no interior da grossa e surrada roupa de algodão, por entre os seios volumosos.
Enquanto rebuçava as quitandas, fiquei a imaginar sua vontade em provar de pelo menos um taquinho de tudo o que ali havia. Tive Ãmpeto de lhe dar uma pequena porção de cada espécie do que se achava no pesado tabuleiro. Mas não era nada meu e, além do mais, a venda fora muito fraca, aquém do que havÃamos imaginado e até sonhado.
Eu não estava com medo, conforme observara Calu, mas deveras triste e acabrunhado, caipora mesmo. Rebucei as quitandas e deixei de propósito uma barra de geléia à mostra, e ao me levantar, peguei a barra e joguei no seu colo. Tomada de surpresa, e assustada, danou a gaguejar. Rápido, peguei o caminho de casa e ela, sem atinar o que fazer, agitava os braços, a dizer palavras para mim ininteligÃveis. De uma coisa eu tinha certeza: era um gesto de abenção.
Com o tabuleiro na cabeça não me era possÃvel me volver com ligeireza e olhar em sua direção, e, quando o fiz, ela se achava de pé, os braços elevados aos céus, imóvel, como em sentido de oração e súplica.
Dei mais alguns passos e percebi que o tempo mudara de repente, e em seguida um redemoinho enorme se formou à minha frente, numa zorra desenfreada, como a querer tragar tudo em sua barulhenta passagem!  Senti o tabuleiro leviano, e com a perda do equilÃbrio deslizou por sobre minha cabeça, tornando inútil minha tentativa de impedir que as quitandas fossem ao chão. E o bendito tabuleiro ficou de todo vazio, sem quitandas e sem toalha, e, quando me lembrei da rodilha, na cabeça já não se encontrava.
Olhei para o céu, e lá esvoaçava a toalha branca, orgulho de Sa Maria, e também a rodilha que o tabuleiro até então sustentava, quase sumindo, bem longe, em meio a um mundo de folhas lá fundo do céu.
E as quitandas e todos aqueles trens, aonde foram? No tabuleiro e no chão é que não estavam!
Se Calu, como dissera, me curou de quebranto e mau olhado, quando eu ainda era pequenino e não andava, porque não pedir a ela quebrar do redemoinho aquela força brava, que para longe minhas quitandas, a toalha e a rodilha levara, me deixando angustiado, temeroso e assustado?
Nisso, veio lá de dentro, do fundo de mim, o grito de socorro a Deus e a Calu. No esforço daquele grito fechei os olhos, na esperança de que quando os abrisse o pesadelo já tivesse chegando ao fim.
E foi aà que divisei, a princÃpio incrédulo, mas era verdade, lá nas alturas, como no fim do espaço, uma negra figura de mulher rotunda, enorme e forte, agitando-se com bravura, como a colocar peias no possante redemoinho, que pela sua truculência desmedida  parecia ter em si concentradas todas as forças malignas do mundo!
Depois a figura, que eu imaginara já ter domado a fúria insana daquele trem demonÃaco, se viu subjugada por aquela coisa que não dava trégua à valente criatura! Até que enfim, dela esgotadas as derradeiras energias que ainda lhe restavam, pareceu, para espanto e surpresa, que de fato a mulher fora dominada e vencida!
Qual nada!
Pois eis que surge de repente, vindo não sei como e nem de onde um preto velho, esguio, já grisalho, mas destemido e lépido, que num abrir e fechar de olhos esgotou como num sopro as forças desenfreadas do redemoinho endoidecido. E os dois, mulher e ancião, em parceria de esforços conjugados conseguiram colocar peias naquele trem desembestado, e em seguida vieram planando como as aves dos bosques em passeio pelos vales!
A rodilha e a toalha, como num passe de mágica principiaram a perder altura, caindo pelo espaço afora; e a rodilha, antes desmanchada pelo redemoinho, tomou sua forma original e assim pousou em minha cabeça. Enquanto que a toalha, que eu imaginara infestada de poeira, nada disso, estava mais bonita, alvejada, e caiu dobradinha no tabuleiro!
O redemoinho, que num repente virou brisa, veio de manso, me tocou o rosto e me refrescou todo, aquela agradável sensação de alÃvio, enquanto as figuras se afastavam pelo espaço afora.
Satisfeito, saà andando, pensando em tudo aquilo, e senti que minhas duas algibeiras estavam como que me incomodando, repletas de moedas e o tabuleiro de todo vazio. Assuntei comigo: quem tanto andou comprando? Calu, uai, que com toda aquela quitanda iria se regalar por muitos dias!