Arquivo de Outubro, 2008

20
Out

 Poemas da Dalva Saudo - Fantasia e Realidade

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Dalva Saudo *

* Poetisa Paulista

FANTASIA E REALIDADE

Sou dançarina consciente e transcendente
Saia de bicos estampada de hibiscos
Saia com movimento ao vento
Num vaivém compassada com o balanço da dança
Ao dançar, sinto-me unida ao universo,
Transcendo o corpo carnal
Sinto apenas a minh’alma.
Nesse momento sinto-me atriz
Sigo harmoniosamente a arte dos movimentos corporais
Embalada fico ao som dos ritmos musicais.
A beleza das músicas, as vozes dos cantantes,
Juntam-se numa sintonia aos pares dançantes.
Artes corporais… artes musicais…
Nesse momento…sinto a presença de Deus!
Continuo transcendendo.
De repente…um movimento. É outro momento!
Ao ficar consciente, percebo algumas aprovações,
Admirações e até reprovações! Quantas observações!
Por um triz volto a sentir-me uma atriz.
Ao bailar recomeço a fantasiar.
Faço da dança o meu máximo
Do salão? O palco com meu cadenciar
Pessoas ao redor das mesas?
É a platéia que fica a me apreciar.
Mas…para minha fantasia se reslizar…
Quero roupas esvoçantes e um bom dançante.
Não posso estar sozinha nesse impressionismo de magia.
Preciso de um bom dançarino
Para me embalar como diretor e condutor
Com passos ritmados, compassados,
Para que eu possa brilhar como uma estrela.
A estrela Dalva!

Poesia na página 136 do livro “A voz da inspiração III da Casa do Poeta de Campinas.      Autora Dalva Saudo

Veja Também:
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Poemas da Dalva Saudo - Tempos
Poemas da Dalva Saudo - Equilíbrio
Poemas da Dalva Saudo - A Procura da Felicidade
Poemas da Dalva Saudo - Amor, Vida e Morte
Poemas da Dalva Saudo - Você é sempre NÃO

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19
Out

 Contos do Bié - O Tabuleiro

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

CÂNDIDO PORTINARI
Menino do Tabuleiro (detalhe), 1947
Pintura a óleo sobre tela 100 x 81 cm
Coleção Particular – Rio de Janeiro, RJ

O tabuleiro, já arrumadinho, um pano branco a cobri-lo, dava gosto de ver, repleto de biscoitinhos, broas, brevidade e uma enormidade de barras de geléia de mocotó. Fez uma rodilha, colocou-a na minha cabeça e assentou o tabuleiro em cima, recomendando que na chegada ao ponto, o coretinho em frente à igreja, pedisse a seu Eliasinho me ajudasse a descer a peça da cabeça. Acompanhou-me até à porta, ajudou-me na descida dos degraus e ficou na porta até eu dobrar a esquina da Rua das Almas com a do Largo do Rosário.

A procissão acabara de entrar na igreja e o andor já estava sendo ajeitado no lugar de costume.

Vi seu Eliasinho, o leiloeiro oficial da igreja, postado na parte térrea do coretinho, onde ficava o depósito das prendas do leilão.  Não foi preciso pedir, que ele veio logo em minha direção, todo elogioso a me exaltar a valentia de carregar um tabuleiro daquele, aquela trenheira toda.  Senti-me cheio, feliz da vida!  Não me lembrava de nenhuma reza complicada, nem dos capetas, tampouco dos retratos do Dante. O que eu queria mesmo era vender as quitandas!

A praça em frente à igreja lotou de gente, mas não deu para dispor de pelo menos metade da quitanda do tabuleiro.  Os roceiros, na sua simplicidade, se aproximavam, olhavam, admiravam, mas comprar mesmo, nada, ou quase nada!  Alguns se postavam por perto, assuntando, por vezes até me ajudavam a fazer as contas e a providenciar os trocados.
O velho Januário Cota, roceiro, postado a meu lado, me orientava nas contas e conferia os pagamentos. Só arredou pé quando o movimento, sempre muito fraco, terminou de vez, os roceiros retornando às suas casas.
Tilintavam em minhas mãos, contadas e conferidas repetidas vezes, uma prata de hum mil Réis, outra de quinhentos Réis, três níqueis de quatrocentos Réis, cinco de duzentos Réis e sete - conta de mentiroso - de um tostão, muito pouco pelo trabalho  que Sa Maria tivera, e pela perda de uma gamela inteirinha de massa que o tatu revirara e fuçara.

Deveras esmorecido ante o resultado, peguei o caminho de casa.
Subi a Rua do Quenta-Sol, dobrei à esquerda e logo passei em frente ao negócio de Seu Carlos Amantino, que funcionava só a meia porta, para atendimento aos roceiros. Entrei rápido e mais rápido saí, que não havia uma viva alma, a não ser um dos caixeiros, Xaxá, a arrumar as peças de fazendas nas prateleiras.
Tomei rumo e, um pouco adiante, a me abanar a mão, chamando-me, uma preta velha, fado na cabeça - espécie de lenço - saias até os pés, sentada na grossa raiz de centenária gameleira, interrompeu-me  a caminhada.
Sem pestanejar, na esperança de conseguir mais alguns trocados, fui até ela.
- Calu! É a senhora? - perguntei surpreso.
- É eu, nhonhô
Deu-me um frio no corpo inteiro, e a voz trêmula e quase a sumir, fiquei ali, imóvel, sem acreditar no que via:   Calu!
Feiticeira por muitos temida, presa e quase levada à fogueira, refugiada no Vale do Ouro Fino, estava ali na minha frente, em carne e osso!
Não vi, contudo, uma Calu derrotada, cheia de mágoa, faminta e solitária. Ao contrário. Nos seus olhos e largos sorrisos divisei uma Calu feliz consigo e o seu mundo, o mundo do Vale do Ouro Fino, onde encontrara a paz, a boa convivência com a natureza, junto com os bichos, os pássaros, a mata, e as águas nas corredeiras.
- Nhonhô num é filho de Doninha? Tá criscido, benza Deus! Te carreguei nos braço muita vez; te curei de maus oiados, meu fio!  Doninha era uma santa, que Deus a tenha!. - não se cansava de repetir, quase às lágrimas, a voz grave e rouca.
Meu espírito ingênuo de criança via em Calu, apesar de sua fama de feiticeira, alguém que algum dia me embalou, me curou de mau olhado e naturalmente transmitiu muita paz à minha saudosa mãe e a mim também.   Às suas perguntas eu apenas balbuciava, ali parado e o mundo a girar em minha cabeça confusa.
Hoje, me pergunto: quem seria mais feiticeiro: Calu ou as pessoas que a apontavam como tal?
- Nhonhô parece cum medo? Deixe de bobage, minino!  Percisa ficá cum medo não,  nem  burrecido cumigo não.  Sou bicho, não.  Às vez cê num sabe, bobo, mas vou lhe contar, até os bicho gosta de mim . No Vale tenho muita amizade. Ninguém burrece o outro. Somo tudo amigo, eu e os bichos, os passarim,  a mata e as águas.
Enquanto falava, fui longe, em pensamentos, lá no Vale.  E fiquei a imaginar como devia ser a vida de Calu junto aos bichos e aos pássaros.  A brisa a tocar a mata, e as águas nas caídas das pedras. Voltei a mim, de retorno do Vale, e. quando dei fé estava sentado ao seu lado, o tabuleiro no colo, ainda rebuçado com o pano branco.
- Que tem aí, nhonhô? - indagou, a apontar para o tabuleiro.
- Quitanda e outros trens.  Às vezes a senhora não sabe, boba, mas vou lhe mostrar.
Desrebuçando o tabuleiro, fui-lhe mostrando o muito que ficara dos biscoitinhos, biscoitos de goma, brevidades e barras de geléia de mocotó.   Admirada da variedade de coisas ali expostas, meneava a cabeça e engolia seco, como já a experimentar, em pensamento, o sabor de tudo aquilo.
- Este biscuitim, quanto é?
- Cinco por um tostão.
- E isso
- Geléia de mocotó.
- Quanto?
- Duzentos Réis.
- Me dá os biscuitim. Quero cinco.
Colocou-os num lenço - aparência de bastante velho, mas limpinho de dar gosto.  Retirou de dentro do colo, acomodado entre os seios, um pano ralo, velho, asseado, dobradinho. Desdobrou-o pacientemente, pegou um papel velho de maço de cigarros, também dobrado, e ficou a esmiuçar talvez uns três ou quatro níqueis de tostão e de duzentos Réis. Passou-me o tostão novamente e ficou a dobrar o papel de maço de cigarros, colocando-o no pano e o arrumando no interior da grossa e surrada roupa de algodão, por entre os seios volumosos.

Enquanto rebuçava as quitandas, fiquei a imaginar sua vontade em provar de pelo menos um taquinho de tudo o que ali havia. Tive ímpeto de lhe dar uma pequena porção de cada espécie do que se achava no pesado tabuleiro. Mas não era nada meu e, além do mais, a venda fora muito fraca, aquém do que havíamos imaginado e até sonhado.
Eu não estava com medo, conforme observara Calu, mas deveras triste e acabrunhado, caipora mesmo. Rebucei as quitandas e deixei de propósito uma barra de geléia à mostra, e ao me levantar, peguei a barra e joguei no seu colo. Tomada de surpresa, e assustada, danou a gaguejar. Rápido, peguei o caminho de casa e ela, sem atinar o que fazer, agitava os braços, a dizer palavras para mim ininteligíveis. De uma coisa eu tinha certeza: era um gesto de abenção.
Com o tabuleiro na cabeça não me era possível me volver com ligeireza e olhar em sua direção, e, quando o fiz, ela se achava de pé, os braços elevados aos céus, imóvel, como em sentido de oração e súplica.

Dei mais alguns passos e percebi que o tempo mudara de repente, e em seguida um redemoinho enorme se formou à minha frente, numa zorra desenfreada, como a querer tragar tudo em sua barulhenta passagem!   Senti o tabuleiro leviano, e com a perda do equilíbrio deslizou por sobre minha cabeça, tornando inútil minha tentativa de impedir que as quitandas fossem ao chão. E o bendito tabuleiro ficou de todo vazio, sem quitandas e sem toalha, e, quando me lembrei da rodilha, na cabeça já não se encontrava.
Olhei para o céu, e lá esvoaçava a toalha branca, orgulho de Sa Maria, e também a rodilha que o tabuleiro até então sustentava, quase sumindo, bem longe, em meio a um mundo de folhas lá fundo do céu.
E as quitandas e todos aqueles trens, aonde foram?  No tabuleiro e no chão é que não estavam!
Se Calu, como dissera, me curou de quebranto e mau olhado, quando eu ainda era pequenino e não andava, porque não pedir a ela quebrar do redemoinho aquela força brava, que para longe minhas quitandas, a toalha e a rodilha levara, me deixando angustiado, temeroso e assustado?
Nisso, veio lá de dentro, do fundo de mim, o grito de socorro a Deus e a Calu. No esforço daquele grito fechei os olhos, na esperança de que quando os abrisse o pesadelo já tivesse chegando ao fim.
E foi aí que divisei, a princípio incrédulo, mas era verdade, lá nas alturas, como no fim do espaço, uma negra figura de mulher rotunda, enorme e forte,  agitando-se com bravura, como a colocar peias no possante redemoinho, que pela sua truculência desmedida   parecia ter em si concentradas todas as forças malignas do mundo!
Depois a figura, que eu imaginara já ter domado a fúria insana daquele trem demoníaco, se viu subjugada por aquela coisa que não dava trégua à valente criatura!  Até que enfim, dela esgotadas as derradeiras energias que ainda lhe restavam, pareceu, para espanto e surpresa, que de fato a mulher fora dominada e vencida!
Qual nada!
Pois eis que surge de repente, vindo não sei como e nem de onde um preto velho, esguio, já grisalho, mas destemido e lépido, que num abrir e fechar de olhos esgotou como num sopro as forças desenfreadas do redemoinho endoidecido. E os dois, mulher e ancião, em parceria de esforços conjugados conseguiram colocar peias naquele trem desembestado, e em seguida vieram planando como as aves dos bosques em passeio pelos vales!
A rodilha e a toalha, como num passe de mágica principiaram a perder altura, caindo pelo espaço afora; e a rodilha, antes desmanchada pelo redemoinho, tomou sua forma original e assim pousou em minha cabeça. Enquanto que a toalha, que eu imaginara infestada de poeira, nada disso, estava mais bonita, alvejada, e caiu dobradinha no tabuleiro!
O redemoinho, que num repente virou brisa, veio de manso, me tocou o rosto e me refrescou todo, aquela agradável sensação de alívio, enquanto as figuras se afastavam pelo espaço afora.
Satisfeito, saí andando, pensando em tudo aquilo, e senti que minhas duas algibeiras estavam como que me incomodando, repletas de moedas e o tabuleiro de todo vazio. Assuntei comigo: quem tanto andou comprando?  Calu, uai, que com toda aquela quitanda iria se regalar por muitos dias!

Veja Também:
Contos de Mardegam - Bernardo Ermitão
Contos do Bié - O Jardim e a Literatura
Contos do Mardegam - Somos a Doença
Contos do Bié - Nhá Tuca*
Poemas do Silas Corrêa -
Contos de Silvia Trevisani - O que vejo da minha janela

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18
Out

 Contos do Bié - Maria, retornei por minhas próprias pernas

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Desculpem-me a minha falha, que ainda não reentrei direito nos
eixos, e por isso revisei, eliminando algumas impropriedades léxicas
ortográficas.
Ele, o Bié.

Maria, Querida Amiga,
Boa tarde deste sábado que promete chuva.
Estou felicíssimo por essa também felicíssima notícia, coisa óbvia que
tinha que acontecer quando você sai a campo esparramando suas poesias.
Sabe de uma coisa, que terça, dia 14, ali pelo morrer do dia, eu
imaginei que teria chegado também o meu morrer? Saíram comigo naquele
dia e momento e só hoje aqui retornei por minhas próprias pernas, pelo
menos para sair do carro e ganhar o piso da garagem e da casa, ir à
cozinha, sair à porta e divisar o quintal com seus entulhos de plantas
e flores, varais e badulaques, aquilo que com o tempo
acumulamos.Acomentimento de uma forte crise de labirinto, que eles, os
doutores de hoje falaram ser outro trem, que chamam derrame, não de
ouro, mas de um metal sem valor que nos leva a mundos escuros. Bati
pé, dizendo que não me levassem, mas teve jeito não, pois eu já não era
mais dono de minhas forças, e fui naquilo que chispa luzes multicores e
emite uns chiados intermitentes pra abrir caminho entre multidão de
veículos e de gente à sua frente para me levar. Bem que eu tinha
razão, mas mesmo assim me seguraram por lá, e vi, durante os dias e
noites para mim intermináveis, aquela gota a gota vindo tubo abaixo e
sumindo no meu corpo naquelas camas onde muitos já se deitaram e
inúmeros não se levantaram. E fotos foram tiradas, até dele, do baú
onde guardo meus amigos e meus amores, aquele que dia e noite manda
energia a todos os segmentos de minha carcaça em dores. E não
satisfeitos, penetraram meus pensamentos, e estava lá a magnânima
cerebral massa, firme e intacta, mas já diminuindo de tamanho, que os
anos se lhe pesam, por isso já pede descanso.
Enfim, ficou sabido que podia ser de fato aquilo que eu com firmeza
sempre afirmara, é o labirinto, meus senhores, que se desgovernou ante
ante os movimentos bruscos do mundo, que parece estar indo ao
contrário de tudo aquilo que o Supremo determinou.
Agora, estou aqui de retorno, até com teclado novo, que pra surpresa
minha foi meu filho Pedro que na minha inesperada ausência aqui
instalou, e por isso daqui há pouco, quando ele vier de seu repouso -
muito merecido, pois tantas noites ao meu lado passou desdormido - vou
agradecê-lo.
Meu forte abraço, que minhas energias já reentram nos eixos - como diz
meu conterrâneo Guimarães Rosa.
Bié.

Veja Também:
Contos de Silvia Trevisani - Momento de Fé
Poemas da Silvia Trevisani - Busca a Liberdade
Poemas da Silvia Trevisani - Raízes
Contos do Bié - Carta ao Compadre Zico
Contos do Bié - Minha viagem à Lua
Contos do Bié - A alegria do Pai

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18
Out

 Estudo de caso - Wolff-Parkinson-White

Categoria(s): Gerontologia

Interpretação

  • Homem de 56 anos, necessita de fazer cirurgia de colecistectomia daí a uma semana. Ele é diabético Tipo 2. Não tem queixas cardiovasculares. Pratica caminhadas diariamente. Ao exame físico, a frequência cardíaca de 80 bpm e PA 165/80 mmHg. Os pulmões limpos à ausculta. O exame cardiológico revelou desdobramento da segunda bulha. O eletrocardiograma mostra o traçado abaixo.
  • Qual a recomendação a ser seguida nesse caso?
O eletrograma mostra um intervalo PR curto, ou seja a onda “p”  está muito próxima do complexo QRS, e existe uma onda lenta no início da onda “R” (conhecida como onda delta). Este aspecto, corresponde a chamada síndrome de pré-exitação, onde o estímulo elétrico do coração se faz por uma via anômala. Este tipo de alteração de origem congênita pode promover surtos de taquiarritmia. Porém, a maior parte delas benigna.

Apesar do aspecto “estranho” do eletrocardiograma, esse tipo de alteração não contra-indica a cirurgia. Estando o paciente em boas condição clínica a anestesia e a cirurgia não envolve aumento do risco.

Veja mais sobre - Wolff-Parkinson-White

Referências:
Hollemberg SM - Preoperative cardiac risk assessment. Chest. 1999;115:51S-57S.

Schroeder D. The preoperative period summary. Chest. 1999;115:44S-46S.

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Veja Também:
Síndrome de Wolff-Parkinson-White
Estudo de caso - Tremor nas mãos
Estudo de caso - Parkinsonismo
Doença de Parkinson - Clínica e fisiopatologia
Estudo de caso - Carcinoma epidermóide
Cuidados paliativos

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17
Out

 Síndrome da Restrição Diastólica

Categoria(s): Cardiogeriatria, Dicionário

Dicionário

O estudo do desempenho diastólico do ventrículo esquerdo foi negligênciado até pouco tempo atrás, quando Gibson e Brown desenvolveram método de análise da variação continua da dimensão ventricular esquerda, utilizando um sistema computadorizado, de aproveitamento de traçado ecocardiográfico.

A síndrome de restrição diastólica (SRD) pode ocorrer por doenças que afetam o miocárdio ou o pericárdio ou ambos.

Na SRD os ventrículos não conseguem encher-se satisfatóriamente causando baixo débito cardíaco e choque.

A função diastólica do VE reflete uma interação complexa de eventos, estando longe de ser simples consseqüência da distensibilidade miocárdica ou do coração.

Os distúrbios, da função diastólica obedecem a dois mecanismos fundamentais:a). “déficit” do relaxamento ventricular; b). Diminuição da distensibilidade passiva da câmara

a). “déficit” do relaxamento ventricular
Este padrão se caracteriza por uma diminuição da velocidade do relaxamento ventricular combinada à pressão normal ou discretamente elevada no átrio esquerdo. O relaxamento diminuido acarreta queda lenta da pressão do VE, trasando a abertura da valva mitral em relação ao fechamento aórtico (tempo de relaxamento isovolumétrico prolongado), e diminuição do gradiente diastólico transmitral (velocidade diminuida e desaceleração lenta da da E no ecocardiograma).
Este padrão é encontrado em pacientes portadores de cardiomiopatia hipertrófica, doença coronaria, cardiomiopatia dilatada, hipertensão arterial sistêmica, e é considerado padrão clássico da alteração da função diastólica.

b). Diminuição da distensibilidade passiva da câmara
A característica principal deste tipo de restrição diastólica é uma acentuada diminuição da complacência da câmara ventricular esquerda no início da diástole, podendo estar o relaxamento também comprometido.
A elevada pressão em AE abre a valva mitral mais precocemente (tempo de relaxamento isovolumétrico normal ou encurtado) e aumenta o gradiente transmitral (onda E de grande velocidade)
Nestes casos haverá aumento da reversão de fluxo nas veias pulmonares, também podendo ser evidenciada regurgitação mitral diastólica, por inversão do gradiente diastólico atrioventricular. (fluxo diastólico)
Este padrão de disfunção diastólica é descrito em pacientes com cardiomiopatia restritiva, pericardite constritiva.
A cardiomiopatia dilatada, cardiomiopatia hipertrófica e cardiopatia isquemica difusa também pode ter este mesmo padrão quando a pressão de enchimento do VE estiver muito aumentada.
Como nestes pacientes ocorre aumento da pressão do AE, os sintomas são mais evidentes.

Clínica - Na SRD a dispnéia de esforço é uma queixa constante. No entanto, esta é pouco freqüente com o decúbito , ao contrário das outras formas de insuficiência cardíaca, sendo raros os episódios de dispnéia paroxística noturna.
O edema dos membros inferiores é um achado comum, assim como queixas digestivas, hepatomegalia, ascite.
Esses pacientes apresentam-se com aspecto debilitado, veias jugulares turgidas, e seu pulso demonstra queda rápida da fase descendente “y”.
O sinal de Kussmaul pode estar presente (aumento da pressão venosa e maior engurgitamento jugular com a inspiração profunda).
Os pulsos periféricos estão mormais, podendo encontrar o pulso paradoxal nos casos de pericardite constrictiva.

No exame radiológico do tórax vemos área cardíaca normal ou pouco aumentada, as vezes com sinal de calcificação do pericárdio.
O eletrocardiograma é inespecífico na maioria dos casos.

Fisiologia - Fisiologicamente a síndrome de restrição diastólica caracteriza-se pela presença de fluxo átrio-ventricular váriável com a respiração(diminuindo na inspiração e aumentando na expiração na valva tricúspide, e o contrario na valva mitral) e enchimento diastólico predominante na fase de enchimento rápido.

Ocorre ainda dilatação da veia cava inferior e das veias supra-hepáticas, movimentação anormal do septo interventricular (caracterizado por achatamento sistólico e movimento posterior e abrupto no início da diástole) na ecodopplercardiografia.

O estudo hemodinâmico é importante principalmente para análise das curvas de pressão uma vez que a ventrículografia e a fração de ejeção estarão práticamente normais. Ocorre elevação das pressões diastólicas do átrio e ventrículo direitos, artéria pulmonar, átrio e ventrículo esquerdo equalizando-se em até 5 mmHg de diferencial.

A curva de pressão venosa atrial mostra ondas “a”e “v” pequenas e  equivalentes, com colapso “Y” profundo e o “x” preservado, resultando em aspecto de “M” ou “W”.

A curva de pressão ventricular é típica e do tipo “dip-et-Plateau”, mostrando a diminuição da complacência ventricular pela restição e mantendo a pressão elevada em “plateau”. Normalmente a pressão sistólica do ventrículo direito e tronco de pulmonar estão entre 35 e 50 mmHg e raramente excedem 60 mmHg nas pericardite, porém ultrapassa nas endomiocardiofibrose e hipertrofias septais.

Ecodopplercardiografia.

A disfunção diastólica pode ser analisada a ecodopplercardiografia através do estudo da relação das ondas E e A do fluxo de enchimento ventricular transmitral, sendo a onda E relacionada ao enchimento ventricular rápido (ramo ascendente de curva de fluxo mitral) e onda A produzida pela contração atrial.
Quando o relaxamento, a complacência ventricular e a pressão atrial esquerda estão normais, o gradiente AE/VE é maior no início da diástole, permitindo que o enchimento ventricular se faca predominantemente nessa fase, sendo que a sístole atrial contribui para completar esse enchimento, determinando, portanto, ao doppler, onda E maior que a onda A.

Na miocardiopatia dilatada onde ocorre diminuição da complacência ou redução da distensibilidade do VE, a dinâmica ventricular resultante das relações pressão x volume, determina que pequenas elevações no volume ocasionem aumentos na pressão intraventricular, dificuldade de esvaziamento atrial com conseqüente elevação de pressão do AE, causando elevação do gradiente AE/VE na fase inicial da diástole, obtendo-se onda E maior que A (disfunção diastólica tipo restritivo).

Tratamento

O tratamento é distinto nas diversas formar da SRD.
1. Forma miopatia
2. Forma endopática
3. Forma pericárdica

Veja mais -

Pericardite constritiva

Tamponamento cardíaco

Referências:

Tyberg JV, Keon WJ Sonnenblick EH, Unschel CW - Mechanics of ventricular diastole. Cardiovasc Res, 1970;4:423-428.

Hansen AT, Eskildsen P, Gotzcher H - Pressure curves from the right auricle and the right ventricle in chrônic constrictive pericarditis. Circulation, 1951;3:881-8.

Lewis BS, Gostman MS - left ventricular function in systole and diástole in constrictive pericarditis. Am Heart J, 1973;86:23-41.

Azevedo AC - Insuficiência cardíaca diastólica (Editorial). Arq Bras Cardiol, 1986;47:157-159.

Danford DA, Huhta JC, Murphy DJ - Doppler echocardiographic approaches to ventricular diastolic function Echocardiography, 1986;3:33-40.

Weitzel LH, Patrocínio LLA, Moll Fo JN, Azevedo AC - Avaliação ecodopplercardiográfica da função diastólica do ventrículo esquerdo. Arq Bras Cardiol, 1990;54(2):147-156.

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Veja Também:
Estudo de caso - Pericardite por radioterapia
Insuficiência cardíaca diastólica
Endomiocardiofibrose
Pericardite constritiva
Síndrome de Hutchinson-Gilford
Síndrome de Wiedemann-Rautenstrauch

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