12 - out
  

Contos do Bié – O que vinha a ser a guerra?

Categoria(s): Contos e Poemas




Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

_______Parecia estar indo tudo muito bem em nossa pacata cidadezinha, com os preparativos para a celebração do “Dia da Família”, em homenagem a São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus. Cresceu meu relacionamento com outras crianças. A amizade com Lindolfo, meu companheiro de carteira, estreitava-se sempre mais. Freqüentávamos a casa um do outro, trocávamos confidências, falávamos de nossos segredos, de nossas dúvidas, de nossos projetos. Apresentei-o à Sa Maria e Isaltina, e o levei a conhecer o buraco do tatu, que ali ainda fazia morada. Narrei-lhe toda a história durante os recreios na escola, e ele ficava curioso, me agradava, me oferecendo doce de canudo, que trazia de casa. 

             De fato, tudo estava indo muito bem, até que, em determinado dia, ao entrarmos no salão de canto, notamos uns quadros grandes de papel, colados na parede de frente para o salão, um ao lado do outro, onde se via a figura de Mussolini a montar uma pessoa, e Hitler, o braço erguido e a dizer: “Eu farei deste continente mestiço um domínio alemão!”.  Perfilamos, fizemos as orações e nos dirigimos para a sala de aula. Não levou tempo, e logo feita a chamada fomos dispensados, sem atinar com o que estava acontecendo. Novamente perfilados ali no salão de canto, além de muitas orações, houve discurso da parte de seu Eloy, o Diretor, que falou sobre o alastramento da peste que os dois monstros mandavam lá do estrangeiro.

               As conversas sobre a guerra estavam já em todas as rodas, não importando o grau de instrução e a classe social.  

              Observei que seu Virgolino, antes brincalhão e sorridente, não apresentava mais aquele mesmo espírito, agora calado e pensativo.  Nem do tatu falava mais. Aparentava-se estranho, diferente daquele homem que eu queria ser quando um dia crescesse. E o mesmo sucedeu à Sa Maria, preocupada, o olhar perdido, sem muito ânimo para fazer suas quitandas. Nas orações, pedia a Nossa Senhora paz para o Brasil e o mundo.

              Silenciosamente, eu sofria com todos eles, sempre rezando cada vez mais. Eu queria ser grande e forte, para ir à guerra. Não suportava a idéia de ver meu pai nem Seu Virgolino e os três filhos metidos naquela coisa doida, que diziam ser a guerra.

              Mas por incrível que pareça eu não sabia ao certo o que vinha a ser a guerra. Imaginava ser apenas e tão somente os dois quadros colados na parede do Grupo, aqueles dois homens, um com o braço levantado e o outro a montar uma pessoa.

              Nas minhas andanças solitárias pelos altos da Chapada, lançava o olhar para além das montanhas, e ficava a imaginar onde se localizavam a tal Alemanha e a Itália. Mas era tudo tão calmo que eu não chegava mais a acreditar no que todo mundo estava tanto a falar.  Dava uma confusão das maiores em minha cabeça.

              Havia ainda um nome sempre presente nas conversas que eu escutava, e que me deixava encafifado: Polônia!  Passei a relacioná-la com polaina.

              Meu irmão mais velho, entre muitos bicos que fazia, era também engraxate. Vez por outra chegava a casa com uns níqueis a mais, a dizer que tinha engraxado a polaina do Dr. Rafael. Eu ouvia seu comentário, guardava-o na mente e elaborava um emaranhado de conclusões confusas, chegando à certeza de que a guerra já estava na casa do Dr. Rafael, porque ali havia a tal “Polaina” ou Polônia, que meu irmão havia engraxado. Coincidentemente, Dr. Rafael, advogado emérito, grande tribuno, elegante e bem vestido, tinha, para mim, grande semelhança com um dos “monstros” do quadro do grupo escolar: Hitler. Até o cabelo e o bigode eram parecidos.

              E dia a dia a confusão ia crescendo em minha cabeça. Procurei me desabafar com o Lindolfo. Estava em piores condições do que eu, pois achava ele que a tal “guerra” morava no porão da casa de Seu José Reis,  marido de Maria Wanderlei, onde, já fazia tempos, tinha estado presa numa jaula uma onça pintada, que vivia a acordar e  a incomodar toda a vizinhança com seus urros.

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               O mestre José Braga entrou na classe dando um animado “boa-tarde”. Com dificuldade no andar, dirigiu-se para a mesa, e, de pé, fez o nome do padre, acompanhado no gesto por todos nós, que, contritos, recitamos as costumeiras três ave-marias, com pedido do mestre para a paz no Brasil e no estrangeiro. Era engraçado como ele fazia o sinal do “nome do padre”. Eu ficava a prestar atenção no seu gesto, para ver se conseguia fazer como ele. Oramos. No momento do “nome do padre” prestei bastante atenção, e parecia que eu tinha aprendido.

               Pedi licença para ir à latrina, e ali, sem saber que estava sendo observado, comecei a me benzer conforme fazia o mestre.   Com a pressa que tinha no intuito de imitá-lo, esqueci a porta aberta, e D. Georgina, uma solteirona de idade, religiosa como ela só, funcionária da casa, percebeu meus gestos, e a escola em peso, por parte das beatas e santas professoras, passou a ver em mim um virtuoso e bem comportado menino,  digno de um outro nome que não José Dirigível,  mas quem sabe Gabriel, “o  anjo que anunciou a Maria”.

              Naquele dia, o mestre fez a leitura da página 67, “O Recruta”, a história de um rapaz:   “Anselmo, que aos 22 anos tinha sido chamado para lutar na Guerra do Paraguai. Dizia, ainda, que ele, desde pequeno, habituara-se à vida ao ar livre. Que mal rompia a aurora, já andava,  ao sol e à chuva, descalço e correndo, como cabrito montês. Aos oitos anos, já montava em pelo os cavalos mais bravos. Com essa existência de exercícios fortes, fizera-se um colosso. Tinha a face corada, os cabelos negros, uma musculatura possante, espáduas largas, pulso  de abater um touro com um soco”.

               Nos comentários a respeito da lição, o mestre José Braga falou sobre a necessidade de levarmos vida sadia, ao ar livre, levantar-se e deitar cedo, alimentar-se adequadamente e evitar as estripulias, para que, quando crescêssemos, fôssemos fortes de corpo e mente, para o bem de nossa pátria, nosso querido Brasil. Tínhamos que ser uma raça pura, mas pura de mente e de coração, livre da ganância e da prepotência. Não como aquele monstro do estrangeiro, o tal Hitler, a querer criar uma raça apenas baseado na força física, homens sem alma, sem sentimento nobre e sem amor ao próximo.  “Vocês, crianças – continuou o mestre – são o futuro desta grande nação. Não queiram seguir o exemplo daqueles monstros do estrangeiro, que tencionam expulsar Deus de nossos lares. Eles são a guerra em pessoa, a destruição e o caos”.

              Compenetrado, as mãos cruzadas sobre o abdômen, como em postura clerical, o professor, tom solene e sério, insistiu, uma vez mais, que cuidássemos da saúde, pois que ele, infelizmente, apesar dos bons exemplos que recebera dos mais velhos, não soube conservar a sua, “e agora vejo o quanto fui irresponsável, esbanjando o que de mais sagrado existe em nós, e que hoje está fazendo falta tanto a mim, à minha família e à nossa amada pátria”.

              Nunca, acredito, nenhuma das inúmeras crianças, testemunhas daquela sincera confissão, comentou com quem quer que fosse o que acabara de ouvir. Não porque nada entendessem, mas porque muito forte o senso de discrição e, acima de tudo, de respeito ao mestre.




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