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Contos do Bié - Adão e Eva e o pecado original

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Sa Maria Amélia, esposa de Seu Virgolino – O Barbeiro - quitandeira e exímia cozinheira, moradora ali nos altos da Rua das Almas, e de quem passamos a ser vizinhos, tomou a incumbência de me dar lições extras de catecismo. Um de seus quatros filhos, Salatiel, depois de anos no seminário de Manhumirim, viu que não tinha vocação para padre, abandonou os estudos e foi trabalhar em São Paulo.
Seus livros de rezas, um punhado deles - grande parte em latim - ficaram aos cuidados dos pais, alguns bem guardados numa espécie de baú, e outros, expostos nas mesinhas dos quartos de dormir, serviam de consulta freqüente por parte de Sa Maria e a filha Isaltina.
Um de grosso volume, capa grossa como de couro, impressionava pelas inúmeras gravuras, em que sobressaíam as almas dos pecadores caindo de cabeça para baixo no inferno, os capetas a esperá-las com garfos pontiagudos, ao lado de labaredas de fogo e serpentes devoradoras.  Ante meu espanto, ela dizia sem sombra de dúvida serem retratos tirados por um tal Dante.
Eu ficava a cismar, assuntando aquilo, pois como poderia aquele homem ter ido ao inferno, tirado os retratos e voltado aqui, sem que os capetas não o retivessem lá?   - lugar de onde ninguém mais pode sair, segundo aprendíamos nas longas e horripilantes aulas de catecismo.  Com certeza devia ser um santo, eu concluía, ou então um homem mais forte que Sansão. Ficou esta hipótese, que na igreja não havia sua imagem. Depois, vim a saber, santo não tinha sido. Retratista, sim.
Das rezas que me ensinava, as mais difíceis eram a Salve Rainha e o Ato de contrição e bom propósito. Longa demais, a Salve Rainha tinha palavras diferentes e difíceis de entender. Eu já aprendera o Padre Nosso e o Senhor Meu Jesus Cristo. O Creio ficaria mais para o final. Reza especial - explicava Sa Maria - que tinha vez me chamava à atenção, dizendo que eu estava distraído.
Eu me punha a matutar no que Eva tinha aprontado, e aquilo me martelava a cabeça dia e noite. Tentava desviar os pensamentos daquele trem complicado, pois quem sabe eu poderia estar enveredando pelos caminhos do pecado em reprovar o ato por ela praticado no paraíso, tentando a Adão?
Vinham-me à mente as figuras dos bichos e dos pássaros no paraíso, me transportando em pensamento para o morro da Chapada, de onde lançava a vista para o Vale do Ouro Fino.  Não teria sido ali o paraíso?   Nessas ocasiões Sa Maria falava mais alto e sério comigo, despertando-me dos misteriosos e complicados devaneios. Chegava a afirmar a meu pai que eu estava com preguiça e má vontade. Ou então sinal de bicha. Se não melhorasse, melhor seria me dessem um lombrigueiro.

-
Não foram, entretanto, somente aqueles retratos que me deixaram impressionados.  Ao ver as representações de Adão e Eva no paraíso, rodeados de plantas e flores, frutos, pássaros, e cachoeiras, onde o casal se banhava em companhia dos animais, sem que os leões e cobras os atacassem; a vida alegre e descontraída e sem dor nem morte, e que tudo aquilo lhes foi tirado por Eva ter desobedecido ao Criador, aquilo, sim, me deixou chocado e pensativo!  Deveu-se à desobediência de Eva, proibida de provar da maçã, que nós, se quiséssemos ganhar o céu, teríamos que aceitar todo o sofrimento em nossa vida, ser obedientes e não ter preguiça de trabalhar, estudar e rezar.  A primeira pergunta que me veio foi se Adão e Eva voavam como os pássaros, se falavam com eles e com as feras daquele tempo.
- Sim! Sim! – respondeu de imediato, mostrando-me as gravuras e apontando para o que seria a prova do que afirmava.  A desobediência – continuou ela - transformou-se em pecado - o pecado original.
Encafifado com aquelas revelações, eu quis saber se o tal pecado, confessado ao padre no dia da primeira comunhão, iria acabar. Muito a contragosto, e meneando a cabeça, respondeu:
- Não… - um “não” carregado de tristeza.
.- Não! - repetiu - a mancha do pecado original é eterna. Não se apaga nunca! Só após a morte, e desde que estejamos na graça de Deus.
- O que é a graça de Deus? - perguntei, curioso e aflito pela resposta.
- É cedo ainda para você aprender isso. Nem eu sei direito – interrompeu o assunto,   como que desconsolada:
- Agora vai pra casa, que é hora de dormir.


Ao escalar os montes e as pequenas elevações, de seu pico me punha a olhar as serras distantes, uma após outra, de alturas e formatos diferentes, até onde a vista pudesse chegar..
O mundo era grande, muito grande, e o céu mais ainda, que ninguém podia pegar. Nem os pássaros, que voavam alto. Eles deviam chegar perto e vê-lo melhor que nós, aqui da terra. Com certeza conheciam serras mais altas, extensas planícies, grandes rios e cachoeiras. Cachoeiras bonitas como aquelas da terra de Adão e Eva.
E eu ficava a admirar as aves nos seus vôos serenos, indo e vindo, subindo e descendo, a cortar os ares num planar suave e tranqüilo, que causavam inveja em mim.  Tomado de ânimo, eu dava um pulo lá do alto da colina e, no arremesso do corpo, os braços abertos sempre a agitar, era firme na minha esperança de um dia poder voar…
Caía lá embaixo nas moitas macias, nas moitas fofas de capim gordura. Em vôo rasante, a presa nas garras, piava feliz: “Pinhé”!   Era o gavião, que à distância assistia à minha desolada tentativa de voar. Infrutífera vontade e ilusório meu grande desejo de planar nas alturas… Trazia comigo a mancha do pecado original, o que me deixava acabrunhado, desanimado.   E eu mirava o espaço, a fitar o infinito. Quem sabe enxergaria a morada de Deus, que me daria de volta o dom de voar?

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1 Comentário »

  1. Sonícula comenta:

    5 Outubro, 2008 @ 17:51

    Como grande (embora pequenina no tamanho ) amiga do Bié,
    viajei no conto dele…como as aves!
    Grande abraço amigo!
    Mande um alô ai Dr.Armando que sou paciente….dele!

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