14 - set
  

Contos do Bié – Entrando nos meandros do mistério da vida

Categoria(s): Contos e Poemas




Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

            O pecado me perseguia… Manhã seguinte, logo que me despertei me veio à mente o sonho que mais uma vez eu tivera com Cecília. Cópia fiel, sem tirar nem acrescentar nada. Via-me encantoado, angustiado mesmo, e não atinava com o que estava acontecendo comigo.

            O mundo me parecia outro, diferente do que até então eu conhecia, e que agora vinha tomando coloração estranha, como se a sombra do mal estivesse a me acompanhar em todos meus passos. Fiz como que um exame de consciência para ver onde havia falhado, porém não conseguia vislumbrar nada de errado.

            Não me atrevi a ir à casa de Sa Maria, receoso de que as coisas pudessem piorar mais ainda para o meu espírito conturbado. Se eu pudesse, longe de tudo e de todos, num lugar bem escondido, conversar a sós com Cecília, tinha certeza de que me daria orientação e acalmaria meu espírito em ebulição. Mas onde? Todo mundo conhecia todo mundo. Não havia lugar secreto. A não ser que tivéssemos asas e voássemos para bem longe, e, no meio da floresta, o encontro se realizasse. Mas o pior de tudo é que, no meu íntimo, eu desejava que todas as noites aquele sonho se repetisse. E se travava dentro de mim uma luta das maiores. Entre o bem e o mal. Deus e o demônio! Senti que estava a um passo de cair no inferno…Aí, eu chorei, e foi tanto, que a uma indagação de uma de minhas irmãs sobre o que me sucedera, mostrei-lhe a unha do dedão do pé ensangüentado, que de propósito eu chutara uma pedra, desculpa convincente para um choro de verdade. 

                 Naquela sexta-feira não houve aula.

                 Pela primeira vez aquele iria ser um dia muito longo para mim. Os dias se arrastam quando a alma está triste e inquieta, ou quando sérias preocupações nos afligem.  Sozinho eu não esqueceria meus problemas. Procurei pelos meus amigos, mas sem a intenção de dizer a eles o que me afligia.

                Brincávamos na grama do Largo do Rosário, em frente à casa de seu Vicente Cascalho, senhor de idade, mas ainda disposto e trabalhador. Extremamente religioso, não perdia nenhuma reza, sempre acompanhado da esposa de seu segundo casamento, Rosa, bem mais nova que ele, miudinha, baixinha, corpo roliço e gordo. Estava também sempre em sua companhia a filha Efigênia, do primeiro casamento, bem mais velha que a madrasta. Solteirona, tão religiosa quanto o pai, era uma das zeladoras  da igreja.

              O casal não tinha filhos do segundo casamento. O que seria o primeiro e único estava, naquela manhã, sendo levado num caixãozinho branco para o cemitério.

              Reunidos ali a brincar, a cena nos tomou de surpresa, pois a expectativa era de alegria com a notícia de que Vóvó Carolina – uma velha parteira, senhora de cor do lugar –  estava prestes a tirar do ôco da imbaúba um menino para a Rosa de seu Cascalho.  Paramos de brincar e ficamos a ver de longe o diminuto cortejo do anjinho.

               Alguém do nosso grupo iniciou perguntas sobre como e de onde vinham os meninos. Cada um deu sua resposta. “Eram retirados do ôco da “imbaúba” ou que “havia uns buracos na chapada, onde D. Carolina ia buscá-los”. Uma das meninas, filha de D. Pepa, foi quem tocou mais sério no assunto, a explicar que nossos pais, os homens, tinham uma cabecinha na ponta do “pó”, a qual, por eles retirada e dada à mulher, fazia surgir um “menino”. Como a cabecinha do “pó” de seu Cascalho já estava velha e gasta, o “menino” nasceu morto. Ficamos boquiabertos e tomados de uma espécie de medo. Estávamos, a partir daquele momento, entrando nos meandros do mistério da vida. O mundo principiava a se nos apresentar diferente. Um dos presentes quis saber se doía ao retirar a cabecinha.

              – Sim, dói muito e sai sangue, concluiu a menina com ares de importante e de muita sabida! 

              Longe de ser uma prosa qualquer, o assunto estava sendo encaminhado com certo respeito e seriedade, nenhum dos grupos – meninos e meninas – a desandar para a imoralidade. Estávamos como que “pisando em ovos” ou a andar num campo minado. Cada um media bem o que iria dizer ou perguntar, de modo a não desmoralizar o papo que a todos interessava, o que explicava o silêncio que se fazia em determinados momentos, a turma como que compenetrada, maravilhada e surpresa com o palco que se lhe descortinava. 

               Um dos meninos, Jubileu, filho de Zica de Zé Antão, criou coragem e, gaguejando, quis saber das meninas se elas também tinham a tal cabecinha, e se poderiam mostrá-la ao grupo. A princípio risada geral, mas uma delas, a líder, filha de D. Pepa, falou sério e o ambiente ficou respeitoso, para não dizer pesado, como se adultos fossem as pessoas ali reunidas.

               – Bobão! – retrucou uma delas – menina mulher não tem isso que os meninos têm, não.

               – Como é que elas fazem para urinar, então?

               – Fazendo, uai – responderam, quase em coro, o riso bem disfarçado.

               – E parem de fazer perguntas de “bobagens”, porque é pecado – finalizou uma delas,  apoiada por  seu grupo e pela maioria dos meninos.    

                Macedônio, filho adotivo de Rosário e Zé Cândido, geralmente muito falante, ainda não tinha falado um “a”. Só escutava. Parecia sério e preocupado. Provocado, saiu de seu mutismo e soltou a bomba:

               – Meu pai tem cabecinha?

               Todos riram à beça, mas, aos poucos, foi-se fazendo silêncio, e, pelo visto, cada um dos participantes deve ter pensado seriamente na pergunta. Realmente, quando a tal cabecinha for retirada, como ficaria para conseguir outra, se uma família possuía tantos e tantos filhos?   A resposta, inteligente, veio logo, segundo a qual tempos depois nasceria outra, tal como sucede com as flores e os frutos. Colhe-se a rosa, logo nasce outra. Apanha-se o fruto do mamão, surge outro em seu lugar, e assim por diante. Macedônio, porém, sabia que era filho adotivo, e o único do casal. Não sei o que se passou em sua mente depois daquela revelação.

                Já se sabia que era D. Carolina quem recebia as cabecinhas e providenciava  para que se transformassem em “meninos” nos ocos da “imbaúba” e ou nos buracos da Chapada. De fato, quando da visita a D. Cândida de Seu Carlos Amantino, por ocasião do nascimento  do filho Luiz,  lá estava Vóvó Carolina. No quarto todo fechado e submerso em penumbra, iluminado apenas por uma chama de candeeiro de óleo de mamona, encontrava-se o recém nascido que ainda não abrira os olhos, e a parturiente, em repouso quase absoluto, alimentava-se à base de canja de galinha. E também os cabelos sem pentear, o que poderia ser feito somente depois de oito dias, e, para lavá-los, após quarenta dias, pois o “menino” era do sexo masculino.

                Detalhe: todo recém nascido era “menino”. Assim chegava a notícia: “Fulana teve “menino”. Logo vinha a pergunta: “homem ou mulher”?”

                Coisas de Nossa Senhora dos Acordados…                                                                




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1 Comentário »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    14 setembro, 2008 @ 10:50 AM

    Doce ingenuidade!
    Hoje, já nascem sabendo. O místério acabou e a pratica do sexo com isso aumentou, porque descobriram que sexo não é só para fazer “menino”.
    Felizes dias… Havia curiosidade, não havia sexo; tanto prova que não nascia criança… Nascia “menino”.

    Eneida Tagliolatto

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