Set
07

Contos do Bié - O banho de Cecília

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

                 

                 Foi uma noite feliz, sono tranqüilo, sem nenhum pesadelo ou sonho de mau agouro.  Na manhã seguinte, após cumprir as tarefas que me cabiam no âmbito doméstico, estava novamente em casa de Sa Maria, a ajudá-la nas lidas da casa.  Um dos serviços naquela manhã era recolher para debaixo do forno de assar quitandas  a lenha despejada pelos cargueiros na entrada do portão de acesso ao quintal.

                Vez por outra me sentava à sombra da trepadeira para tomar fôlego e reiniciar a lida.  Num dos intervalos, Cecília saiu ao terreiro, andar ligeiro, o vestido a esvoaçar de leve.

                  Ao vê-la, deu-me como um estalo na cabeça e me veio à mente uma cena que me deixou leve, meio abobado, fora de mim.

                Ao observa meu olhar pasmado, aproximou-se e, antes de qualquer palavra, fui direto ao que lhe queria dizer.

               - Vi você tomando banho nas bicas da fonte do Caminho do Cemitério!

               Surpresa, atônita mesmo, sorriu nervosa, mas sem rancor, e abaixando-se calmamente, bem de frente para mim, pegou-me as mãos suadas e sujas de carvão de lenha, e apertando-as nas suas falou:

                 - Repita meu anjo, que foi que você diz?

                 Naqueles instantes eu não sabia pensar e muito menos falar. Tudo ficou muito confuso. De uma alegria e tranqüilidade interiores passei a experimentar angústia e complexo de pecado e medo. Mas ao mesmo tempo eu queria que aqueles momentos fossem eternos, que se não esgotassem, tal o prazer e a felicidade que me proporcionava estar Cecília, diante de mim, frente a frente, a me segurar as mãos e a fixar-me firme e ternamente, olhar manso vindo de tão amável criatura…

                 -Vamos - continuou a falar devagar e calmamente – me conte como foi!
                 -Vi você banhando-se nas bicas, foi isso. E você estava linda, muito linda mesmo. Eu não sabia que você gostava de tomar banho nas bicas, senão…
                 -Senão… - insistiu para que eu completasse o pensamento.
                 -Meu bem – continuou - você tem razão, eu gosto de me banhar. Mas nas bicas, não, porque esses dias estão muito frios e a água fica gelada. Mas lá em casa eu e minhas amigas e minhas irmãs e até meus pais tomamos banho nas corredeiras na época do calor.
                  Fez pequena pausa, pôs o dedo em riste junto aos lábios, como que para facilitar-lhe o raciocínio.
                  -Não estou entendendo como você me viu nas bicas, porque desta vez ainda não estive lá.
                  -Você não esteve lá? - perguntei admirado.
               Sa Maria foi até o forno com pretexto de pegar alguma vasilha, ouviu parte da conversa e ficou de orelha em pé.

                Voltei aos meus afazeres e recolhi toda a lenha, após o que dei boa varrida na parte onde a lenha tinha sido despejada pelo cargueiro, na entrada do portão.  Enquanto lavava as mãos e o rosto, Sa Maria, ao me dar o pano para me enxugar, veio logo com a advertência:

                    -Pelo visto você tem sonhado muita bobagem. É porque não reza antes de dormir ou o faz de má vontade.

                    Cecília interveio:
                    -Que é isso, tia, ele é um doce de menino. Apenas sonhou e nada mais.
                    -Mas o sonho que ele teve você há de concordar que é sonho de pecado!
                    -Nada disso, tia, são fantasias. Nem fantasias. São apenas sonhos, sem maldade alguma.

                Calado, a enxugar o rosto e as mãos, me demorava de propósito, pois não sabia como sair daquela situação e muito menos como ir para casa. Deixei que as duas chegassem a um acordo, porém a discussão ganhou calor com a chegada de Isaltina. Colocado o assunto em evidência novamente, Isaltina disparou a rir e me perguntou se não a tinha visto também a banhar-se nas bicas, porque, me confidenciou depois, era o que ela mais queria na vida. Sua mãe ficou séria, carrancuda e deu o assunto por encerrado, mas não deixou de emitir rigoroso veredicto: eu não poderia fazer a primeira comunhão sem que me confessasse novamente, e teria que contar ao padre o sonho “feio” que tivera com Cecília.

                 Eu me achava em palpos de aranha. Como justificar minha ida à igreja mais uma vez? .O quê dizer à professora, às catequistas, aos meus colegas? Em casa ninguém ficaria sabendo. “Não estaria a cometer um pecado, omitindo o fato?” - pensava eu. Porém, minha consciência não estava muito tranqüila. Procuraria Cecília para me aconselhar. Afinal, ela estava para ser “Irmã de Caridade”, e quando recebesse o hábito iria chamar-se Clara, a grande santa que ajudou S. Francisco de Assis nas suas obras em favor dos pobres e pequeninos. 

               Infiltrei-me junto à nova turma de crianças que naquela tarde se encaminhava para a igreja, e, mais uma vez, me vi diante da fila para o confessionário, para novamente recitar o “Ato de contrição e bom propósito”, ficar bem procedido, contrito, tudo como na véspera.

              Estava sem saber como iniciar o diálogo com o confessor, pois como justificar minha presença ali outra vez, um dia depois da última confissão?  Olhei para as imagens dos inúmeros santos, orei a todos e pedi coragem. Não compreendia o que se passava comigo. Em minha consciência eu tinha certeza de que o acontecido não era pecado. Meu sentimento em relação a Cecília era tão sublime como o respeito e o amor que sentia por minha falecida mãe, e por aqueles santos  a quem sempre me recorria. 

               Até chegar minha hora já me vi mais calmo. Tinha certeza de que o padre não iria ficar bravo. Talvez a penitência fosse rigorosa, como ficar mais tempo de joelhos e rezar muitas ave-marias, o padre-nosso e outras orações complicadas.

                Com jeito pude observar que o padre parecia sonolento e desanimado. “Seria o peso dos pecados que o deixara naquele estado?” Fiquei a assuntar. Ora, pelo que eu conhecia de quase todas as crianças que ali se achavam, os pecados seguiam sempre a mesma linha, tudo igualzinho, com pouquíssimas variações: o pecar por proferir nomes feios, brigar com o colega ou com o irmão; pelo fato de ter urinado na cama ou se levantado mais tarde. Ou respondido mal aos mais velhos e de ter maltratado os animais e passarinhos. Ou ainda as inocentes mentirinhas.  Ficar a ouvir essa lengalenga ao cair da tarde, no ambiente frio e silencioso do templo tinha que dar sono, pois afinal o padre “não havia comido do boi do Divino”.

                - Há quanto tempo faz que você se confessou?
                Respondi que tinha sido “ontem”, o que bastou para o padre se ajeitar melhor, dar uma tossidinha e indagar:
                - Uai menino! ou não fez boa confissão ou cometeu um  pecado grave para estar aqui outra vez. O quê foi?
                - Foi Sa Maria que falou para eu confessar novamente.
                - Que Sa Maria, menino?
                - Sa Maria, mulher de Seu Virgolino.
                - Sei, sei.  Que pecado não contou ou em que pecado você caiu?
                - Vi Cecília tomar banho nas bicas do Caminho do Cemitério.
                - Cecília? Que Cecília é essa?  -

                Despertado de sua sonolência, ajeitou-se  no assento, achegou-se mais para perto da divisória de palhinha e,  a mão direita em concha no ouvido, quis saber detalhes  do acontecido.

                - É sobrinha de Sa Maria – esclareci.
                - Sei, sei, mas como é que a viu?  Estava tomando banho de roupa ou estava…
                - Estava sem roupa.
                - Todinha?
                - Sim, todinha nua, acho que sim.
                - Estava pertinho dela ou longe, escondido atrás do mato?
                - Estava escondido, não. Não estava perto, nem longe.
                - E viu o quê?
                - Só vi a capanguinha e o pó dela.
                - O quê? O pinto? Mas mulher não tem pinto! Você tem certeza? A que horas foi? Tinha mais alguém lá?

                 Foram tantas e rápidas as perguntas, que fiquei confuso, e não me era dada oportunidade de esclarecer o acontecido. Fiz silêncio por uns segundos e continuei.
                 - Não sei a que horas foi, se de dia ou de noite. Foi num tempo diferente. Não havia mais ninguém por lá.  Somente eu e ela, as bicas, as gramas e o mato ao redor. Foi… foi um sonho, seu padre. Foi um sonho…
                 Ajeitando-se novamente no assento do confessionário, abaixou a mão que trazia no ouvido, deu um suspiro e desabafou:
                  -  Menino! Por que não falou logo? Então foi apenas um sonho? Logo vi!  Só podia ser mesmo um sonho…
                 Realmente tinha sido apenas um sonho. Mas me pareceu tão real, porque a mente, a transbordar de tantos projetos infantis, às vezes não distinguia os sonhos da realidade. Os dias eram curtos para mim como para todos os  meninos, que em turma, sempre juntos, paravam apenas para comer e dormir, depois, é lógico, de cumprirem com suas obrigações de escola e de trabalho.  Constante em nós a ânsia de participar da vida plena, a buscar emoções nos galopes dos cavalos em pêlo, os banhos nas bicas e nos pequenos ribeirões; as corridas desenfreadas pelos pastos afora, à procura dos ouricuri - fruto de uma espécie de coqueiro, de coloração vermelha, quando maduro.Ou então à cata de madeira própria para fazer bodoques e estilingues,  e as idas à olaria de seu Generoso, para os lados da Gangorra, de onde  trazíamos barro próprio para  o fabrico de pelotas de atirar nos passarinhos.

                 Quando não estávamos nos pastos, nos ribeirões, nos laranjais, nas bicas, nas ruas e nas florestas, nos achávamos por sob os assoalhos, nos porões de uma ou outra casa, a lidar duro na feitura dos carrinhos de quatro rodas, de empurrar e de montar, ou na armação dos papagaios, que ao serem empinados levavam para as alturas nossos sonhos e desejos de voar. À noite eram o pegador e a gata parida, afora a reunião dos grupos para os famosos causos de assombração e de almas do outro mundo. Por tudo isso os dias eram pequenos demais, a ponto de não sobrar tempo para separar os sonhos da realidade, intensamente vivida e sentida por mim e por toda a criançada.

                    - Olhe, escute bem, sua penitência é rezar dez ave-marias e cinco padre-nossos ao santo Anjo da Guarda, ajoelhado ali aos pés de sua imagem. Hoje à noite ore com fervor à  Nossa Senhora para o livrar de maus sonhos que o levem a pecar.

                  À noite, antes de me deitar, contrito recitei um número sem contas de ave-marias. Comecei o padre-nosso, mas não terminei. O sono era demais.         

                 O pecado me perseguia… Manhã seguinte, logo que me despertei me veio à mente o sonho que mais uma vez eu tivera com Cecília. Cópia fiel, sem tirar nem acrescentar nada. Via-me encantoado, angustiado mesmo, e não atinava com o que estava acontecendo comigo.

Indique esse artigo Indique esse artigo


Deixe seu comentário aqui !