Ago
31

Contos do Bié - Os maribondos de Pega-Urubu

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Não foi o tanger do sino a anunciar o Angelus naquele clarear do dia que despertou os moradores da Rua do Quenta-Sol e do Largo da Igreja, mas a latomia dos guizos e dos cincerros, que misturada às palavras de ordem de Pega-Urubu fez as pessoas pular da cama mais cedo, e das portas e janelas olhavam em fresta aquela figura metida em sacos descosturados, afora os balangadangues atados aos punhos e tornozelos e pendentes da manguara que ele imaginava fosse um estandarte, daqueles dos tempos das Cruzadas, repleto de rabiscos e desenhos de cores vivas e vermelhas, tom de sangue, tintura de urucum que por certo ele usara.
- Do meu ninho divisei o pecado, santo não és, mas um pecador inveterado! Quero de volta o nicho que desde o princípio o Altíssimo me destinou, mas na calada da noite me foi surrupiado, oh filho das sombras, parceiro de satanás! Estou indo para lá, o lugar santo e definitivo que a mim pertence; porei ordem em todo o proceder e varrerei da terra a maldade que espuma nas bocas e gera palavras más. Saiam do caminho aqueles que não são dignos de nele caminhar, que o fim está próximo, a vil semente foi lançada, mas o que no ventre será gerado é o fruto do pecado!
Quanto ao nicho que dizia ter-lhe sido surrupiado, comentava-se que o vigário interrompera a vida religiosa de um dos filhos da cidade que ingressara no seminário. Pobre, mas de mente brilhante, o moço era visto como o futuro e promissor sacerdote para assumir a direção da paróquia há quase meio século sob os desmandos do autoritário e temido vigário, também prefeito dito nomeado.
Dispensado do seminário, o jovem tomou rumo ignorado e ninguém ficou sabendo-lhe o paradeiro.
Havia a crença de que não morrera, mas ficara encantado para atormentar aqueles que os perseguiram.
Quanto ao “fruto do pecado”, segredava-se entre as pessoas adultas que ele se referia a uma solteirona muito ligada às lidas da igreja, catequista preferida do vigário que a engravidara.
A estranha criatura persistia em sua pregação.
Ninguém se atrevia a sair à rua, modo botar cobro naquela desordem e interromper a marcha do Padre Gorado - mais uma alcunha entre tantas a daquela figura que de tempos em tempos surgia como do nada, que ninguém lhe sabia o nome, de onde vinha e para onde ia; e do mesmo modo como aparecia, quando menos se esperava logo sumia, como que levado para o além feito alma encantada.
Ele ia e vinha, depois estacava, a assuntar se as portas das casas já estavam todas escancaradas, que a sua advertência era coisa séria, que rezassem e fizessem penitência, que as revelações chegariam no devido tempo, antes de ser dado à luz o fruto do pecado!
Zé Bigorna saiu a claro, e em acelerada caminhada ganhou vantagem, passou pela igreja e dobrou à esquerda, alcançou a Rua de Seu Clarimundo, o delegado, que à frente da casa, já bem composto, barba feita, ia e vinha a passos lentos e contados, rezando o terço, seu costume de todas as manhãs, rotina há muito já incorporada ao seu sistema de vida de homem compenetrado nas coisas de Deus.
Um susto as notícias da presença do impertinente e infeliz Pega-Urubu, “que foi lhe deu na bestunta, se há tanto tempo estava em dormência seu proceder de tresloucado?“
Quase a perder o fôlego, Zé Bigorna dava conta ao delegado: “O insubordinado Pega-Urubu não fala coisa com coisa, mas uns trens de arrepiar, e parece que está indo para a igreja, que está fechada e daqui um tiquinho de tempo vai ser aberta pela sacristã para o toque da hora do Angelus”.
- Se assim é - reagiu sério o delegado - corra até o Corpo de Guarda e me traga duas praças.
Zé Bigorna disparou ladeira abaixo, e ao passar pelo vigário, imprimiu mais ligeireza às pernas, e ao quebrar a esquina do Beco da Georgina volveu a cabeça, olhando para trás, a ver se reparavam na sua destreza, mas ele, o Padre Galo - corruptela de Gallus, Frederico Gallus, origem polaca, tipo esguio, atlético e vermelhão - tinha os olhos fitos no ponto de onde partia o gritame do doido, e gesticulando ao delegado exigia providências, que aquela criatura, Pega-Urubu, tinha de ser metido em camisa de força e despachado sem delongas para Barbacena·.
Passava das seis e o toque do Ângelus ainda não fora dado, modo que a exótica figura, os braços erguidos em forma de cruz, postou-se à entrada principal da igreja, impedindo a passagem da sacristã.
A redondeza entupetou de gente, homens e mulheres naquilo de esfregar os olhos, que, parecia, nem ainda haviam lavado as caras, tampouco bochechado as bocas; cabelos assaranhados, davam mostra de assustados e mal dormidos.
- Chega nele, vamos, Chico Neco! Não vê que aquele trem está a cometer uma heresia?
Assim falava Maroveu da Bomba, muito chegado às rezas, e nas procissões de liturgia de maior solenidade se punha todo empoado, metido na opa e portando a grande cruz de metal ou a tocha principal, mostrando ares.
Mas Chico Neco, Oficial de Justiça, se fez de surdo, que sua valentia e autoridade eram só com os bêbados raquíticos e os famintos e inofensivos. Pega-Urubu constituía outra laia, e seu corpo era fechado e dono de muitos segredos que o punham a salvo de qualquer valentão que com a sua pessoa se metesse.
Foi só chegar a tropa, dois soldados fardados - Zé Baiano - o Caôio - e Abdula do Jota - um par de mal encarados, truculentos e matreiros, que o povoame a princípio suspirou aliviado, “que agora ele, Pega-Urubu, havera de ver em que encrenca se metera. Deixa estar que não demora nada todo o lugar vai escutar o toque do Ângelus, e se prepare Pega-Urubu que seus ossos serão destroncados, e uma padiola vai ser preciso para levá-lo ao manicômio de Barbacena, que é onde deveria estar trancafiado”!.
- Teje preso! - gritaram ao mesmo tempo Zé Baiano e Abdula do Jota, jeito de autoridade.
Pega-Urubu deu de ombros e continuou as pregações, os braços ainda em forma de cruz, aqueles trens pendurados na manguara, tudo balangando para lá e para cá, acompanhado do tilintar dos cincerros e do som oco de duas cabaças pendentes do estandarte, presas por embiras.
- Se não se entrega por bem, se entrega por mal! - gritaram os dois soldados.
E marcharam sobre ele, que a passos ligeiros principiou por descer as escadarias e ganhar o Largo, ao encontro de seus perseguidores, que estacaram de repente, como que aguardando uma pacífica rendição.
Pega-Urubu os encarou firme e os desafiou a dar mais um passo, e eles, resolutos, tomaram posição de ataque, um na frente e outro na retaguarda.
Pega Urubu, como um corisco, tomou de uma das cabaças, bradou com todas as forças dos pulmões e fê-la em pedaços, arremessando-a a esmo em direção de um dos praças.
Procedeu da mesma forma com a outra peça, toda a gente a ver naquilo um gesto de doido - ingênuo e vago intento de vencer os praças com um trem leviano daquele, meros cacos de cuia, de nenhuma serventia para um embate de tamanha ordem.
Mas ledo engano! Pois que, mais que num repente, não só os praças endoidaram de tudo em galope desembestado, mas também todas as gentes que ali se achavam, debandada geral, que um enxame de maribondos tatu, daqueles pretos de bunda vermelha, verdadeiras armas voadoras, desalojados das cabaças iam cravando os ferrões em tudo e em todos: soldados e gente do povo; homem de Deus e representante do governo na pessoa do Senhor Delegado.
Naquele dia e até depois as feições e as partes de quem se viu atacado mostravam-se demudadas: beiços enormes; olhos empapuçados e orelhas superdimensionadas. Quem já possuía de natureza nariz avantajado, este se apresentava como uma imensa batata, aquele trem esquisito, torto, disforme.
Zé Glostora, estafeta dos Correios, não teve outra sina: bastou tão somente uma ferroadinha bem ali na cabeça do pó, para num triz o pinto virar galo, aquela coisa horrível, empelotada, que a esposa Laudicéia reparava compadecida.
O toque do Ângelus não foi dado, que nem mesmo a piedosa sacristã se livrou das doloridas ferroadas.
Por muitos dias o assunto corrido eram os maribondos de Pega-Urubu, que evaporou, sumiu do mundo, que ‘”daqui ele não era”, afiançavam, mas alma errante, encantada, de parceria com o demo, tinha fama leal. Por isso mesmo, por bom tempo as rezas da igreja apresentavam mais abastança de fiéis, que além da iminência da Grande Guerra, agora o maligno andava à solta, e só muita reza, das fortes, para mantê-lo à distância lá no seu mundo, o das trevas, asseverava o vigário.

* Figura anjo - Candido Portinari

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