Ago
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Contos do Bié - O carro novo Dr. Carlos

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro                  

 Corria um cochicho na cidade, que não partiu das crianças, mas das pessoas adultas, das pessoas sérias.

                 A meninada, naturalmente, ajudou a disseminá-lo entre seus pares, pois crianças, como neste meu caso, têm mil ouvidos, mil olhos e  mil corações, porque um só coração seria pouco  para comportar as emoções ali vividas e sentidas.

                Não passávamos notícias para os adultos, que não nos levavam a sério, não faziam conta de nós. Mas sorrateira e silenciosamente, atrás da moita, como quem está no mundo da lua, víamos e ouvíamos tudo, ou quase tudo…

          O filho de seu Ostinho, o Dr. Carlos Vieira estava para comprar um carro.

          Só que não era um automóvel qualquer, mas um V8 - esta a grande novidade! - e andavam dizendo que já tinha sido encomendado, e sabiam também até a cor, e não demoraria muito a chegar ao lugar. 

            À primeira vista, uma notícia banal. Muito pelo contrário!

            A cidade, na sua vida pachorrenta, escondida e isolada entre as montanhas, mal servida de estradas, quase sem comunicação com o resto do mundo - mesmo com o mundo das Gerais:  poucos rádios e as recepções sempre com interferência das descargas, recebeu a notícia do V-8 como alvissareira, que o progresso, ainda que lento,  estava chegando.

            O prefeito até que desenvolvia um esforço deveras elogiável, e com a renda do jogo do bicho, cujo chalé funcionava no sobrado  de D.  Joaquina, avó do Dr. Carlos, reuniu algumas juntas de bois e um punhado de detentos da cadeia local, com o que buscava pacientemente aplainar as elevações  do alto da Chapada, a mil e duzentos metros de altitude, no intento de levar a termo a construção de um campo de aviação. Obra do presente e para o futuro.

            Com a notícia do V-8, a obra continuou, mas passou a constituir assunto de segundo plano.

            Nós, crianças, mergulhadas no maravilhoso mundo de sonhos e fantasias, compartilhávamos com os adultos sua discreta euforia, e alguns casais a quem o Dr. Carlos dava consultas domiciliares protelaram de propósito tais consultas.

            Lizinha do Pedro Cezar adiou para depois da chegada do V8 a  consulta que o casal  tinha em vista, tudo pela  satisfação de ver o V-8  estacionado à sua porta.

           Só que a Rua do Quenta-Sol era estreita demais, com a agravante de ser passagem dos cargueiros de burros e dos carros de bois, que também paravam à porta da venda de Seu Niquinho, quase em frente a casa de Lizinha, não tinha como receber o V8.

            O certo é que as visitas do Doutor a determinadas casas continuaram sendo feitas a pé mesmo, uma vez que apresentavam o mesmo problema da Rua do Quenta-Sol. Este desejo de Lizinha, escutei-o quando ela, a conversar, pela porta da cozinha, com sua amiga e parente da casa ao lado, falava entusiasmada sobre o modo de como o Dr. Carlos iria ficar mais bonito e elegante naquele carro todo lustroso. Essas conversas de vizinhas eram facilitadas pela proximidade das divisas, cujos quintais tinham a separá-los apenas uma rude cerca de acha de braúna e esteira de taquara poca. .

           Afinal, o lugarejo não contava com nenhum carro? Sim, havia alguns.  Só que não eram V8. Havia, por exemplo, a baratinha do Professor Amadeu; o De Sotto de Jovino de Sa Raimunda - vendeiro da Rua da Bomba  -   e o automóvel do Dr. Simão,  médico e político de influência; e ainda os fordes de Chico do Zeferino e de Chiquinho Correio. Podíamos também contar a velha jardineira dirigida por Zé Buraco, que fazia o trajeto de 60 léguas entre a cidade e a Capital.

          Nomear quem não tinha automóvel leva tempo e espaço. 

          Qual, ou quais os motivos por que as pessoas não eram motorizadas?    Não por motivos financeiros.  Sabe-se lá. Talvez por um conservadorismo arraigado.  Ou, quem sabe, por medo do desconhecido?  O certo é nem Zé Vieira, Coletor Federal;  Gil de Oliveira, Coletor Estadual, pessoas de posse possuíam carro.  E o próprio pai do Dr. Carlos, seu Ostinho, dono de Cartório e de fazendas. . E o Dr. Carrinho, advogado dos melhores, casado, sem filhos, ou mesmo seus irmãos, como seu Ismar, farmacêutico, e Lalade, diretor escolar aposentado e agente da Loteria Mineira, que também não tinham automóvel.    E a lista vai por aí afora e pega algumas outras figuras de proa, como Seu Aureliano, gerente da única agência bancária da localidade; e os farmacêuticos: Seu Venâncio e Zeca de D. Teté.  Também os fazendeiros Toniquinho da Gameleira e Agenor Epifânio de D. Nhanhá, que, já naquela época, fora, junto com a esposa, até Roma visitar o Papa.  

             Todos, sem exceção, partiram deste mundo sem nunca ao menos terem tido o prazer de buzinar uma joça rodante.

         - Dizem não demora acontecer a novidade. Sabia? 

   Era Biquita Victor a confidenciar à Quifinha do Guena a iminente chegada do V-8 americano.

        - Só quero ver como o Carlos Vieira vai ficar lá dentro! - e a Lourdes - prosseguia Biquita - ao lado do Carlos, elegante como ela só!   

E Biquita dava asas à imaginação!

          Agora, o que todo mundo achava lindo,não se pode negar, era quando o Dr. Carlos, elegante, sério, os cabelos pretos ondulados, passava a sós ou em companhia de D. Lourdes. Quando a sós, ia rápido, cabeça erguida, sem dar um tropeção naquelas calçadas de pedras irregulares. Vez por outra fazia um ligeiro gesto com a cabeça, como a jogá-la levemente para trás, a ajeitar os cabelos englostorados que lhe enfeitavam a cabeça bem conformada.   Já em companhia de D. Lourdes ia a passos lentos, descontraídos e moderados, o braço sempre a oferecer apoio à companheira inseparável.

         Eu nutria por eles profunda admiração, um sentimento que guardava comigo, no meu íntimo, sem compartilhá-lo com ninguém.  Não tanto pelo que eles tinham, pelo que trajavam, pela bela casa onde moravam, sobretudo pela atenção que dispensavam a todos quantos deles se aproximavam e pela disponibilidade desinteressada  do Dr. Carlos, que a meu pai nunca cobrou um tostão pelas inúmeras consultas e tratamentos médicos dispensados  à  nossa  família.  Sabia que meu pai não dispunha de condições financeiras para remunerá-lo por seus serviços, mas nem por isso deixava de socorrê-lo. 

_________As expectativas se confirmaram!  eis que chegou o V8.

             A capota, como toda a lataria, preta e lustrosa, a refletir o sol intenso dos dias do lugar, ofuscava, com seu brilho, a vista de quem se atrevia a fixá-la. A buzina não era como a dos carros já conhecidos, roucas e fracas, mas potente, porém de uma sonoridade sem igual, que dava gosto de escutar.  A coisa mais divertida que havia era buzinar sorrateiramente um carro, sair correndo e esconder-se.  O coração pulsava forte, como a querer pular para fora, a  ver o que o fizera disparar tanto! Ficamos de olho naquela maravilha!  E as pessoas adultas também!

             A garagem ainda não estava pronta.  A bela espécie ficava estacionada ali mesmo, em frente à casa do Dr. Carlos.  Ladrão não havia.   O que preocupava era alguma criança traquina fazer riscos na pintura. Mas nem isto aconteceu. E o carrão ficava lá, muita gente a querer chegar perto, para admirar.

             Descobrimos, nós, as crianças, que a lataria, de tão lustrosa, era como um espelho mágico. Com o tempo, ganhamos coragem e perdemos a inibição, ficando, então, sem tocar a pintura, a fazer micagens diante da grande máquina. Conforme os movimentos que fazíamos, lá nos víamos com imagens distorcidas, irreconhecíveis, às vezes ora baixo e gorduchos, ora finos tal vara de marmelo a tocar os céus, levando-nos a dar  boas e gostosas gargalhadas! 

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2 Comentários »

  1. Bié O Prosador comenta:

    24 Agosto, 2008 @ 12:51

    Desculpem-me os leitores, eu não podia de forma alguma omitir-me quanto à inusitada criatividade do Dr. Armando quanto ao emplacamento do V-8, o que me deixou deveras orgulhoso e feliz, levando-me a tempos idos.

  2. Dalva Saudo comenta:

    25 Agosto, 2008 @ 08:12

    Bié

    Que bons tempos aqueles em que as crianças se divertiam sem riscar os carros!
    toda vez que leio seus contos, lembro-me do interior paulista. Penso que a única diferença era a paisagem.
    Lá em Bauru, naquela época, pouquíssimos tinham carro. Um dos mais importantes era o do Dr Arnaldo Curvelo.
    Quando o víamos parado a frente de alguma residência, tínhamos o maior cuidado para não colocarmos as mãos, pois era lindo e lustroso. As ruas eram sem calçadas e às vezes com buracos enormes.
    Achei de muito propósito a chapa do carro. Parabéns à você e ao Dr. Armando pela criatividade.
    Dalva Saudo

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