Ago
10

Contos do Bié - A alegria do Pai

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

O tempo estava frio, mas todo meu corpo era suor, e volta e meia eu enxugava na manga da camisa os pingos que me corriam pela testa.  Era o suor da emoção de engraxar a bota do “Dr.” Demetrius, e a alegria de já poder contar, naquela manhã de segunda-feira, com mil Réis na algibeira.

           Entretanto, mais que tudo isso, era como uma espécie de desforra frente à humilhação que sofrera.  Eu, que fora tocado da porta do estabelecimento, agora lá me achava a servir o “Dr.”  Demetrius.

            Terminada a empreitada, perguntou-me quanto era.  “Quando é sapato, cobro quinhentos Réis. Bota é mil Réis” - respondi com firmeza, a firmeza que ele infundira em mim.  Ficou em silêncio, a cabeça meio inclinada, olhando para mim de cima para baixo.

              Imaginei fosse regatear no preço do serviço ou algo parecido.

                - Como se chama?  - perguntou – ensaiando um sorriso.

               Senti-me aliviado, e antes que lhe respondesse quis saber há quanto tempo eu trabalhava de engraxate, quantos irmãos eu tinha e que ano da escola eu freqüentava.

                  Didi, antes que eu falasse qualquer coisa, deu de querer responder  por mim.

                - Então você não tem mãe?

                - Não, senhor.

                - Que mal a vitimou?

                 Nisso, Didi interferiu de novo, e falou-lhe, sussurrando-lhe aos ouvidos, sobre as circunstâncias do falecimento de minha mãe.

                - Como é, menino, já trabalhou muito hoje?  - lá veio Didi.

                - Qual seu nome verdadeiro?- indagou o “doutor” Demetrius, vez que ele observava que Didi só me tratava por menino, como era comum as pessoas grandes chamarem os pequenos, mesmo sabendo-lhes seu nome.

                - Meu nome é José, mas todo mundo, as pessoas grandes, me chamam de “menino”.

                - Pois não, José, vamos acertar as contas!

Pegou uma carteira grã-fina, abriu o fecho e puxou uma nota de cinco mil Réis.

                 Antes de colocar aquele dinheirão em minhas mãos,  já lhe fui dizendo que  não dispunha de troco. Não fui muito claro, e conseguia apenas balbuciar ante a visão de tamanha fortuna.

                - Não tem importância. Depois você me engraxa os outros sapatos. Volte aqui amanhã, neste mesmo horário.

               Deu um tapinha em minha cabeça e se recolheu  ao refeitório para o café da manhã. 

               Didi, boquiaberto, não atinava como sair do lugar.

               Com a caixinha de engraxate a tiracolo, retirei-me em disparada, e daí a pouco toda a cidade já tinha conhecimento do acontecido, não de minha boca, que fui direto para casa, mas da parte do Dr. Secundino, hóspede permanente do hotel, que assistira a  todo o desenrolar da história.

            Estava feliz naquela manhã.

            Não tanto pela fortuna que ganhara, mas por ter sido chamado pelo meu verdadeiro nome.  Para o “doutor” Demetrius eu era mais que um “menino”.

            Aquilo me fez outra pessoa, contente comigo e o mundo!! 

                                                  -           

 

            Sem fazer ruído, entrei no quarto em penumbra onde meu pai estava de cama, levando-me a imaginar que ele ainda não experimentara melhora, pois dizia estar com as pernas doces, umas dores que não sabia direito onde começavam e acabavam. Falava baixo, a voz fraca. Tive vontade de chorar. Tomei coragem e lhe contei ter engraxado a bota do “doutor.” Demetrius, e que me dera uma boa quantia em dinheiro, coisa nunca vista. Não lhe disse um “a” do que Didi aprontara. .  Peguei a nota de cinco mil Réis e coloquei em cima do pequeno caixote ao lado da cabeceira do catre.  Deu rápida olhada e esboçou sorrir, o que me deixou animado, sinal de que ainda tinha disposição  para se alegrar com as boas notícias, e tanto é que logo à tardinha, antes de o sol se por, já se levantara e se dirigira para a horta, e ali ficou um tempão,  regando as plantas e eliminando as ervas daninhas, fazendo-me feliz da vida. 

          

                                         ————–                 

 

               O padrinho não estranhou minha presença ali na fazenda, assim de momento, pois já estava habituado com minhas chegadas naquelas bandas a qualquer hora do dia, pois tínhamos, particularmente nós crianças, ampla liberdade de ir e vir, a  andar à solta, sem receio de nada, a não ser à noite,  por medo de assombração.

              Já na cidade a coisa era diferente, por modo das leis que não permitiam o vai-e-vem de crianças nas ruas depois das oito horas da noite

               Logo que percebeu meu semblante alegre, o padrinho quis saber se eu “tinha visto passarinho verde”. “Vi, sim, uma nota de cinco mil Réis, que me foi dada pelo “Dr.” Demetrius!”                                               

- Doutor? - reagiu surpreso.

  Pelo que ele tinha conhecimento, o homem do carro cinema não era “Doutor”.  “Mas para mim era, expliquei”, senão o Didi não teria colocado uma cadeira no corredor do hotel para eu engraxar a bota.  

         - É, se foi assim, então o homem é “Doutor” mesmo”  - concluiu, a rir da história que lhe contei.

          - Mas tem outra coisa – continuei - meu pai mandou que eu procurasse o senhor para avisá-lo de que não está bem, e não foi trabalhar hoje. 

O padrinho mudou o tom de voz, demonstrando preocupação.

           - O que seu pai tem?

           - Diz que está com umas dores nas escadeiras, sente as pernas doces, e tudo aquilo vai responder nas pontas dos pés, e fica deitado, sem ânimo e esmorecido. De manhã tomou um coité de café e depois chá de fubá.

            - Coitado do João, só isto que faltava. – murmurou.

              Tomando de uma rala de queijo, me deu para comer e me mandou de volta, dizendo que à noite passaria por lá. 

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