Ago
03

Contos do Bié - O demônio, suas mais variadas formas

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

              Dali do alto do pasto da chácara de seu Landim, enquanto tomava fôlego para continuar a cata de estrume de cavalo, eu ficava a admirar, no silêncio daqueles ermos encravados por entre as montanhas, o verdejante vale que se estendia à minha frente, repleto de coqueirais e serpenteado de trilhas que iam e vinham a contornar toda a sua face; trilhas que se formavam pelo constante pisoteio dos bois e cavalos que ali viviam à solta, num pastar tranqüilo.  Os estreitos caminhos formavam desenhos variados, a que dávamos forma de acordo com nosso estado de espírito. Um, entretanto, já estava fixo na mente de todos: representava a figura de um homem descomunal sentado a fumar enorme cachimbo.

             Entre os casebres fincados naquelas bandas, destacava-se o de Maria Roxa, caiado de branco, cobertura de sapé.  À entrada, chegando ao terreiro da frente da casa, um minúsculo cruzeiro enfeitado de flores silvestres.  A presença do cruzeiro me encabulava, me deixava confuso, pois em sendo ela, a moradora, uma feiticeira, segundo corria na boa do povo, como chegar a bom termo com os seus mal-feitos?

              Vez por outra perpassava leve brisa, que a acariciar as folhas dos coqueiros parecia fazer-lhes coscas, produzindo suave farfalhar.

              E os animais, crinas abundantes, caudas longas e esvoaçantes, ensaiavam rápidos galopes e relinchavam, eu imaginando estivessem a apostar corrida com o vento que  passava. 

Eu olhava além montanhas após montanhas, fileira enorme, até onde a vista podia chegar:

               E volvia ao vale, divisando lá e acolá os minúsculos casebres, terreiros varridos e bem cuidados; canteiros de flores e de verduras, pés de laranja e jabuticaba.  Viam-se também os inúmeros cruzeiros: de um lado, o da Chapada – que à noite ficava todo iluminado, olhos de Deus! -; à frente, o das Almas; depois, o da Fonte Grande, o do Tanque e o do Corgo Funda, sem se falar da cruz da torre da igreja.

               Em que pesem tantas cruzes para afugentar o demônio e neutralizar a ação das feiticeiras, a cidadezinha vez por outra acordava de seu marasmo, sobressaltada com as notícias do que o maligno andou aprontando nas caladas da noite.

              Cismando estes trens, fiquei a imaginar que já era tempo de me iniciar nos primeiros passos para a preparação da minha primeira comunhão, vez que eu ia completar sete anos de idade.

              A grande festa acontecia no mês de maio, o mês de Maria por excelência.

              Era no preparar as crianças que as senhoras da cidade e as irmãs do internato e do hospital, as Vicentinas, ensinavam-lhes as principais orações, aquelas mais compridas e complicadas, como o Creio em Deus Padre, recitado em casos de última necessidade, e indicado para neutralizar as tentações das coortes do demônio.     

              Até então eu sabia apenas a ave-maria e o São Bento Água Benta, esta para nos livrar das cobras venenosas, e três vezes repetida antes de entrar no mato: “São Bento água benta, Jesus Cristo no altar, arreda bicho mau para o filho de Deus passar”.  Uma única vez dei com uma cobra, e foi às margens do Tanque da Chapada. Dado o alarme pelos meus gritos, mataram-na a tiro de espingarda chumbeira de carregar pela boca.

            Justamente naquele dia eu não fizera a oração.  

            Após a missa da primeira comunhão, as crianças participavam da grande festa no Parque Mãe D´água, quando nas extensas e numerosas mesas via-se uma profusão de quitandas e bules e mais bules de café com leite e chocolate. A meninada se deliciava com tudo aquilo, e ainda recebia um santinho de lembrança.

             Mas eu tinha um motivo especial a mais no meu desejo de fazer a primeira comunhão: aprender mais rezas, rezas que me acalmassem o espírito e me livrassem do aparecimento do demônio em suas mais variadas formas, pois havia, já bem arraigadas  na mente dos moradores do lugar, diversas espécies de medo: do demônio, das feiticeiras,  dos mortos e da própria morte. E outro medo, que vinha chegando aos poucos, cada dia aumentando mais: o medo da guerra 

Indique esse artigo Indique esse artigo


1 Comentário »

  1. Dalva Saudo comenta:

    3 Agosto, 2008 @ 21:46

    SENHOR GABRIEL

    LI E GOSTEI. POR FAVOR VEJA O COMENTÁRIO NO SEU E-MAIL.

    DALVA SAUDO

RSS Feed for comments on this post · TrackBack URI

Deixe seu comentário aqui !