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Jul
27
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Contos do Bié - O menino e o estilingue
Categoria(s): Contos e Poemas |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
O Menino e o Estilingue -1947. Projeto Candido Portinari
—– Não bastasse a angústia que me acompanhava dia e noite por conta dos “demônios” de Seu Frau, a partir daquela tarde um pesadelo de dimensões imensuráveis passou a fazer parte do meu conturbado viver.
Zé do Biu, um menino que regulava em idade comigo, vez por outra aparecia lá por casa, trazendo sempre com ele o estilingue com que caçava passarinhos e preás na Fonte do Caminho do Cemitério.
Era certeiro como ele só, mesmo estando o alvo de suas pelotas a razoável distância.
Em nosso quintal havia uma enormidade de rolinhas e sanhaços e outros pássaros, quantos se quisesse caçar.
Era tardizinha, o tempo frio fazia com que as aves ficassem menos ariscas, e quase não se moviam à nossa aproximação.
Estávamos nós três, eu, Zé do Biu e o Franz já a apostar quem primeiro acertaria o alvo.
Como era o dono do estilingue, a competição começou por Zé do Biu, que na primeira estilingada foi logo derrubando a ave em que mirou a pelota, uma rolinha fogo apagou.
Eu e o Franz tentamos repetidas vezes, e nada! A pelota passava a metros do alvo.
Todo cheio de si, Zé do Biu justificava a boa pontaria pelos beija-flores que sacrificava, dos quais só engolia o minúsculo coração, e o resto era enterrado.
Uma espécie de simpatia infalível, para não dizer feitiçaria.
De imediato tomei de uma pelota e mandei ver.
Mansinho, estava a curtíssima distância de minha assassina pontaria.
Uma covardia!
Era um beija-flor daqueles bem azuis, tão diminuto que mais aparentava um besouro.
Acertei-o em cheio, coitadinho.
Mesmo carregado de dó e remorso, mas para adquirir a tal pontaria, extraí-lhe o coraçãozinho e o enguli inteirinho, sem mastigá-lo, como mandava o rito.
Imaginei-me um herói, o máximo!
O Franz, olhando-me com certo asco, exclamou:
“Monstro!”.
Eu nunca imaginara que ele fosse dotado de tal sentimento. Sei lá, tinha comigo que por não falar como nós, não partilhar dos mesmos gostos e dos mesmos costumes, era indicação de que também não seria capaz de gestos tão nobres, e que o meu ato me faria mais seu amigo, respeitado e admirado.
Faltou-me a voz, e uma sensação de vergonha e remorso logo tomou conta de mim, e foi com profunda tristeza que o vi com os olhos marejando se afastando quase a galope em direção de sua casa.
Eu não sabia como fazer para me livrar da presença do Zé do Biu, que indiferente à reação do Franz ainda queria continuar na matança dos passarinhos.
Recusei-me a devolver-lhe o estilingue e saí correndo para a cozinha, e quando me alcançou, viu a famigerada arma se consumindo nas brasas do fogão de lenha.
Depois, era minha alma que se debatia nas labaredas do arrependimento…

