Jul
20

Contos do Bié - Os demônios do Seu Frau

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

O menino e a pipa

O menino e a pipa 2003 -Sandra Guinle: Cenas Infantis

Pela manhã, e logo terminado o desfile do Sete de Setembro, eu e Geraldinho da Dina estávamos a correr atrás da linha que rebentara, quando soltávamos nosso papagaio no Largo da Igreja. Escalamos o pasto de Sa Geraldina Victor e, por meio dele, passando por sob a cerca de arame, entramos nos fundos do quintal dos domínios do Ginásio, rentes às rochas úmidas da mata da Chapada. Nosso papagaio caíra numa árvore de tamanho descomunal.
Caladinhos e pisando de leve nas folhas secas, fomos andando por sob o emaranhado de árvores e cipós, receosos de que alguém do estabelecimento nos apanhasse de surpresa e nos escorraçasse dali. Chegamos enfim ao pé da imponente e majestosa árvore, e lá nas grimpas estava a grande maravilha, o papagaio de duas cores, rabo enorme que dava gosto! Mas subir como, se dez de nós não dava para abraçar aquela sobre a qual repousava nossa jóia?
O jeito foi subir por uma outra delgada espécie, logo ao lado daquela monstruosidade, e em certo ponto alcançar a parte desejada usando os galhos que iam em todas as direções. Assim se planejou, assim foi feito.
Como macacos dos mais peraltas e espertos, não demorou e estávamos lá nas alturas, vendo toda a cidade lá embaixo, o coreto do jardim ainda apinhado de gente e os estudantes do ginásio naquela liberdade toda, indo e vindo a fazer “footing” em frente ao jardim.
Para tomar fôlego, donos agora da situação, ficamos ali, como se pássaros fôssemos, calmos e tranqüilos a ver as grimpas das outras árvores, a água fria e cristalina a jorrar por entre as pedras da Chapada. O papagaio estava logo ali, a um tirinho de nossas mãos. Agora não tínhamos pressa, éramos donos da situação.
Entregando-nos aos devaneios, a falar dos pássaros, das alturas, dos sonhos impossíveis - sonhos de voar - nos chega aos ouvidos um som estranho, como alguém cavando, e também um peito arfando num demorado e custoso esforço. Não era de longe que vinha o barulho, sempre constante, no mesmo ritmo e apressado.
Foi quando, olhando bem, reparamos, por detrás da frondosa e velha gameleira, raízes enormes à flor da terra, alguém por terminar de cavar um buraco de regular fundura, e lá dentro ainda dava para se ver uma caixa envolta num pano estranho.
Geraldinho, no intuito de melhor observar a estranha figura, resolveu mudar de galho, e neste gesto fez grande barulho, que levou o indivíduo a aguçar o sentido, e, num instante, nos localizar nas grimpas.
O dito cujo, a andar ligeiro e de dedo em riste começou por falar coisas que não entendíamos, mas depois falou claro como a luz do dia, a dizer que a nós dois caparia se a alguém disséssemos o que ali víramos.
Quase a ensopar as calças, tal o pavor ante a hercúlea figura de Seu Frau, pegamos o papagaio e deslizamos rápido pelos troncos da árvore. Num triz alcançamos o chão, e em disparada varamos a cerca, o coração como a querer pular pra fora. Em casa, foi aquele mutismo nunca visto e muito medo, em especial dos tais demônios.

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