Jul
13

Contos do Bié - Goethe. parte 2 - O retorno

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

  O RETORNO

Era de manhã, beirando a hora do almoço, que ali era cedo, dez horas. 

Diz-se que a notícia foi dada por um senhor não muito conhecido, que fazia a cavalo o trajeto de sua fazenda à cidade. 

O GOETHE vinha vindo, o que causou um rebuliço em toda a cidade, já imaginando que antecipara a viagem em função da consagração da nova igreja, prevista para o mês de Maria.

Uma verdadeira romaria à casa de varanda em L da Rua do Quenta-Sol, todo mundo querendo colaborar, aquilo de ofertas de toda ordem. 

Passou-se a hora do almoço, veio a merenda, depois o jantar, e à noite café e chá e fornadas de quitandas. 

O GOETHE não chegava. Seria um rebate falso? 

Os amigos não arredavam pé, e a vigília continuou noite adentro.

Dia seguinte, era ali pelas quatro da tarde, surge lá em cima, quase ao final da já movimentada rua o professor e farmacêutico Ismar da Cunha, de retorno de sua propriedade rural. Vinha montado na tão comentada e famosa besta ruã. 

Tudo fez silêncio, sobressaindo-se apenas e tão somente o barulho que o animal provocava, em sua marcha picada, com o rompão da ferradura no calçamento de pedras irregulares. 

Ninguém queria acreditar, mas com a parada em frente à casa de Sá Chiquinha principiou o desmoronamento de sonhos longamente acalentados.

Há momentos em que o silêncio repreende, machuca e dói mais que tudo, em função da dúvida sobre o que as pessoas estariam imaginando a nosso respeito. 

O GOETHE, ao descer da garupa da besta ruã, barbado, esfarrapado e trôpego, sentiu-se repreendido, machucado e cobrado, e não dispunha, como os conterrâneos e seus familiares, de forças capazes de articular ainda que uma só palavra. 

Até que enfim, após segundos que pareciam uma eternidade, a mãe foi-lhe ao encontro. 

Um abraço, outro abraço e mais abraços sem perguntas, apenas murmúrios e um choro que se foi expandindo mais e mais, que num repente impregnou de lágrimas a rua toda, as pessoas cabisbaixas de retorno aos afazeres cotidianos…

                                                     -

Passadas as horas e decorridos os dias, a resignação tomou conta de seu íntimo, mas Sa Chiquinha não via como não se dobrar à angústia da grande decepção de não ter um filho padre. Angústia que não era só dela, mas da família inteira, dos vizinhos, enfim, de todo o povo do lugar. 

Seu luto de viúva, chamado perpétuo, tornou-se eterno, persistiria mesmo após a morte, costumava dizer, em especial depois daquele dia ali na sala de jantar e de visitas.

Era Sexta-Feira da Paixão, e já se achava impregnado em todo o povo do lugar o sagrado costume da vigília do Senhor Morto. 

Após rezas e ladainhas, o penitente depunha a espórtula na bandeja de prata estrategicamente disposta na cabeceira do esquife, e o troco, por menor que fosse, tido como sagrado devia ser conservado para todo o sempre, até à morte.

De retorno da vigília, e ao abrir o compartimento da gaveta onde mantinha alguns pertences, a viúva levou um susto!

Nenhum sinal das moedas que por anos e anos sem conta ali foram guardadas, - o troco sagrado - espécie de tesouro que lhe garantiria a salvação eterna.

- Meu Deus, o Demônio passou por aqui! 

O tom de voz quase inaudível foi ganhando força à medida que se imaginava desprotegida de tudo; como se toda uma vida de lutas e sacrifícios tivesse de ter novo começo, e a salvação eterna se lhe mostrasse por um fio, agora alicerçada apenas e tão somente na moeda de troco daquela Sexta-Feira das Dores.

Tal a persistência dos choros e lamentos, que os vizinhos logo lhe vieram em socorro, e a casa se encheu de gente, todo mundo querendo ajudar, a pobre mulher clamando aos Céus perdão para seus pecados. Pecado por não ter ofertado mais do que ofertou, pecado por não ter podido contribuir para a ordenação sacerdotal do filho GOETHE… Daí, a interrupção de seus estudos. 

Vinha, entretanto, um consolo: o de ter doado milhares e milhares de telhas e tijolos para a construção da nova igreja.

Mas de que adiantaria o novo templo, se a cidade perdera um filho padre?

Inconsolável, pareceu recobrar ânimo quando assomou à sala a figura séria e compenetrada do filho GOETHE. 

- Meu filho, já lhe contaram? o Demônio passou por aqui! 

Estendendo-lhe os braços, sem dizer palavras ele achega-se à mãe, cingindo-a num gesto de carinhoso aconchego. 

Num repente e sem que se esperasse, ela o empurra e exclama com asco e rancor:

  - Herege! 

Um estalo se ouve, tal a violência com que esbofeteia a face do rapaz.

Ele não move um só dedo. Não diz uma só palavra.

Os olhos lacrimosos se encarregariam de revelar todo o sentimento que o invadiu naquele instante e para sempre. 

Tal um animal escorraçado, timidamente vai-se afastando, enquanto ela continua a vociferar pragas.

Ele sumiu de vez, e ela, de domingo a segunda continuou nas suas idas à igreja, aquela rotina já incorporada ao seu cotidiano.

Não se sabe se pedia perdão por ela ou pelo filho, o único da família marcado pelo pecado do vício de fumar..

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