|
Jul
06
|
Contos do Bié - Goethe. parte 1 - A carta
Categoria(s): Contos e Poemas, Gerontologia |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
A CARTA
Era do Goethe, e apesar de datada de mais de um mês, as notícias se apresentavam fresquinhas, como se as palavras tivessem sido escritas naquele momento. Era a primeira carta que escrevera após o falecimento do pai, ocorrido há quase um ano.
Ninguém dava conta do atraso com que chegara, tal a ânsia de saber como o filho ausente ia-se conduzindo nos estudos do sagrado.
Não eram expressões por assim dizer melosas, tampouco aureoladas de termos angelicais, ou mesmo revestidas de parábolas divinas.
Deixavam, todavia, ver nas entrelinhas o drama de uma alma indecisa e atormentada, que não tinha as rédeas de seu destino.
O que importava à família era ganhar um padre, assegurando a todos a salvação eterna. Teria garantido seu lugar perto de Deus e de sua corte de anjos. Enfim, uma família sem problemas que a pudessem desunir, em cujo seio não haveria lugar para o pecado, porque ali estaria, de seu próprio meio, o sacerdote para lutar por eles contra as forças do mal, afastando para sempre as ameaças do Demônio.
Depois de lida em voz alta para todos ouvirem, vai agora de mão em mão, sempre a formar um grupo em torno de quem dela se apossa, que a lê em voz baixa, detendo-se nos trechos mais difíceis de assimilar.
Retorna às mãos de Sa Chiquinha, que vai à cozinha à procura de Sa Crioula, a fiel e prestimosa serviçal de longos e longos anos, que ao visualizar as folhas brancas com letras uniformes deixa escapar-lhe dos olhos fios de lágrimas que em suave cadência deslizam-lhe na face já enrugada, ganhando na queda os seios volumosos. Sucedem-se outras e mais outras, diluindo-se em soluços quase inaudíveis, e sacode-lhe o corpo a emoção incontida.
Servindo-se da barra do avental, enxuga as lágrimas, e ainda com o pano úmido nas mãos envolto, escuta atenta o que as letras dizem na voz trêmula e pausada da mãe do GOETHE.
Exclamações interiores refletem-se de manso nos lábios carnudos, os olhos molhados de saudade a chorar. A imaginação a transporta longe, rebuscando no passado as lembranças felizes: ele pequenino, as noites quando o acalentava; a primeira comunhão, a entrada para a escola; os brinquedos de casinha; os navios nas enxurradas; as histórias que lhe contava e a partida para o seminário…
- Santo Deus, como passa o tempo!
Vemo-la, mais tarde, na calada da noite à beira do fogão, o coração satisfeito, mas repleto de saudade.
O fogo consome, preguiçoso, o derradeiro pau de lenha, e labaredas multicores lambem desordenadas o fundo do tacho de cobre, onde um bule de ágate jaz em banho-maria.
Para espantar o sono e reanimar-lhe o espírito, Sá Crioula conserva no tacho o bule de café, e vez ou outra solve um gole.
A cabeça inclinada e as pálpebras caídas, desfia sem pressa as contas do terço. Muitas vezes chega ao fim sem o perceber, e retorna, sonolenta, ao ponto de partida, rezando noite adentro, até que o lume de todo se extingue, sobrando na fornalha minúsculas brasas, pontinhos luminosos quais olhos de gato luzindo no escuro.
Amiúdam-se lá fora os primeiros cantos dos galos, e a preta cambaleante, num gesto rotineiro, revolve as brasas que restaram, cobrindo-as com borralho.
Tinha ido mais um dia, passou-se mais um pedaço de noite. Foram-se mais inúmeros paus de lenha, que se transformaram em brasas, carvão e cinzas.
Lenha que deu calor e que aqueceu água para o banho e o café; lume para dar vida à fornalha, lume para alimentar a família.
Sa Crioula também era lenha, qual braúna, preta quanto ela. Madeira dura, de longa vida, que só o fogo extermina.
Enfim, o repouso, e lhe vem à lembrança a imagem do ausente querido lá longe, em terras distantes, crescido, sadio, vestido de batina e rezando contrito…
- Daqui a dez meses – fica assuntando – exato no mês do Natal! Que presente de Deus! A que horas chegará? Vou reconhecê-lo? E ele a mim? Será de manhã? Não, na hora do almoço. Ou na hora da janta? Estarei arrumada, com avental? E se eu estiver de avental, me abraçará? Estarei na cozinha quando ele chegar? Vem de jardineira, de mala na mão, de guarda-pó, para não sujar a batina. A batina! Ah, a batina, minhas almas! Pode sujá-las, que a preta lava. Lavo sim, meu filho, lavo quantas vezes quiser… quantas vezes quiser…
Embalada por tão divinos pensamentos, candidamente adormeceu…

Eneida Tagliolatto Pires comenta:
6 Julho, 2008 @ 11:18
Gabriel, isso não é conto, é poesia; tal é o seu encanto, delicadeza e leveza de palavras.
Adorei!!!
Eneida Tagliolatto