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Jun
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Contos do Bié - Dia da primeira comunhão
Categoria(s): Contos e Poemas |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
Logo depois do jantar fui à casa de Sa Maria pegar meu cobiçado terninho que vestiria na manhã seguinte, dia da primeira comunhão. Não me cabia de contentamento, embora os tecidos da calcinha curta e da camisa, que não possuía mangas compridas, meu grande desejo, não fossem lá grande coisa. O tecido da calça vinha das famosas pastas de “pano de amostra”, que Geraldo Belli, o simpático italiano, chofer dos caminhões da Empresa de Transportes Condor, trazia em suas vindas a Nossa Senhora dos Acordados, e as distribuía à criançada, que estava sempre de olho na Rua das Bananeiras, onde o caminhão apontava na chegada, a buzinar estrepitosamente. A calça compunha-se de dois padrões de tecidos, e logo se observava a emenda de diversos pedaços para se chegar ao tamanho ideal.
Para a camisa comprou-se o tecido, pois se fosse usar o pano de “amostra” surgiria uma grande papagaiada. Mas não era lá um grande tecido uma chitazinha daquelas bem ralinhas. Sa Maria havia terminado de dar os últimos retoques, e me chamaram a atenção os suspensórios de talas largas, também costurados com os “panos de amostra”. Encaminhou-me a um dos quartos onde troquei de roupa para ver se estava tudo em ordem. Minha vontade era ir para casa com a nova roupa, dormir com ela e, no dia seguinte, estar na igreja e depois no Parque Mãe D’Água.
Todos, sem exceção, acharam bonito e granfino o terninho. Cecília e Isaltina ainda fizeram pequenos acertos, mais com a intenção de me dar apoio do que propriamente eliminar algum defeito. Sa Maria, séria e compenetrada, balbuciava, orgulhosa da tarefa que tão bem desempenhara no meu preparo para o grande dia.
Voltei ao quarto, tirei o terninho e me enfiei novamente no traje do dia a dia. Quando apontei na sala de visitas, estava Sa Maria a me esperar, e ali fui sabatinado sobre as orações para antes e depois da comunhão. Como tinha muito o que fazer, Sa Maria me deixou aos cuidados de Cecília. As orações já estavam marcadas no livro, mas Cecília, ao reparar no conteúdo, termos demais pesados para mim, fez logo uma troca, e o texto escolhido dizia, entre muitas outras coisas, mais ou menos o seguinte: “… a minha indignidade me afastaria de vós, Senhor, se vossa infinita bondade não me convidasse com tanto amor. Não tenho senão pecados, mas vós sois o Deus das misericórdias, e eu me apresento a vós com toda confiança que me inspira a vossa infinita bondade. Espero que esta santa comunhão me servirá para perdão dos meus pecados, para sustento de minha alma e que será para mim um penhor de vida eterna…”
Recitei tudo sem errar. Algumas palavras me deixavam confuso, como “inspira” e “penhor”. “Inspira” eu relacionava com respira, e “penhor” me lembrava um balaio grande repleto de uma trenheira danada. Cabeça de criança.
- Viu só - falou Cecília - como Deus é bom e misericordioso? Ainda que você tenha algum pecado ou um pecadinho, a santa comunhão o livra de tais pecados. Não fique angustiado, pois devemos ficar alegres e felizes quando nosso pai vem ao nosso encontro. E nosso pai, que está nos Céus, vai vir ao encontro de você e de todas as pessoas que vão receber a comunhão amanhã.
Recitado também o ato de agradecimento para depois da comunhão, Cecília ficou feliz pelo meu desempenho, e sua satisfação me encheu de muita fé, coragem e confiança. E nela eu vi, mais uma vez, o anjo que me guiava os passos e me dava ânimo para a vida. Sa Maria passou por nós na sala, me recomendou que não fosse embora, e, segundos depois, voltou com um livro grande, o tal onde existiam os retratos tirados pelo tal Dante.
Compenetrada, pôs os óculos, abriu o livro em cima da mesa, deu umas folheadas até encontrar a figura que pretendia me mostrar. Elevou um pouco o livro, aproximando-o da lâmpada pendente do teto. Segurando-o com a mão esquerda, com o dedo indicador da direita apontava para a figura nele estampada. Puxou uma cadeira e falou comigo: “Suba aqui e venha ver”.
Era a figura de um homem idoso, porém forte, vasta cabeleira, barba e bigodes brancos. Tinha sobrancelhas espessas a emoldurar os olhos como que ameaçadores. Usava uma espécie de túnica folgada e comprida que lhe cobria todo, indo até os pés. Assentado numa enorme cadeira, trazia sobre o colo uma espécie de tábua, que segurava com a mão esquerda e, na direita, uma caneta tinteiro. Compenetrado, seu gesto indicava que estava sempre a escrever alguma coisa.
- Está vendo bem? – perguntou Sa Maria. Estou – balbuciei - os olhos arregalados, sem saber onde ela queria chegar. - Este é Deus - continuou ela - que está anotando todos os pecados que cometemos, mortais e veniais. Ele vê tudo, não lhe escapa nada. Se você estiver em pecado e não contar para o padre, não pode comungar amanhã, entendeu?
Fiquei mudo, amedrontado e perdido diante daquela nova revelação. Não sabia nem como descer da cadeira e ganhar o assoalho. Foram por água abaixo meus sonhos de vestir o terninho novo, fazer a primeira comunhão e me regalar com os doces e café com leite no Parque Mãe D’Água.
Colocou o livro sobre a mesa, mas aberto na página da figura do “Deus”. Eu não tinha como olhar para outro lugar que não fosse aquela figura severa, que me encarava ameaçadora, como a me dizer: “Está vendo, seus pecados estão aqui anotados, cuidado, muito cuidado!!!”. Devagarzinho, como uma criança de colo fui-me deslocando de cima da cadeira para o assoalho, até achar solo firme, quando dei graças a Deus, pois eu não caíra no inferno.
-Entendeu bem o que lhe falei? - perguntou-me enfática Sa Maria.
Antes que lhe respondesse, senti pousarem em minha cabeça e em meu ombro as mãos de Cecília. Era como um passarinho indefeso, a asa ferida a tolher-lhe o vôo, ser amparado e socorrido por uma alma caridosa, livrando-o do bote da fera ou do tiro certeiro do caçador inveterado. Ao me afagar, falou calma e mansamente. “Isso aí é só uma figura, meu anjo, uma figura feita pelos homens. E os homens põem nas figuras tudo aquilo que mora nas suas almas. E grande parte dos homens só tem angústia e dor nos seus corações. Qualquer dia vou mostrar-lhe o Menino Jesus falando com outros meninos, e você vai ver o amor que ele demonstra para com seus amiguinhos, pessoas como você. “ ..
A partir daquele momento mais uma entidade passou a fazer parte integrante de toda a confusão que reinava em minha mente.
Havia o “Deus”, figura de barba, grande túnica e caneta-tinteiro a anotar nossas faltas; o Senhor Morto, Jesus Cristo que os homens pregaram na cruz. E também o Menino Jesus, amigo das crianças, compreensivo e companheiro por excelência.
Eu, como as demais crianças e os adultos, tínhamos medo do “Deus”.
Na igreja, estirado no esquife, do Senhor Morto eu queria distância.
Já o Menino Jesus, de quem meu pai contava causos e do qual Cecília acabara de falar, me inspirou confiança e o tomei por escudo e companheiro. Apeguei-me a Ele e procurei me esquecer da figura apresentada por Sa Maria, que, pela explicação de Cecília era o “Deus” das pessoas adultas, que, em sua grande maioria, só pensavam em ver defeitos nas pessoas e indicar castigos para seus pecados.

Eneida Tagliolatto Pires comenta:
30 Junho, 2008 @ 13:56
Gabriel, só hoje é que consegui ler seu conto. Ontem a casa cheia com a família da minha filha, hoje os afazeres de dona de casa, mas arrumei um tempo agora e li a respeito da “primeira comunhão”.
Acho que eu não me sentiria muito à vontade com Sa Maria. Com toda certeza minhas pernas e mãos tremeriam de medo… Já Cecília (que por sinal era o nome de minha avó do lado materno), essa posso afirmar que era a doçura em forma de gente, ou quem sabe um anjo que muitas vezes está à nossa volta e não enxergamos.
Eneida Tagliolatto
Dalva Saudo comenta:
30 Junho, 2008 @ 17:29
BIÉ
SEMPRE GOSTEI DO RONCO DA CUICA. EU ERA PROTESTANTE QUANDO CRIANÇA E NA IGREJA ME COLOCAVAM MUITO MEDO E DIZIAM:
-VOCÊ ACENDE UMA VELA PARA DEUS E OUTRA PARA O DIABO!
-CARNAVAL É PECADO!
LI SEU CONTO E ME LEMBREI DA MINHA INFÂNCIA. MAS… NUNCA TIVE MEDO! ATÉ HOJE CONTINUO GOSTANDO DE SAMBA.
CONTINUE ESCREVENDO BIE, POIS NOS SEUS CONTOS, VOCÊ MUITAS VEZES NOS TRANSPORTA PARA A NOSSA INFÂNCIA TAMBÉM!
DALVA SAUDO