Jun
22

Contos do Bié - Na casa de Sa Geraldina

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Na hora combinada eu estava pisando as tábuas do alvejado e bem cuidado assoalho da casa de Sa Geraldina, ali na esquina da Rua da Fontinha com o Morro da Tegina, que demandava os caminhos do Santo Cruzeiro, indo para a Chapada. Uma misturança de muitos cheiros principiou por deixar meu espírito como que arredio e medroso, sensação que ia tomando corpo à medida que meus olhos davam com as inúmeras estampas de santos que pendiam das paredes da sala dita “de estar”, que na verdade fora transformada  numa espécie de capela,  pois no centro, sempre alumiada por uma chama de um bem acabado candeeiro, era venerada a imagem de Nossa Senhora da Boa Morte, afora duas velas,  as chamas numa lerdeza de esmorecer, ladeando a estampa representativa da “Fuga para o Egito”.
Um enorme sofá de palhinha, verniz preto, dava bem de frente para a parede em que sobressaía um quadro do inferno, ali retratadas espetaculares cenas dos pecadores caindo de cabeça para baixo, cujo destino eram os descomunais caldeirões sobre imensas e ardentes chamas de fogo!
Os segundos ali me pareciam uma eternidade, e minha vontade era sair correndo, tais os gritos de horror que me chegavam aos ouvidos, partidos daquelas infelizes criaturas jogadas no inferno. “Não, esta não é a casa de Sa Geraldina!”, pensei comigo, a imaginar que eu estava tendo uma visão do que iria me acontecer no dia de minha morte.
E ali, o meu ser como todo paralisado, senti alguém me tocar o ombro.
Não tive forças para gritar. Quase morri.
Era Vicenza, que de propósito viera devagarzinho, pé ante pé, me avisar que Sa Geraldina logo logo  viria, e que me sentasse ali no sofá e aguardasse um pouco. Apresentou-me um prato com algumas brevidades, para que eu comesse. Tirei apenas uma, e ela tornou à cozinha.
Como um autômato, sentei-me no sofá, a brevidade na mão. Quando vi, a quitanda se desmanchou toda, tanto a apertei sem perceber. Eu tinha os olhos fixos no dito quadro do inferno. E era ali naquela sala que Sa Geraldina iria reforçar minha catequese, ambiente adequado para falar do sagrado.
Séria, de pouco sorrir, assomou à sala. De baixa estatura, gorducha, cabelos em coque, rosto redondo, bochechas avantajadas; pele rosada que parecia mostrar o sangue. Os olhos azuis, morteiros, aparência de peixe morto, pareciam aguçar ainda mais em mim o medo que já me dominava.
Eu rezava e rezava, só no meu íntimo, implorando às almas que me tirassem dali. Em dado momento tomei coragem e pedi para ir lá fora, na cozinha, limpar as mãos que eu sujara com  brevidade. Quem sabe entre o ir e vir eu acharia uma saída para me livrar daquela enrascada. Ainda bem que Vicenza me ofereceu café daqueles bem ralinhos, próprios de casa de gente já de meia idade. Tomei uma xícara e repeti. Depois ainda comi outra brevidade. Tudo para ganhar tempo. Não senti o gosto de nada. Só pensava em ir embora logo.
Ao retornar à sala, e antes que Sa Geraldina falasse qualquer coisa, de pronto tomei a iniciativa da conversa e disparei a falar. Desculpei-me de todos os modos, a dizer que, ao chegar a casa, dei com meu pai – coitado de papai! – tontinho de dor de cabeça, deitado lá na cama, o quarto todo escuro, e que me pedira para ir à farmácia de seu Zeca pegar um remédio indicado para o incômodo que o acometia. Que eu só tinha passado ali para isso, e que meu pai é que me mandara assim fazer.
A boa senhora condoeu-se toda, a se desculpar de que não poderia ir ver meu pai em virtude do adiantado das horas, que ainda tinha o banho e o jantar pela frente, para depois ir à igreja. Mas quem sabe depois da reza passaria por lá…
Quem estava agora com dor de cabeça e de consciência era eu, e no caminho para casa eu tomava cuidado, modo não tropeçar e cair, vez que meu pecado era grande, e na queda eu iria parar no inferno!  Perdi até o apetite, que naquela idade era demais.
Naquela tarde, meus familiares estranharam o tão pouco que comi; e estranharam, também, meu modo calado, contemplativo, tão tagarela eu era. Contemplativo, nada!   Eu não via a hora de a noite passar, aflito para chegar a hora de dormir. Felizmente uma etapa já estava vencida: Sá Geraldina não apareceu.

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