Jun
15

Contos do Bié - A Missa dos Caçadores

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Em tempos que já vão longe, sonolenta a missa das seis,
freqüentada pelas pessoas idosas, em sua maioria. Viam-se, entretanto,
alguns senhores de aspecto jovem: os caçadores. Não partiam para a
caçada sem assistir à missa, especialmente celebrada naquele horário
para que cumprissem o sagrado preceito, após o que caçavam e matavam
jacus, nhambus, tucanos, maritacas e outras aves a tiro de espingarda
chumbeira, daquelas de carregar pela boca. Era a chamada caça de
escuteiro, os pássaros atraídos pelos pios que os caçadores usavam
para imitar-lhes o canto.
Outros caçavam e matavam veados, pacas, cutias, porco do
mato, anta, capivara, e até macacos. Alguns aproveitavam a caça, como
meu pai, Arnaldo e Salatiel Costela. A maioria dos caçadores,
entretanto, matava por matar. Dispunham, muitos deles, de cachorros
especializados no faro de cada espécie. Chiquinho do Lucindo
tornou-se mestre em caça de paca, assim como seu Ismar da Cunha,
Baetão e Zé do Ário na matança de veados. Zé do Ário teve fim
trágico, triste. Em suas costumeiras caçadas, atacado, ele e outro
companheiro, por enxame de abelhas, em poucos dias morreu de morte
sofrida.
Eu ficava a pensar se não era pecado matar os pássaros e animais, que
viviam felizes lá no mato, no espaço que Deus lhes deu, ao ar livre.
Um amontoado de pensamentos confusos me envolvia a mente ainda fresca
das advertências de Sa Maria e das catequistas, que viviam
recriminando a nós crianças pela caça aos passarinhos, uma de nossas
diversões prediletas. Foram-se os guisados preparados com juritis,
sanhaço e pomba rola, tudo por medo das chamas do inferno.
A catequese, ao invés de nos abrir um mundo de paz e
liberdade, parecia nos aprisionar cada vez mais, tantas as proibições,
tantos os pecados que antes desconhecíamos e agora se multiplicavam em
nossa mente. Nunca imaginara que a minha intimidade com Deus e os
santos iria me trazer tantas complicações e angústias.
Eu não aproveitava nada ou quase nada da missa.
Aos poucos e devagarzinho, como que treitando a
mente, imaginando já estivesse pecando, raciocinava: melhor seria não
me aprofundar em demasia nos assuntos de Deus, que o trem é
complicado. Ainda mais quando via ao meu redor, ali nos bancos da
igreja, todos aqueles caçadores, a missa como que o intróito às suas
atrocidades. Mas eram gente grande - eu raciocinava - e naturalmente
melhor compreendidos por Deus e os santos de sua devoção, que muitos
deles, os caçadores, ricamente paramentados, a expressão contrita,
eram sempre vistos a carregar os andores nas procissões pelas ruas da
cidade nos dias de grande liturgia.
Rezada em latim, o padre falando baixo, a voz ressoava como zumbido
de besouro pela igreja afora. Na comunhão eu acompanhava meu pai, e
ali, onde as pessoas se ajoelhavam para comungar, sentia exalar das
bocas dos fiéis um cheiro desagradável - mau hálito dos freqüentadores
mais escrupulosos, particularmente os idosos, que receosos de
engolirem algum gole d’água, não lavavam a boca, e o faziam somente
depois da missa e de terem recebido a hóstia consagrada.
Naquele horário, o celebrante era acolitado por apenas
um coroinha - Zé das Dores, um senhor já de idade - ao invés de três,
como na celebração das dez horas.
Cedo demais, não era qualquer moço que se dispunha a se
levantar àquela hora para as missas encomendadas - de réquiem,
paramentos roxos ou pretos.
Por ser encomendada, e logo paga, o coroinha ganhava 1
mil Réis para ajudar na celebração, e tinha que usar calçados e estar
bem vestido, além de levar vida casta e ser bem procedido.
Talvez até que minhas roupas servissem. Só que eu nunca
pusera um calçado e não distinguia o pé direito do esquerdo do sapato.
Bons tempos? Saudosos dias?

Indique esse artigo Indique esse artigo


1 Comentário »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    15 Junho, 2008 @ 10:03

    Gabriel, como sempre não posso deixar de elogiar seu conto. Neles eu sempre viajo de carona e aprecio cada detalhe dessa viagem encantadora.
    Adorei,
    Eneida Tagliolatto

RSS Feed for comments on this post · TrackBack URI

Deixe seu comentário aqui !