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Jun
08
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Contos do Bié - O banho do Cabo Pêta
Categoria(s): Contos e Poemas |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
Enquanto lhe narrava os acontecimentos de minhas noites movimentadas, seguíamos animados rua afora, e distraídos tomamos o caminho de minha casa. Absorto no que eu lhe contava, Ivan, como um autômato, dobrou comigo a esquina da Rua de Seu Chico França com a do Jardim da Infância, em direção ao Largo do Rosário, ao invés de seguir pela Rua do Dr. Carlos para alcançar a esquina da Rua do Quenta-Sol. Quando deu fé, já estava na Rua das Almas, em frente à nossa casa. Admirado pelo tanto que no trajeto ouvira, deu até logo e saiu em galope para casa, onde, naturalmente, cabo Pêta e a família inteira ficaram a par de tudo quanto eu lhe contara.
Cabo Pêta, apesar de antigo no posto, não ganhava lá estas coisas. “Uma tutaméia” - costumava dizer. Além de irrisórios, os soldos estavam sempre atrasados, fato comum entre os funcionários públicos. Não fosse a benevolência dos fornecedores - os vendeiros e negociantes - certamente até fome teria experimentado. Média estatura, meio corcunda, claro, barba sempre por fazer, olhos vermelhos e esbugalhados; lábios ressecados e trincados, dando mostras de sangramento, eis que passava o dia inteiro, de manhãzinha à tarde nos altos da Chapada, em meio a um poeirão de sufocar, onde comandava quatro praças que montavam guarda aos detentos que trabalhavam na construção do campo de aviação, obra prioritária da administração municipal.
No regresso do trabalho ele dava sempre uma passada pela “Casa Compadre” - venda de Compadre Jove - onde, ao lado de outros assíduos freqüentadores, entre tantos seu Constante Soares, Minervino, Arquilau Guarda Fios, Quim das Letras, Zé Quem Dera, João Graveto, Zé Barbeiro e inúmeros outros, tomava pinga e conhaque, servidos por Zé do Jove e Totó.
Entretanto, havia uma figura que servia de distração e de chacota para todos eles: Manoel Panhame, solteirão nos seus cinqüenta anos de idade, compleição robusta, botina para lá de 44, roupa por demais folgada na carcaça corpanzuda e desajeitada. A barriga estava sempre a lhe fugir sob a camisa e a calça mal abotoadas.
Dotado de um tom de voz que muitos baixos e barítonos invejariam, falava à beça, ora alto, ora baixo, e às vezes só murmurava “falando com seus botões”. Gesticulava e cuspia, tudo ao mesmo tempo.
Tamanho relaxo também se observava em relação à casa onde morava sozinho.
No quintal, repleto de lixo e mato, mantinha um pequeno chiqueiro para engorda de alguns leitões, que nas suas ausências eram tratados por Maria do Gole.
A casa, o que era comum na época, não dispunha de água encanada, e as necessidades noturnas mais amiúde as fazia nos penicos, que os possuía em quantidade.
Bagunça no geral, as cangalhas e selas dos animais, mais os inúmeros acessórios dos arreios, se viam esparramados pelos quartos e salas.
Havia, em parte, explicação para toda essa parafernália.
A tirar proveito de sua santa ingenuidade e ignorância, os apreciadores dos “goles” da venda de Compadre Jove, a par de sua marcante índole supersticiosa, convenceram-no de que, quanto mais suja, mal cheirosa e desarrumada a casa, mais distantes dali ficariam os capetas e as mulas sem cabeça.
Não era por menos que em seu quarto de dormir, antes de se recolher, colocava em círculo todos os penicos de que dispunha, nenhum vazio, mas sempre cheios, o líquido a exalar forte odor para manter o maligno à distância.
Homem de palavra, valente, mas nunca caçava briga com quem quer que fosse. Tinha, entre outras, duas grandes qualidades: honestidade e solidariedade.
Mas, infelizmente estamos a falar de um analfabeto, de pai e mãe, como se dizia. E apesar disso, detalhe, temos à nossa frente um dedicado e intransigente funcionário público federal!
Fazia o transporte, em lombo de burros, das malas do correio de Nossa Senhora dos Acordados a Coroaci, trajeto por entre trilhas de região montanhosa, infestada de bandidos e saqueadores de toda ordem. Nunca, durante os longos anos que percorreu aqueles caminhos, teve uma carta roubada ou extraviada.
Certa feita, um viajante não precavido foi atacado e ferido por bandidos que lhe surrupiaram todos os pertences, até mesmo o animal de sela. Encontrado caído à beira do caminho, Panhame o colocou no seu animal de montaria e continuou a viagem a pé, com o que conseguiu salvar o desconhecido.
——— Na manhã seguinte à conversa que eu tivera com Ivan, cedinho ainda, à frente da turma de detentos que subia pela Rua das Almas rumo ao futuro campo de aviação, cabo Pêta deu voz de comando e os presos perfilaram em frente à nossa casa. Apressado e a pisar forte com a bota que lhe compunha o trajar, por engano foi até à janela da casa vizinha à nossa, bem ao lado, e, punhos cerrados, pôs-se a chamar:
- Menino, é o cabo Pêta! Menino, é o cabo Pêta!
Aguardou alguns segundos e, enquanto não chegava alguém para atendê-lo, ficava a ajeitar o quepe na cabeça e a dar folga ao colarinho da farda, que parecia lhe incomodar o gogó. Impaciente, bateu de novo, a olhar de frente para a janela que não se abria.
-Menino, é o cabo Pêta! Menino, é o cabo Pêta!
Embalado em sono profundo, Manoel Panhame, que à véspera já se prevenira para que as forças do maligno se mantivessem longe de seus aposentos, como de costume dispusera em círculo todos os penicos a transbordar de seu mijo.
O som da voz de cabo Pêta, a princípio como que vindo do além, foi aos poucos lhe chegando aos ouvidos, a impregnar de torpor e raiva sua mente supersticiosa, que entendeu por “Manoel, é o capeta! Manoel, é o capeta!”.
Assim mal despertado, levantou-se, e sonolento ainda e munido de uma dos penicos, escancarou a janela de par a par e atirou tudo aquilo sobre o cabo Pêta, que sentiu o líquido curtido e mal cheiroso escorrer-lhe pela farda inteira, deixando aturdido e sem ação alguma o bem intencionado e pacato praça, cuja intenção era apenas e tão somente ouvir do menino “sonhador” que sonhos tivera à noite, pois quem sabe a sorte lhe sorriria, como a mim vinha sorrindo, e oxalá alguns Réis pudesse embolsar.
Diante do cabo encharcado e pelo odor paralisado, os demais praças de pasmo e surpresa ficaram tomados, sem esboçarem a mínima reação em socorro do chefe, que por lamentável azar batera em casa errada.
E os detentos, em fila indiana e em posição de sentido, cabisbaixos, riam baixinho, a tampar as narinas para não sentirem o ardume que pelos ares se esparramara.
A porta se abre e eis que assoma à rua a figura esbaforida de Manuel Panhame: sem calça, sem camisa, apenas de cueca imunda, à mostra a barriga enorme e cabeluda. Baixeiros nas mãos, apressado, pôs-se a enxugar o nobre cabo, porém este mais sujo e fedido ainda ficava, tal o estado imundo das peças que o estabanado Panhame lhe esfregava.
Dois detentos dos mais bem “procedidos” acompanharam o cabo Pêta até às três bicas do Caminho do Cemitério, onde tomou banho de corpo inteiro, esfregando-se com sabão preto, usado pelas lavadeiras nas suas lidas costumeiras.
Um detento ficou de guarda para evitar a aproximação das lavadeiras, que poderiam se assustar ante a presença inusitada e inesperada de cabo Pêta, homem sério e de respeito, assim pelado à luz do dia.
Dali saiu em trajes civis, porque farda só havia uma, a que fora toda mijada. Ao trabalho faltara naquele dia, e em casa ficou a refletir, que mesmo não sabendo que sonhos eu tinha tido, qual bicho um prêmio lhe daria?
Os minguados trocados que possuía arriscou-os no bicho porco, e qual não foi sua surpresa quando, ao final do dia, no balcão do chalé, instalado no sobrado de D. Joaquina, recebia dezoito mil Réis, que, pensou, pagou com sobra o banho inesperado daquela manhã de sexta-feira.



Eneida Tagliolatto Pires comenta:
8 Junho, 2008 @ 19:20
Gabriel, que jóia primorosa esse seu conto. Meus parabéns e tomara que eu ainda possa ler outros tantos que tenho certeza são tão bons quanto esse.
Eneida
luiz eduardo horta comenta:
11 Junho, 2008 @ 11:20
Não havia como me decepcionar.Já sabia que seus escritos são para nosso deleite, em um mundo onde as horas e ocasiões de prazer escasseiam. Como luzes, pessoas sensíveis trazem brilho e alegria a nosso viver. Você é luz, caro Bie. Abraços do amigo e admirador, Edu Horta.