Jun
03

Contos do Mardegam - Somos a Doença

Categoria(s): Contos e Poemas


Emoções

Colaborador: Ricardo Mardegam *

* Poeta Paulista

- Olá, João, quanto tempo?
- Pois é, Neto.
- E aí, como vai?
- Agora estou bem, mas se você me perguntasse isso na semana passada …
- O que aconteceu?
- Entrei numa depressão profunda, rapaz. Acho que devido ao estresse de meu dia-a-dia. Sem contar com a síndrome do pânico, que não me deixa em paz, e que afeta minha úlcera nervosa.
- É duro… eu também amarguei momentos difíceis. Passei a semana toda ansioso e depressivo. Minha neurose não têm mais jeito, ainda mais quando vem com o distúrbio de humor causado por um transtorno obsessivo-compulsivo que tive no ano passado.

……..

- Fui até a farmácia da esquina e o balconista me receitou um remedinho tiro-e-queda para todos os meus problemas. Não acreditei muito no que ele disse, pois era seu segundo dia de trabalho, mas resolvi seguir seus conselhos medicamentosos, afinal ele é um balconista.
- E aí, o que deu?
- Deu certo para a depressão e ansiedade, mas pro resto não. Se bem que minha inflamação no dedão do pé resolveu e minha dor de cotovelo também.
- Que sorte, heim, meu amigo! Comigo não foi bem assim. Depois de passar por diversos balconistas e curandeiros de bairro, que sempre me receitavam coisas que davam enão davam certo, procurei um sitiante que atende aqui perto e que, dizem, é o melhor da região, especialista em plantas medicinais e que já curou até AIDS e câncer. Fui até lá e contei todos os meus problemas para ele (cheguei primeiro que todo mundo, pois forma fila para atendimentos - cheguei duas e meia da manhã) e ele me receitou folha de samambaia com orégano batidos no liqüidificador com um pouco de pinga e água.
- E ai, deu certo?
- Que ada, arrumei uma “baita” diarréia.
- Nossa … mas olhe, não se preocupe. Vou te levar na minha vizinha. Ela faz umas receitinhas caseiras muito boas que resolverão todos os seus problemas.
- Será? Então vamos.
Entraram na casa simples e discreta e sentaram-se num banco tipo de praça que havia no quintal.
-Oi, Sueli, como vai? Eu trouxe meu amigo aqui para você curá-lo.
Sueli, sem maiores delongas, olhou para a cara dele e disse: “Água com açúcar três vezes ao dia”, e se calou.
Os dois se olharam sem entender muito bem o que estava acontecendo e num sinal de introspecção onde revia toda sua trajetória de curandeiros, farmacêuticos e médicos alternativos, João começou a sentir uma coisa estranha que crescia dentro de si como se quisesse sair a qualquer custo - seria uma revolução em sua vida? E olhando no fundo dos olhos daquela senhora que parecia desdenhá-lo mandando-o tomar água com açúcar…
- O que foi João? - perguntou Neto. Parece que você está meio tenso. O que está contecendo?
O silêncio de João preocupava Neto e Sueli, até que ele se manifestou.

- Não posso fazer isso…Não posso fazer isso - repetiu João desesperado.
Sueli já apavorada pergunta: “Por que não?”

- Porque sou diabético - com voz de choro.
Sueli - aliviada - então, modificou a receita: “em vez de açúcar use adoçante. Tchau
João saiu aliviado dali, confiante no seu mais novo tratamento que iniciaria naquele instante…

METADE - Contos Crônicas - Ricardo Mardegam Edições Burity Setembro 2004

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