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Jun
01
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Contos do Bié - E, deu borboleta!
Categoria(s): Contos e Poemas |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
No trajeto para a marcenaria, notei que meu pai queria me perguntar alguma coisa, mas era sempre interrompido pelos amigos que encontrava pelo caminho À tarde, no regresso da escola, fui para a marcenaria, e no retorno, em frente ao chalé do jogo do bicho, perguntei-lhe se não ia pegar o prêmio que ganhara no jogo da borboleta. Surpreso, falou que não tinha feito nenhum jogo. Interrompeu a caminhada, pôs a mão em meu ombro, encarou-me encafifado e indagou afobado onde eu fora buscar aquela pergunta.
- Uai, imaginei que tivesse acertado na borboleta! – exclamei.
- Acertado, como, se não fiz nenhum jogo? Dinheiro não cai do céu, não - completou.
Era tanta confusão em minha cabeça, que não estava mais distinguindo sonho com e realidade. Era tudo uma coisa só. Ficamos ali, em frente ao chalé, eu a me certificar se de fato tinha sido um sonho, e ele a me perguntar que história aquela da borboleta a que eu me referira ao acordar naquela manhã. Não lhe narrei o sonho na sua totalidade, que era segredo meu. Contei-lhe por alto que havia sonhado com uma borboleta de todo tamanho, e de suas asas caíam moedas brilhantes como ouro.
- Só que não tenho nenhum níquel para jogar na borboleta.
- Espie aqui, olhe só para o senhor ver os quatrocentos Réis que eu ganhei com o engraxate - falei firme, tirando dois níqueis da algibeira da calça.
-Tudo não, só duzentos Réis – falou.
Dia seguinte, deu borboleta!
Toda a cidade ficou sabendo! Não tanto pelo valor do prêmio, que não era grande, mas pelo fato de o palpite ter partido de uma criança, e tirado de um sonho com o bicho premiado.
Recebido o prêmio, tomamos o caminho do Mercado Municipal, de onde meu pai, orgulhoso, saiu levando consigo um robusto lombo de porco, igualando-se, naquele ato, aos mais bem de vida da cidade, famosos no consumo de tão cara e saborosa iguaria E eu, a seu lado, acompanhava-o na subida do Largo da Igreja, a dar asas às inocentes fantasias que me povoavam a fértil imaginação…
Ivan, filho do cabo Raimundo Pêta, morador na Rua Quenta-Sol em casa de aluguel de D. Lica do Luiz Fogueteiro, regulava em idade comigo, cerca de 8 anos, era meu colega no grupo escolar e nas aulas de catecismo.
Certa tarde me abordou à saída da escola, curioso por saber os detalhes do sonho que eu tivera com a borboleta. A princípio me fiz de rogado, na intenção de ganhar tempo e elaborar as costumeiras fantasias. Contei-lhe o sonho e outros mais, todos rebuscados de lances mirabolantes, que teriam me proporcionado polpudos prêmios, que não vieram a público para não despertar inveja e olho gordo em cima de minha pessoa.


Eneida Tagliolatto Pires comenta:
1 Junho, 2008 @ 14:58
Sonhador ou prosador? Qual dos dois títulos te cabem melhor?
Em minha opinião; os dois, pois dos sonhos de menino já se via que sairia um ótimo prosador. Ótimo contador de histórias também, e porque não dizer ótimo interprete.Haja visto ontem no Sarau dos Poetas Campineiros. Interpretação magnífica.
Eneida Tagliolatto