Arquivo de junho, 2008





30 - jun

Poemas da Dalva Saudo – Amor, Vida e Morte

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Dalva Saudo *

* Poetisa Paulista

AMOR, VIDA E MORTE
Na vida te amei tanto!
Eras meu oxigênio, minha existência,
Meu ponto de referência.
Esse amor foi se consumindo, sumindo…
Como uma vela em chama se apagando!
Nosso amor morreu em vida,
Não esperou a morte chegar!
E quando ela chegou…
Já não tinha lágrimas p’ra derramar!
Meus olhos estavam secos
De tantas já derramadas!
Se tu tivesses partido no auge da louca paixão,
Não sei se teria suportado… tanta dor no coração,

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29 - jun

Estudo de caso – Uso de amiodarona

Categoria(s): Cardiogeriatria, Caso clínico

Interpretação clínica

  • Mulher de 46 anos se apresenta para consulta médica com queixa de fadiga, insônia, agitação, inchaço nos tornozelos no final do dia, excesso de calor, refere que as menstruacões estão mais abundantes e o intestino mais “solto” que o habitual. Está em acompanhamento clínico com médico cardiologista há 3 anos para controle de fibrilação atrial paroxística, com amiodarona 200 mg por dia de segunda a sexta feira. Não toma outras medicações.
Como entender e conduzir o caso?
A maioria dos pacientes tratados com amiodarona (medicamento antiarrítimico) permanece eutireoiana. Entretanto, alguns pacientes desenvolvem disfunção tireoidina significativa, tanto hipo quanto hipertireoidismo. 

O iodo representa aproximadamente 35% do peso do medicamento. Um comprimido de 200 mg libera 6 mg de iodo livre ( 20 vezes a ingesta diária adequada de iodo para o ser humano). O efeito da amiodarona na função tireoideana pode se dar de várias formas. os níveis elevados de iodo podem levar a síntese reduzida e a secreção reduzida de tiroxina, causando o hipotireoidismo. Além disso, a amiodarona diminui a conversão de T4 em T3, e interfere na ligação da T3 no receptor nuclear.

O hipertireoidismo pode ser precipitado pelo uso contínuo da amiodarona. Pacientes com doença de Graves preexistente ou bócio multinodular podem se tornar hipertieroidianos em resposta a uma disponibilidade aumentada de iodo.

A amiodarona pode induzir a tireoidite, com elevação transitória dos níveis de hormônio tireoidiano pela liberação de hormônio pré-formado.  

No presente caso, a clínica é sugestiva de hipertireoidismo. Devemos solicitar os exames hormonais de função tireoideana (T4, T4 livre T3 e TSH). Em seguida, estudar o melhor tratamento a ser utilizado, inclusive a troca do antiarritmico. Os casos de hipertireoidismo leve podem ser acompanhados sem intervenção. Os casos de toxicose por tireoidite pode ser tratada com prednisona e, se possível a suspensão da amiodarona. 

Sempre que resolvermos utilizar a amiodarona em um paciente, devemos inicialmente estudar a função tireoideana e periodicamente avaliarmos o TSH, no sentido de surpreender alguma disfunção da glândula tireoide durante o tratamento da arritmia, que geralmente é crônico. 

Referência:
Loh KC – Amiodarona induced thyroid disorders: a clinical review. Postgrad Med J. 2000;76:133-140. 

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29 - jun

Contos do Bié – Dia da primeira comunhão

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Logo depois do jantar fui à casa de Sa Maria pegar meu cobiçado terninho que vestiria na manhã seguinte, dia da primeira comunhão. Não me cabia de contentamento, embora os tecidos da calcinha curta e da camisa, que não possuía mangas compridas, meu grande desejo, não fossem lá grande coisa. O tecido da calça vinha das famosas pastas de “pano de amostra”, que Geraldo Belli, o simpático italiano, chofer dos caminhões da Empresa de Transportes Condor, trazia em suas vindas a Nossa Senhora dos Acordados, e as distribuía à criançada, que estava sempre de olho na Rua das Bananeiras, onde o caminhão apontava na chegada, a buzinar estrepitosamente.  A calça compunha-se de dois padrões de tecidos, e logo se observava a emenda de diversos pedaços para se chegar ao tamanho ideal. 

Para a camisa comprou-se o tecido, pois se fosse usar o pano de “amostra”  surgiria  uma  grande papagaiada.  Mas não era lá um grande tecido uma chitazinha daquelas bem ralinhas.   Sa Maria havia terminado de dar os últimos retoques, e me chamaram a atenção os suspensórios de talas largas, também costurados com os “panos de amostra”. Encaminhou-me a um dos quartos onde troquei de roupa para ver se estava tudo em ordem. Minha vontade era ir para casa com a nova roupa, dormir com ela e, no dia seguinte, estar na igreja e depois no Parque Mãe D’Água. 

Todos, sem exceção, acharam bonito e granfino o terninho. Cecília e Isaltina ainda fizeram pequenos acertos, mais com a intenção de me dar apoio do que propriamente eliminar algum defeito. Sa Maria, séria e compenetrada, balbuciava, orgulhosa da tarefa que tão bem desempenhara no meu preparo para o grande dia.

Voltei ao quarto, tirei o terninho e me enfiei novamente no traje do dia a dia.  Quando apontei na sala de visitas, estava Sa Maria a me esperar, e ali fui sabatinado sobre as orações para antes e depois da comunhão.  Como tinha muito o que fazer, Sa Maria me deixou aos cuidados de Cecília. As orações já estavam marcadas no livro, mas Cecília, ao reparar no conteúdo, termos demais pesados para mim, fez logo uma troca, e o texto escolhido dizia, entre muitas outras coisas, mais ou menos o seguinte: “… a minha indignidade me afastaria de vós, Senhor, se vossa infinita bondade não me convidasse com tanto amor. Não tenho senão pecados, mas vós sois o Deus das misericórdias, e eu me apresento a vós com toda confiança que me inspira a vossa infinita bondade. Espero que esta santa comunhão me servirá para perdão dos meus pecados, para sustento de minha alma e que será para mim um penhor de vida eterna…”

Recitei tudo sem errar. Algumas palavras me deixavam confuso, como “inspira” e “penhor”. “Inspira” eu relacionava com respira, e “penhor” me lembrava um balaio grande repleto de uma trenheira danada.   Cabeça de criança. 

– Viu só – falou Cecília – como Deus é bom e misericordioso?  Ainda que você tenha algum pecado ou um pecadinho, a santa comunhão o livra de tais pecados. Não fique angustiado, pois devemos ficar alegres e felizes quando nosso pai vem ao nosso  encontro. E nosso pai, que está nos Céus, vai vir ao encontro de você e de todas as pessoas que vão receber a comunhão amanhã. 

Recitado também o ato de agradecimento para depois da comunhão, Cecília ficou feliz pelo meu desempenho, e sua satisfação me encheu de muita fé, coragem e confiança.  E nela eu vi, mais uma vez, o anjo que me guiava os passos e me dava ânimo para a vida. Sa Maria passou por nós na sala, me recomendou que não fosse embora, e, segundos depois, voltou com um livro grande, o tal onde existiam os retratos tirados pelo tal Dante.

Compenetrada, pôs os óculos, abriu o livro em cima da mesa, deu umas folheadas até encontrar a figura que pretendia me mostrar. Elevou um pouco o livro, aproximando-o da lâmpada pendente do teto. Segurando-o com a mão esquerda, com o dedo indicador da direita apontava para a figura nele estampada.  Puxou uma cadeira e falou comigo: “Suba aqui e venha ver”.  

Era a figura de um homem idoso, porém forte, vasta cabeleira, barba e bigodes brancos. Tinha sobrancelhas espessas a emoldurar os olhos como que ameaçadores. Usava uma espécie de túnica folgada e comprida que lhe cobria todo, indo até os pés.  Assentado numa enorme cadeira,  trazia sobre  o  colo uma espécie de tábua, que segurava com a mão esquerda e, na direita, uma caneta  tinteiro. Compenetrado, seu gesto indicava que estava sempre a escrever alguma coisa. 

– Está vendo bem? – perguntou Sa Maria.   Estou – balbuciei – os olhos arregalados, sem saber onde ela queria chegar. – Este é Deus – continuou ela – que está anotando todos os pecados que cometemos, mortais e veniais. Ele vê tudo, não lhe escapa nada. Se você estiver em pecado e não contar para o padre, não pode comungar amanhã, entendeu?  

Fiquei mudo, amedrontado e perdido diante daquela nova revelação. Não sabia nem como descer da cadeira e ganhar o assoalho. Foram por água abaixo meus sonhos de vestir o terninho novo, fazer a primeira comunhão e me regalar com os doces e café com leite no Parque Mãe  D’Água.   

Colocou o livro sobre a mesa, mas aberto na  página da figura do “Deus”. Eu não tinha como olhar para outro lugar que não fosse aquela figura severa, que  me encarava ameaçadora,  como a me dizer: “Está vendo, seus pecados estão aqui anotados, cuidado, muito cuidado!!!”.  Devagarzinho, como uma criança de colo fui-me deslocando de cima da cadeira para o assoalho, até achar solo firme, quando dei graças a Deus, pois eu não caíra no inferno. 

-Entendeu bem o que lhe falei? – perguntou-me enfática Sa Maria. 

Antes que lhe respondesse, senti pousarem em minha cabeça e em meu ombro as mãos de Cecília. Era como um passarinho indefeso, a asa ferida a tolher-lhe o vôo, ser amparado e socorrido por uma alma caridosa, livrando-o do bote da fera ou do tiro certeiro do caçador inveterado. Ao me afagar, falou calma e mansamente. “Isso aí é só uma figura, meu anjo, uma figura feita pelos homens. E os homens põem nas figuras tudo aquilo que mora nas suas almas. E grande parte dos homens só tem angústia e dor nos seus corações.  Qualquer dia vou mostrar-lhe o Menino Jesus falando com outros meninos, e você vai ver o amor que ele demonstra para com seus amiguinhos, pessoas como você. ”  ..

A partir daquele momento mais uma entidade passou a fazer parte integrante de toda a confusão que reinava em minha mente. 

Havia o “Deus”, figura de barba, grande túnica e caneta-tinteiro a anotar nossas faltas;   o Senhor Morto, Jesus Cristo que os homens pregaram na cruz. E também o Menino Jesus, amigo das crianças, compreensivo e companheiro por excelência. 

Eu, como as demais crianças e os adultos, tínhamos medo do “Deus”.  

Na igreja, estirado no esquife, do Senhor Morto eu queria distância. 

Já o Menino Jesus, de quem meu pai contava causos  e do qual Cecília  acabara de  falar, me inspirou confiança e o tomei por escudo e companheiro.  Apeguei-me a Ele e procurei me esquecer da figura apresentada por Sa Maria, que, pela explicação de Cecília era o “Deus” das pessoas adultas, que, em sua grande maioria, só pensavam em ver defeitos nas pessoas e indicar  castigos  para seus pecados.   

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28 - jun

Hipoglicemia em não diabético

Categoria(s): Bioquímica, Caso clínico, Emergências, Endocrinologia geriátrica, Gastroenterologia

Interpretação clínica

  • Homem de 52 anos se apresenta no pronto socorro com vômitos e diaforese*, descobre ter leiomiossarcoma de estômago (a figura do Netter ilustra). Sofre gastrectomia total e ressecção parcial do pâncreas e se recupera lentamente, ganhando apenas pequena fração da perda de peso. Dois meses após a cirurgia apresenta episódios de sudorese, palpitação e tremores. Beber suco de fruta e comer uma barra de chocolate traz alívio. Não tem diabetes. Foi encontrado inconciente, com concentração de glicose plasmática de 20 mg/dL, que respondeu a administração de glicose hipertônica e glucagon endovenoso.
  • * Diaforese é transpiração excessiva, devida a uma hiperatividade do sistema nervoso simpático.

Como entender o caso?

Câncer gástrico

A hipoglicemia pode estar associada a diversas neoplasias, muitas das quais de origem mesenquimal. Das substâncias insulina-like implicada nestes pacientes, o fator 2 de crescimento insulina-like (IGF-2) é o mais comum, que atua inibindo a glicogenólise e a gliconeogênese hepática e aumenta a utilização periférica de glicose. A IGF-2 pode se ligar a seu próprio receptor específico ou àquele da insulina e agir como um fator de crescimento para o tumor.

A hipoglicemia por tumor ocorre em todos os grupos etários, mas é mais fereqüente em adultos entre 40 e 70 anos. A ressecção do tumor alivia os sintomas, mas quando ocorrem metástases ou o tumor é muito grande para se ressecar, a hipoglicemia é de difícil controle. Neste caso como o tumor primário foi ressecado, provavelmente a hipoglicemia está ocorrem pelo surgimento de metástases. Ou fato é o surgimento de uma forma de hipoglicemia alimentar relacionada à ingestão de carbohidratos, que é rapidamente absorvida e induz altos níveis de insulina, nas pessoas que sofrem um gastrectomia total.

Além de grandes sarcomas e fibromas de crescimento lento, a hipoglicemia ocasionalmente acompanha os hepatomas, os carcinomas de célula renal e os tumores adrenais.

Referência:

LeRoith D. Tumor-induced hypoglicemia. N Engl J Med. 1999;341:757-758.

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28 - jun

Contos do Silas Corrêa – Prova de Amor:Conto da Terceira Melhor Idade

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaborador: Silas Corrêa Leite *

* Poeta de Itararé – SP

Prova de Amor (Conto da Terceira Melhor Idade)

Primeiro Lugar no Concurso da Fundação Cultural de Canoas, RS

“A emoção mais bonita pela qual
podemos passar é o mistério… ”

Albert Einstein

Os jovens Eduardo e Mônica se conheceram num antigo abril viçoso de umas décadas passadas, num baile chique do Clube Atlético Fronteira, nos andaimes dos tempos idos de antigamente, na Estância Boêmia de Itararé, um pouquinho depois de quando se escrevia farmácia com ph e se amarrava cachorro com lingüiça de capivara.

Ele, da família tradicional dos Ferreiras, comerciantes antigos da aldeia fincada no sudoeste paulista bem na divisa com o Paraná, ela, da família Cleto, profissionais liberais oriundos das plagas sulistas ali encantados com a histórica Cidade Poema. Foi amor a primeira vista, quando Aristeu Duarte, o melhor cantor da aldeia, crooner da banda Os Marionetes, cantava com estilo e em inglês a balada “Reflexos da Minha Vida”, e, ao contrário do rock do poeta cantor de Brasília, Renato Russo de muitos anos mais pra frente, Eduardo e Mônica à época eram jovens de tudo, cheirando a cueiros, puros como flor de algodão, bonitos como só vendo, irradiavam assim a primavera que há na juventude, pois é o espírito que ama o espírito antes do corpo amar o corpo.

Dançaram de rosto róseo colado na coragem-vergonha, totalmente entregues à primeira vista, tresloucados mesmo, coração transbordando alumbramentos, e, quando se viu, estavam namorando firme ainda que disfarçados da parentalha de lado a lado, noivos de compromisso bilateral em pouquinho tempo depois, ele mal saído do Tiro de Guerra de Itararé, ela fazendo o Colégio Comercial para ser normalista, cheirando a flor de laranjeira. E quem irá dizer que não existe razão nas coisas do coração, diria a canção décadas depois? O romantismo de alguma forma torna a existência mais humanamente possível.

Ele, moreno claro e quase imberbe de tudo, um metro e setenta e um, decorando frases de almanaque de farmácias (Me ame quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso) tranqüilamente ajudava o pai severo no comércio de ferragens e sonhava ser ator, morar em Curitiba, ter um simca chambord amarelo-ovo, cursar veterinária, ganhar na loteria, conhecer a exótica cidade da lenda das mil e uma noites.

Ela fazia crochê pra fora com as sete irmãs para ajudar os pais, algo carentes por ocasião de carestia, mas sonhava em viajar mundão a dentro também, conhecer a Europa todinha, pescar a filosofia do Nepal, estudar violino clássico na Bulgária, ler os livros de romances de capa e espada todos, lecionar xadrez em braile, ganhar prêmio em concurso de palavras cruzadas. Quando se conheceram, a lucidez deu rumo ao alumbramento do primeiro amor, quase bobice, estrelas em formato de árvores fluosforescentes caíram do céu, enternurados logo sentiram que nasceram um para o outro, picados pelo cupido, almas gêmeas, duas partes da mesma maçã do amor, tudo se somou no rocambole jovial das mil e uma noites de afeto e convivência que se seguiram em contentezas e prazeiranças.

É claro que, os pais do casal tinham outros planos pra ele, assomados na névoa da paixão, como seqüentes estudos necessários, hábeis preparos primordiais, faculdades federais por conta da demão de aprumo-referencial, vivências maduras mesmo, mas quando eles viram a realidade nua e crua, os filhotes estavam para casar, montaram lar direitinho. Eduardo abriu uma filial de loja de secos e molhados toda sua, Mônica garrou a estudar para se formar a melhor e mais bem avaliada Normalista, tinham tudo para viver muito bem e em paz, e assim se apegaram um no outro, passaram a morar na Chácara Terra do Nunca nos altos da Vila Osório, quando se viu a paixão não esgotou seu filão, antes, cada dia era mais grude, brilhos nos olhos, beijos demorados, Itararé inteirinha sabia que aquilo era sim, vínculo para muito além de para sempre, trazido de céus ancestrais e levados mundão a fora por gerações e gerações.

Eduardo pedia que ela cobrasse dele, sempre, alguma prova de amor, era seu jeito todo especial, coisa lá dele, sério-brincando, dizendo frases achadas na alma dos peregrinos (não diga a Deus que você tem um problema, diga ao problema que você tem Deus) ela cobrava só coisas bobinhas, meiga, terna, fina, brincando com bonecas de pano ainda, e pedia se ele pudesse lavar a louça depressinha, fazer uma polenta de milho branco com frango caipira, fazer pirulito premiado de limão, ele dava-se assim, feliz, serviçal, dizia que, se nascesse de novo mil vezes, mil vezes a amaria, e sempre viria por milênios dar sua prova de amor eterno. E mais: se porventura se desviassem do caminho, amor e dor, a encruzilhada do destino, se vivesse outra vez num outro espaço, outra época, outro lugar, outra dimensão que fosse, outro mundo além das cortinas azuis com florezinhas brancas, pudesse ter certeza que, quando ela pensasse nele, ele viria dar uma prova de amor, muito além da imaginação, estaria presente num raio de sol, num trinado de sanhaço, num floco de luz de estrela binária. Ela também fazia promessas, juras, feito talismã da alma dele. Era assim o açúcar rotineiro do casal. Borboletas amarelas freqüentam o canal sensorial dos casais de namorados mesmo de alianças trocadas ao pé do altar da catedral de lírios da praça Coronel Jordão.

Não tiveram filhos por obra da natureza serviçal, mas isso não incomodou em nada a relação-grude, adotaram um casal de crianças carentes no reformatório da Casa Paterna, Alexandre e Jéssica, que no entorno cresceram também contentes e felizes, tiveram alegrias, carinhos, fizeram bonito na vida, pularam carniça de eventuais problemas, se formaram, ele, o piá foi pra Curitiba, tratar da vida, ela, a guria foi pra São Paulo fazer currículo prestimoso, Eduardo e Mônica como caibro e caixilho, apensados um ao outro como folhas de uma mesma janela dando para o céu alem dos pinherais celestes. Os filhos foram felizes como os pais, casaram bem direitinho, deram netos maravilhosos, os netos cresceram sempre implicando com aquele louco amor dos avós, havia um mito, uma lenda a respeito, mas cada um tem seu caminho, seu embornal de avencas na alma, o casal apaixonado cada vez mais ornando o lar calorento, quando o bairro onde moravam cresceu a golpe de tempo ruim e seus picumãs, os miseráveis polacos migrantes e pés-vermelhos do Paraná chegaram em caminhões cobertos com lona, a violência veio vindo a galope de cavalo brabo, eles se preservavam como lua e estrela, mão e pelica, unha e carne, mal saiam de casa para um piquenique, mas o fogo do amor ainda alimentava na aurora com losangos cor de abóbora de cada dia, ele punha pasta azul-xadrez na escova de dentes dela antes de ir se deitar, e ela ir pegar roupa no cuorador. Ela deixava os íntimos pertences rotineiros e madrigais dele tudo arranjadinho no sofá rosa, ele engraxava as sapatilhas brancas dela, dava lustre, ela fazia xarope de agrião pra tosse crônica dele, viviam cândidos e abençoados, serenos, pois é o amor que se aprende amando, que alimenta o amor de raízes e esperanças de salutar convívio cotidiano.

Passando dos setenta e lá vai rosquinha de coco queimado, desacordou e um medo-coisa rondando cercanias, poucas visitas ali pro casal que até brilhava de paz e amor, raros amigos do seu tempo pro papo furado, parentes cada um na lida difícil de cada dia, tempos de sobrevivência dolorosa, carestia gerando mundos e fungos, inflação galopante, assim se preservavam entre si, cuidavam um do outro como se fossem irmãos agora, mas a mesma ternura avelã, sem brigas jamais, ele sempre dando provas diárias de amor, suco de pitanga silvestre, e sempre pensando como apoiá-la custasse o que custasse, ela respirando pela boca dele, cada palavra, cada gesto, cada baba de moça, dividiam-se entre eles mesmos como quem divide o sangue, o suor, a remela, pois nem omelete de lágrimas tiveram em tantos anos de imenso prazer e frutífero amor recíproco, conjugal.

O medo da perda. Sempre o varão desde a idade das cavernas até o ser social, criando dispersões, idéias e maluquices pelo instinto da sobrevivência, a preservação. Ele, todo apaixonado, bolava coisas que diria, como códigos secretos de percurso, se eventualmente fosse seqüestrado, dava dicas pra ela, ensinava sabenças de amparo, cuidando de provê-la.Toques de recolher, mentiras lavadas no decoro de senha tácita. No celular que ganharam de presente natalino de uma neta sardenta que morava em Nova York, se falavam o dia todo quando ele tinha que sair fazer caminhadas diárias em lugar seguro, jogar bocha no Itararé Clube de Campo, comprar pão de torresmo e jornal, e tratavam então palavras, jogos, mimos, códigos, dicas, grunhidos, se ele fosse assaltado, se ele fosse roubado, se ele estivesse em perigo, e, para variar, como não lembrava nunca da senha do banco, e tivesse que ligar pra casa, tratavam de palavras especiais que, sem o meliante perceber, pudesse bem avisar onde estava, dar dicas, ajudar, salvar vidas, cuidarem-se, como perguntando de um gato que não tinham, e isso significasse zona sul da cidade, pedindo para ela tirar a cerveja sem álcool da geladeira que não bebiam, informando que estava bem no centro da cidade, tramas e brincadeiras de lograr a carniça do destempero, precauções com exageros. Curiosos, brincavam com esses toques de amor, esses arranjos-mimos, porções de sobrevivência trocadas em miúdos. A vida tem dessas coisas. Quem ama cuida. Temos que estar preparados para o ladrão que virá de noite, o ataque do desaforado, a preservação da prole, do lar, de quem amamos e morremos para dar nossa vida por quem amamos verdadeiramente.

Carnavais e endoenças passaram, lua cheia com lobisomem, um dia Eduardo teve um faniquito no Supermercado Andorinhas, não teve tempo de ser acudido depressinha como deveria, de supetão e de tromba caiu ali mesmo como um tronco de árvore seca e velha, entre latas de leite condensado e o carrinho lotado de doces importados que comprara para a mulher amada. Foi triste ver o fim, a ruptura que separou aquele casal como quem desfigurasse um colar de pérolas, elos e mimos. Eduardo e Mônica. Ela rendida em casa, fechada em si, não acreditando, truncada, ele tinha viajado fora do combinado, quase oitenta anos, tinha sido feliz mas vencera sua nota promissória nessa havência, tinha que ser protocolado no cartório de Deus o seu adeus, a sua ida. A amante eternizando ali o amado para assim de alguma maneira eternizar o amor e com isso suportar a terrível e insuportável perda, talvez na santa saudade fazer o amor existir novamente. Sim, perdera o amado mas não tinha se perdido o amor. Quantos céus unem lágrimas e pedaços de sonhos?

Mônica ficou na chácara, fora de si às vezes, sonhando o impossível, esperando a improvável hora de ir ao encontro dele, num lar chamado longe, o paraíso muito além do sol, pois que não mais queria viver aqui sendo uma só quando era duas almas, não aprendera com ele a ser sozinha de si mesma, não sabia o feitio de um desacordo não compactuado, não tinha suporte emocional para purgar desenlaces, rupturas. Mas Deus dá o frio conforme o cobertor, ela foi levando ainda o trololó da vidinha merreca, na medida do possível, telefonemas dos filhos, cartas dos netos, alguns parentes da mesma idade visitando, quando num natal – presépio, árvore colorida e iluminada, piscando, trocas de presentes, balas de mel, saudades revisitadas – todos viajaram, por coincidência que fosse todos saíram antes da hora da missa do galo, ela acusou o vazio, ela caiu em si, não tinha reforçado o estoque de diazepam. Estava sozinha e não valia a pena ficar ali caçando moscas. Era a hora? Um sino ao longe assinalou a quase hora da missa do galo. Será o impossível?

Então pensou no amado e foi colhida de emoção. Ele prometera. Jurara. Nunca falhara com ela. Não iria ser agora. Queria uma prova de que ele jamais a esqueceria, jamais a trocaria por outra, jamais a deixaria sozinha, aonde quer que estivesse, ele seria dela, ele a estaria velando, ele era ela e vice-versa. Há um Deus.

Energizou-se de alguma maneira. As pilhas da alma acham dutos neurais no espírito límpido. Pensou na sua paixão e o sentiu como como num céu dentro de si. Candura íntima. Ele a estaria cuidando… Visita secreta? Ele a amava ainda? Qual era a prova, ralhou-se, carente e sistemática na sua sozinhes, cabelos brancos, lábios murchos, olhos fundos, ferida de avaliação destemperada. Tirando a pelica da saudade do coração carente.

Havia um anel de brilhantes no dedo. Era como se esse anel desse roseiras a vida inteira. Ele prometera e era uma prova de amor. Na parede, uma imagem dela pintada em seda japonesa pelo artista plástico Jorge Chuéri. Ela estava tão cheia de vida. Eram felizes e tinham paz no aconchego do recanto com pintassilgos e girassóis. Ele lhe dera no mês que fizera meio século, cinqüenta anos blues. Com beijinho na boca e tudo. Ao lado do sofá, o acordeom vermelho que ela nunca aprendera tocar, mas que ela sonhara ter um, pidoncha que aprendera com ele, como uma outra nova prova de amor ele lhe dera num domingo de primavera e cheiro de café novo no ar. Mas o instrumento estava no chão de cedro, silente. Não tinha vida musical. Duas almas solam a harmonização do bem-estar comum na vivência por dependência.

Correu ao quarto de casal, lá estava o casaquinho de seda com cerejeiras em alto relevo, importado, a calça de pelica de antílope da áfrica, a blusa de pedaços de estrelas do mar cristalizadas, o álbum de cascas de laranjas desidratadas, o tapete de pele de cascas de árvores sagradas do Himalaia, tudo o que ela podia inventar de sonhar, feito menina-moça prendada, ele sabia procurar prestimoso, comprar a qualquer preço, pagar a pena, era sempre mais uma orgulhosa nova prova de amor pleno que ele a desafiava a querer, encorajava a pedir, pois ia atrás, mandava fazer, pintava e bordava – criar, mexer céus e terras, e sempre punha ternura perene no presentear-se em amparo e total afeto com fuzarca e comemoração. Era um presenteador meio que encantado. Tinha parte com os anjos. O amor preenche todos os requisitos de Deus?

Agora o sentia de alguma forma, nalgum lugar muito além de si e também dentro de si, duplo, e queria a prova viva, ele jurara, sim, o doce amado prometera dar testemunho de um amor infinital, alguma coisa espiritual começava a pôr presenças íntimas da alma carecida dela. Ternura.

Mônica titubeou nos passos já lentos, pernas fracas, olhar cheio de lágrimas, mãos tremulando uma doença no devir depressinha e talvez terminal; saudades nos favos do peito entrevado. Escapismo? Peso no ar. Sentiu estranha radiação na alma, como se uma sensação da própria inadequação num seu ambiente invadido de alguma forma, por algum motivo. O espírito eletriza o receptor que se magnetiza.

Saindo da sala de estar, lenta e emocionada, chinelos de pétalas de flores de feijão, tocada pela lembrança-raíz, dirigindo-se ao lavabo de mármore branco para enxugar as lágrimas de avelãs descascadas, eis que vê, sob a pia vê a sua novinha escova azul.

Nela, por incrível que possa parecer, a porção de pasta de dentes azul-xadrez prontinha pro uso dali a pouquinho, que o seu querido ausente, viera de alguma maneira, de algum espaço-lugar terreal qualquer, prover como mais uma fantástica prova multidimensional de tanto e eterno amor.

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